Brick by brick

7 A pessoa com remorso, inventa uma pequena mentira


Notas iniciais
Último capítulo, espero que gostem.

Hermione acordou com dor de cabeça no dia seguinte. Não sabia se era por causa das três taças de vinho ou pelo remorso de ter feito algo proibido para sucumbir seu prazer. Ron roncava a seu lado, sua mão posicionada em cima de si. Lembrou-se da noite anterior, dos motivos de ser sempre ele o responsável por entregar sua face secreta. Sorriu, mas estava preocupada. E se ele ficasse doente por culpa dela? Se tivesse falta de ar e precisasse de ajuda para respirar? Se a doença progredisse para um quadro complicado e ele morresse por sua irresponsabilidade? Sua falta de autocontrole?

― Ron! – o chamou sem nenhum romantismo em sua voz, apenas desespero.

―Bom dia, meu amor... – ele sorriu levantando seu rosto tentando lhe beijar.

― Não! – ela levantou num pulo e se afastou dele. Segurou o lençol em volta de si e começou a dividir os cômodos a sua volta pela metade com uma barreira invisível.

― Voltamos ao capítulo dos territórios? – ele perguntou rindo do desespero dela.

Seus cabelos bagunçados e sua cara amassada logo pela manhã, era algo que não tinha presenciado nos últimos dias e sentia falta. Não resistiu, levantou, a abraçou pela cintura e começou a beijar a curvatura de seu pescoço.

―Não, não, não!

Saiu de perto dele automaticamente. Colocou uma barreira entre os dois para que ele não a pegasse desprevenida novamente.

― Hermione, não adianta mais... – ele ria.

― Adianta sim. Você pode não ter pego a doença ainda.

Ele abanou a cabeça negativamente com um ar risonho e apontou o banheiro.

― Vou tomar um banho, porque estou me sentindo ótimo e quero continuar me sentindo assim...

― Está se sentindo ótimo mesmo? Sem nenhuma dor, coriza? Sente o cheiro das coisas?

― Chegue perto de mim pra ver se consigo sentir seu cheiro.

Ele esticou suas mãos a chamando para perto de si, ela automaticamente deu um passo para trás, como se não estivesse rodeada de várias proteções que o impediam de chegar mais perto.

Ron começou a rir.

― Eu estou ótimo Hermione, não precisa ficar longe de mim. Eu não mordo.

― É... Não sabemos se está mesmo ótimo, pode até não morder, mas faz algumas coisas piores... Enfim... Vai tomar banho, vai.

Hermione conseguiu se trocar enquanto Ron tomava banho, foi até a cozinha e preparou um café para eles.

Encaminhou-se para a sala com uma bandeja e esperou que ele aparecesse para tomar o café da manhã com ela de frente a TV.

― Ainda não acredito que fizemos isso. – ela negava com a cabeça incrédula com a última noite.

Ron sorriu lembrando de tudo. Não se arrependia de mais nada, no começo se sentia culpado, agora estava extasiado e sabia que tinha feito a melhor escolha.

― É incrível o que três taças de vinho fazem com você.

Ela queria dizer que não havia sido só as taças de vinho, mas resolveu ficar quieta, era um álibi que poderia usar a seu favor para justificar atitudes tão imprudentes. Se bem que ela achava que no fim só piorava as coisas.

― Estou curioso, se continuássemos a brigar, como íamos dividir as coisas?

― Que coisas? – ela perguntou sem entender o que ele queria dizer.

― Nossos filhos por exemplo, iriam ficar com quem?

― Está dizendo que íamos nos separar? – perguntou incrédula ao marido.

― Ora Hermione, sabe que era imperdoável o que fez comigo.

Ela abriu a boca pronta para retrucar e voltar ao assunto preferido dele do isolamento, mas resolveu discutir o que ele havia levantado anteriormente.

― Os filhos sempre ficam com as mães, óbvio que eles morariam comigo.

― Com você? – apontou o dedo para ela. – A que esquece compromissos para trabalhar? Esqueceria deles por causa de trabalho, deixaria eles passando fome e brigaria com Rose todo o tempo.

Ela revirou os olhos e cruzou os braços para retrucar, mas não conseguiu, pois ele continuou a falar.

― ...Eles morariam comigo e Bichento também.

― Bichento? – ela começou a rir. – O Bichento? Você reclama o tempo todo dele, reclama quando ele dorme na nossa cama, do quanto ele é espaçoso, do fato de eu dar mais carinho a ele que a você...

― Sim, mas somos amigos e as crianças não ficariam longe dele. – surpreendentemente Bichento estava no colo dele, ronronava pedindo carinho ao dono. – Veja somos melhores amigos.

Era impossível para Ron não implicar com ela, em vários detalhes, mesmo tendo 40 anos, mesmo estando no mesmo relacionamento há mais de 20 anos. Amava ver seu nariz empinado, seus braços cruzados, suas sobrancelhas que desenhavam as mais diversas expressões. Era como ter sua Hermione de 11 anos todas as vezes que implicava com ela. Foi pensando nisso que confessou.

―Eu menti para você.

Ela o encarou confusa, tentando se lembrar do que ele poderia ter mentido.

― Sobre a série, Acasos e Descasos, não aconteceu aquilo, quem matou o Spencer não foi a Violet.

― Você mentiu? – ela abriu a boca indignada. – Eu sabia!

― Não sabia não. – ele riu. – Ficou furiosa, se quiser, posso assistir tudo de novo com você, prometo não contar nada.

Ela sorriu ponderando o pedido dele.

― Eu também menti quando disse que a Rose havia me mandado uma carta. Ela não mandou nada, na verdade só conversei com a Gina. Eu só queria te irritar. Rose com certeza escreveria para você primeiro.

