Conselhos.

Levy

Despertei com o toque estridente do meu celular avisando que eu deveria acordar para ir ao colégio. Odeio segundas-feiras. Só não joguei o celular na parede porque tem um valor sentimental, e celular está caro ultimamente.

Após desligar o despertador, levanto-me e arrasto-me até o banheiro. Tomar um banho gelado logo de manhã era tudo que eu precisava para despertar totalmente. Depois de completar todas as fases de minha higiene pessoal, volto pro quarto para vestir meu uniforme. Uma blusa social branca, uma saia xadrez da cor vinho que ia até o meio da coxa, e uma gravata da mesma cor da saia. Estava calor então não tinha necessidade de colocar o blazer que complementava o uniforme.

Meu cabelo estava no estilo “leãozinho”. Uma curta juba azulada adornava meu rosto pálido devido ao banho gelado. Minha preguiça de arrumar o cabelo fez-me apenas colocar uma pequena faixa amarela e o jogando todo para trás. Peguei meu material e desci as escadas.

Minha mãe se encontrava na cozinha, já vestindo um de seus terninhos e pronta para ir trabalhar.

— Bom dia querida.

— Bom dia mãe. Dormiu bem? – perguntei ao ver olheiras ao redor de seus olhos.

— Bem mal você quer dizer não é...

— Caso difícil?

— Algo do tipo... Como foi a noite das garotas? Mal nos vimos esse final de semana... – ela disse me dirigindo um pequeno sorriso.

— Divertida. Tio Gildartz fez nachos e estava uma delicia. Depois que o Gajeel foi embora ainda estávamos acordadas e fizemos o Tiozão procurar uma mercearia aberta pois queríamos tomar sorvete.

— Que malvadas...

— Eu sou mais! Acordei primeiro que elas para me arrumar pro colégio, e elas haviam me provocado a noite toda então fiz uma linda maquiagem de batom vermelho na cara de cada uma.

— Levy!

— Elas ficaram falando da minha bunda!

— E qual o problema da sua bunda?

— É constrangedor...

— Mas seu bumbum é lindo! Você tem o quadril largo e as coxas grossas!

— Mamãe até você?! Ah! Eu vou pro colégio! Tchau!

— Toma cuidado querida! – ela disse rindo.

Era só o que me faltava! Agora deu para todo mundo falar da minha bunda! Isso é assédio, vou denunciar todos!

Ao chegar no colégio, vou direto subindo as escadas e indo para minha sala, até que encontro Juvia e Kana conversando com um menino no meio do corredor. Ele era alto, magro e tinha os cabelos pretos preso de um jeito estranho.

— Oe Levy! Venha cá!– disse Kana acenando para mim.

Aproximei-me curiosa para saber quem era esse tal menino, nunca o tinha visto por aqui.

— Olá Levy. – disse Juvia me dando um abraço – Levy, este é o Droy. Ele é um aluno novo.

— Olá, prazer em conhecê-lo Droy. – falei estendendo a mão.

— O prazer é todo meu! – disse ele pegando minha mão e dando um beijo nela.

Não sei se isso foi uma cantada ou...

– Foi um prazer conhecer a todas, amores! Vocês são divas. Agora preciso ir! Beijinhos! – disse ele correndo pelos corredores, após ter beijado o rosto de cada uma.

— Ele é...

— Um amor não é? – disse Juvia. – Quando cheguei estava perdido, procurando a diretoria.

— Parece ser um cara legal... – disse Kana pegando sua garrafinha para beber água.

Mas antes que pudesse colocá-la na boca, Juvia a confisca e cheira o liquido que havia dentro.

— É só água Juvia!

— Acho bom ser mesmo! – disse devolvendo a garrafinha.

Eu apenas ria da situação, mas não criticava a atitude da Juvia. Após isso fomos para nossa sala. Logo a primeira aula seria matemática. Sou uma aluna exemplar, que tira notas altas em todas as matérias, mas matemática era meu ponto fraco. E apesar de me esforçar e sempre tirar uma nota aceitável, no final eu acabava não compreendendo nada...

