Brida
12 Lagrimas com a multidão
Acordou com a água pingando em seu rosto. Tivera um sonho muito estranho, e não sabia o que aquilo significava; eram catedrais soltas no ar, e bibliotecas cheias de livros. Ela nunca entrara numa biblioteca.
— Loni, você está bem?
Não, ela não estava. Não conseguia sentir mais o pé direito, e sabia que aquilo era um mau sinal. Tampouco estava com vontade de conversar, porque não queria esquecer o sonho.
— Loni, acorde.
Deve ter sido a febre, fazendo com que delirasse. Os delírios pareciam muito vivos. Queria que parassem de chamá-la, porque o sonho estava desaparecendo, sem que ela conseguisse entendê-lo.
O céu estava nublado, e as nuvens baixas quase tocavam a torre mais alta do castelo. Ficou olhando as nuvens. Ainda bem que não conseguia ver as estrelas; os sacerdotes diziam que nem mesmo as estrelas eram completamente boas.
A chuva parou pouco depois que ela abriu os olhos. Loni estava contente com a chuva – isto significava que a cisterna do castelo devia estar cheia de água. Baixou lentamente os olhos das nuvens e viu de novo a torre, as fogueiras no pátio, e a multidão que andava de um lado para outro, desorientada.
— Talbo – disse ela, baixinho.
Ele a abraçou. Ela sentiu o frio de sua armadura, e o cheiro de fuligem nos seus cabelos.
— Quanto tempo se passou? Em que dia estamos?
— Você ficou três dias desacordada – disse Talbo.
Ela olhou para Talbo e teve pena dele; estava mais magro, o rosto sujo, a pele sem vida. Mas nada disto tinha importância – ela o amava.
— Tenho sede, Talbo.
— Não há água. Os franceses descobriram o caminho secreto.
Escutou de novo as Vozes dentro de sua cabeça. Durante muito tempo tinha odiado aquelas Vozes. Seu marido era um guerreiro, um mercenário que lutava a maior parte do ano, e ela tinha medo que as Vozes lhe contassem que ele havia morrido numa batalha. Tinha descoberto uma maneira de evitar que as Vozes falassem com ela – bastava concentrar seu pensamento numa árvore antiga que havia perto de sua aldeia. As Vozes sempre paravam de falar quando ela fazia aquilo.
Mas agora estava fraca demais, e as Vozes tinham voltado.
“Você vai morrer”, disseram as Vozes. “Mas ele será salvo.”
— Choveu, Talbo – insistiu ela. – Preciso de água.
— Foram apenas algumas gotas. Não deu para nada.
Loni olhou de novo as nuvens. Estavam ali a semana toda, e tudo o que tinham feito era afastar o sol, deixar o inverno mais frio e o castelo mais sombrio. Talvez os católicos franceses tivessem razão. Talvez Deus estivesse do lado deles.
Alguns mercenários se aproximaram do lugar onde os dois estavam. Por toda a parte havia fogueiras, e Loni teve a sensação de que estava no inferno.
— Os sacerdotes estão reunindo todo mundo, comandante – disse um deles para Talbo.
— Fomos contratados para lutar, e não para morrer – falou outro.
— Os franceses ofereceram a rendição – respondeu Talbo. – Disseram que aqueles que se converterem de novo à fé católica podem partir sem problemas.
“Os Perfeitos não vão aceitar”, as Vozes sussurraram para Loni. Ela sabia disto. Conhecia bem os Perfeitos. Era por causa deles que Loni estava ali, e não em casa – onde costumava esperar que Talbo voltasse das batalhas. Os Perfeitos estavam sitiados naquele castelo há quatro meses, e as mulheres da aldeia conheciam o caminho secreto. Durante todo este tempo trouxeram comida, roupas, munições; durante todo este tempo puderam se encontrar com seus maridos, e por causa delas fora possível continuar a luta. Mas o caminho secreto havia sido descoberto, e agora ela não podia voltar. Nem as outras mulheres.
Tentou sentar-se. Seu pé não doía mais. As Vozes lhe diziam que aquilo era um mau sinal.
— Não temos nada a ver com o Deus deles. Não vamos morrer por causa disto, comandante – disse outro.
Um gongo começou a soar no castelo. Talbo levantou-se.
— Me leva com você, por favor – ela implorou. Talbo olhou os seus companheiros, e olhou para a mulher que tremia a sua frente. Houve um momento em que não sabia que decisão tomar; seus homens estavam acostumados à guerra – e sabiam que os guerreiros apaixonados costumam esconder-se durante uma batalha.
— Vou morrer, Talbo. Me leva com você, por favor.
Um dos mercenários olhou para o comandante.
— Não é bom deixá-la aqui sozinha – disse o mercenário. – Os franceses podem fazer novos disparos.
Talbo fingiu aceitar o argumento. Sabia que os franceses não iam fazer novos disparos; estavam numa trégua, negociando a rendição de Monsegur. Mas o mercenário entendia o que se passava no coração de Talbo – ele também devia ser um homem apaixonado.
“Ele sabe que você vai morrer”, as Vozes disseram para Loni, enquanto Talbo a pegava gentilmente no colo. Loni não queria escutar o que as Vozes estavam dizendo; estava se lembrando de um dia em que caminhavam assim, através de um campo de trigo, numa tarde de verão. Naquela tarde também ficara com sede, e tinham bebido água num regato que descia da montanha.