― Sabe que tem razão em relação a Rose, implico demais com ela, cobro demais dela e... – aquele era o assunto que mais magoava ela, Hermione vivia se rebaixando em relação a sua maternidade, pensava que jamais seria suficiente e perfeita com os filhos como Ron.

― A Rose te ama. – ele procurou a mão dela, para acaricia-la, mas a barreira o impediu de completar o ato. – A adolescência é um pesadelo, sei que vão se acertar. Não sei como meus pais sobreviveram a sete filhos adolescentes, muito mais difícil do que sete filhos bebês.

Hermione riu pelo nariz pensando que ele estava certo, fora tão inocente ao pensar que os choros por cólica e o pós parto fosse a fase mais difícil da maternidade. A adolescência era um pesadelo.

― Você é uma ótima mãe, Hermione, somos ótimos pais. – ela concordou um pouco emocionada. Encarou o rosto dele, pequenos vincos na região dos olhos, algumas rugas já apareciam, e o fato de ter pouco cabelo na testa a fizera perceber que o tempo passava muito rápido.

― Eu tenho uma coisa pra te mostrar. – ela saiu da sala e foi até o escritório, pegou o laptop e voltou a se sentar ao lado do marido. – Estou escrevendo um livro.

― Outro sobre leis? – questionou já cansado pelo assunto que se seguiria.

― Não. Sobre você. – ele olhou impressionado para ela. – Não está pronto e nem sei se deixarei alguém ler algum dia. Mas queria te mostrar.

Ela entregou o laptop para ele. Ron observou o título, Brick by brick. Leu a dedicatória: “Ao meu marido, o único que me faz ser a melhor pessoa que poderia ser”.

― Não é sobre a guerra, é sobre a gente, sobre tudo o que passamos e continuamos a passar. Sobre nós como pais, é um livro que quis escrever para ser eterno. Tudo o que escrevemos se torna eterno de alguma maneira.

Hermione notou os olhos marejados de Ron.

― Acho que vai ser o primeiro livro que vou ler, mesmo que nunca seja publicado.

― Mentiroso, esqueceu de “Doze maneiras seguras de encantar bruxas”? – implicou com ele lembrando quando descobriu o livro de autoajuda em meio as caixas de mudança quando foram morar juntos.

― Aquele eu li porque estava desesperado para te conquistar. Esse vou ler pra ver o quanto sou irresistível e já estava apaixonada por mim desde sempre. – ela riu e voltou a implicar com ele.

Ficaram discutindo, ao mesmo tempo que implicavam um com o outro, também riam de tudo. Foi assim durante a manhã toda.

No começo da tarde, Hermione lembrou-se de algo.

Foi até o computador e pesquisou seu nome e o de Ron no laboratório que tinha suas amostras de sangue.

O resultado do exame estava a um clique.

― Saiu o resultado de nossos exames!

Anunciou a ele que estava na cozinha preparando comida para ambos.

― Resultado do que?!

― Se estamos com Covid! – explicou ao mesmo tempo que abria o resultado no computador.

“Hermione Jean Granger Weasley – não reagente.

Ronald Bilius Weasley – não reagente.”

Ambos estavam sem a doença. Nenhum dos dois estava infectado. Hermione não teve a doença. As informações faiscavam em seu cérebro ao mesmo tempo que várias conclusões se mostravam a ela. Se dissesse que não estavam com a doença eles poderiam sair com cautela para trabalhar, os filhos poderiam ficar em casa, não se sentiria mais culpada pelo que havia feito, era perfeito.

― Qual o resultado? – ele parou na porta do escritório curioso.

Hermione fechou o laptop e disse a resposta que ele queria ouvir.

― Nós dois estamos com Covid.

― Nós dois? – ele perguntou incrédulo. – Isso significa?

― Que temos que ficar em casa isolados mais uns 10 dias e não precisamos mais de barreiras.

― Isolados por 10 dias sem barreiras? – ele levantou a sobrancelha para ela. – Vou terminar o almoço. Pode ser carne?

― Sim, depois podemos assistir a série juntos, abraçados?

― Depois de fazer amor é claro.

― Olha quem está precisando de um cronograma agora.

― Não me importo com cronograma agora... Ao contrário de você que ama pregar post-its por todos os cômodos da casa.

Começaram a implicar um com o outro, rindo e sentindo-se apaixonados ao mesmo tempo. Era a essência de seu relacionamento com Ron, feito tijolo a tijolo, com fases difíceis de serem construídas, mas com uma base sólida impossível de ser destruída. Depois que os dez dias passassem ela poderia confessar sua mentirinha a ele, mas por hora Hermione aproveitaria a oportunidade que um exame de sangue trouxa poderia lhe proporcionar.

É nos grandes momentos que descobrimos quem somos e quem queremos ser. Também nesses momentos percebemos do que somos feitos. De tijolo a tijolo construímos não muros, mas moradias. No meio de uma pandemia Hermione percebeu que lar não é lugar, é pessoa.

Notas finais
Aparentemente eu deixei para postar tudo no último dia do ano e preciso fazer três despedidas. Gente essa fic foi feita para entretenimento baseada nos episódios de amor e sorte da série da Globo (que foi feita durante a quarentena), quis trazer algo leve sobre a doença, mas a gente sabe que as atitudes imprudentes geram riscos, não se aglomerem hoje, comemorem o ano novo com as pessoas que já convivem diariamente, a doença ainda não acabou apesar de querer quero esperanças, acho que ainda teremos muito com o que lidar com ela em 2021. Obrigada a você que leu e chegou até aqui. Me diga o que achou desse final, Obrigada por cada palavrinha em minhas histórias esse ano. ♥️
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!