Após o termino das 4 primeiras aulas, o sinal avisando que era hora do intervalo toca. Juvia pega um pote e uma garrafa térmica que ela sempre levava suco.

— O que sua avó fez hoje Juvia?

— Bolo de fubá com hortelã.

— Eba! É o meu favorito! – falei empolgada. Adorava bolo de fubá! E os bolos que a avó de Juvia fazia eram um delicia.

— Tem um pedaço pra cada. E hoje eu trouxe suco de laranja.

— Vamos logo antes que nosso lugar seja pego! – falou Kana que saiu disparada nos puxando para o refeitório.

Na hora do intervalo, sempre sentávamos-nos à mesa mais afastada que tinha do refeitório. Lá era calmo, não tinha uma muvuca de pessoas procurando espaço, e havia também uma linda arvore pessegueiro que deixava o ambiente confortável.

— Olha só se não são as três excluídas almoçando no lugar dos excluídos. – disse Karen, uma garota que nos amava!

Ela e seu grupinho, que nomeamos carinhosamente de Clã Greenpeace, pois todas tinham cabelos verdes, se aproximaram de nos. Karen, a líder, nos amava pois sempre vinha implicar, e quem ama implica... né?

“Essa frase me fez se sentir estranha... Enfim...”

— Olá Karen! Bisca, Hisui. Bom dia para vocês também. – disse Juvia lançando um sorriso para as três.

— Não seja idiota Juvia, nunca é um bom dia antes das dez da manhã, e muito mesmo será um bom dia com o clã Greenpeace a nossa frente!

— Haha! Muito engraçada você Kana, mas então, quando ira pintar seu cabelo? – disse Bisca

— E porque eu faria isso?

— Oras, é lógico que vocês três estão tentando nos copiar, e resolveram ter todas os cabelos azuis. Você é a única excluída Kana.

— Pelos menos os cabelos das minhas azuladas são naturais.

— Como se o nosso não fosse!

— Eu não sei vocês Bisca e Hisui, mas a Karen parece estar com uma peruca de alface! – falei fazendo minhas amigas rirem, e Bisca e Hisui segurarem o riso enquanto Karen me encarava furiosamente.

— Escuta aqui pirralha...!

— Opa! Só um segundinho e então você pode continuar seu discurso inútil! – falei subindo em cima da cadeira e ficando um pouquinho, bem pouquinho mesmo, de centímetros mais alta que ela. – Só existe uma pessoa que pode me chamar de pirralha, e essa pessoa não é você! Então abaixa esse seu galo para não ficar cacarejando asneiras! E realmente, você precisa de uma hidratação querida, e retocar a cor! Daqui a pouco seu cabelo de alface vai parecer um pedaço de brócolis! Agora nos dê licença, você está atrapalhando nosso almoço!

Vi ela ameaçando ir para cima de mim, mas suas amigas a seguraram.

— Não vai querer ir para a diretoria de novo, não é? – disse Hisui.

Isso fez Karen se acalmar e repor a compostura.

— Terá volta McGarden. Aguarde-me. – dito isso ela virou as costas e foi embora.

— AR-RA-SOU! – gritou uma voz um pouco mais masculina. Era Droy que estava a alguns centímetros perto de nos. Quando foi que ele chegou aqui? – Vi tudo hein! Levy você é demais garota!

— Obrigada, obrigada! Mais tarde dou autógrafos.

— Ah Levy... O que faço com você...

— Mas foi ela quem começou Juvia!

— Tome cuidado com essas suas ameaças, qualquer dia o diretor pode acabar te pegando.

— Isso nunca aconteceu e nem vai acontecer. Karen é do tipo que ladra, mas não morde.

— O engraçado é que ela é da nossa sala, mas lá ela não mexe com a gente. – disse Kana.

— É porque na sala ela esta sozinha, sem as amiguinhas dela junto. – falei rindo.

— Eu adorei a parte que você disse “Então abaixa esse seu galo para não ficar cacarejando asneiras!”. – falou Kana.

— Foi a minha favorita também! – disse Droy rindo. – Posso sentar com vocês?

— Sinta-se a vontade Droy.

— Obrigado meninas.

