Brida

14 O retorno


Notas iniciais
passei muito tempo sem postar por aqui e foi por bons motivos. dessa vez eu não vou fazer que vou postar toda semana, pois, sempre sumo. com esse sumiço fiz 3 cap e juntei nesse aqui. espero que gostem. enjoyyy

Fizeram uma longa viagem de volta. Todas as vezes que Brida queria tocar no assunto, Wicca mostrava-se interessada no aumento do custo de vida, no trânsito congestionado do final da tarde, e nas dificuldades que o síndico do seu prédio estava criando.

Só quando estavam sentadas de novo nas duas poltronas, é que Wicca comentou a experiência.

— Quero lhe dizer uma coisa – falou. – Não se preocupe em explicar emoções. Viva tudo intensamente, e guarde o que sentiu como uma dádiva de Deus. Se você acha que não vai conseguir agüentar um mundo onde viver é mais importante do que entender, então desista da magia.

“A melhor maneira de destruir a ponte entre o visível e o invisível é tentando explicar as emoções.”

As emoções eram cavalos selvagens, e Brida sabia que em nenhum momento a razão conseguia dominá-las por completo. Certa vez teve um namorado, que havia partido por uma razão qualquer. Brida ficou em casa durante meses, explicando todo dia para si mesma as centenas de defeitos, as milhares de inconveniências daquele relacionamento. Mas toda manhã acordava e pensava nele, e sabia que se ele telefonasse, terminaria aceitando um encontro.

O cachorro na cozinha latiu. Brida sabia que era um código, a visita estava encerrada.

— Por favor, nem conversamos! – implorou ela. – E eu precisava fazer pelo menos duas perguntas.

Wicca levantou-se. A menina sempre achava um jeito de ter perguntas importantes justamente na hora de sair.

— Queria saber se os sacerdotes que vi realmente existiram.

— Temos experiências extraordinárias e menos de duas horas depois estamos tentando convencer a nós mesmos de que elas são produtos de nossa imaginação – disse Wicca, enquanto ia até a estante. Brida lembrou-se do que havia pensado no bosque sobre pessoas que têm medo do extraordinário. E ficou com vergonha de si mesma.

Wicca voltou com um livro nas mãos.

— Os cátaros, ou os Perfeitos, eram sacerdotes de uma igreja criada no sul da França, no final do século XII. Acreditavam em reencarnação, e no Bem e Mal absolutos. O mundo era dividido entre os escolhidos e os perdidos. Não adiantava tentar converter ninguém.

“O desprendimento dos cátaros com relação aos valores terrenos fez com que os senhores feudais da região do Languedoc adotassem sua religião; não precisavam mais pagar as pesadas taxas que a Igreja Católica exigia na época. Ao mesmo tempo, como os bons e os maus já estavam definidos antes de nascer, os cátaros tinham uma atitude muito tolerante com relação ao sexo – e, principalmente, a mulher. Eram rigorosos apenas com aqueles que recebiam a ordenação sacerdotal.

“Tudo ia muito bem até que o catarismo começou a se espalhar por muitas cidades. A Igreja Católica sentiu a ameaça, e convocou uma cruzada contra os hereges. Durante quarenta anos, cátaros e católicos travaram batalhas sangrentas, mas as forças legalistas, com o apoio de várias nações, conseguiram finalmente destruir todas as cidades que haviam adotado a nova religião. Sobrou apenas a fortaleza de Monsegur, nos Pirineus, onde os cátaros resistiram até que o caminho secreto – por onde recebiam suprimentos – foi descoberto. Numa manhã de março de 1244, depois da rendição do castelo, duzentos e vinte cátaros atiraram-se cantando na imensa fogueira acesa na base da montanha onde o castelo fora construído.”

Wicca disse tudo aquilo com o livro fechado no colo. Só quando acabou a história foi que abriu suas páginas, e procurou uma fotografia.

Brida olhou a foto. Eram ruínas, com a torre quase toda em pedaços, mas as muralhas intactas. Ali estava o pátio, a escada por onde Loni e Talbo subiram, a rocha que se misturava com a muralha e a torre.

— Você disse que tinha outra pergunta para me fazer.

