Bree Tanner -O Príncipe Que Nunca Chegou
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulos Dois:
Demorou algum certo tempo – tempo este que eu tentei calcular – para que minha mente voltasse a começar a trabalhar normalmente. O mundo, num instante, era apenas uma escuridão desconcertante e, no segundo seguinte, começava a ganhar formas dentro de formas, sons finos e grossos, longos e pequenos, suaves e ásperos. A devastadora escuridão começava a dissipar-se aos poucos, transformando-se em tons mais suaves. Borrões começavam a destacar-se entre grandes figuras negras diante de meus olhos.
Minhas pálpebras faziam um esforço gigantesco para se manterem abertas. A cada segundo, se tornava mais difícil manter meus olhos abertos e fixos em algum ponto específico. Porém, á cada segundo, meus olhos não se acostumavam com a luz. Eles tentavam se focarem em algo, mas era apenas um esforço inútil. Tudo o que existia eram borrões desconcertantes. A única diferença que existia era que os borrões mudavam de tons.
O tempo parecia ter sido congelado. O mundo parecia ser apenas um silêncio amedrontador. Em minha mente, parecia que a morte se aproximava. Talvez fosso ela que fizesse meus ossos arderem de frio. O mundo, em si, parecia ser de um frio congelador. Este mesmo frio que me congelava por dentro, chegava a tanto que parecia queimar.
Senti uma necessidade descontrolada de saber sobre o tempo. Não parecia-me ter sido minutos já se passados, entretanto, eu não conseguia me lembrar de já ter se parecido horas. Tudo o que eu realmente conseguia entender, o pouco de noção do mundo que sobrou, como algo que gritava por minha mente, era que Edward não estava bem. Seu rosto se fixava cada vez mais por minha mente e eu tentei me lembrar da última vez que nos vimos.
Uma sensação estranha percorria por meu pensamento ao tentar me lembra. Era como tentar carregar uma tonelada mental com apenas uma linha de pensamento. Os esforços chegavam a ser dolorosos, como dores agudas sobre minha cabeça. Pude sentir minhas veias saltando-se, protestando, mas eu não pude saber por quê. Meu corpo estava calmo – ou era isso que me parecia. Minhas mãos estavam cerradas com força, machucando as palmas de minhas mãos. Algo estava me deixando irritada. Meu corpo, como se tivesse atitudes próprias, estava contraindo-se contra algo, e isso não me pareceu ser algo que se devesse dar alguma atenção. Não me parecia ser nada importante.
– Não seja uma má menina. – a voz feminina, agora autoritária, de minha mãe ecoou por entre meus ouvidos, adentrando até meu ser, até surgir um reconhecimento. – Você nunca foi uma má menina, não envergonhe sua mãe. Acalme-se – sua voz tremeu minimamente, o pouco para me fazer estremecer. Minha mãe apenas estava tentando parecer calma, a dona da situação, como sempre fizera. Entretanto, o que ela realmente estava conseguindo era parecer mais preocupada. O que me pareceu, na realidade, era quê, pela primeira vez, ela não sabia o que fazer. Sua garganta fazia um esforço perceptível, eu pude perceber, para não chorar. As lágrimas lutando para se libertarem, pude fazer uma imagem mental do esforço que ela fazia ao tentar limpar sua garganta, para esconder as lágrimas.
Mãos firmes – não apenas duas, mas quatro delas – me prenderam ao duro material frio sob meu corpo. O material era tão duro que chegou a doer meus ossos, vibrava tanto que me chacoalhava loucamente. Alguma coisa em meu subconsciente, dizia-me que as coisas pareciam estar saindo do controle. Minhas mãos se elevaram, tentando agarrar o nada, tentando fazer aquilo parar, tentando encontrar algo que me ajudasse a chegar à superfície. Imediatamente, ao elevar minhas mãos, algo frio as tocou, tão docemente, tão carinhosamente e calmamente. Era como dedos, longos e finos, mas duros e frios como uma parede. Cheguei até a pensar que uma parede seria mais macia e confortável.
