Brilho e Sombra do Destino
1 Brilho e Sombra do Destino
Notas iniciais
Eu não ganho dinheiro com Yu Yu Hakusho,mas Yoshihiro Togashi,TV Fuji e editoras do mangá,sem dúvida!
“Você não disse nada à Keiko?” Ela ergueu a cabeça, desanimada.A luz do luar entrava pela janela, fora de seu alcance.Como não recebeu resposta, Kurama levantou-se e foi sentar-se ao seu lado.A sala espaçosa, coberta de sombras, iluminada naturalmente, era a perfeita atmosfera da saudade amarga. “Não...” Botan enxugou os olhos, ao reconhecer simpatia no gesto do outro.“Eu pensei nisso... mas...”. Pensara, mas não soubera como dizer.Sempre se tornava introspectiva quanto à própria dor diante das pessoas: era o tipo de coisa que se espalhava facilmente, sem precisar que alguém tomasse a iniciativa.Uma pessoa alegre sempre seria mais útil. “É melhor não falar disso... daqui a algum tempo falaremos, mas por enquanto é melhor deixar os nervos se acalmarem...” “Eu queria poder falar!” A voz da guia espiritual estremeceu.Lágrimas transbordaram, furiosas.“O silêncio é tão insensível... parece que... que o que aconteceu... foi uma coisa natural!”. “Foi natural, Botan...” Suave e discreto,ele confortou.“Não daquele jeito!” Ela falou alto,exaltada. “Genkai não merecia partir do modo como partiu!” “A Mestra foi uma grande guerreira...e não estou falando sobre lutas...ela morreu porquê fazer o que era certo lhe deixou em desvantagem...esse é o fim dos íntegros,infelizmente...” “O bem sempre devia vencer o mal!Não é justo!De que adiantou a integridade se ela...” “Botan...estamos sofrendo agora porquê uma pessoa com as qualidades dela faz muita falta...se fosse diferente,nada disso teria importância”. “Kurama...” A garota procurou se acalmar. “Vocês tem chance de vitória?Me diga a verdade!” “Não sei” O ruivo respondeu,sua neutralidade contrastando com o ar de angústia inconformada de Botan. “Toda luta é imprevisível.Às vezes não adianta contar com um grande poder se não há manipulação adequada disto...sempre existe uma brecha,uma oportunidade...a sorte também,embora volúvel,pode ajudar...que o diga Yusuke,não é?” “O time Toguro sabe muito bem o que fazer com o poder que possui!” Kurama fitou a jovem, muito calmo. “Nós também. É confiando apenas nisso que iremos em frente. Eu tracei uma estratégia, é claro... mas diante das circunstâncias, é somente um detalhe. Não dá para ficar pensando só em planejamento quando sentimentos pessoais estão interferindo...” Ao tom circunspecto,Botan reagiu com perplexidade. “Mas você é tão racional...e frio,quando quer vencer uma luta...” “Eu não sou assim apenas por ser”.Ele sorriu. “Quem luta,quer vencer...cada um tem o seu método,o meu é esse.Mas nada disso funciona se não for movido pelo entusiasmo.Por isso,penso que lutar por alguém especial ou por alguma coisa que não se pode pegar com as mãos é o melhor combustível.Como diriam os nossos amigos,levanta o moral”. A risada suave perturbou a cicerone. “Esse entusiasmo é ilusório...” Ela murmurou,deprimida. “A mestra Genkai deve ter lutado com toda a garra,e mesmo assim...”Botan se calou.Kurama a fitava sério,embora ameno. “Eu estou falando de entrar numa luta mesmo sabendo que pode perder...é menos incômodo do que lutar tendo a certeza de que vai massacrar o adversário...claro que depende muito de quem estiver para ser massacrado...” “Kurama...como você era antes de Shuichi Minamino?” A garota franzira o cenho,realmente curiosa.Não sabia ao certo quem era o sujeito sentado ali,ao seu lado.Talvez a morte de Genkai pelas mãos de seu outrora melhor amigo tivesse despertado-lhe a vontade de conhecer as pessoas que estavam ao seu redor.Não pensava em Yusuke ou Kuwabara,mas em tipos como Hiei e Kurama,seres que mesclavam a honra e a crueldade em seus atos,assim como Toguro,que segundo o que Koenma deixara escapar,há muito tempo atrás fora um bom homem. “Eu continuo sendo o mesmo.Só descobri coisas diferentes”. “Como o quê?” “O Makai foi um lugar que sempre estimulou meu lado prático...no Ningenkai,eu tenho uma rotina tão tranqüila que chegaria a ser poética,se não fosse por acontecimentos ‘práticos’ como este torneio...” Divertindo-se com reserva,ele cruzou os braços,mirando a noite.“Eu gosto da minha vida como Shuichi e do que ela tem a me oferecer...mas não significa que deixei de ser Kurama...digamos que eu tenha encontrado um tesouro raro,que não precisava ser roubado...sua força e beleza me ressabiaram,porquê não estava habituado a sentir ou admirar puramente,com emoção...foi aí que descobri que ele me pertencia,de graça...para aproveitá-lo,só o que eu precisava fazer era retribuir sua força e beleza na mesma intensidade...e como estava tão grato e também curioso...aprendi a respeitá-lo e a necessitar dele com pureza e emoção...”
