Breath of Life
2 Agora eles sabem
Notas iniciais
Finalmente ela estava só. As palavras firmes e a voz com entonação perfeita de Schmid não povoavam mais a sua mente. Estava relativamente em paz comparado aos dias anteriores: seus pensamentos estavam em ordem e seu corpo não era mais dominado por sentimentos explosivos. Agora tudo o que sentia era o latejar incessante em sua testa, tão forte que às vezes inibia as outras dores espalhadas pelo corpo.
Do lado de fora do prédio dos empregados ficava um cubículo rodeado de concreto que, no passado, devia ter sido um espaço de fumo para os funcionários. No apocalipse, era usado pelos “trabalhadores” de Arnold como banheiro. Havia uma mangueira com água gelada e um balde no canto, nada mais. Não era o ambiente mais limpo e adequado do mundo, mas, em comparação com os outros serviços que lhe eram oferecidos naquele espaço, até que o cubículo dava para o gasto.
Ela deixou que a água percorresse as pernas primeiro, já que eram a parte menos machucada de seu corpo. No passado, Georgina desenvolvera certo apreço pela da dor. Quanto mais apanhava no ringue, mais raiva acumulava e descontava na adversária, transferindo a dor que sentia para potentes golpes com o punho direito. Teve vontade de socar a parede, porém logo desistiu da ideia. Estava cansada demais até para explosões de raiva... Estava cansada daquele lugar, cansada de Arnold Schmid e cansada de todos os outros. Que se fodam todos eles!
Aquela fuga tivera tudo para dar certo. A mulher havia observado a movimentação do lugar por dias até conseguir pensar em algo e tivera um trabalho enorme para roubar um facão e mantê-lo escondido. Nos momentos finais, só precisaria ter corrido até a grade exterior, escalado para fora e depois corrido mais para despistar os guardas. Depois disso, teria conseguido a liberdade. Mas Georgina não fora rápida o suficiente, e um dos homens de Arnold Schmid conseguira agarrá-la pelos cabelos. A mulher não tinha pensado duas vezes antes de passar o facão nos fios negros, livrando-se dos cabelos e do guarda. Porém, na hora de escalar a cerca, o homem conseguira puxá-la para baixo e jogá-la no chão. Ainda tentara resistir, até ser espancada pelos guardas de Schmid e ser arrastada de volta para o seu cativeiro.
Tudo tinha sido devidamente calculado e preparado, e mesmo assim sua missão fracassara. Ninguém soubera de nada, e Cranston sabia ser cautelosa quando era preciso, todavia de alguma maneira aquele velho asqueroso havia descoberto seu plano bem a tempo. Num primeiro momento, a mulher acabara chegando à conclusão de que ele possuía câmeras ativas no local, e nos momentos de maior insanidade chegara a pensar que Arnold era uma espécie de Deus: onipotente, oniciente e onipresente. Tivera bastante tempo para pensar quando seus pulsos foram amarrados, mas não conseguira chegar a nenhuma conclusão.
Com a fúria dominando todas as suas células e a dor a impedindo de raciocinar, Georgina passara por diversos momentos em que não conseguira distinguir o que era real do que não era. Cranston vira sua vida passar diante de seus olhos em diversos flashes; até seus pais havia muito tempo esquecidos apareceram algumas vezes. Além das alucinações, ela tivera acessos de raiva violentíssimos, onde a boxeadora tentara inutilmente se soltar das amarras, e o resultado da cólera eram os pulsos em carne viva.
Tremendo de frio, ela se preparou para terminar seu curto banho. Não poderia demorar muito, caso contrário, logo viriam chamá-la de uma maneira pouco delicada e muito inconveniente. Molhou seus cabelos agora curtos, suspirou por alguns instantes. Não sentiria muito a falta dos cabelos longos, o tamanho reduzido era até mais prático, mas de alguma forma ainda doía se lembrar do momento em que eles foram cortados. Não só pela fuga, mas também pelo que eles significavam. Finn amava meus cabelos.
Não tinha pensado nisso no momento em que passara o facão por eles, e nem devia estar se importando. Mortos não se importam. Mesmo que ele estivesse vivo, Georgina não pensaria duas vezes antes de cortar seus cabelos ou fazer algo que Finn McClane desaprovaria; se fosse para escapar, ela seria capaz de qualquer coisa. Cranston não era conhecida por ser uma pessoa paciente ou otimista, porém naquele momento ela tinha certeza de que sairia daquele lugar. Tinha que sair, porque ficar dentro daquele asilo significava uma morte lenta e enlouquecedora. Sua única saída era fugir, mesmo que não houvesse nada esperando por ela do lado de fora. Jamais desistiria da vida, e se havia uma coisa pela qual Georgina Cranston era conhecida, era por sua teimosia.
