Parte I — Capítulo I

o inferno é logo ali

Arthur acorda em um susto, a ponto de derrubar sua mochila no chão do ônibus; ele rapidamente a pega novamente e a abraça, como se fosse a coisa mais valiosa do mundo pra ele. Na realidade, ele está assustado como nunca esteve em toda a sua vida. Nem mesmo quanto esteve hospitalizado entre a vida e a morte ele sentiu tanto medo quanto na última semana.

Ele não dorme há exatos sete dias. Está exausto, mas mesmo quando fecha os olhos, a imagem de Imogen surge na sua mente e o que poderia ser um cochilo rápido, se torna em um pesadelo sem fim.

A lua brilha na noite. Sem nuvens, as estrelas estão a plena vista, deixando uma noite sombria iluminada e transmitindo uma sensação de calmaria entre os viajantes do ônibus: um velho que ronca alto, um casal de meia idade abraçados, uma mãe e uma criança que dormiu a pouco tempo, depois de chorar por quase meia hora. A paz é apenas uma ideia do que o mundo é para aquelas pessoas, mas para Arthur, é um presságio das coisas que precisará enfrentar em algumas horas.

Nunca, desde que se mudou para Cardiff, achou que precisaria voltar para Abeurfourth. Acreditou que essa parte da sua vida estaria pra sempre no passado, mas estava completamente enganado. Arthur massageia a têmpora, sentindo a dor de cabeça voltar; olha atentamente para o céu, imaginando que são suas duas últimas horas antes de se tornar novamente um prisioneiro do próprio sangue. Ele se aninha no encosto da poltrona, pede a cabeça para a janela, mas sua paz não dura nem mesmo alguns instantes.

Do lado de fora, surge bola de carne com asas rasgadas no lugar do que seriam os braços, além de pernas com dedos esqueléticos e grandes unhas – ou melhor, garras. A criaturinha não tem olhos; em compensação, tem grandes bocas e dentes demais.

Ninguém pode vê-lo, apenas Arthur.

— Rolo? — O garoto exclama. O tempo agora é quase inexistente; a criaturinha é um sinal de mal presságio e Arthur só tem tempo de afivelar o cinto forte no corpo e abraçar a mochila com toda a força que tem.

Tudo o que acontece em seguida é rápido demais: o ônibus freia de repente, mas é tarde demais. O impacto empurra os passageiros contra as poltronas a frente; alguns sequer tem tempo de acordar e entender o que está acontecendo. O ônibus vira de cabeça para baixo e capota incontáveis vezes. As janelas se quebram e cacos de vidro voam em todos os lugares, alguns perfurando a pele dos passageiros. Arthur sente uma dor de algo perfurante na região da perna, mas logo esquece, porque desmaia.

Acorda instantes depois com um cheiro cruel de carne podre e enxofre. O fedor quase o faz vomitar assim que recupera os sentidos, mas ele se mantém, porque começou a se acostumar com o cheiro. Já aconteceu antes no fim das contas.

Arhur respira fundo, seu rosto cortado; há um pedaço de vidro atravessando a carne da bochecha, mas sabe que está sem tempo: com a mão esquerda ele aperta o vidro, sentindo a lâmina cortar a mão, mas puxa mesmo assim, urrando de dor. Faz o mesmo com um pedaço de ferro que entrou na coxa.

— Merda...

A mochila, por sorte, permanece amarrada ao braço direito. Dentro, há uma coisa valiosa que ele precisa proteger até chegar em Abeurfourth, mas ele acha que vai levar mais do que meia hora pra chegar, agora que o ônibus está destruído. Ele consegue se levantar, mesmo com toda a dor; o ônibus está derrapado na estrada, capotado, as janelas viradas para baixo.

Não há tempo de ver se há sobreviventes; ele se apoia em uma poltrona e segura na janela quebrada, sentindo os cacos entrarem fundo da pele da mão. Com alguma dificuldade, ele consegue sair do ônibus, sentindo agora o vento frio no rosto. Limpa parte do sangue com a manga do casaco. O cheiro insuportável.

— Vamos lá, grandão, cadê você? Eu tenho hora pra chegar em... em casa!

— Alice Schultz... — Arthur sente um barro quente atrás de si. Não tem tempo de virar.

No instante seguinte, ele foi completamente empurrado a inúmeros metros a frente, atravessando e quebrando três árvores a dentro na floresta. Quando cai no chão, o urro que escapa dele é tão longo e amedrontador, que parece escapar da terra.

Arthur respira com dificuldade, e até tenta levantar na mesma hora, mas não consegue. Ele sente uma dor aguda na lateral do corpo; talvez uma ou duas costelas quebradas. A respiração rasga, falha. Queima. No chão úmido da noite, seus olhos azuis brilham enquanto contempla o céu infinito, completamente tomado pelas estrelas. Em Cardiff, ele não consegue ter aquela visão todas as noites.

