Brief

1 Capítulo 1 - A Ironia de Aniversários


Notas iniciais
Dedico essa história às duas pessoas que têm uma enorme paciência para ler as baboseiras que eu escrevo: Wonka e Vickie. Obrigada por fingirem que gostam, vocês são ótimas nisso.

"BRIEF"



Remember the day,

'Cause this is what dreams should always be.

I just want to stay,

I just want to keep this

dream in me.” Losing Your Memory, Ryan Star.



Alguns dizem que quando você completa 16 anos você passa a ver o mundo de uma forma diferente. Ele não me parecia muito diferente naquela noite. Talvez eu já o visse de uma forma bastante realista para me dar ao luxo de abrir portas para sonhos de adolescência que eu já haveria desistido no último ano do colegial, e também porque era um pouco difícil arquitetar planos entre as quatro paredes de um cubículo (ou quarto, como preferir) de um hospício (ou ala psiquiátrica, também como preferir).

Ala psiquiátrica da Clínica Guinner Hill, o lugar por onde até então eu havia passado meus últimos dias de meus quinze anos. Eu posso parecer louca — e remotamente falando, eu meio que sou -, mas a ideia de estar ficando mais velha a cada dia me resulta em breves ataques de pânico. Tipo, embora elas estejam em transformação, eu já posso sentir cada célula somática de meu corpo se desgastando e deixando espaços que não serão preenchidos por novas células, me envelhecendo a cada segundo e roubando frações da minha monótona e breve juventude, me deixando um lembrete físico de que irei ficar velha e não terei nada pra viver e ainda não vivi nada e-

A última vez que isso me atingiu, acabou de uma forma frustrante. Eu simplesmente tentei matá-las — as células, digo — todas de uma vez, para que não tivesse que conviver com um cadáver vivo (no caso, eu mesma). Não foi muito difícil dessa vez, quando você quer cometer suicídio a sua criatividade é muito mais aflorada, e você vê qualquer mínimo deslize dos outros como uma oportunidade. Eu consegui ter acesso a caixa dos medicamentos que tomo diariamente, e preparei um coquetel com todos os tipos de comprimidos que avistei triturando-os em um copo e em seguida ingerindo-os todos de uma vez com a ajuda de alguns goles de Vodka (como já havia planejado por alguns dias, roubei a bebida do estoque de meus avós quando fui visitá-los, guardando-a em uma garrafinha d’água, já que qualquer tipo de líquido destilado era completamente abominado em minha casa)

Após ter ingerido o coquetel de medicamentos, eu simplesmente esperei. Esperei, esperei, e então dormi, encolhendo-me sobre minha cama, preparada para a “chegada de minha hora”; sem bilhetes nem cartas de despedidas nem o disco de alguma banda depressiva dos anos 70 na vitrola. Optei por dispensar o drama dessa vez.

Não era a primeira vez que eu atentava suicídio e não conseguia. Talvez seja pela ironia de tentar matar algo que já está morto e nem assim conseguir.


Quando acordei estava em um lugar familiar o suficiente para não me dar ao trabalho de perguntar onde eu estava, ou o que havia acontecido. Havia um gosto amargo em minha boca, e algo parecia ter sido penetrado em minha garganta. Minha mãe estava chorando ao meu lado, e sorriu entre suas lágrimas quando viu meus olhos se abrirem; eu queria poder falar algo, tipo me desculpar ou dizer que tava tudo bem — por mais que não estivesse, já que uma agulhada de arrependimento e ódio de mim mesma tenha me atingido naquele momento — mas havia um cano de borracha na minha maldita boca, e mesmo que eu pudesse falar, acabaria falando algo completamente sem sentido. Por essas razões, eu simplesmente fechei os olhos novamente e apertei sua mão contra a minha.

Depois disso fui transferida para a Guinner Hill, apenas algumas semanas antes de meu décimo sexto aniversário.

Aniversários não são legais. Não acho que deveriam nem ser comemorados, para ser honesta. Não no meu caso. Os otimistas os vêm como uma missão cumprida, como se fosse um grande esforço se manter vivo, como se você tivesse feito algo muito mais significativo do que ir à escola e voltar para casa para assistir os mesmos programas na TV, ou acabar ocupando a maior parte de seu tempo na internet dirigindo um blog ou perdendo seu tempo em redes sociais. “Parabéns,” eles dizem, e eu me pergunto o por quê. Parabéns por ser obrigada a me manter viva? Mas o quão irônico é isso? Aniversários apenas me relembram do quão fracassada eu sou. E egoísta.