A pergunta já não tinha mais importância. Brida não estava conseguindo pensar direito. Sentia-se esquisita. Com algum esforço, lembrou-se do que queria saber.

— Quero saber por que você perde seu tempo comigo. Por que deseja me ensinar.

— Porque assim manda a Tradição – respondeu Wicca. – Você se dividiu pouco nas sucessivas encarnações. Pertence ao mesmo tipo de gente que eu e meus amigos pertencemos. Nós somos as pessoas encarregadas de manter a Tradição da Lua.

“Você é uma bruxa.”

Brida não prestou atenção no que Wicca disse. Nem sequer lhe passou pela cabeça que precisava marcar um novo encontro: tudo que ela queria naquele momento era ir embora, descobrir coisas que a trouxessem de volta a um mundo familiar; uma infiltração na parede, um maço de cigarros atirado no chão, alguma correspondência esquecida em cima da mesa do porteiro.

“Tenho que trabalhar amanhã.” Estava de repente preocupada com o horário.

Na condução de volta para casa, começou a fazer uma série de cálculos sobre o faturamento das exportações de sua firma na semana anterior, e conseguiu descobrir uma maneira de simplificar certos procedimentos no escritório. Ficou muito contente: seu chefe podia gostar do que estava fazendo, e quem sabe, lhe dar um aumento.

Chegou em casa, jantou, assistiu um pouco de televisão. Depois passou os cálculos sobre as exportações para o papel. E caiu exausta na cama.

O faturamento das exportações tinha ganho importância em sua vida. Era para trabalhar neste tipo de coisas que era paga.

O resto não existia. O resto era mentira.

Durante uma semana, Brida acordou sempre na hora marcada, trabalhou na firma de exportações com a maior dedicação possível, e recebeu merecidos elogios do chefe. Não perdeu uma só aula da Faculdade, e se interessou por todos os assuntos de todas as revistas que estavam nas bancas de jornais. Tudo que precisava fazer era não pensar. Quando, sem querer, lembrava-se que conheceu um Mago na montanha e uma bruxa na cidade, as provas do próximo semestre, e o comentário que certa amiga havia feito sobre outra amiga afastavam estas lembranças.

Sexta-feira chegou, e seu namorado foi encontrá-la na porta da Faculdade, para um cinema. Depois, foram ao bar que freqüentavam, conversaram sobre o filme, os amigos, e sobre o que tinha acontecido no trabalho de cada um. Encontraram amigos que estavam voltando de uma festa, jantaram com eles, dando graças a Deus por Dublin ter sempre um restaurante aberto.

Às duas horas da manhã os amigos se despediram, e os dois resolveram ir até a casa dela. Assim que chegaram, ela colocou Iron Butterfly no toca-discos, e serviu um uísque duplo para cada um. Ficaram abraçados no sofá, em silêncio e distraídos, enquanto ele acariciava os seus cabelos, e depois os seus seios.

— Foi uma semana louca – disse ela, de repente. – Trabalhei sem parar, preparei todos os exames, e fiz todas as compras que estavam faltando.

O disco acabou. Ela levantou-se para trocar o lado.

— Sabe a porta do armário da cozinha, aquela que havia despregado? Finalmente consegui arranjar um tempo para chamar alguém que a consertasse.

“E tive de ir várias vezes ao banco. Uma para pegar o dinheiro que papai me enviou, outra para depositar cheques da firma, e outra...”

Lorens estava olhando fixamente para ela.

— Por que você está me olhando? – disse. Seu tom de voz era agressivo. Aquele homem na sua frente sempre quieto, sempre olhando, incapaz de dizer algo inteligente, era uma situação absurda. Não precisava dele. Não precisava de ninguém.

“Por que você está me olhando?”, insistiu.

Mas ele não disse nada. Levantou-se também e, com todo carinho, a trouxe de volta para o sofá.

— Você não presta atenção em nada do que digo – falou Brida, desnorteada.

Lorens deitou-a de novo em seu colo.

“As emoções são cavalos selvagens.”

— Conte-me tudo – falou Lorens com ternura. – Saberei ouvir e respeitar sua decisão. Mesmo que seja outro homem. Mesmo que seja uma despedida.