Uma multidão se reuniu junto da grande rocha que se confundia com a muralha ocidental da fortaleza de Monsegur. Eram homens, soldados, mulheres e meninos. Havia um silêncio opressivo no ar, e Loni sabia que não era em respeito aos sacerdotes – mas medo do que poderia acontecer.
Os sacerdotes entraram. Eram muitos, os mantos negros com as imensas cruzes amarelas bordadas na frente. Sentaram-se na rocha, nas escadas externas, no chão em frente à torre. O último a entrar tinha os cabelos completamente brancos, e subiu até a parte mais alta da muralha. Seu vulto estava iluminado pelas chamas das fogueiras, o vento sacudindo o manto negro.
Quando ele parou, no alto, quase todas as pessoas se ajoelharam e, com as mãos postas, bateram três vezes com a cabeça no chão. Talbo e seus mercenários ficaram de pé; tinham sido contratados apenas para a luta.
— A rendição nos foi oferecida – disse o sacerdote, do alto da muralha. – Todos estão livres para partir.
Um suspiro de alívio correu por toda a multidão.
— As almas do Deus Estrangeiro permanecerão no reino deste mundo. As do Deus verdadeiro voltarão para a sua infinita misericórdia. A guerra continuará, mas não é uma guerra eterna. Porque o Deus Estrangeiro será vencido no final, mesmo tendo corrompido uma parte dos anjos. O Deus Estrangeiro será vencido, e não será destruído; permanecerá no inferno por toda a eternidade, junto com as almas que conseguiu seduzir.
As pessoas olhavam para o homem no alto da muralha. Já não estavam tão certas se desejavam escapar agora e sofrer por toda a eternidade.
— A Igreja Cátara é a verdadeira Igreja – continuou o sacerdote. – Graças a Jesus Cristo e ao Espírito Santo, conseguimos chegar à comunhão com Deus. Não precisamos reencarnar outras vezes. Não precisamos voltar de novo ao reino do Deus Estrangeiro.
Loni reparou que três sacerdotes saíram do grupo e abriram algumas Bíblias na frente da multidão.
— O consolamentum será distribuído agora aos que quiserem morrer conosco. Lá embaixo, uma fogueira nos espera. Será uma morte horrível, com muito sofrimento. Será uma morte lenta, e a dor das chamas queimando nossa carne não se compara com nenhuma dor que vocês tenham experimentado antes.
“Entretanto, nem todos terão esta honra; só os verdadeiros cátaros. Os outros estão condenados à vida.”
Duas mulheres se aproximaram timidamente dos sacerdotes que tinham as Bíblias abertas. Um adolescente conseguiu libertar-se dos braços de sua mãe e também se apresentou.
Quatro mercenários aproximaram-se de Talbo.
— Queremos receber o sacramento, comandante. Queremos ser batizados.
“É assim que a Tradição é mantida”, disseram as Vozes. “Quando as pessoas são capazes de morrer por uma idéia.”
Loni ficou aguardando a decisão de Talbo. Os mercenários tinham lutado a vida inteira por dinheiro, até descobrirem
que certas pessoas eram capazes de lutar apenas por aquilo que julgavam certo.
Talbo finalmente assentiu. Mas estava perdendo alguns de seus melhores homens.
— Vamos sair daqui – disse Loni. – Vamos para as muralhas. Eles já disseram que quem quiser pode ir embora.
— É melhor a gente descansar, Loni.
“Você vai morrer”, sussurraram as Vozes de novo.
— Quero olhar os Pirineus. Quero olhar o vale mais uma vez, Talbo. Você sabe que eu vou morrer.
Sim, ele sabia. Era um homem acostumado com o campo de batalha, conhecia os ferimentos que acabavam com seus soldados. A ferida de Loni estava aberta há três dias, envenenando seu sangue.
As pessoas cujas feridas não cicatrizavam podem durar dois dias ou duas semanas. Nunca mais que isto.
E Loni estava perto da morte. Sua febre havia passado. Talbo também sabia que isto era um mau sinal. Enquanto o pé doía e a febre queimava, o organismo ainda estava lutando. Agora já não havia mais luta – apenas a espera.
“Você não tem medo”, disseram as Vozes. Não, Loni não tinha medo. Desde criança sabia que a morte era apenas outro começo. Naquela época, as Vozes eram suas grandes companheiras.
Mas os franceses chegaram, dizendo que não existia um país cátaro. E desde a idade de oito anos, tudo que havia conhecido era a guerra.
A guerra lhe trouxera algo de muito bom: seu marido, contratado numa terra distante pelos sacerdotes cátaros, que jamais pegavam numa arma. Mas também lhe trouxera algo de mau: o medo de ser queimada viva, porque os católicos estavam cada vez mais próximos de sua aldeia. Começou a ter medo dos seus amigos invisíveis, e eles foram desaparecendo de sua vida. Mas ficaram as Vozes. Elas continuavam dizendo o que ia acontecer, e como devia agir. Mas não queria a amizade delas, porque sempre sabiam demais; uma Voz então lhe ensinou o truque da árvore sagrada. E desde que a última cruzada contra os cátaros havia começado, e que os católicos franceses venciam uma batalha atrás da outra, ela não ouvia mais as Vozes.
Hoje, entretanto, não tinha mais forças para pensar na árvore. As Vozes estavam de novo ali, e ela não se incomodava com isto. Ao contrário, precisava delas; elas iriam lhe ensinar o caminho, depois que morresse.
— Não se preocupe comigo, Talbo. Não tenho medo de morrer – disse ela.
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