Como era meu grande dia especial, ganhei de uma das enfermeiras — a mais simpática delas, que atende apenas pelo nome de “Helga” -, um pacote de Twizzlers (pra quem não sabe, Twizzlers são doces de alcaçuz, uma das pequenas coisas que mais aprecio nesse minúsculo planeta). Ela se lembrou da última vez em que eu estive na clínica, três anos antes, quando tudo o que eu pedia para as enfermeiras era por um pacote dos tais Twizzlers, enquanto as outras pessoas simplesmente pediam para ir embora. Eu estava ciente de que não podia ir embora, e por ora havia resolvido ao menos pedir algo que me fizesse não me sentir como se quisesse ir embora. Não o tempo todo.

— Feliz aniversário, menina — disse ela ao entregar-me com suas mãos gorduchas e sardentas um embrulhado em um pacote bege. É claro que não era algo grandioso, mas para mim era mais do que suficiente. Eu sabia que havia sinceridade carregada em seu suposto sotaque irlandês. Eu abri um sorriso para Helga, e a perguntei se foi minha mãe quem havia pedido para me entregar isso; ela balançou a cabeça em negação e afirmou o que eu havia suposto: Ela realmente se lembrou.

Após ter agradecido e me despedido de Helga, tomei meus medicamentos rapidamente e corri na direção de um dos elevadores do andar que se encontrava aberto, e me infiltrei neste com o pacote em mãos. Felizmente, Helga havia driblado os supervisores por mim a meu pedido.
Era o meu aniversário, caramba! Eu odeio aniversários, mas os odiaria ainda mais se tivesse que passar aquela noite sem nuvens dentro de um prédio que exalava valium de suas paredes opacas, (e não era nenhuma câmera de segurança ou enfermeira desocupada que iriam me impedir de me refugiar no único lugar não-tão-desconfortável de todo o prédio).

Pressionei o botão do último andar, e de lá, já tinha o caminho traçado. O terraço é obviamente trancado, mas certa vez na primeira ocasião em que estive internada ali, observei uma velha mulher indo limpá-lo e acabei roubando sua cópia da chave. Eu a deixo embaixo do azulejo do último degrau desde então, de frente para a porta, onde sempre posso localiza-la.


Pela primeira vez em três anos, a chave não estava lá. A grande porta de ferro estava escancarada.

Conforme eu me aproximei, uma silhueta se tornou mais visível. Ombros largos e um cabelo louro pela iluminação dos outros prédios ao redor. Era um homem.
Sua cabeça estava levemente tombada para a frente pelo ângulo em que pude observá-lo, e em algum momento, achei que ouvi o som de choro.
Normalmente eu me afastaria, mas pelo modo como seu corpo era inclinado para a dita direção-que-não-tem-mais-volta, eu pouco hesitei antes de me pronunciar:


— Isso é um tipo de atentado suicida ou apenas uma conferência singular de Sherlock em que você tenta reedificar The Reichenbach Fall? — Perguntei. Humor talvez não fosse uma boa dinâmica em uma hora dessas, mas as palavras fugiram de minha boca antes que eu pudesse conte-las. Suas pernas tremeram ao som de minha voz, e seu rosto virou abruptamente em minha direção. Seu semblante empalidecido pela luz ao redor exprimia algo que eu não pude identificar, tirando o fato de que ele parecia... Okay, eu não vou mentir: bonito; bonito do tipo traços delicadamente fortes (embora isso soe um pouco improvável) e expressivos, bonito do tipo “OH MEU DEUS ELE ME LEMBRA O MEU ATOR FAVORITO”, se é que pode me entender. E por ora, bonito demais para que eu instantaneamente me arrependesse de ter-lhe dirigido a palavra. Garotas como eu não falam com caras “boa pinta”, garotas como eu saem com caras tão estranhos e lunáticos quanto nós mesmas.

— O quê?! — Inquiriu ele, virando seu corpo inteiro para mim. Ele não era exatamente um cara, mas sim um garoto em seus dezessete anos julgando pelos seus trajes: um moletom de uma banda que eventualmente eu me forçaria a gostar, jeans escuros e tênis Converse All Star cinzas. Seu cabelo louro dourado na altura do maxilar estava grudento sobre a umidade de suas lágrimas.