Começos a comer o bolo e a dividir a garrafa de suco. Droy comia um sanduíche que ele comprou na cantina, e conversávamos sobre assuntos aleatórios, até que Kana tocou em um que eu deveria ter desejado não ouvir...

— Ah meninas, fiquei sabendo que temos um novo professor de Educação Física.

— E o professor Taurus?

— Disseram que ele tirou férias, e esse novo vai entrar no lugar dele.

— Espero que ele seja legal como o professor Taurus. – falei tomando um pouco de suco.

— Taurus é um professor tarado isso sim! – falou Juvia.

— Pelo que fiquei sabendo, esse novo é bem rigoroso...

— Aff! Só falta ser um daqueles professores que mandam a gente correr em volta da quadra!

— Vocês estão falando do professor Slayer?

— Teve aula com ele Droy?

— Sim. Minha quarta aula é de Educação física. Se for o professor Slayer, então realmente ele é bem rigoroso. Mas em compensação...

— Em compensação o que? – perguntei achando estranho o modo como ele falou.

Droy olhou para cada uma de nos e deu um sorriso antes de dizer pausadamente.

— Ele. É. Um. Gato!

Após dizer isso, Juvia explodiu em gargalhadas, Kana quase se engasgou com o pedaço de bolo, e eu não aguentei e tive que rir também.

— Ué? O que foi tão engraçado? – perguntou Droy fazendo um biquinho indignado – Ele realmente é um pedaço de mal caminho em forma de professor!

— O modo como você falou foi engraçado, Droy. – disse Juvia se recompondo.

— Bem, pelo menos teremos uma cara bonita para alegrar nosso dia aqui no colégio, já que ele é tão gato! – disse Kana tomando um pouco de suco.

— Bote gato nisso! E os piercings que ele tem o deixam com um ar sexy e selvagem!

— Ele tem piercings?! – perguntei.

— Sim, aos que pude contar o total era vinte e oito.

— Vinte e oito?!? – gritamos todas ao mesmo tempo.

— Sim! E só no rosto são vinte!

— Não sabia que professor de Educação Física podia usar piercing, ainda mais vinte e oito! – disse Juvia.

— Ele é punk ou algo do tipo? – perguntou Kana.

— Não me pareceu. Ele usava roupas normais de Educação Física, e não havia nenhuma tatuagem. Apenas os piencings e o cabelo comprido. Fora isso não havia nada de punk nele.

“Piercings... Cabelo comprido... Nada normal para um professor de escola pública...”— pensei — Nos dê mais informações Droy! Depois da aula de historia, nossa ultima aula será com ele.

— Bem, como atividade ele nos mandou alongar e dar dez voltas na quadra.

— Sabia! Ele é do tipo chato! – falou Juvia.

— Depois tivemos que fazer revezamento com a bola. Tínhamos que correr de um lado da quadra até o outro, sem deixar a bola cair da mão.

— Que horror! – disse Juvia com a cara assustada. Do grupo, ela era a que mais detestava exercício físico.

— Calma querida, você não vai morrer. – disse Droy enquanto alisava as costas de Juvia com uma das mãos.

— Isso é triste... Conte-me mais sobre a aparência gatíssima dele.

— Bem, ele tem a pele bronzeada, é forte e alto... Ai senhor! Seus cabelos são compridos e negros e...

— Só um minutinho! Pare um segundinho Droy! Estou com uma pequenina pulga atrás da orelha.

— O que houve Levy?

— Esse professor chegou a rir em algum momento?

— Hã... Sim. Porque?

— E sua risada é estranha tipo “Gihihi”?

— É, é assim mesmo!

— E ele é alto, musculoso e tem os olhos vermelhos?

— A não ser pelos olhos que não pude ver, o resto está certo. Você o conhece?

— Você disse que o nome dele é Slayer certo?

— Sim, Dracon Slayer.

“Pele morena, cabelo negro e comprido, alto, musculoso, risada estranha, piercings pelo corpo... Isso não esta me cheirando bem...”

— Aconteceu alguma coisa Levy? Você o conhece? – perguntou Kana. Todos olhavam curiosos para mim.