ᛒᛟᛚ
O dia começava cedo no asilo. Antes mesmo de o sol nascer, Rick Grimes e o outro homem que estava amarrado foram retirados da sala sem instruções. A mulher insana permanecera no cômodo com os olhos voltados para o chão. Parecia ter passado a noite em claro, assim como o xerife. Sua cabeça não parava de pensar na conversa que tivera com Arnold Schmid, tentando de alguma maneira desvendar o que se passava naquele lugar.
Schmid deixara tudo muito claro, como se a situação em si fosse translúcida. Mas não era. Ele possuía homens suficientes para controlar os trabalhadores e para conseguir capturar mais pessoas, contudo esse número era insuficiente para que eles mesmos pudessem se defender e se abastecer. Outros acontecimentos, por outro lado, não estavam claros. Como Rick havia sido pego? Tinha passado o tempo todo com o grupo, era a melhor tática para proteger uma criança, um bebê, um padre e um erudito indefeso.
Sentia que teria outras conversas com o velho que controlava aquele lugar. Por hora, aprenderia tudo sobre a rotina e as pessoas daquele local. O homem que dividia a sala com ele estava totalmente desorientado, pois perdera muito sangue e, mesmo tendo levado alguns pontos na cabeça, não parecia muito bem.
Quando saíram do prédio, o sol já estava nascendo, e o ambiente que o xerife encontrou lembrava muito sua antiga morada: a prisão. Havia um extenso canteiro parcialmente coberto de grama rodeado em três lados pelo prédio do asilo e fechado por uma grade não tão alta no quarto lado. Fora da cerca, alguns metros de pura terra onde homens trabalhavam rodeados por uma grade altíssima. Rick deu as costas para as grades e passou a observar o prédio do asilo. Com apenas um andar, era um lugar largo com paredes de tijolo laranja, telhado cinza e janelas que não deixavam um observador ver o que estava do lado de dentro.
Tinha a estranha sensação de que Arnold o observava onde quer que estivesse. Desde que trocara as primeiras palavras com ele, Grimes sentira que se formava um embate pessoal entre os dois. Os homens armados, as grades e o sistema de trabalho forçado não o prenderiam por muito tempo, mas aquele homem de olhos verdes afiados sim.
− A chefia pediu que eu explicasse para os dois como as coisas funcionam por aqui. É muito simples, e até um retardado mental consegue seguir essas ordens com perfeição, então nada de gracinhas – o guarda começou a falar, pousando uma mão sobre o revólver no coldre deixando a situação bem clara. – Estamos na época do plantio, então todas as manhãs vocês vão vir aqui e preparar a terra. Depois de algumas semanas, eu acho, quando ela estiver pronta, vocês vão começar a semeá-la. De tarde, depois do almoço, vocês vão para a cerca matar os mordedores que acumulam lá. Quando ela estiver limpa vocês podem voltar para dentro, jantar e descansar até o dia seguinte. Simples, não? Caso se recusem a fazer essas tarefas, vamos machucar vocês. Se tentarem fugir, vamos pegar vocês e fazer o mesmo que fizemos com a mulher que divide a sala com os dois. E, se escaparem, vocês morrem. Estão vendo os telhados ali em cima? Sempre temos alguém lá, 24 horas por dia. O homem que está lá tem um fuzil de precisão e não vai hesitar antes de atirar em qualquer bastardo que tiver a audácia de atravessar a cerca externa. Por isso, se tentarem fugir, torçam para serem recapturados antes que levem um tiro. Dúvidas? Parece que não... Podem começar o trabalho.
O guarda destrancou e abriu a cerca interna ruidosamente e fez sinal para que eles entrassem, fechando-a logo em seguida. Rick e o outro homem se dirigiram até o local onde as enxadas estavam repousadas. Havia nove pessoas trabalhando na terra, remexendo-a e retirando pedras e ervas daninhas que surgiam eventualmente. Todos pareciam muito concentrados no trabalho, pois apenas olharam de relance para os dois novatos e depois voltaram suas atenções para a terra. Grimes ainda mirou o prédio do asilo mais uma vez e suspirou antes de erguer a enxada e batê-la na terra como Hershel havia lhe ensinado na prisão. Repetiu o movimento várias vezes, prometendo a si mesmo que seria por pouco tempo.
