Brincadeira Perigosa
11 Capítulo 11Conversas que proferem a verdade.
Notas iniciais
Seria tão agradável voltar do trabalho e encontrar uma boa refeição e alguém que me perguntasse como havia sido o meu dia. Gostaria que Kurenai me levasse a cidade do Som, mas sei que tenho que me contentar com um telefonema para saber notícias de Chiyo.
Onde ela teria ido? Com certeza não foi jantar fora, há pratos sujos dentro da pia. Nosso relacionamento nunca foi dos melhores, mas na Nuvem vivendo naquele apartamento minúsculo, não podíamos nos evitar, mas aqui como futura dona da casa ela não se sentia mais forçada a suportar uma enteada da qual nunca gostou.
Sei que não posso lamentar, afinal eu concordei em vir para o Ninho dos Falcões por conveniência.
Vou dar uma passada no apartamento da Chiyo depois de ligar para a clínica, disquei os números e logo falava com a recepcionista, que prontamente passou para a enfermeira encarregada de cuidar dela, fui informada que a Chiyo passou um ótimo dia e que havia mudado para outro quarto, com uma senhora mais velha que também gostava de palavras cruzadas e xadrez, as duas estavam se dando muito bem, e eu não devia me preocupar e Chiyo não precisava de nada.
Fui até o apartamento da velha senhora e fiz uma rápida arrumação, limpando os móveis e trocando as roupas de cama, é um lugar agradável e é possível sentir a personalidade viva de Chiyo em cada objeto, isso me animou um pouco, sai para levar a roupa para a lavanderia.
Estava trancando a porta, quando a voz de Kurenai me assustou:
— O que faz aí?
— Chiyo pediu que eu cuidasse do apartamento.
— Uma perda de tempo, não é?
—Pelo contrário. Chiyo está muito bem hoje. Ela...
— Poupe-me os detalhes. A saúde da velha não me interessa em nada. Só o que me interessa é que pode resolver um sério problema.
— Não entendo...
— Querida, você é mesmo muito tola. A velha teve um colapso, certo? Isso quer dizer que vai ser uma inválida pelo resto da vida. Se fosse mais jovem e tivesse um coração mais forte, seria diferente. Mas sendo as coisas como são ela está no lugar certo e não sinto nem um pouco por isso.
— Mas ela vai voltar para casa.
— Vai? Vim para cá administrar a casa para Sasuke minha querida. Não para ser a enfermeira de uma velha doente. Possivelmente ficará em uma cadeira de rodas. Sasuke tem se desincumbido muito bem da responsabilidade que pensa ter para com ela, mas vai chegar uma hora em que até ele perceberá que esta casa é totalmente inadequada para uma inválida.
— Sasuke não faria isso.
— Acho que o conheço melhor do que você, queridinha. Ele gosta de gente jovem, sadia e bonita. Não tem temperamento para suportar deficientes físicos ou morais.
Sentia-me mal com as palavras de minha madrasta, sua mente maquiavélica não parava de me surpreender.
— Acredito que ele fará o que eu quiser, se não fosse essa viagem a Konoha já teríamos chegado a um acordo. Quando ele voltar farei com que pinte o meu retrato. Uma espécie de presente de noivado. — Deu uma risada. — Vai ser um excelente verão. Deste modo seja uma boa garotinha trabalhadora. Vá visitar Chiyo, limpe o apartamento dela, banque a serva de todo mundo e veja onde isso vai levá-la. Você e a velha são as perdedoras, meu bem.
— Não entendo por que faz essas coisas. Nenhuma de nós é ameaça para você.
— Não são não. E pretendo manter as coisas assim.
Kurenai virou-se e subiu a escada. Usava um terninho branco de lã italiano, uma de suas melhores roupas. Onde teria ido, tão elegante? Não tenho nada com isso e minha madrasta nunca me contaria mesmo. O melhor que tenho a fazer é levar a roupa para a máquina de lavar.
Ao chegar em casa no dia seguinte não encontrei Kurenai novamente, o pior é que não tenho como ir visitar Chiyo na clínica, ainda não recebi meu salário, então pegar um táxi está fora de cogitação, se minha madrasta voltar cedo, poderei fazer uma rápida visita, já faz mais de uma hora que estou deitada e nada dela aparecer, minutos depois ouço o barulho do carro estacionando, infelizmente hoje não tem como fazer a visita.
Ao levantar fui fazer minha higiene pessoal, tomei um banho rápido e escolhi um vestido verde longo de manga, calcei uma sapatilha preta confortável e peguei um casaco na cor verde, me arrumei e antes de sair para trabalhar fui ao quarto de Kurenai.
— Vai sair novamente hoje à noite?