— Sinceramente, eu espero que não! – falei e fechei a cara logo em seguida.

Juvia entendeu que eu não falaria mais nada, e resolveu mudar de assunto.

— Então... Conte-nos mais sobre você Droy! De que cidade disse que era?

— Vim de Oshibana.

— Legal! Oshibana é aonde tem a grande estação de trem, certo?

— É sim, lá é muito calmo e agradável!

O resto do intervalo se resumiu sobre as origens de Droy. Eu não estava prestando muita atenção, minha cabeça girava na descrição daquele professor que me parecia muito familiar.

Após o intervalo, voltamos para sala e o professor Natsu de historia já estava sentado em sua mesa. Assim que todos entraram, ele começou a dar sua aula.

Eu estava prestando atenção na matéria, até que um pedaço de papel caiu na minha mesa. Era um bilhete de Juvia.

“O que foi aquilo no intervalo?” – perguntava ela pelo papel.

“Ou Gajeel tem um irmão gêmeo, ou eu vou odiar conhecer esse professor!” — respondi

Entreguei o papel para Juvia, e depois de ler ela o passou para Kana. Depois disso a aula correu normalmente, sem mas intromissões.

Assim que o sinal tocou e o professor Natsu saiu, fiquei olhando ansiosa para a porta. Kana conversava com Juvia algo sobre a nova namorada do pai, mas ignorei completamente o assunto assim que vi uma sombra se aproximar da porta.

E lá estava ele. Alto, moreno, usando um calça de tactel preta e uma regata branca. Seus cabelos preso em um rabo de cavalo e era nítido os piercings em seu rosto e braço.

A sala estava barulhenta o suficiente para ninguém notar que ele havia chego, apenas eu. E isso foi oportunidade o bastante para que ele olhasse pra mim e me lançasse um sinal de silencio. Assim que chegou em sua mesa, ele jogou com toda a força a mochila que carregava, fazendo um barulho forte e deixando a classe em silencio total. Meu olhar era de ódio tremendo, e Juvia e Kana estavam surpresas. O resto da sala olhava assustada para o professor.

— Olá pirralhos. Serei o novo professor de educação física de vocês! – depois de dito isso, ele olhou para mim e sorriu zombeteiro.

É hoje que eu mato o Gajeel!

— Meu nome é Dracon Slayer, mas para vocês será professor Slayer. É um desprazer conhecê-los.

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— O que pensa que está fazendo Gajeel?!

Se esta usando um nome falso, significa que o verdadeiro não poderia ser descoberto. Nesse caso esperei que a aula acabasse e que todos já estivessem indo embora para a casa para que eu pudesse interrogá-lo. O segui até o estacionamento, onde pude avistar sua moto. Em todo caminho fui ignorada com sucesso.

— Me responda Gajeel! Você agora vai me vigiar até no colégio?! Que historia é essa? Porque você esta aqui?! O que você ganha me vigiando no único lugar que eu tinha paz e sossego de você?!

Em questão de segundos Gajeel me puxou pelo braço e me pressionou em sua moto. Quando tínhamos chegado perto dela? Ele estava bem próximo de mim, podia sentir seu hálito enquanto falava.

— Escute bem o que vou dizer por que só vou falar uma vez. Primeiro, pare de dizer meu nome verdadeiro, aqui eu sou o professor Dracon Slayer e ninguém pode saber a verdade. Segundo, eu estou trabalhando e acredite, não estou aqui porque eu quero. Se vai tirar satisfação com alguém, tire com a sua mãe e não comigo. E terceiro, pare de falar por que isso já esta me irritando!

Ele desencostou-me de sua moto, e começou a destravá-la. Eu estava ofegante e assustada. Não sabia se era pelo modo como ele falou ou se... Foi porque o seu toque e a sua aproximação arrepiaram meu corpo por completo.

Gajeel nunca havia me tratado daquela maneira. Não sei dizer se o seu tom de voz era de irritação pelo que eu tinha dito, ou se era fúria por eu ter que ser seu trabalho. Acontece que não acho que eu tenha dito algo de ruim, apenas a verdade. Ele sabia que eu não gostava de sua presença. O que é a mais pura verdade, eu realmente não gostava da sua presença... né?