Algo naquele toque me machucou, era tão gelado que chegava a queimar. Minhas mãos arderam de uma maneira estranha, quase como se estivesse sendo picadas por insetos venenosos. Tentei puxar minhas mãos, com medo – um medo que me pareceu, por um instante, selvageria. Teria sido selvageria mesmo, eu tive que admitir. Ao puxar minhas mãos, usei quase toda minha força, mas pareceu não ser nada ao lado do que me segurava. Era como rochas ao redor de meu corpo todo, imobilizando-me. Aquilo me deixou furiosa, eu estava furiosa, de uma maneira que nunca consegui ficar.
– Acalme-se criança. – uma voz masculina, porém aveludada, surgiu próxima ao meu ouvido direito. A suavidade daquela voz não era deste mundo. A voz chegava a ser profunda, pronunciando as palavras com lentidão, com calma. Havia muita autoridade ali, eu pude perceber. A voz não era velha, pelo contrário, tão nova quanto a minha, mas aquela autoridade só poderia ter vindo de alguém mais experiente do que qualquer um naquele ambiente. Ao pronunciar as palavras, pareceu que o dono da voz não queria colocar muita autoridade, só que parecia impossível não ouvir aquela voz sem aquela autoridade, era uma característica única dela.
Apenas por ouvir o tom daquela voz, a maneira como ela pronunciava cada silaba, meu corpo pareceu acalmar-se. Meus músculos, antes contraídos, agora tombavam no que eu estivera deitada. Minha mente ainda estava agitada, era apenas o meu corpo que resolvera acalmar-se. Por dentro, entre pensamentos, eu estava fervendo. Meus pensamentos eram como larvas quentes caindo sobre minha mente. Sentia-me como se minha mente estivesse derretendo. Já não conseguia mais ouvir meus próprios pensamentos, como se algo estivesse me queimando por dentro.
Minhas veias queimavam como se existissem nelas milhares de partículas de pequenos pecados de vidro. Por um instante, eu pensei que estivesse pegando fogo – mas me pareceu ser algo impossível, ao pensar sobre isso. Havia pessoas naquela sala, o que eu julgava ser duas. As respirações delas eram pesadas, soltadas pela boca. Uma parecia ser quase um suspiro, outra era apenas um fio de respiração, quase imperceptível. Se eu pudesse abrir meus olhos, diria que esta estava mais próxima de mim, quase em cima da minha cabeça. A outra, porém, estava distante. Mesmo me sentindo como se ela estivesse próxima, me sentindo como se eu pudesse tocá-la, puro instinto me disse que ela estava do outro lado da sala, de onde eu me encontrava. O ar que soltava pela boca, fortemente, parecia voar com uma mórbida lentidão até mim.
– Sinto muito. – a voz masculina sussurrou, com pesar.
Houve um choro depois, um tão forte que foi impossível não querer chorar também. Os soluços, descontrolados, invadiram a sala com rapidez. Eles eram entrecortados, e logo vinha outro em seguida, tomando o lugar do anterior. Demorou um tempo razoável para que eu percebesse que o choro vinha do fundo da sala, e que era um choro suave – por assim dizer –, que só poderia ter vindo de uma mulher. Era minha mãe que chorava, minha mente limpou um pouco para que eu fosse capaz de perceber isso. A dor parecia rasgar teu peito, de uma forma que me destruiu por dentro. Quis dizer alguma coisa, quis ser capaz de me mover e dizer algo que a reconfortasse.
O seu choro sufocava-me por dentro. O chão parecia ter sido tirado sob seus pés, e eu quis recolocá-los. Há quanto tempo eu não á via chorar? Tempo suficiente para poder esquecer. Tempo este que eu nunca pensei que esqueceria, mas que por um instante, ele se fora completamente, como se nunca houvesse existido.
