Brilhar por ela

1 A agenda e o silêncio



O zumbido silencioso do ar condicionado era o único som constante na van escura.

​Xiao Zhan estava recostado no banco de couro, a cabeça girando com a lista de compromissos que tinha acabado de ensaiar: uma entrevista ao vivo, a leitura de roteiro, a gravação de um comercial. Ele estava exausto, mas o sorriso ainda estava gravado em seu rosto pela performance da noite.

​Ao lado dele,Lin Yue estava imersa em seu tablet, os dedos ágeis deslizando pela tela enquanto reajustava horários e respondia a mensagens urgentes. A luz azul iluminava o perfil dela, destacando o vinco de concentração entre as sobrancelhas.

​Eles faziam essa viagem de volta para casa milhares de vezes, sempre em silêncio. Um silêncio que, até recentemente, era de pura eficiência; a empresária organizando o próximo passo, o artista recarregando as energias.

-​Você comeu alguma coisa desde o almoço?-a voz dela era baixa, quebrando o silêncio. Sem desviar os olhos da tela, ela estendeu uma pequena barra de cereais embalada, o tipo de lanche que ele só comia quando estava à beira de um desmaio.

​Xiao Zhan piscou. Ele não havia mencionado a dor de cabeça, nem a sensação de estômago vazio. Ela simplesmente sabia.

​Ele pegou a barra, os dedos roçando brevemente. Foi um toque rápido, mas ele sentiu a temperatura fria da pele dela, e notou, pela primeira vez, a cicatriz sutil no nó dos dedos dela — uma pequena imperfeição que ele nunca havia reparado em anos de convivência.

​-Obrigado-ele murmurou.

​-É meu trabalho-ela respondeu, sem emoção, mas ele viu a ponta de seus lábios se curvar minimamente antes dela voltar a focar no trabalho. Uma vitória silenciosa.

​Xiao Zhan desembrulhou o lanche. O sabor adocicado não era o que importava. O que importava era que ela o tinha entregue sem que ele pedisse, um ato de cuidado que ultrapassava a função de empresária.

​' É meu trabalho ', ela havia dito. Mas ele pensou: Gerenciar minha agenda é o seu trabalho. Saber que estou com fome, quando nem eu percebi... isso é outra coisa.

​Ele olhou para ela novamente, mas dessa vez, não viu a gerente implacável. Viu a pessoa que o sustentava nos bastidores.

​E, pela primeira vez, ele se perguntou se o silêncio entre eles não era mais de eficiência, mas sim um espaço tenso e carregado onde duas pessoas estavam muito ocupadas fingindo que não se conheciam de verdade.