Brincando com Segredos
14 A verdade que não se esconde.
Notas iniciais
A televisão da casa de Madison liga na hora exata da reportagem. Ao meu lado, Edward e Tass se encolhem, assustados com o que a matéria pode dizer. Sinto o meu corpo estremecer, mas não dou importância. A repórter começa a falar, sua voz se mesca aos trovões repentinos que rasgam o céu ao lado de fora.
“Dois assassinatos e um desaparecimento. Oakland não tem sido a mesma desde o aparecimento de um criminoso bastante perigoso. Usando uma máscara, o assassino foi o responsável pela morte de Adelaide Thompson e Mia Huldy, que até então, achava-se ter sido enforcada por Tass Stewart. A garota foi inocentada e liberada do julgamento inválido.
Veneno, como é urbanamente conhecido, elevou os seus atos na última sema com o sequestro de Cristal Thompson, mãe de uma de suas vítimas, e Gabriel Jackson. O advogado de trinta e três anos ainda não foi achado, mas uma pista recente descoberta por Samantha Clever, investigadora que voltou a assumir o caso, pode revelar o paradeiro do homem.
Cristal contou-nos tudo sobre a ação do maníaco. De acordo com ela, Veneno cortou a energia de sua casa, invadiu-a e usou um taco de beisebol para desmaiá-la. Ela e Gabriel foram separados. A mulher relata que acordou dentro de um tanque e que depois de algumas horas foi solta em um Jardim Botânico próximo ao colégio Winston.
Acredita-se que o assassino esteja se vingando pela criação de um blog famosíssimo entre os jovens de Oakland: O Serpentes Sanguinárias, já que Adelaide e Mia foram reveladas como proprietárias. Para a situação de Cristal e Gabriel, o governo ainda está tentando entender o motivo. Apesar disso, a polícia não descarta a possibilidade de outros ataques sem alguma ligação concreta e, por isso, desenvolveram medidas previsoras.
A partir de hoje, toda a região central de Oakland estará sobre um toque rígido de recolher, que começará às nove horas. Qualquer aparição ou uso da máscara festiva de Serpente deverá ser comunicado a polícia com urgência. Aqui é Tália Elliot para o News Oakland.”
Solto um suspiro de alívio após digerir cada palavrinha da mulher.
— Isso é ótimo, não é? Ao que parece, Samantha cortou algumas partes da história, então realmente podemos confiar nela para agir com a polícia. — Falo rapidamente, ajeitando o capote azul que estou usando.
— Essa mulher me tirou da prisão, então nem precisam perguntar se eu confio nela. — Tass levanta-se do sofá, caminhando decisivamente de um lado para o outro, como se estivesse pensando.
— Dê crédito ao meu vídeo, ok? Sem ele você ainda estaria vivendo um Orange is the new black da vida. — Edward para de enrolar os seus cabelos, cai na gargalhada pela sua própria piada e quando para, vira o rosto em minha direção. — Ainda não entendo... Qual o sentido de SS usar o Gabriel? A morte dele não te afeta em nada!
Tass caminha sorrateiramente até o meu lado, onde me abraça por trás.
— Essa é a questão. — Sinto a respiração da garota em meu pescoço. — Não sei se SS queria me atingir. Minha mãe é a única que sai ferida em toda essa história.
— Talvez Cristal esteja dentro do jogo agora, assim como Madison e Edward. — Tass diz com um tom conclusivo na voz. Pensar que minha mãe esteja envolvida na brincadeira de SS me deixa enjoada, mas tenho que admitir, faz bastante sentido.
Um baque assustador parte do canto direito do cômodo. Madison pula para fora de sua pilha de roupas com o notebook na mão, os olhos arregalados.
— Encontrei algo! — Ela grita para nós três, chamando-nos depressa.
Ficamos ao redor dela enquanto a garota digita velozmente um montão de letras no teclado, modificando, ao que parece, códigos no visor do aparelho.
— SS usa celulares descartáveis, como a Emma já nos contou. Ela acaba com eles logo depois de usá-los, no exto momento mesmo, mas parece que ele ou ela esqueceu de fazer isso em um deles. — A unha da garota pressiona a tela. Meus olhos param exatamente no local em que ela está apontando. Trata-se de um ponto vermelho em um mapa. Depois de alguns segundos, o ponto desaparece, deixando o mapa vazio.
— Parece que ela acabou de dar um fim no celular. — Edward comenta, totalmente decepcionado.
— Não se preocupem, eu anotei a localização. — Madison se vira depressa, erguendo um guardanapo manchado para nós três. Edifício Cian, subúrbio leste de Oakland, é o que está escrito. Ela volta a falar. — Eu não disse que era boa com essas coisas?