— Você sabe o que vai acontecer com o seu corpo caso você se jogar daí? — Adicionei. Ele balançou a cabeça em negação e murmurou algo indistinto, que supus que fosse algo tipo "Eu vou morrer de qualquer jeito", e se voltou para a direção das movimentadas ruas de Seattle, que pululava em luzes naquela noite. Ele a observava por baixo de seus pés. — Você atingirá aproximadamente 60 milhas por segundo na queda, até bruscamente atingir o chão em cerca de nanosegundos. Seus órgãos internos vão ser dilacerados junto de seus ossos, e você ainda correrá o risco de atingir uma pessoa, por mais que acredite que não está vendo ninguém. Sempre pode haver um desafortunado por aí. Ainda pior, — acrescentei — você ainda pode não morrer. Obviamente a maioria morre de um jeito ou de outro, seja pela queda ou até por um ataque cardíaco impulsionado pela adrenalina, mas há a probabilidade de você ficar vivo. Vivo e inválido. Uma lacuna a ser preenchida por nada além de esperanças sustentadas por uma tristeza profunda de seus familiares. — Eu dei de ombros. — Vá em frente, a escolha é sua. — Desafiei-o.

— E como é que você tem tanta certeza disso? — Sua voz era rouca e ríspida. Ele fungou em silêncio e se sentou sobre a divisão do terraço, seus olhos ainda fixos nas ruas.

— Porque... eu já tentei. — Afirmei. Seu olhar se dirigiu a mim rapidamente, como se de repente eu tivesse crescido uma segunda cabeça. — Digo, não tecnicamente. Mas eu pensei nisso. Escolhi métodos mais fáceis, no final das contas. E aqui estou. — Levantei minha mão livre para dissimular um gesto de empolgação.

— Por quê? — Seu tom era baixo, porém trêmulo. — Digo, por que tentou se matar? — Dei alguns passos em sua direção, e acomodei-me na divisão ao seu lado, seguindo o seu olhar que estava novamente nas ruas. Eram apenas pequenos pontos de luzes brilhando sobre as largas vias pavimentadas; motins de pessoas, poluições sonoras e mais pessoas. Um constante movimento que parecia nunca parar. Todas aquelas vidas pareciam minúsculas sob as solas de minhas sapatilhas.

— Eu acho que fiquei cansada de fingir estar viva. — Dei de ombros, fazendo pouco caso do assunto. Essa era a verdade, e eu me sentia melhor em falar isso francamente sem culpar meu estúpido distúrbio psicológico. Talvez tenha sido eu daquela última vez, e não a depressão ou a psicose ou a paranoia ou as mudanças drásticas de humor.. — E você?

— Problemas na minha cabeça, nada muito original. — Foi sua única resposta. Um silêncio pareceu nos acorrentar ali, mas eu não me importei. Pelo canto do olho examinei-o atentamente desta vez; as luzes de um prédio maior em nossa frente iluminava o seu perfil. Depois de alguns minutos, percebi que as lágrimas sobre seu rosto haviam secado, embora ele continuasse suspirando e evitando dirigir o olhar a mim. Seu perfil também era um tanto “não-defeituoso” demais para o meu gosto, e isso me intimidaria normalmente, caso não tivesse o encontrado em um estado tão... vulnerável.

Ele finalmente havia conduzido seu olhar para mim, e em seguida conduziu-o para o pacote ainda embrulhado em minhas mãos — foi quando me dei conta de que tinha até esquecido do que havia planejado para aquela noite. É estranho como algumas coisas tomam rumos completamente diferentes, isso não costumava acontecer muito em minha vida. Era tudo sempre previsível e não-promissor.

— O que é isso? — Perguntou ele, recuperando seu tom de voz.

— Twizzlers. — Abri o pacote e puxei um para ele. — Uma daquelas pequenas coisas clichés da vida que te ajudam a produzir serotonina. Afinal, quem precisa de lítio quando se pode comprá-los em uma mercearia logo na esquina?

Ele riu para si mesmo, baixando a cabeça e balançando-a em ironia.

— Eu não acredito nisso — proferiu ele, — resolvo me suicidar e acabo comendo doces de alcaçuz com uma garota bonita. E eu ainda já me atrevi a me chamar de azarado.


Minhas bochechas enrubesceram na palavra “bonita”. Eu deveria agradecer a pouca iluminação por isso.

— Eu tentei me matar e acabei aqui neste mesmo lugar. Talvez seja o destino, ou algo assim.

Ele riu, e eu gostaria muito de ter a permissão de ter gravado aquele som. Eu acabei de fazer alguém rir? Eu realmente acabei de salvar a vida de alguém?

E então o sorriso se foi, deixando apenas uma breve sombra, como se tivesse caído na realidade novamente. Ele suspirou e mordiscou o doce em silêncio.

— Como você sabia da chave? — Perguntei, puxando um Twizzler do pacote.

