Brilho da despedida.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Se quiser ouvi-la enquanto lê a história, aqui está o link https://www.youtube.com/watch?v=AqyKkcwd-rY
“Meu peito estava apertado pela solidão e desespero
Meu coração sentia-se quebrando
Mas seu sorriso permaneceu em minhas memórias
Sempre me encorajando
Vamos retornar para aqueles dias uma vez mais
Eu sei que vai estar tudo bem desta vez
Sempre sorrindo ao seu lado
Perto de você”
Sua adrenalina subia e seus batimentos cardíacos disparavam. Estava divertido demais lutar contra o Juiz do Inferno até sua nuca começar a doer e os lábios e estomago estranhamente começarem a esfriar num corpo extremamente quente. Bela hora do dia para a febre voltar, a canalha doença aproveitava a ausência do cavaleiro de aquário para ferver o coração do escorpiano.
Desistir é para os mortos, morrer agora é para os fracos. E quem era Kárdia de Escorpião? Nenhum dos dois por enquanto. Kárdia não é do tipo que desiste fácil, e também não é do tipo que desistiria da batalha só porque seu coração estava sendo cozinhado de dentro para fora de seu corpo.
A febre inflamava o corpo as alturas que até mesmo o ar expelido do pulmão vinha de forma de ar quente... Mas isso não era sinal de derrota. Não ainda. Não naquele momento.
O sol usa seu núcleo para fundir hidrogênio com hélio para gerar energia e queimar como uma poderosa estrela, e tão fortíssima que seu calor e luz é sentido por até planetas de distância, e Kárdia usaria a temperatura de seu coração fervendo como combustível de seu mais poderoso ataque.
“Scarlet Needle Antares Katakeo!”
Um brilho vermelho tão lindo, intenso e ao mesmo tempo queimava tanto... Quanto o Sol.
Assim como o coração de Radamanthys de Wyvern foi incinerado por Antares, o coração do cavaleiro da sua constelação parou de bater. Seu coração agora fumegava uma pequena chama no interior da cavidade do órgão. As chamas se alimentavam das artérias e do sangue para se propagar dentro dos músculos e queimar os demais órgãos da caixa torácica.
A face de Kárdia estava congelada, e pelas narinas, boca e ouvidos escapavam fumaça negra do incêndio interno que acontecia em seu corpo que provocava inúmeras bolhas em sua pele que estouravam em seguida.
As labaredas alimentadas do sangue do escorpiano estouravam a pele e escapavam do corpo. O cabelo azul naval foram os primeiros a se encolherem, agora as chamas consumiam seus braços e pernas, faltando pouco para chegar ao rosto. A armadura dourada de Escorpião brilhava entre as chamas recusando a abandonar seu cavaleiro até mesmo quando não existisse mais Kárdia, e sim um cadáver negro de um cavaleiro carbonizado.
—
“Perdi muitas coisas que preenchiam meu coração até agora
Eu percebi pela primeira vez
O quanto você torceu por mim
O quanto me fez sorrir”
—
Segundos era o que menos tinha naquela hora para pensar e agir com sabedoria. Tentar salvar sua amada e seu amigo, porém despertaria Poseidon da ânfora que ali estava selado e assim ceifar várias vidas inocentes... Ou Sacrificar-se para evitar o despertar do Deus do Oceano, mas também levaria consigo a vida de Seraphina e de Kárdia. Não era para si que estava pensando, não era para seu amor à sua frente, não era o seu melhor amigo e nem a deusa que protegia. Era para esperança de um futuro sem vidas interrompidas por guerra.
Era apenas ele ali para fazer, e o último segundo que restara encerrou. Tinha que ser feito agora. Deteria Poseidon custe o que custar, congelaria tudo, todo e todos, começando com si mesmo...