— Vocês não tem nada para fazer hoje, certo? Quero dizer... Temos que dar uma olhada nesse lugar. — Tento parecer determinada para poder animá-los, mas parecem não gostar da ideia, principalmente depois do último ataque.
Tass abre a boca por um momento, mas uma batida forte na porta a interrompe.
— Pode entrar. — Depois da permissão, a porta se abre devagarinho, dando passagem para Alex e um garoto alto.
— Eu tentei dizer para ele que você estava tendo uma reunião importante sobre algo misterioso com os seus amigos, mas ele não quis me escutar! Eu achava que minha voz era bem autoritária! — O garotinho cambaleia para o lado, ergue o rosto rechonchudo para o garoto alto e levanta o dedo do meio para ele, saindo do quarto logo em seguida.
Ficamos calados por um tempo. Madison se levanta e beija o garoto como se não estivéssemos ali. Cabelos loiros longos, corpo forte e pele branca. Quando cessam o beijo, noto que os traços do seu rosto são-me familiares. Seus olhos se encontram com os meus, mas ele desvia depressa. Está vestindo uma camisa vermelha de alguma banda de rock, uma calça preta rasgada e um sapato sujo.
— Ahm, eu sou o Tobias, namorado da Madison... — Ele ergue os braços, apresentando-se. — Você não me falou sobre os seus novos amigos. Sabe que fico triste quando me exclui dessas suas reuniões, não é? — Ele encara Madison, que revira os olhos.
— Tá certo, Tobias. As duas novatas são Emma e Tass, chame-as assim. Só acho que se Madison não o chamou para participar da reunião, é porque você realmente não deveria estar aqui, então pode ir dando o fora. — Edward corta o olhar duvidoso de Tobias para Madison, acenando para ele com elegância.
— Tá certo, boiola. — Ele não parece se incomodar com a resposta. — Só acho que a casa não é sua, mas não se preocupe, não vou ficar. — Tobias encara Madison mais uma vez.
— Podemos nos falar depois? É que isso é realmente importante. — A garota passa a mão pelo seu ombro, mas ele se afasta, dá um selinho rápido nela e volta para o corredor.
***
Volto para casa logo depois do climão no quarto de Madison. Na mansão Thompson, tudo está normal. Não, não o nosso antigo normal. Eu quero dizer o novo normal, com Cristal chorando toda hora, visitas frequentes de policias e esquisitices constantes.
Quando abro a porta, sou recebida por um rosto conhecido. Primeiro vejo os cabelos negros, depois o nariz certinho. Era Dylan, o garoto que eu quase espanquei na festa da Jenna, o garoto prodígio do clube de natação do Winston. Ele puxa a porta para o lado, me deixando passar. Pela primeira vez, o garoto não estava sorrindo ou fazendo piadas idiotas.
— Dylan? O que está fazendo aqui? — Pergunto para o garoto enquanto caminho para a sala.
Minha mãe surge pela porta da cozinha. Seu rosto está vermelho e inchando de tanto chorar. Não tem sido fácil pra ela, primeiro com o pânico do sequestro, depois com o desaparecimento de Gabriel. Não tive coragem de contar a verdade.
— Dylan era filho do Gabriel, Emma. — A voz entristecida de Cristal me atinge. Não esperava por aquilo. — Se você tivesse participado mais dos encontros que nós três tivemos, saberia disso.
Viro-me para ele instantaneamente. Quero poder falar coisas boas, que seu pai vai voltar, que vão encontrá-lo, mas eu sei a verdade, sei que ele está morto, feito em pedacinhos pelo machado de SS. Mais do que nunca, a memória daqueles olhos escancarados voltam para a minha mente. Estou tremendo.
— Tudo bem, Emma. Não tem outro lugar para eu ir, então sua mãe me chamou para passar os dias aqui até que a polícia tivesse algum andamento com o caso. — Ele se explica, passando a mão desconsertadamente pelos cabelos. Ao redor dos seus olhos, uma olheira profunda se exibia.
— Eu sinto muito...
— Sente muito por eu ter que ficar aqui?
— Não! Sinto muito pelo seu pai... — Digo com sinceridade.
Cristal funga baixinho, retornando silenciosamente para a cozinha.
— Ela não está muito bem... Gritou pra caramba quando foi tomar banho. — Dylan se aproxima, evidentemente preocupado.
Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Talvez ela esteja com pânico da água.