Eu não ouvia minha mãe chorar desde que papai se fora. Desde que seu caixão fora coberto por terra escura e flores brancas fossem jogadas na sepultura. Lembro-me de ver minha mãe chorar, de uma maneira descontroladamente. Seu rosto estava tão pálido naquele momento. Já não havia aquele sorriso bondoso ou aqueles olhos que pareciam dizer coisas bonitas, apenas por existir. Em seu lugar, no lugar da mulher forte e sincera que existia ali, fora deixado uma mulher ferida pela vida. Desde aquela manhã nublada, minha mãe nunca mais fora a mesma. Seus olhos nunca voltaram a recuperar o brilho natural. Entendi, com a convivência, que aquela luz fora apagada e nunca voltaria a ser ligada, novamente.
Escutar o pequeno murmúrio de seu choro dilacerou meu coração ao meio. É uma sensação aterrorizante ver uma das pessoas que você mais ama sofrer desta maneira, ainda mais sem poder fazer nada para mudar esta situação. Tudo o que eu mais queria era poder fazer alguma coisa, qualquer coisa, desde que passasse. Desde que fosse o suficiente para fazer qualquer dor ir embora. Eu a queria em mim, ferindo-me, mas não em minha pobre mãe, que sempre fora tão bondosa. Tudo o que eu queria era poder fazer aquilo tudo passar. Mas eu não podia.
Quis gritar, implorar para que ela não sofresse. Não era verdadeiramente importante o que acontecia comigo. Não importava o que estava acontecendo em meu corpo, que parecia dilacerar-me por dentro. O que verdadeiramente importava era minha mãe. Algo estava acontecendo, algo tão grave que a estava fazendo chorar, a fazendo demonstrar seus verdadeiros sentimentos, de uma maneira que há muito tempo eu não via. Eu simplesmente queria que ela não se importasse. Que ela não me amasse e não chorasse por mim.
– Como? – a voz fina da minha mãe sussurrou, novamente. Ela ainda chorava, sem ar. Era tão horrível a ver lutar, tentando de uma maneira, inútil, achar alguma solução para aquela situação indomável. – Como foi que ela pode ter pegado este vírus? – Ela parecia morrer um pouco a cada palavra. Era possível sentir em mim toda sua dor. Ela lutava, e continuaria lutando por mim, até o último momento. E eu apenas a queria ver parar. Queria apenas que ela não sofresse mais.
– Sua filha já não come há muito tempo. Seu corpo ficou muito fraco, repentinamente. As poucas devesas que lhes restaram não foram suficientes para acabar com o vírus no primeiro momento, quando ele ainda estava fraco, imperceptível. O vírus evoluiu. Agora, está impossível segurá-lo lá dentro, sem que ele destrua tudo que se encontre pelo seu caminho.
– Já são quase semanas delirando e queimando de febre. Ela parece já não estar mais aqui. A vida se esvaia dela á cada segundo. – Ele disse as palavras com rapidez, para que elas não parassem em sua boca, para não sentir o amargo sabor delas. — É tão perceptível isto. – ele lamentou.
Eram semanas. Semanas estas que eu nem conseguia me lembrar de terem se passado. Minha mente se acabou de tal maneira que o mundo, simplesmente, havia parado de existir. Borrões de realidades se passaram por minha mente, enquanto eu tentava me lembrar do que realmente havia acontecido. Lembro-me de ouvir qualquer coisa sobre eu estar doente, assim como Edward. Lembro-me de ouvir alguém dizer meu nome enquanto chorava. Lembro-me de quererem que eu comesse, mas eu já não conseguia encontrar meu corpo. Eu apenas tinha me tornado uma mente em um corpo vazio.
Mas desde quanto? O que fez meu mundo simplesmente desaparecer? Uma dor – veio a resposta. Uma dor que chegava a me matar por dentro, simplesmente por viver. Eu queria morrer. Nada mais importava. O meu mundo se transformou em algo que nem eu mesma podia suportar. Lembro-me de ouvir meu próprio grito, enquanto eu chorava nos pés da cama. Eu queria desaparecer, mas só encontrava forças para chorar. E quando as forças se foram, eu simplesmente fiquei imóvel, olhando para o telo, escutando o silêncio dos meus próprios pensamentos. Parecia, naquele segundo, que minha dor se fora. Eu estava em um estado inconsciente de mim. Eu era capaz de enxergar a realidade, mas não era capaz de entendê-la. A realidade se fora, os sentimentos se fora, a dor se fora.
