Brida
7 Uma visita
Notas iniciais
O prédio antigo ficava no centro da cidade, num lugar que hoje em dia só é freqüentado por turistas em busca do romantismo do século passado. Brida precisou esperar uma semana até que Wicca resolvesse atendê-la; Aquele edifício se encaixava perfeitamente no modelo de sua busca;
Foi para o elevador e subiu para o sétimo andar onde a moça da recepção lhe falou onde a sala da Wicca ficava. Tocou a campanhia da única porta que tinha naquele andar, achei muito estranho só ela ter uma sala privada.
Um cachorro latiu do lado de dentro. Depois de alguma demora, uma mulher magra, bem vestida, e com um ar severo, veio atendê-la.
— Fui eu quem telefonou – disse Brida.
Wicca fez sinal para que entrasse, e sua sala era uma bela harmonia de cinza com preto, com algumas obras de arte que colecionava. Cortinas cinzas para combinar com a sala e ajudava ao sol não entrar muito ali. O ambiente estava dividido em vários planos, distribuindo com harmonia os sofás, a mesa de jantar, e a biblioteca farta em livros.
“Deve ter custado muito caro”, foi o único pensamento cabível naquele momento.
— Você é muito jovem – disse Wicca, finalmente.
Brida ficou em silêncio, esperando o próximo comentário, enquanto tentava imaginar o que um ambiente tão moderno como aquele fazia num prédio tão antigo.
— Ele me telefonou – disse Wicca; Brida entendeu que ela estava se referindo ao livreiro.
— Vim em busca de um Mestre. Quero trilhar o caminho da magia.
Wicca olhou para a menina. Ela de fato possuía um Dom. Mas precisava saber por que o Mago de Folk se interessara tanto por ela.
Levantou-se, foi até a estante e pegou o seu baralho preferido.
— Sabe jogar? – perguntou.
Brida balançou a cabeça afirmativamente. Tinha feito alguns cursos, sabia que o baralho na mão da mulher era um tarot, com suas setenta e oito cartas.
Mas a mulher manteve o baralho com ela. Misturou as cartas, colocou-as na mesinha de vidro, com as faces voltadas para baixo.
Era a carta número 23. Um rei de paus.
— Boa proteção – disse ela. – De um homem poderoso, forte, de cabelos negros.
— Não pense em seu aspecto físico – disse Wicca, como se estivesse adivinhando seu pensamento. – Pense na sua Outra Parte.
— O que é a Outra Parte? – Brida estava surpresa com a mulher. Ela lhe inspirava um respeito misterioso, uma sensação diferente da que tivera com o Mago, ou com o livreiro.
Wicca não respondeu à pergunta. Apenas retirou a carta e pediu que ela a segurasse. Brida segurou, sem saber direito o que devia fazer.
— Seu lado mais forte sempre foi mulher em outras encarnações – disse ela.
— O que é a Outra Parte? – insistiu Brida. Era a primeira vez que desafiava aquela mulher. Mesmo assim, era um desafio cheio de timidez.
Wicca mais uma vez ficou em silêncio e logo pensou que o Mago não lhe ensinou o que era a Outra Parte. "Bobagem", pensou consigo mesma, algum momento irá aprender o que é.
— A Outra Parte é a primeira coisa que as pessoas aprendem quando querem seguir a Tradição da Lua – respondeu. – Só entendendo a Outra Parte é que se entende como o conhecimento pode ser transmitido através do tempo.
Ela ia explicar. Brida ficou em silêncio, ansiosa.
— Somos eternos, porque somos manifestações de Deus – disse Wicca.
“A Noite Escura da Fé”, pensou Brida. Ela também existia na Tradição da Lua.
— O fato é que isto acontece – continuou Wicca. – E quando as pessoas pensam em reencarnação, elas sempre se defrontam com uma pergunta muito difícil: se no começo existiam tão poucos seres humanos sobre a face da Terra, e hoje existem tantos, de onde vieram essas novas almas?
— A resposta é simples – disse Wicca. – Em certas reencarnações, nós nos dividimos. Assim como os cristais e as estrelas, assim como as células e as plantas, também nossas almas se dividem.
— E só uma destas partes tem a consciência de quem é? – perguntou Brida.
— Fazemos parte do que os alquimistas chamam de Anima Mundi, a Alma Mundi, a Alma do Mundo – disse Wicca, sem responder a Brida.
Wicca parou, de repente, e ficou olhando o baralho espalhado sobre a mesa.
— São muitas cartas – continuou –, mas fazem parte do mesmo baralho.
— E como posso saber que é a minha Outra Parte? – ela considerava esta pergunta como uma das mais importantes que fizera em toda a sua vida.
Wicca riu. Também já se perguntara a respeito disto, com a mesma ansiedade que aquela menina a sua frente. Era possível conhecer a Outra Parte pelo brilho nos olhos – assim, desde o início dos tempos, as pessoas reconheciam seu verdadeiro amor. A Tradição da Lua tinha um outro processo: um tipo de visão que mostrava um ponto luminoso acima do ombro esquerdo da Outra Parte. Mas ainda não ia contar isto para ela; talvez ela terminasse aprendendo a ver este ponto, talvez não. Em breve teria a resposta.
— Correndo riscos – disse para Brida. – Correndo o risco do fracasso, das decepções, das desilusões, mas nunca deixando de buscar o Amor. Quem não desistir da busca, vencerá.
— Podemos encontrar mais de uma Outra Parte em cada vida?
“Sim”, pensou Wicca, com certa amargura. E quando isto acontece, o coração fica dividido e o resultado é dor e sofrimento.
— A essência da Criação é uma só – disse. – E esta essência chama-se Amor. O Amor é a força que nos reúne de volta, para condensar a experiência espalhada em muitas vidas, em muitos lugares do mundo.
O cachorro latiu na cozinha. Wicca acabou de recolher o baralho da mesa e olhou mais uma vez para Brida.
— Também podemos deixar que nossa Outra Parte siga adiante, sem aceitá-la, ou sequer percebê-la. Então precisaremos de mais uma encarnação para nos encontrar com ela.
“E por causa do nosso egoísmo, seremos condenados ao pior suplício que inventamos para nós mesmos: a solidão.”
Wicca levantou-se e conduziu Brida até a porta.
—Foi muito bom ter essa conversa com você.- Disse Wicca encantada com a pureza da menina.
—Gostei muito de ter conversado contigo, aprendi várias coisa.- Sorriu Brida.
Brida sentiu-se uma pessoa especial. Precisava sentir-se assim – aquela mulher inspirava um respeito que pouca gente lhe havia inspirado.
— Não foi para saber da Outra Parte que você veio até aqui – disse ela, antes de se despedir. – Você tem um Dom, e depois que eu souber que Dom é este, talvez possa lhe ensinar a Tradição da Lua.
“Porque a Tradição da Lua não precisa de florestas escuras”, pensou.
—Obrigada Wicca pelos ensinamentos, mas realmente preciso ir- Disse Brida, envergonhada.
—De nada, Brida!-
Saiu da sala, desceu no elevador, pegou o táxi e foi para sua casa com o pensamento sobre o dom que Wicca falou.
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