Fico conversando com o garoto pelo resto do dia. O senso de humor dele não está completamente morto, já que hora em hora ele solta uma piadinha, mas sei que não está nem um pouco feliz. Quando a tempestade passa e o sol da tardezinha chega, Cristal nos chama para o lado de fora, onde fazemos um pequeno piquenique. Uma mensagem de Tass chega ao meu celular. Eu leio depressa.
“Tass: Não quero parecer fraca, mas a verdade é que eu não vou participar disso. Sinto muito Emma, mas não vou aparecer nos planos hoje.”
A mensagem me lembra do plano que fizemos. Olho para o relógio subitamente, assustando-me com o horário. São cinco e trinta, preciso urgentemente ir até o edifício Cian. Sem demora, termino o meu sanduba, dou um tapa carinhoso no ombro de Dylan e beijo o rosto de minha mãe, dizendo baixinho em seu ouvido que preciso sair. Ela parece não concordar, mas não me prende dentro de casa.
Com o carro de Ben, deixo a mansão para trás, seguindo a pista direta para o centro de Oakland. Enquanto dirijo, mando uma mensagem para Tass, dizendo que a entendo perfeitamente. A garota acabou caindo em uma das armadilhas de SS, não se arriscaria novamente. Trinta minutos se passam até que o GPS indica que estou no lugar certo, e isso me deixa com medo.
O bairro parece estar completamente abandonado, com casas em ruínas. O Cian é o maior prédio do lugar, mas não fica longe de estar completamente acabado. Estaciono o carro com facilidade, saindo para a noite fria do lado de fora. Se não fosse pela conversadeira de Madison e Edward, o lugar pareceria mais fantasmagórico.
Os dois caminham até o meu lado, aparentemente irritados com algo.
— Você demorou! — Madison sussurra.
— O importante é que eu já estou aqui, certo? Vamos entrar logo. — Comento para os dois.
Atravessamos o pátio da frente, driblando um montão de tralhas e lixos. Empurro o portão de entrada, fazendo com que os outros entrem. O ambiente não é muito legal. Um fedor horrível de esgoto assola o corredor em que estamos.
— Acho que não mora mais ninguém nesse bairro. — Edward sussurra ao abrir a porta de um cômodo. — Nós realmente pretendemos ficar?
Madison balança a cabeça positivamente, erguendo um revólver. Meu coração acelera, mas não pergunto o motivo dela ter a arma.
Subimos vários lances de escadas. Para enxergar melhor, usamos a lanterna dos nossos celulares. Depois de horas vistoriando cada apartamento, encontramos um bastante suspeito. Tenho certeza que estamos no lar doce lar da Serpente.
É um cubículo apertado, completamente empoeirado. Vários papeis estão espalhados pelo chão, enquanto móveis estragados se dispersam aqui e ali. Uma vela ilumina a sala, dando a ela uma energia oculta. Porra, estou com medo.
Nós três nos abaixamos, lendo cada um daqueles papeis. Trata-se de anotações confusas, nomes de lugares e pessoas. Piso em algo de capa dura, que chama imediatamente a minha atenção. Abro o que parece ser um envelope, mas a voz atordoada e carregada de suspense de Edward me impede de ler o arquivo.
— Emma, acho que isso vai te interessar. — Ele caminha até o meu lado, erguendo uma foto. O que eu vejo faz a minha barriga virar ao avesso. Uma foto de minha mãe e Adelaide está toscamente colada com uma foto de um bebê estranho.
Perdida, olho para o material em minhas mãos. É algum laudo médico, carregado de informações que não sei interpretar. Passo a página. Diante dos meus olhos surge a imagem de um ultrassom.
Primeiro eu reconheço a cabeça de duas crianças, difusas e extremamente apagadas. Em seguida, enquanto a tontura me consome, vejo pequenos dados grafados na parte superior do arquivo. Cristal Thompson, é esse o nome da mãe daquelas crianças, da mãe daqueles gêmeos.
***
SS
Soube exatamente o que o grupinho de idiotas iria fazer quando vissem a minha localização no mapa. A armadilha estava feita.
Ainda estou do lado de fora quando os três ficam de costas para mim, observando o que parece ser a porcaria do ultrassom. Não, eles não poderiam ter visto isso. Agora preciso tomar mais cuidado.
Aperto o cabo da minha faca, resistindo a vontade crescente que brota em meu peito. A vontade de enterrar a lâmina na garganta de um deles. Infelizmente, Madison tem uma arma, e isso pode tornar as coisas mais vulneráveis. Não, ainda não.
Nesse instante, a única coisa que eu faço é virar e sair correndo do prédio, esperando que o outro pudesse fazer aquilo que eu não tive coragem.
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