“Estamos juntos há algum tempo. Não conheço você inteiramente, não sei como você é. Mas sei como você não é. E você não tem sido você durante toda a noite.”

Brida teve vontade de chorar. Mas já havia gasto muitas lágrimas com noites escuras, com tarots que falavam, com florestas encantadas. As emoções eram cavalos selvagens – nada mais restava do que libertá-los, afinal.

Sentou-se diante dele, lembrando que tanto o Mago como Wicca gostavam desta posição. Depois, sem interrupções, contou tudo que havia se passado desde seu encontro com o Mago na montanha. Lorens ouviu em silêncio total. Quando ela falou da fotografia, Lorens perguntou se, em algum dos seus cursos, ela já ouvira falar dos cátaros.

— Sei que você não acredita em nada do que lhe contei – respondeu. – Você acha que foi meu inconsciente, que eu me lembrei de coisas que já sabia. Não, Lorens, nunca ouvi falar dos cátaros antes. Mas sei que você tem explicações para tudo.

Sua mão tremia, sem que ela pudesse controlar. Lorens levantou-se, pegou uma folha de papel, e fez dois furos – a uma distância de vinte centímetros um do outro. Colocou a folha na mesa, apoiada na garrafa de uísque, de modo que ficasse na vertical.

Depois foi até a cozinha e trouxe uma rolha.

Sentou-se na cabeceira da mesa, e empurrou o papel com a garrafa para o outro extremo. Em seguida, colocou a rolha na sua frente.

— Venha até aqui – disse ele.

Brida levantou-se. Estava tentando esconder as mãos trêmulas, mas ele parecia não dar a menor importância.

— Vamos fingir que esta rolha é um elétron, uma das pequenas partículas que compõem o átomo. Entendeu?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Pois bem, preste atenção. Se eu tivesse aqui comigo certos aparelhos complicadíssimos que me permitem dar um “tiro de elétron”, e se eu disparasse em direção àquela folha, ele ia passar pelos dois buracos ao mesmo tempo, sabia? Só que ele ia passar pelos dois buracos sem se dividir.

— Não acredito – disse ela. – É impossível.

Lorens pegou a folha e jogou no lixo. Depois guardou a rolha no lugar de vinte centímetros um do outro. Colocou a folha na mesa, apoiada na garrafa de uísque, de modo que ficasse na vertical.

Depois foi até a cozinha e trouxe uma rolha.

Sentou-se na cabeceira da mesa, e empurrou o papel com a garrafa para o outro extremo. Em seguida, colocou a rolha na sua frente.

— Venha até aqui – disse ele.

Brida levantou-se. Estava tentando esconder as mãos trêmulas, mas ele parecia não dar a menor importância.

— Vamos fingir que esta rolha é um elétron, uma das pequenas partículas que compõem o átomo. Entendeu?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Pois bem, preste atenção. Se eu tivesse aqui comigo certos aparelhos complicadíssimos que me permitem dar um “tiro de elétron”, e se eu disparasse em direção àquela folha, ele ia passar pelos dois buracos ao mesmo tempo, sabia? Só que ele ia passar pelos dois buracos sem se dividir.

— Não acredito – disse ela. – É impossível.

Lorens pegou a folha e jogou no lixo. Depois guardou a rolha no lugar de onde havia retirado – era uma pessoa muito organizada.

— Não acredite, mas é verdade. Todos os cientistas sabem disto, embora não consigam explicar.

“Eu também não acredito em nada do que você me disse. Mas sei que é verdade.”

As mãos de Brida ainda tremiam. Mas ela não chorava, e não perdia o controle. Tudo que percebeu foi que o efeito do álcool havia passado completamente. Estava lúcida, uma lucidez estranha.

— E o que os cientistas fazem diante dos mistérios da ciência?

— Entram na Noite Escura, para usar um termo que você me ensinou. Sabemos que o mistério não irá nos abandonar nunca – então aprendemos a aceitá-lo, e a conviver com ele.

“Acredito que isto está presente em muitas situações da vida. Uma mãe que educa um filho deve sentir-se mergulhando na Noite Escura. Ou um imigrante que vai para longe da pátria em busca de trabalho e dinheiro. Todos acreditam que seus esforços serão recompensados, e que um dia vão entender o que aconteceu no caminho – e que, na época, parecia tão assustador.”