— Acho que foi fácil. Eu pisei no último degrau e ele meio que saiu do lugar, quando encontrei a chave já havia me conformado de que talvez era mesmo para eu estar aqui. — Ele suspirou.

— Então você realmente acredita nessas coisas? — Inquiri.

— Ultimamente eu não acredito nem desacredito de nada. E tô começando a gostar da ideia.— Ele me dirigiu um sorriso torto.

Limitei-me a ficar quieta desta vez, ainda agradecendo a pouca iluminação e apenas dividindo um pacote de alcaçuz com o garoto quase-suicida.



— Eu sou Cameron, a propósito. — Disse ele.

Cameron, esse era o nome do garoto suicida. Ele não tinha cara de Cameron, pensei. Ele tinha cara de Caleb, ou algo um pouco mais sofisticado. Demorei alguns segundos para perceber que seu olhar era uma pergunta, esperando que eu também me apresentasse.


— Silver. — Respondi, — Eu sei, eu sei... E esse é o momento em que você faz alguma piada sobre meu nome. — Acrescentei, ligeiramente.

Um sorriso se formou novamente em seu rosto, mas algo em seus olhos me dizia que não era por escárnio.

— Eu gosto de Silver. Qual é o seu sobrenome?

— Clarke. Silver Autumn Clarke.

— Silver Autumn? — Ceeerto. Agora era escárnio.

Encolhi-me no fino roupão que eu vestia por cima de minha roupa casual e tentei conter o riso, mas não pude evitar. Fui uma criança de sorte por ter sido ensinada em casa ao invés de frequentar uma escola, privada de conviver com outras pessoas da minha idade desde meus dez anos.

— Sim, sou como um “outono prateado”, ou algo assim. Uma mãe hippie e um pai britânico, faça as contas e talvez você compreenda.

Ele balançou a cabeça em compreensão. — Isso explica muita coisa. — Cameron riu novamente. O garoto chorando e ameaçando de se jogar de um prédio era apenas uma breve memória agora.

— Apenas não ria de mim em meu aniversário, certo? — Ordenei, tentando um falso tom de seriadade. Seu semblante se fechou para uma expressão estável, e ele não me parabenizou, mas me desejou um feliz aniversário. Em poucos minutos o relógio marcaria meia noite, e eu completaria dezesseis anos oficialmente.



— Então temos um trato: não irei rir de você no dia do seu aniversário, e você não irá rir de mim no dia que eu escolhi pra morrer, fechado?



— Fechado. — Confirmei, e selamos o acordo com um aperto de mão.

Aquela foi a primeira vez que eu havia conversado por mais de cinco minutos com alguém em semanas, e por algum motivo, me senti melhor assim.

Mesmo fora da clínica, eu nunca fui do tipo que precisa de amigos. Eu vou ao cinema sozinha, e leio livros sem ninguém me interromper com qualquer assunto idiota, e não recebo mensagens de texto diariamente. Eu sou minha melhor amiga e minha maior crítica e minha maior inimiga ao mesmo tempo. Eu tenho diálogos profundos com pessoas imaginárias em minha cabeça e comigo mesma, e essas “pessoas” são legais. Elas são minhas amigas. Mas elas não são reais.


Naquela noite eu havia percebido que por mais que eu me conforme — ou me force a acreditar — de que não preciso de mais ninguém, cada um de nós precisa de alguém, por mais piegas que isso seja. E Cameron pôde suprir essa necessidade de relação com outras pessoas que até então eu nem sabia que sustentava por tanto tempo.

Nós simplesmente permanecemos ali, conversamos sobre coisas banais enquanto o ponteiro pulava de hora em hora no relógio em meu pulso até um sol começar a nascer no horizonte, e ambos tivemos que ir para nossos devidos alojamentos — vulgo, prisões.

Quando nos despedimos, eu havia tomado conta que esquecera de perguntar por seu andar, ou pelo menos seu sobrenome. A verdade é que eu não queria saber. Ele não me perguntou sobre meus problemas, e eu não perguntei sobre os dele. Isso foi o que nos manteve durante aquela noite.

Notas finais
Essa é a coisa mais "cheesy" que eu já escrevi até então, e ao mesmo tempo a que mais venho me empenhando em continuar. É a primeira história que publico aqui, e uma das poucas cujo tema não envolve "ficção científica", então não esperem algo muito complexo, mas espero que se envolvam no ritmo dela. Antecipadamente me desculpo por não ser uma das melhores coisas que você já leu em sua vida, ou algo do tipo. Francamente, essa não é a intenção. Eu só preciso calar as vozes e pensamentos que rondam a minha cabeça durante os dias (e as noites também). Feedbacks seriam bastante motivadores.