Agradecia por ele ter me salvado, mais ainda era um cara chato que vigiava meus passos impedindo minha liberdade. Ele continuava me ignorando como se eu não estivesse ali. Então cheguei a conclusão que para ele tudo era trabalho. Eu era apenas o seu trabalho. Nada mais.

— Eu odeio você.

Gajeel

Parei de colocar o capacete no meio do caminho ao ouvir aquelas palavras. Não deveria ter me surpreendido, ela sempre demonstrou não gostar da minha presença, e claro que isso não mudaria tão cedo. Eu sabia que implicava com ela, e a provocava, era tudo de propósito pois gostava de ver seu rosto corado de irritação. Não deveria ter me surpreendido, ela com certeza deveria odiar a minha presença, só que ela não havia a escolha de recusar. Eu poderia fazer isso, poderia pedir para por outra pessoa no meu lugar. Mas não quis. Eu nunca quis. Ela é chata mas... Ela é a minha chata! E só eu vou cuidar dela. Ainda mais depois que sua vida entrou na mira daquele cara.

Só que ela disse que me odeia... Eu não deveria ter me surpreendido... Mas me surpreendi.

E mesmo tendo prendido a respiração e meus músculos terem ficado rígidos depois daquela frase, eu respirei fundo e juntei toda a frieza que havia em mim antes de olhar para seu rosto.

— Sinto muito se você me odeia, não posso fazer nada sobre isso. Mas caso queira saber, esse sentimento é recíproco. – coloquei meu capacete e subi na moto.

— Eu já sabia disso... – ela disse de cabeça baixa. Sua voz quase inaudível.

Não Levy, você não sabia. Porque isso é mentira...

— Nos vemos em casa. – liguei a moto e fui embora.

Apenas disse o que ela queria ouvir. Se alguém diz que te odeia, essa pessoa quer ouvir o mesmo de você. Assim o ódio dela não terá motivos para se restringir. De qualquer forma, eu jamais poderia e nunca vou poder dizer o que realmente gostaria. Como eu poderia chegar em Sarah, que é minha chefe e que cuida de mim como cuida de um filho, e dizer para ela com todas as palavras que eu estava apaixonado pela filha dela, e sim, apaixonado, porque depois de refletir e perceber que mais do que sonhar com ela havia algo em mim que desejava que todos os dias ela não se trancasse no quarto mas viesse até mim, seja para conversar ou para encher meu saco, que parte de mim adoraria poder ficar sentindo seu cheiro doce e viciante por horas a fio, eu cheguei a conclusão de que por alguma razão eu estava apaixonado por aquela pirralha. Porém, além de ser menor de idade, é seis anos mais nova do que eu, e eu frequentava sua casa todos os dias. Certamente, nunca vou poder dizer isso a Sarah. Então era melhor a pirralha continuar achando que eu a odiava. Será melhor pra ela que seja assim, mas... E eu?

Como faço para trancar em meu peito sua risada gostosa e seu sorriso doce, e enganar minha razão dizendo que jamais dará certo algo que nunca tentei... Sentia-me um adolescente pensando assim, mas fui criado pela mulher mais doce e amorosa que conhecia, e que desde minha infância dizia que eu jamais deveria guardar o que eu sentia só para mim. Resumindo, eu era uma manteiga derretida por dentro, assim como minha mãe que sempre dizia que meu amor não pode ser restrito para aqueles que o merecem, mas por fora tinha a aparência de uma fera fria como ferro que foi esculpida pelo meu pai.

E com esse pensamento, dei meia volta e fui para minha casa. Eu precisava vê-la antes de encarnar o Gajeel que meu pai criou, e esconder o Gajeel que eu gostava de ser.

Assim que cheguei em casa, Mamãe estava na sala pintando um quadro, e Mira... Não sei onde ela estava. Acho que na cozinha.

— Gajeel meu filho, o que faz aqui?

— Preciso falar com a senhora, Mãe...

— O que houve meu filho? Parece triste...

— Vamos por quarto? Podemos conversar como você fazia quando eu era criança?