“Não são as explicações que nos levam para a frente; é a nossa vontade de seguir adiante.”

Naquela noite teve um sonho lindo, com mares e ilhas cobertas de árvores. Acordou de madrugada, e ficou contente porque Lorens estava dormindo ao seu lado. Levantou-se e foi até a janela do seu quarto, olhar Dublin adormecida.

Lembrou-se do seu pai, que costumava fazer isto quando ela acordava com medo. A lembrança trouxe de volta uma outra cena de sua infância.

Estava na praia com o pai, e ele pediu para ver se a temperatura da água estava boa. Ela estava com cinco anos, e ficou contente de poder ajudar; foi até à beira da água e molhou os seus pés.

“Coloquei os pés, está fria”, disse para ele.

O pai pegou-a no colo, caminhou com ela até a beira do mar, e, sem qualquer aviso, atirou-a dentro da água. Ela levou um susto, mas depois ficou contente com a brincadeira.

“Como está a água?”, perguntou o pai.

“Está gostosa”, respondeu.

“Então, daqui para a frente, quando você quiser saber alguma coisa, mergulhe nela.”

Tinha esquecido esta lição com muita rapidez. Apesar de ter apenas 21 anos, já havia se interessado por muitas coisas, e desistido com a mesma rapidez com que se apaixonava por elas. Não tinha medo das dificuldades – o que a assustava era a obrigação de ter que escolher um caminho.

Escolher um caminho significava abandonar outros. Tinha uma vida inteira para viver, e sempre pensava que talvez se arrependesse, no futuro, das coisas que queria fazer agora.

“Tenho medo de me comprometer”, pensou consigo mesma. Queria percorrer todos os caminhos possíveis, e ia acabar não percorrendo nenhum.

Nem mesmo na coisa mais importante de sua vida, o amor, havia conseguido ir até o fim; depois da primeira decepção, nunca mais entregou-se por completo. Temia o sofrimento, a perda, a inevitável separação. Claro, estas coisas estavam sempre presentes na estrada do amor – e a única maneira de evitá-las era renunciando a percorrer a estrada. Para não sofrer, era preciso também não amar.

Como se, para não enxergar as coisas ruins da vida, terminasse precisando furar os olhos.

“É muito complicado viver.”

Era preciso correr riscos, seguir certos caminhos e abandonar outros. Lembrou-se de Wicca falando das pessoas que seguem os caminhos apenas para provar que não servem para elas. Mas isto não era o pior. O pior era escolher, e ficar o resto da vida pensando se escolheu certo. Nenhuma pessoa era capaz de escolher sem medo.

Entretanto, esta era a lei da vida. Esta era a Noite Escura, e ninguém podia fugir da Noite Escura, mesmo que jamais tomasse uma decisão, mesmo que não tivesse coragem para mudar nada; porque isto em si já era uma decisão, uma mudança. E sem os tesouros escondidos na Noite Escura.

Lorens podia estar certo. No final, iriam rir dos medos que tiveram no início. Assim como ela riu das cobras e escorpiões que colocou na floresta. Em seu desespero, não se lembrara que o santo padroeiro da Irlanda, São Patrício, havia expulsado todas as cobras do país.

— Que bom que você existe, Lorens – disse baixinho, com medo que ele escutasse.

Voltou para a cama e o sono veio rápido. Antes, porém, lembrou de mais uma história com seu pai. Era um domingo e estavam almoçando na casa da sua avó, com a família toda reunida. Ela já devia ter uns catorze anos, e estava reclamando que não conseguia fazer determinado trabalho para a escola, porque tudo que começava a fazer terminava dando completamente errado.

“Talvez estes erros estejam lhe ensinando algo”, disse seu pai. Mas Brida insistia que não; que ela havia entrado por um caminho errado, e agora não havia mais jeito.

O pai pegou-a pela mão e foram até a sala onde a avó costumava ver televisão. Ali havia um grande relógio de pé, antigo, que estava parado há muitos anos, por falta de peças.

“Não existe nada de completamente errado no mundo, minha filha”, disse o seu pai, olhando o relógio.

“Mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.