− Você é novo aqui? – alguém ao seu lado perguntou de repente, e o xerife interrompeu o movimento da enxada para poder encará-lo. Era um homem alto, com cabelos castanhos claros, olhos azuis astutos e uma barba começando a crescer. Parecia em melhor estado que os outros trabalhadores e certamente mais contente que qualquer um naquele lugar, apesar de ser manco da perna direita. Era uma visão até penosa, do lado de fora o homem não iria muito longe sozinho e com aquela perna comprometida.
− Sou – Rick respondeu sem dar muita importância. Era uma pergunta óbvia demais para ser despretensiosa.
− Eu não. Eu sei como deve estar se sentindo. Deslocado, confuso, irritado...Vim ajudar, falar como as coisas funcionam por aqui. Você deve querer ir embora daqui, tentar fugir. A maioria pensa assim. Mas, vá por mim, isso só vai piorar as coisas. A experiência mostrou que aqueles que foram espertos e aceitaram a situação tiveram uma estadia mais tranquila aqui. O senhor Schmid é duro com os rebeldes, mas também sabe ser generoso com os que se mostram confiáveis. E ele sabe quando pode confiar em uma pessoa. Talvez você já tenha visto o que eles fazem quando pegam alguém tentando escapar. Já estou aqui há tanto tempo que não sou capaz de me lembrar, e só vi uma fuga dar certo. Depois disso, a segurança melhorou bastante e ninguém nunca mais conseguiu passar daquela cerca com vida.
− Agradeço pelo conselho. Não sei o que seria de mim sem você— Grimes acrescentou a última frase com um tom mais baixo e seco, e o outro homem pareceu não notar ou simplesmente não se importou, pois apenas sorriu.
Rick ficou pensando em como as palavras de Arnold deviam ter influenciado aquele sujeito. Ele parecia realmente acreditar que estava fazendo uma troca justa com o velho, dando sua liberdade em troca de um teto. Talvez preferisse o trabalho forçado à sobrevivência do lado de fora daquelas cercas, o que fazia dele um fraco. Só isso justificava o modo como ele defendia Schmid.
− A propósito, meu nome é Leonard...
Subitamente o som da grade sendo aberta novamente chamou a atenção de todos no local, interrompendo a conversa. Por ela entrou a mulher louca que dividia a sala com Rick, sendo seguida de perto por um guarda armado com uma pistola. A morena parecia um pouco melhor e mais controlada que antes, embora ainda não fosse possível dizer que estava totalmente recuperada. Andava com a cabeça voltada para baixo, e Grimes se viu pensando no que teriam feito para acabar com a fúria dela. E, além disso, a mulher não usava mais o casaco do dia anterior.
Observou seus braços pálidos. Não eram esqueléticos, o que mostrava que nenhum dos trabalhadores era mal alimentado, eles nos querem em bom estado. Todavia, não foram os músculos bem definidos da mulher que chamaram a atenção de Rick Grimes, e sim as tatuagens, uma em cada braço. A tatuagem do esquerdo era um símbolo familiar, semelhante ao que estava gravado no cabo da katana de Michonne. Já a do braço direito era completamente estranha, parecia-se com um X arredondado, porém o lado esquerdo era maior que o direito e tinha um ponto dentro dele.
− Gostei do corte – um trabalhador zombou, arrancando risadas dos outros.
− Voltou cedo – outro comentou com o mesmo tom.
− É bom saber que se preocupam comigo, rapazes. Senti saudades de todos vocês!
A mulher os encarou por alguns segundos, e Rick chegou a pensar que ela fosse atacá-los, contudo nada aconteceu. Ela se portava como um animal selvagem, olhando para as pessoas como se cada uma delas fosse uma ameaça em potencial. Seus punhos estavam cerrados com tanta força que Grimes tinha pena de quem tentasse fazer alguma coisa com ela. Mesmo com o rosto inchado e com os pulsos em uma coloração estranha, a mulher parecia incrivelmente perigosa. São os olhos.
− Está vendo o que acontece com quem tenta fugir? Eles acabaram com o rosto dela, mas não vão tocar em nenhuma outra parte do seu corpo, para que você não tenha desculpas para não trabalhar no dia seguinte – Leonard explicou. − Eu tenho certeza de que o meu jeito é o melhor. Georgina tentou lutar e deu nisso. Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Não terá motivos para se arrepender caso escolha esse caminho.
− Não devia dar ouvidos a esse merda.