“Você está falando da sua mãe,não é?” “Sim”.Ele assentiu,calmamente. “Descobri que todos nós precisamos tanto do instinto e da conveniência quanto do sentimento”. Botan fitava o rapaz,quase tímida. “Senhor Koenma disse que você só não foi punido pelo Reikai por ter se apossado de Minamino por causa da sua condição humana...mas...se você continua sendo youkai...” “Eu me referia ao caráter.Sabe...apesar de ter me comprometido como filho de Shiori Minamino...a verdade é que roubei dela seu verdadeiro filho...” Kurama seguia em seu tom baixo e suave,porém objetivo. “Fiz isso porquê,ao contrário de Genkai,não fui valente o bastante para aceitar a morte...e saiba que,por mais egoísta que isso possa parecer,justamente,porquê sou um cara muito egoísta...eu não me arrependo.Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.Durante toda minha vida,busquei grandes realizações que pudessem me elevar de alguma forma,mas ao mesmo tempo,sempre tive em mente que precisava manter o controle...domestiquei a minha ambição e calculei meus impulsos...mas o amor me amedrontou como nenhuma outra coisa pôde amedrontar...e eu cheguei à conclusão de que,se o perdesse,enlouqueceria...” Botan moveu mecanicamente,virando de lado e sentando-se sobre as pernas.Kurama,olhando para frente,permitiu que um sorriso mínimo,quase imperceptível,lhe tomasse os lábios. “Foi com Shiori que aprendi a querer cuidar de alguém...nunca existirá entre ladrões e assassinos a mesma gratidão e lealdade que existe entre mãe e filho...a vida com ela me deixou descansar...às vezes penso que não estou agindo corretamente,enganando-a desta forma...mas por outro lado,ela tem a certeza,e não está enganada,de que todo o meu carinho...o meu respeito e a minha devoção eterna são o outro lado da verdade.A primeira parte da verdade é absurda...mas depois de toda a monstruosidade que foi minha vida passada...será que não está na hora de levar em conta só as coisas boas,daqui em diante?No entanto,preciso cuidar de Shiori sempre...me assegurar de que está feliz...porquê,apesar de tudo...às vezes tenho a sensação de que ela sente falta de algumas coisas em mim...ao invés de chocá-la com uma revelação devastadora...prefiro tentar compensar...só que nem sempre parece o bastante,pelo menos à meu ver.Em alguns momentos,sinto medo de que tudo o que eu faço seja movido por um capricho,como se eu quisesse provar à mim mesmo que sou capaz de reconhecer o bem e fazer parte dele...não quero mais viver só de instinto e conveniência.Sentir me deixa elevado,de um jeito diferente...por isso,não gosto de pensar em certas aparas...não vão me levar à nada além de preocupações insolúveis,e não vão mudar o que quero”. Botan estava tomada por uma emoção muda, mas completamente óbvia. “Porquê...” Ela balbuciou, confusa. “Porquê algumas pessoas se redimem, como você... e outras tomam o caminho inverso, como Toguro, que já foi um ser humano... já teve amigos, família e...’sentiu’, antes de você??!” Kurama fitou a guia,refletindo. “Eu não sei.Talvez seja porquê estamos sempre atrás do que é conveniente para nós no momento.Eu me vi num mundo desconhecido,rodeado por estranhos,enfraquecido,vulnerável...afeto e proteção eram tudo o que eu precisava...quanto à Toguro...talvez algum conflito interno ou até sua natureza o tenham levado a buscar conforto,ou solução,num poder ilimitado...enfim,o caráter é uma coisa indefinida...” A guia suspirou.“Odeio o meu trabalho...mas ao contrário de você e do Toguro,não posso fugir dele e procurar outras coisas...tenho que passar o resto da eternidade carregando espíritos infelizes...” Ela balançou a cabeça de leve,cheia de lágrimas.“Eu me interesso por cada estória, cada nome, pelo motivo que os levou a desencarnar... mas de que adianta isso se eu não me importo de verdade? No dia seguinte não penso mais nisso, e novos espíritos chegam...”. “Eu acho que você se importa até demais”. Ele virou-se de lado, apoiando o braço no encosto do sofá.“E não devia, porquê a morte é algo que está muito acima de nós... acho que por isso escolheram você para este trabalho... já que é preciso enfrentar algo tão doloroso, pelo menos que seja guiado por uma pessoa alegre e sensível como você... isso pode até não adiantar para eles...mas não é sua culpa que estejam ali,Botan...” Aquelas palavras não foram o bastante para animá-la,mas a encheram de gratidão. “Você não é egoísta, Kurama...e muito menos monstruoso...para falar a verdade...conhecendo os humanos,e sabendo o quanto eles podem ser nobres e imperfeitos ao mesmo tempo...acho que você acabou se tornando um deles definitivamente”. O Youko a fitou com uma expressão que a garota não soube definir.Mas o grande sorriso, o maior que ela já vira no rosto do rapaz,dissipou sua inquietação. “Como será que os espíritos se sentiriam... se não houvesse quem os orientasse após a morte do corpo... e fossem obrigados a vagar sem perspectiva? Você é uma das poucas luzes que eles possuem no momento mais crítico de uma existência...eles não podem mais voltar atrás nas coisas que fizeram ou deixaram de fazer...é o seu trabalho levá-los ao lugar onde merecerão estar,e onde se adequarão à sua nova forma de existir...você é incrível”. Ele se levantou, sem tirar os olhos dela.“Seja uma boa luz,e continue torcendo por nós.Boa-noite”. “Boa-noite”. O rapaz deixou o recinto,acompanhado pelo olhar suave de Botan.Uma vez sozinha,ela deitou-se,virando a cabeça para observar a luz fascinante da lua.Ainda faltavam algumas horas para um novo dia inevitável.
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