O cosmo de Dégel se expandia do salão, atravessando o corpo de Seraphina, passando pelo corpo carbonizado jogado no chão a fora, embranquecendo o chão, parede, teto de toda Atlântida. O ar esfriava numa velocidade incrivelmente rápida, já não era mais possível de respirar sem congelar o interior de suas narinas. O liquido que lubrificava o globo ocular congelou, incomodava demais e piscava com frequência fazendo suas pálpebras rasgarem colando seus olhos fechados. Os lábios ressecaram e fissuraram, mas não iria parar, congelaria até sua alma se fosse preciso.
Sua pele ardia e seus músculos formigavam como mil agulhas estivessem sendo enfiadasaté tocarem os ossos. Toda água em seu corpo congelou e todo sangue parou de circular. Seu esqueleto congelara em pé na pose que nunca iria desistir.
Agora uma camada de neve cobria seu corpo. Suas unhas adquiriam um tom azulado e as pontas de seus dedos começavam a se tingir de preto, não só seus dedos mais sua orelha e nariz eram consumidos pela negra gangrena até se estender aos membros e corpo.
A Armadura de Ouro de Aquário gritava, estava em seu limite, fizera de tudo para que o frio não matasse seu cavaleiro. Se armaduras chorassem, ela estaria aos prantos sentindo o coração do Santo que protegia parar de bater. E mais uma vez, a armadura da décima primeira constelação, ficou com o seu dono do começo de um Cavaleiro de Ouro e até o fim de sua vida.
—
“Que perder eles era muito para considerar
Mesmo que eu lutasse tão desesperadamente para trazê-los de volta
Como o vento, escapando como se conseguissem me alcançar, mas não.”
—
Dégel descolava as pálpebras tremidas ao perceber que não dormia mais, não sentia dor e nenhuma ardência ao piscar, suas mãos estavam limpas e normais demais ao movimento de abrir e fecha-las. Ao seu redor estava um breu escuro onde só podia enxergar a si mesmo.
Um fio de memória estala.
— Poseidon!
Num salto procurou por Seraphina na escuridão, mas não havia nada a sua volta. Apenas um breu cobria-o em todas as direções. Frente, lado, acima e abaixo de si.
“Acabou...? Tudo acabou?”
Pensou brevemente enquanto suas últimas memórias passavam em sua mente, de Poseidon possuindo sua amada, o seu gigantesco cosmo congelando toda Atlântida como uma inundação de gelo tomando tudo, e Unity...
— Unity! Será que ele conseguiu? Preocupou-se tomado de ansiedade.
— Aquele moleque conseguiu sair vivo, fique tranquilo.
Procurou pela voz e encontrou seu parceiro sentado numa espécie de muro comendo uma maçã metade amarela e metade vermelha, nem passou pela sua cabeça onde havia conseguido a fruta, e não entendeu como não o viu antes ali sendo que tinha observado todo o lugar. Se ele não tivesse falado nunca iria reparar que ele estava ali o tempo todo.
— Kárdia, você! Você está aqui? Onde estamos?— Aproximava do escorpiano e reparando que ele não estava em um muro, e sim sentado numa sombra sólida que desapareceu quando o mais alto desceu de lá.
— E você faz pergunta difícil achando que vou responder.
— Sim, é você mesmo...— Ignorando o fato dele estar com uma maçã meio comida, confirmou que era o próprio cavaleiro de escorpião, nem mesmo o mais habilidoso inimigo mestre ilusionista conseguiria imitar Kárdia com tanta precisão que o conhecia. — Kárdia... Unity, Poseidon, Seraphina.... Minha cabeça está revirando.
— Sei que não é uma hora pra falar disso, mas eu falo. Eu sabia que aquele moleque era traíra, eu sentia isso.
— Kárdia, pare! Ele levava consigo o Oricalco de Poseidon, mas não sei, não tenho certeza que ele conseguiu escapar.
— Relaxa, ele conseguiu, eu o vi antes de parar aqui, passei um tempo sozinho até você aparecer.