Agora, em Abeurfourth, vai poder ver esse mesmo céu lotado de estrelas todas noites.

Da janela de seu quarto.

Pra sempre.

— Ok, chega de brincadeira.

Arthur fecha os olhos e puxa o ar com calma. Quando abre os olhos, um tom avermelhado toma conta deles. Devagar, ele se levanta e já percebe a criatura se aproximando dele.

É horrenda. Três ou quatro metros de altura. Ele não tem olhos, exatamente como Rolo. Sua pele escamosa é manchada em carne podre e feridas abertas. O corpo grande, sem pescoço. A boca corta a cabeça, grandes presas, mergulhadas em sangue e... baba?

— Que nojo — Arthur sussurra em uma cara feia, sentindo o gosto de sangue.

— Alice Schultz...

— Ei, coisa feia. Eu vou dizer isso só uma vez então presta bem atenção — a raiva começa a tomar conta do garoto, no lugar do cansaço. — Meu nome é Arthur.

Os músculos do garoto se contraem e uma corrente de energia atravessa seu corpo. O sangue corre pelas veias com uma velocidade anormal e o coração martela forte como um sino de igreja. Ele sente então, sua força sobre-humana crescendo em cada célula de seu corpo. Mira diretamente na criatura e posiciona os pés no chão. com um salto, ele racha o solo sob seus pés e voa pelo ar, aterrissando um chute certeiro no meio do rosto da criatura.

O impacto é brutal. Uma onda de vento percorre o local e até mesmo entorna alguns galhos mais pertos; o demônio é arremessado centenas de metros para trás, atravessando a pista e entrando floresta adentro, colidindo violentamente sob o solo, abrindo um gigantesco caminho com seu corpo.

A mochila ainda presa às costas. O corpo exausto. Mas ele caminha, um passo de cada vez, carregando a raiva nos pés. Tudo o que queria era uma viagem tranquila. Só isso. Atravessa a pista, olhando a frente do ônibus, completamente destruída.

Sente muito pelo motorista, que deve ter sido o primeiro a morrer. Ele respira fundo, e continua seu caminho. Pula no buraco na terra, no caminho que o corpo do demônio fez.

— Merda de demônio — Arthur pula em cima dele. — Eu não sei porque vocês estão me caçando, mas eu vou descobrir. Nem que eu tenha que ir até o inferno pra isso.

— Alice...

— Cala a boca, seu fracote de merda — o garoto tira de dentro da bolsa um pequeno frasco de vidro cheio de água; ele abre a tampa e despeja tudo no que supostamente seria o rosto daquela coisa horrenda. — Ainda bem que você é um dos fracos, porque isso aqui seria bem mais difícil. Grandão, aprende. De nada vale esse bando de músculos se você não tiver um pingo de inteligência.

A criatura grunhe alto, um urro de dor e angustia, que arranca um riso sincero do rosto de Arthur; a podridão exalando de cada parte de seu corpo enquanto ele queima com a água abençoada.

— Pra minha sorte, eu também tenho muita fé — ele pousa sua mão na região do rosto do demônio, faz uma cruz e recita, de olhos fechados: — In nomine Patris, Sancte Michael, esto mecum. Redi ad infernum. Mors mala te consumat.

A fumaça vinda do demônio fica mais intensa. Arthur sai de cima e volta para a estrada, respirando pesadamente. Em segundos, o barulho da criatura cessa e o local onde ela estava está agora vazio, com parte do solo queimado.

Arthur Schultz se abaixa ali mesmo, checa o relógio e o finalmente o percebe quebrado. É claro. Seu celular, ele nem mesmo sabe onde está. Ele olha para o lado, para o ônibus. Acima dele, a criaturinha de antes surge voando.

— Eu já falei pra você parar de aparecer pra mim!

"Mas você corria perigo!"

A conexão é estranha. Já acontece há uma semana e Arthur não quer admitir, mas já se acostumou com aquele relacionamento completamente esquisito. Rolo surge sempre antes de um desses demônios surgir para tentar matá-lo. Arthur entendeu isso da pior forma possível.

— De que adianta você aparecer se não me ajuda em nada?

"Eu sou pequeno, o que posso fazer?"

— Se tivesse aparecido antes, eu poderia ter parado o ônibus! Nenhuma dessas pessoas teria morrido, mas você é um demônio e não tem como entender isso, não é?!

"Meu trabalho é apenas alertar você!"

— Vai se foder!

Arthur da meia volta.

Ele nem precisa se olhar no espelho: sente cada parte do corpo gritar. O rosto está coberto de sangue, sua bochecha está em carne viva, seu olho, embora tenha voltado a ficar azul, está vermelho devido ao sangue, sua costela está quebrada, perna machucada pelo ferro. Somado ao cansaço extremo que está tomando conta do seu corpo. Mesmo assim, ele decide continuar seu caminho, até finalmente chegar em Abeurfourth e resolver o que seus amigos foram incapazes de resolverem sozinhos.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.