Demorou alguns instantes para que Rick Grimes percebesse que a única mulher no recinto falava com ele. Havia onze homens trabalhando ali, contando com ele e com Leonard, e apenas uma mulher. Mesmo machucada, Georgina conseguia se impor mais que qualquer um dentro daquelas duas grades. O xerife se lembrou do primeiro encontro que tiveram, quando a morena não fizera muita coisa além de rir histericamente dele.
− Você me chamou de quê? – Leonard se voltou para ela, pela primeira vez se portando com seriedade, abandonado a postura simpática de segundos atrás. – O que você quer? Não vá me dizer que se compadeceu com esse pobre homem e veio alertá-lo dos perigos que corre comigo. Pode voltar a fazer o seu papel de vadia sem coração, combina mais com você.
Grimes ficou olhando para os dois, tentando entender o que estava acontecendo ali. Havia alguma tensão entre Leonard e Georgina, isso era evidente pelas suas palavras e pelos olhares venenosos que trocavam. Embora parecesse algo irrelevante, Rick sabia que era importante entender tudo o que acontecia naquele lugar para conseguir planejar a sua fuga da melhor maneira possível. Talvez fazer um aliado fosse melhor, e Leonard estava fora de cogitação. Ele é só um macaco adestrado e medroso. O xerife decidiu que devia conhecer a mulher para saber se ela era confiável, afinal, já tentara escapar uma vez.
Ela sim devia conhecer aquele local, devia saber como ele funcionava. Além disso, compreendendo seu plano de fuga, Rick saberia o que não deveria fazer. Georgina podia ter falhado, mas o xerife não falharia. Devia ser certeiro e ele já começara a arquitetar a base, mas torcia para que não dependesse de ajuda externa. Grimes não queria seu grupo envolvido nisso, contudo, se fosse necessário, teria de ser feito.
Georgina estava prestes a retrucar quando o som de um corpo caindo no chão desviou a atenção de todos novamente. Todos pararam o que estavam fazendo, enxadas foram largadas no chão, formou-se um círculo ao redor do homem e de imediato ninguém soube o que fazer. A pessoa caída era justamente o homem que dividia a sala com Rick e Georgina. Ele estava imóvel, com o rosto pressionado contra a terra e os membros jogados de qualquer jeito ao lado do corpo em uma posição que parecia incômoda. Grimes não precisava ser um médico para saber que a pancada na cabeça havia causado isso, provavelmente estava morto, se ele tiver tido sorte.
− Sem gracinhas. Levanta logo daí! – um guarda gritou de longe enquanto se aproximava. O homem não se moveu. Alguém se destacou da roda e ajoelhou-se ao lado do corpo, pressionando dois dedos contra o pescoço dele.
− Ele está morto!
− Como você sabe disso? – o mesmo guarda perguntou.
− Eu sou médico. Ele está sem pulso – o trabalhador explicou.
− Certo. Se afastem da grade, o trabalho aqui acabou – ele tirou um molho de chaves do bolso e começou a remexê-lo. – O chefe não vai gostar nada disso...
Rick seguiu os outros até a grade externa e ficou aguardando enquanto o guarda destrancava a outra. Seu primeiro dia de trabalho estava sendo bastante agitado, contudo havia trazido conhecimentos importantíssimos. Suas primeiras impressões foram um tanto positivas: havia conflitos internos ali, o que tornava a situação muito mais fácil se Grimes conseguisse explorá-los.
Um som familiar invadiu os ouvidos do xerife Rick Grimes. Um som oriundo das cordas vocais de um morto, uma vibração, um grunhido. Seus instintos logo foram acordados, seu sangue começou a correr mais rápido, espalhando adrenalina pelo corpo todo. O cadáver começou a se erguer, e Rick logo tinha alcançado a enxada mais próxima. O guarda começou a gritar, ordenando que ele voltasse para a grade, no entanto Grimes não estava prestando atenção. Só havia ele e o mordedor. Já tinha matado tantos outros que a tarefa parecia maquinal: duas pancadas na cabeça e o corpo voltou a cair na terra, dessa vez morto para sempre.
Ele deu as costas para o andarilho que acabara de matar e percebeu que a maioria o observava com espanto. Não compreendeu de imediato, era apenas um errante... Não havia nada de espantoso na cena que presenciaram instantes atrás. Então Rick Grimes percebeu que eles não estavam chocados pelo ato em si... A maioria deles nunca vira uma pessoa se transformar sem ter sido mordida. Talvez não tivessem como saber, deviam ter passado tempo demais nas mãos de Arnold Schmid. Agora eles sabem.
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