Lágrimas quentes inexplicavelmente desciam daquele corpo frio. Então esse era o caminho sem volta que todo cavaleiro passa ao morrer... Pensava. Estava feliz por Unity conseguir sair vivo, mas não queria que tudo isso acontecesse.
— Ei, ei... Ei, eu estou aqui.— Aproximou acenando ao aquariano que escondia seu rosto nas costas da mão.
— Kárdia... Você estava aqui antes de mim?
— Não por muito tempo, mas tempo o suficiente para ver você falando sozinho
— Isso significa que você também....
— Sim, também estou morto.
Mortos... Mas ainda envoltos por um aconchegante cosmo dourado que brilhava como uma chama acesa de uma vela que recusava-se a apagar.
— Kárdia... E eles, vão conseguir...?
— Eles vão conseguir. Vamos lá, você sempre com o mau costume de pensar mais nos outros do que em si mesmo.
O cavaleiro de Aquário mesmo com toda sua camada de gelo, escondia uma personalidade sentimental que o forçava a ser forte o tempo inteiro. Se preocupava com seus companheiros mais do que a si mesmo, Kárdia estava certo, entendia seu amigo mais do que ninguém.
— Kárdia, o que será de Athena sem nós...?— Dizia entre lágrimas.
— Já fizemos o que devíamos fazer, conseguimos o Oricalco de Poseidon, dei uma surra naquele espectro miserável de monocelha. Tenho certeza que ele foi pro saco antes de mim.— Nada do que o cavaleiro de escorpião falava parecia ajudar. A angústia de Aquário era real, e se outros cavaleiros também morressem? Seria inevitável nesta guerra, mas diferente do parceiro, Dégel ainda não sentia na alma a realização de dever cumprido. Ficou algo para trás inacabado, uma ponta solta, e isso angustiava o cavaleiro.
Diferente de Kárdia, que viveu sua vida com a filosofia que não viveria muito, viveu anos. Para ele a morte era como uma imprevisível linha de chegada alcançada. E para Dégel tinha um futuro promissor e viveu pouco, via a morte como um pesado e inevitável acontecimento. Acabou.
Por isso que o escorpiano estava tão calmo e relaxado, diferente do aquariano que continuava a soluçar. Diferentes perspectivas em conflito a respeito da morte.
— Ei, tenha certeza que continue torcendo por nós nessa guerra, mesmo estando aqui, eles precisam de nossa torcida. Vamos conseguir, todos os séculos conseguimos. Você mesmo dizia isso.
Kárdia não lia livros, mas chamava o cavaleiro de aquário de devorador de livros. Tudo que ele sabia sobre história era Dégel que lia e explicava para ele, mesmo com a impressão que o mesmo não estava prestando atenção ou apenas fingia ouvir porque gostava da companhia do outro.
Um devaneio de lembranças sobre sua biblioteca que montou nos aposentos da casa de aquário, cada peça, cada exemplar de livro formando a estrondosa coleção juntando conhecimentos de todo Santuário.
Por tantos séculos a Grécia perdia seus pergaminhos e conhecimentos escritos a cada conquista levada por povos inimigos, principalmente pelo exército romano. Tanto conhecimento perdido e dispersado. Tendo esse pensamento em reunir tudo num único lugar, Dégel deixava no mundo dos mortais sua amada biblioteca. Em segredo, se divertia quando sábios do santuário visitavam sua biblioteca em busca de conhecimento. Kárdia não lia nenhum de seus livros, apenas ficava com sua companhia entre livros e estantes.
Realmente, pensar em livros o deixava feliz, sua felicidade eram os livros, e sem perceber a vontade de chorar passou, apenas deixando o nariz congestionado que o irritava.
— Entenda, eles vão conseguir. Viu? Não chora, assim Athena ficará mais triste ainda. E você sabe, foi você que me disse uma vez não foi? Que toda vez que um cavaleiro morre Athena derrama lágrimas, e você não vai querer que aquela cabeçuda chore duas vezes mais por causa da gente, não é?