— Vou. Por quê? Faz alguma diferença?
— Muita. Não tenho transporte e preciso ir à clínica. Tenho que levar camisolas limpas e alguns livros para Chiyo.
— Então terá que arrumar outro jeito de chegar lá. Eu não fiz nenhuma promessa idiota de perder meu tempo e não tenho nenhuma intenção de bancar seu chofer. Você leva as coisas muito a sério Sakura.
— E sua última palavra?
— Claro que é. Se quiser ser a boa samaritana, terá que fazer isso por sua conta.
Virei-me e sai do quarto em silêncio. Não esperava mesmo que Kurenai me acompanhasse se ao menos pudesse pegar o carro. Chiyo estava esperando por mim e no dia anterior havia confirmado com a enfermeira que iria. A única maneira é desfalcar minha conta bancária e ir de táxi.
A manhã estava nublada e apareceram poucos fregueses na loja, eu preparava o café quando Naruto chegou.
— Você parece triste (disse pegando uma xícara) — Não é muito lisonjeiro. Pensei que a encontraria animada com o nosso encontro.
— Desculpe-me, é que estou com um problema. Tenho que ir a cidade do Som esta tarde visitar Chyio e minha madrasta não pode me levar. Não sei o que fazer.
— Compreendo. Tem que ser hoje? Papai e mamãe ficaram de ir vê-la qualquer dia desses. Quem sabe não posso convencê-los a fazer a visita esta tarde?
— Não, por favor, é problema meu. Não devia ter prometido nada sem antes ter certeza de que poderia cumprir a promessa. Não quero incomodar seus pais.
— Não diga bobagem. Você os tirou de um aperto, não foi? Eles ficariam contentes em poder ajudar.
Antes que eu dissesse qualquer coisa Naruto correu para a oficina. Minutos depois Kushina apareceu, parecia zangada.
— Quando precisar de ajuda peça é para isso que os amigos existem mocinha.
— Mas a culpa de estar nessa situação foi toda minha.
Kuishina me lançou um olhar estranho.
— Foi mesmo? Não acredito que a sua madrasta não pudesse perder um tempinho para levá-la à clínica, mas não quero me meter onde não sou chamada. Vamos pegar você às seis e meia. Se Chiyo precisar de algo, pode comprar amanhã no Som e Minato levará para ela e sempre que quiser ir até a cidade, basta avisar que um de nós lhe dará uma carona. Ouvi dizer que você e Naruto vão a uma festinha na semana que vem.
— Vamos sim. Não se importa, não é?
— Por que deveria? Se achasse que estavam levando essa amizade muito a sério, eu me importaria, mas sei que Naruto não está... Lá estou eu falando demais novamente!
— Tudo bem. Sei que me comportei como uma tola. Os amigos são para essas coisas também.
Kushina disse, com ternura:
— Sakura não vou esconder que estive muito preocupada com você. Gosto muito de Sasuke, mas... se você está tentando ver nele a figura de um segundo pai... Na sua idade é só isso que ele pode ser para você. É claro que sendo um homem normal e sadio Sasuke poderia se sentir tentado, não sei se está me entendendo, é um assunto delicado. Pode não acreditar querida, mas você é muito bem feita de corpo e tem um rostinho adorável, não é nada difícil que o artista que existe nele a ache irresistível.
Sem querer me lembrei que ele havia me comparado a uma ninfa dos bosques. Foi uma lembrança perturbadora, mas consegui me controlar e dizer, aparentando calma:
— Ele vai pintar o retrato de Kurenai.
— Imagine só! Finalmente, ele a conhece há tanto tempo, talvez seja mesmo o tipo de mulher de que precisa. Entre os dois não haverá qualquer tipo de ilusão romântica. (Sacudiu a cabeça) — Agora, que tal tomarmos aquele café antes que esfrie?
Não fiquei ofendida ao contrário, achei que Kushina demonstrou amizade e tato ao tentar alertar-me contra o perigo que Sasuke representa. A conversa, no entanto fez com que eu percebesse que preciso aprender a esconder melhor minhas emoções. Cheguei quase a desejar ser tão cínica como Kurenai ou Sasuke.
Como ele teria sido quando mais jovem? Quando só tinha cicatrizes interiores que ninguém podia ver. Antes daquela cicatriz no rosto. O que o teria feito escolher uma vida de riqueza e ócio, pintando retratos de pessoas que não são capazes de apreciar seu talento, procurando prazeres fáceis?
Quanto a Kurenai sei o suficiente, é uma mulher ambiciosa, que decidiu casar com um viúvo rico e continua a colocar o dinheiro em primeiro lugar.
Os dois estão prontos um para o outro e se pertenceriam para sempre, quando esse terrível verão chegar ao fim.
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