Fora deste modo que eu deixei de existir. Passei a não viver. Passe a viver em uma realidade em que eu simplesmente não queria acreditar em mais nada. As coisas eram dolorosas demais para que eu pudesse encará-las. Então, eu simplesmente cheguei meus olhos. Deixei tudo deixar de existir. Deixei que minha mente se apagasse. Que meus olhos se apagassem para a realidade que eu não queria mais enxergar.
Minha mente lutou para não relembrar tudo no que se resumira minha dor, mas algo me manteve firme, mantendo-me aprisionada na realidade que eu tanto repudiava. A consciência voltava cada vez com mais freqüência, a dor se alastrava mais por entre meu ser, trazendo a realidade amarga átona. A imagem perfeita de Edward em meus braços voltou em minha mente. O amargo brilho da morte em sua angelical face. A aterrorizante sensação de seu corpo entre o meu, exalando a resposta que eu não queria entender. Lembro-me de olhar apavorada para os lados, enquanto mãos o tiravam de mim. Eu queria ficar com ele, queria poder cuidar dele, mas as forças fugiram-me. Meu mundo não fora apagado, mas eu não consegui entender o que aconteceu depois. A única coisa que venho, muito tempo depois, era a confirmação do que eu já sabia – mesmo não querendo admitir, nem para mim mesma. Estava morto. Edward estava morto. E meu coração também.
– Tudo só piorou quando ela descobriu... – minha mãe disse, mas eu já não conseguia me concentrar em suas palavras. Tudo o que me restara era a dor. – Pensei que ela não sofreria desta maneira. Sabia que ela nutria sentimentos em relação ao noivo, mas nunca pensei que realmente o amasse. – sua voz falhou ao mesmo tempo em que meu peito explodiu de dor. – Foi uma perda lamentável. O mundo perdera um dos melhores homens que já tivemos.
E eu perdera o único homem que amei. O mundo não me importava nenhum pouco. Tudo no que eu me importava era que eu nunca mais o veria novamente. Nunca mais sentiria o calor emanado pela sua voz aveludada. Nunca mais veria o brilho ofuscante das lagoas de seus olhos. Nunca mais sentiria o sabor de simplesmente saber que ele estava ali, ao meu lado, vivo, respirando, com o coração batendo. Seu coração estava congelado e o meu quebrado.
– Realmente fora uma perda lamentável. – respondeu a voz masculina perante a sala. Senti sua respiração falhar, perto do meu corpo agora imóvel. – E terá mais uma perda lamentável esta noite. – sua voz teve um ar sombrio que me fez tremer. Minha mãe, já tão cansada de lutar, simplesmente se deixou cair de uma vez, chorando e gritando, implorando para que alguém lá em cima me salvasse.
Ela chamou Deus, mas isso já não estava mais em suas mãos. Minha luta estava perdida, sua luta estava perdida. Meu corpo já se rendera a este mal que o dominava, vencendo-o pelo cansaço. Minhas forças simplesmente já não existiam mais. Meu corpo, agora, era pesado demais para que eu conseguisse me mover. O peso da morte já reinava sobre ele. E eu simplesmente deixei ser assim. Simplesmente caí no precipício que me levara à escuridão desconcertante que já reinara antes.
A morte não parecia ser tão ruim, acredite. Ela seria a chave para me libertar da dor. Ela seria o remédio eterno para que eu não precisasse abrir meus olhos novamente. Ela era calma e congelante. O modo que, a cada segundo, arrancava um pedaço da minha alma, não era algo que me deixasse amedrontada. Exatamente ao contrario. A deixei tomar tudo de mim, até o momento em que eu simplesmente parei de pensar, de sentir... De existir.
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