Um riso escapou de seu nariz, odiava quando Kárdia tratava a Deusa como uma criança normal, afinal ele a via como uma civil do que uma deidade, passavam mais tempo juntos como amigos do que se preocupando com o respeito entre cavaleiro e Deusa. Kárdia tratava todos iguais, como se fossem amigos, sendo um soldado raso ou alguém superior a ele. Era sempre a mesma forma.
Era verdade o que ele dizia, não queria que a Deusa ficasse mais triste, mas no momento era difícil deixar esse sentimento de perda de tudo que trilhou de lado, não quando se está no ponto final, onde todos marchavam para se despedir do mundo material e trilhar em direção ao mundo espiritual. O cosmo dourado e as armaduras que seguraram o espirito no corpo até o último suspiro ainda continuavam ali montadas acima irradiando um fraco brilho que ficava cada momento mais fraco.
— Parece que estão dizendo que já está na hora de irmos. — Observou Aquário e Escorpião do alto.
— Sim... Você tem razão dessa vez— era uma das poucas vezes que afirmava que o escorpiano tinha razão.
— Mas antes, tenho uma coisa pra dizer a minha parceira. Escorpião! Vê se não arranja outro cavaleiro pra si que seja acabado na saúde, quero alguém saudável dessa vez, nada de doentinhos. — Dégel riu, sorriu e gargalhou um pouco, não conseguiu se segurar dessa vez. — E você, o que tem a dizer a sua?
— Eu não sei bem o que dizer, só espero que o próximo cavaleiro que a vestir seja sábio e leal a Athena, e seja portador de uma sabedoria e que faça bom uso de minha biblioteca e que todo conhecimento venha a ser bom para novas gerações...- Foi interrompido.
— É verdade! Ei Escorpião, que escolha alguém que cuide bem das macieiras que plantei na casa de escorpião. Não quero qualquer um não. Ouviu?
O cosmo das duas armaduras já estava enfraquecido quase se apagando, como se já estivessem de terminar de chorar por seus cavaleiros.
O destino era inevitável, ainda mais quando estavam em tempo de guerra.
As armaduras eram vivas, e seus cavaleiros- agora ex-cavaleiros- sentiam que estavam igualmente tristes como Athena estaria com a morte deles.
É como uma mãe que perdera seu filho em seus braços, nenhuma mãe deveria passar por isso, e armaduras são como abraços de mães, para proteger e acompanhar os cavaleiros em batalha. Não nos deixavam até o coração de cada um parar de bater, até a última fagulha de cosmo deixar de queimar. Até o último suspiro.
Nenhuma armadura deveria passar por isso, mas elas aguentavam.
— Vamos? Estamos segurando essas duas por um bom tempo aqui. — perguntou o escorpiano.
— Vamos. — respondeu o aquariano. Não existia mais lamentação em sua alma, não existia mais angustia e nem preocupação. Mesmo não estando mais vivo, estaria rezando por Athena e seus cavaleiros para que em seu mundo, o céu continuasse a nascer azul.
E o brilho das armaduras se extinguiu e os dois cavaleiros desapareceram.
Agora seria com eles.
Mas momentos antes de se despedirem de tudo, o pensamento do cavaleiro de aquário foi que se renascesse, gostaria de servir Athena novamente. Enquanto isso o cavaleiro de escorpião sorria marotamente para seu melhor amigo."
“Meu peito estava apertado pela solidão e desespero
Meu coração sentia-se quebrando
Mas seu sorriso permaneceu em minhas memórias
Sempre me encorajando
Vamos retornar para aqueles dias uma vez mais
Eu sei que vai estar tudo bem desta vez
Sempre sorrindo ao seu lado
Perto de você”
Notas finais
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Esta é uma fanfic que escrevi em 2014 e só finalizei-a para o desafio de fanfics de quarentena com o tema isolamento, no caso eles estão em isolados no limbo.
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