Bright Eyes
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O delegado afrouxou o nó da gravata depois de cinco horas de interrogatórios ininterruptos. O desaparecimento de Emilly Blunt, uma garotinha loira de oito anos, deixou a comunidade de Bellingham completamente atordoada. A cidade pacata do estado de Washington conquistara o título de "uma das cidades mais seguras" dos Estados Unidos. Era incomum crianças serem sequestradas. Agora o delegado precisava correr contra o tempo pois há mais de dois dias que ela desapareceu.
Cansado, mas ainda mantendo o seu espírito escoteiro, o detetive Johnson ainda ficava tarde da noite, olhando papéis, mesmo sob o protesto contínuo da sua esposa. O depoimento de um vendedor de hot dog deixou-o com calafrios.
— Foi um sábado. Neste dia o clima era frio, mas não chovia. Aconteceu um multirão... quer dizer... como chama quando vendemos roupas e objetos usados?
— Brechó.
— Exatamente. Brechó. Um brechó para crianças. Havia até um palhaço animando a festa delas. A tal Emily, eu a vi se ausentar sozinha.
— Pra onde foi? Com quem?
— Eu estava com clientes, não pude me concentrar nisso. Apenas sei que depois de comprar um hot dog meu, ela saiu falando sozinha. Coisas sem sentido, sabe? Caminhou até a esquina e alguém a pegou pela mão.
— Quem?
— Não sei. Apenas vi alguém puxando-a. Se eu soubesse ganharia um milhão de dólares.
O depoimento do vendedor deixou-o desconfortável.
O seu celular tocou.
O corpo da menina apareceu... com algumas partes mutiladas. Como sendo o responsável pela investigação, resolveu ir ao IML da cidade e verificar o corpo. A pequena Emilly apresentava certos arranhões cicatrizados, como de algum animal feroz. Em suas costas, manchas e hematomas amarelados. Sua vagina ficou completamente dilacerada, com o útero arrancado. Ânus arrebentado — talvez o sequestrador fez isso por pura cruedade ou um ato de pedofilia extrema —, as pernas e praços com marcas de amarrado. Os olhos da garota estavam arrancados e a língua cortada em dois.
— Nunca vi algo assim antes — disse o legista.
Ele abriu o corpo na frente do detetive. Os órgãos internos cauterizados, mas nenhuma cicatriz de incisão cirúrgica.
Só Deus sabe o sofrimento que a criança passou na mão de seu sequestrador.
...
Tomando pílulas antidepressivas — por conta da ansiedade que adquiriu após o arquivamento do caso —, Johnson se deitou ao lado da sua esposa, contudo a rejeitou mais uma vez naquela semana. A sua rejeição já atingiu o seu casamento, deixando a senhora Johnson completamente impaciente e ignorada pelo cônjuge.
Fechou os olhos. Passou-se um tempo. Abriu. Uma criatura assombrosa, um homem com um chapéu preto e rosto sem forma o encarara por cinco segundos. Sentiu sua alma gelar, não podia se mexer, estava com paralisia do sono. Gritou. Sua esposa acordou atordoada.
Algo o perturbou durante meses. Ouvia barulhos, ruídos e sussurros. Um dia estava na janela de casa quando um vento assoprou-lhe a orelha, como uma boca a assoprar. Outra vez desligou a TV e um rosto negro apareceu na tela a encarar. Foi aterrorizante. Mas tudo isso tinha uma explicação muito maior do que uma simples história com fantasma.
Teve sérios problemas mentais. Divorciou-se e foi interditado num asilo. Um dia, ao deitar na cama do quarto, sentiu o seu corpo dormente, como na paralisia do sono. Uma luz bateu sobre si e tudo se apagou. Viu um grupo de pessoas, andando como mortos-vivos, num lugar irreconhecível. O sussurro era do mesmo sujeito preto e de chapéu. Seus olhos... olhos grandes e pretos, dedos finos e longos. As pessoas, com seus olhos brilhantes, cantaram uma canção inaudível, levaram o homem para um ambiente completamente escuro. Um grupo de criaturas pretas o aguardavam.
A cobaia estava pronta.
Emilly apareceu bem na frente do homem. Seus olhos sem vida, sua alma na escuridão. E os sujeitos de preto? Seres não-humanos vindos para mais uma dissecação.
Espíritos? Talvez não. Eles pertenciam a uma força muito maior.
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