— É claro querido. – ela me sorriu e segurou em minha mão para subirmos as escadas juntos.

Quando chegamos em seu quarto, ela se sentou na cama, encostando as costas na cabeceia, e eu me sentei em seu colo. Apoiei a cabeça em seu ombro e ela me abraçou. Naquela posição parecia que eu era um bebê gigante. E apesar de infantil, eu gostava de ficar assim com ela. Acho que Sarah tinha razão, eu era um pirralho.

— Então querido, o que te aflige?

— Acho que estou apaixonado...

— Só acha?

— Tenho 80% de certeza que sim.

— E os outros 20%?

— Está em duvida...

— E o problema é...?

— O problema é que ela é seis anos mais nova do que eu...

— Wow!

— E é filha da... Diretora...

Quase me esqueço que hoje eu estou na “faculdade”.

— É... Isso é um problema...

— E ela disse que me odeia.

— Caramba!

— E hoje vou passar a tarde com ela... Por que... Treinamos juntos.

— Nossa... Mais alguma coisa?

— Não, acho que acabou.

— Bem, que pretendente complicada não é? – ela riu e acabei rindo junto. – Vamos desde o inicio. Se ela é seis anos mais nova então ela tem...

— Dezessete.

— Nossa! Você já tem vinte e três anos... Não havia me tocado nisso.

— Esquecendo a idade de seu filho, que feio Senhora Kim!

— Oh desculpe querido! O tempo passa rápido. Ontem você cabia direitinho no meu colo, hoje mal cabe na minha cama! Mas enfim... Você provavelmente não se incomoda com a idade dela certo?

— Nem um pouco.

— E ela? Vocês são amigos, ela se incomoda? Ela trata você como alguém mais velho, ou como um amigo da mesma idade?

— Não sei dizer... Ela implica comigo e gosta de me irritar. Mas também não se intimida pelo fato de eu ser mais velho e ter o dobro do seu tamanho.

— Isso é bom, significa que para ela sua idade não tem importância. Agora... Porque ela disse que te odeia? Você fez algo que desse motivo?

— Bem... – eu não posso dizer a verdade, preciso pensar em algo rápido! – Eu... Ela... Ela começou a falar muito, tagarelar bastante mesmo! Por que isso é o que ela mais faz, tagarelar. Só que ela falou umas coisas que eu não gostei, do tipo eu estar frequentando o único lugar que ela tinha paz e sossego de mim. E eu fiquei irritado com isso e... Disse que o lugar era publico. Então ela disse que me odeia...

— Entendi... Você se sentiu magoado porque ela disse que sua presença incomoda?

— Algo do tipo...

— Hm... Você conversou com ela depois disso?

— Não.

— Disse que vocês passarão a tarde juntos certo?

— Certo.

— E te conhecendo, você ainda não disse que gosta dela e não vai dizer enquanto os outros 20% não forem certeza.

— Esta certa de novo.

— Então faz o seguinte, quando vocês se encontrarem, diga que precisam conversar e peça desculpas pelo o que disse. Pois acredito que você não tenha dito apenas aquilo. Conversem sobre vocês e tentam fazer as pazes. Ser amigos é o melhor começo para um futuro relacionamento. Caso ela não peça desculpas pelo o que disse então, sugiro que você desista. Pois alguém que não assume os erros, não é corajoso.

Essa mulher me conhece tão bem que chega assusta.

— Ela é complicada... E complica minha cabeça também...

— É porque vocês são apenas crianças.

— Detesto quando me trata assim.

— Querido, eu sou uma quarentona, quase cinquentona que tem um filho marmanjo que ainda pede conselhos para entender o amor, tem certeza que não é uma criança?

— Obrigado pela parte que me toca. Não vou nem te responder.

— Não se sinta incomodado pelos seus sentimentos. Significa que você é humano. E todo humano, seja homem ou mulher, um dia vai amar e se sentira confuso com isso. Fico muito feliz que ainda me peça conselhos.

— Você é minha melhor amiga, não tenho outra pessoa. – ela beijou minha cabeça e apertou o abraço. – Então, chegamos a conclusão que...

— Ela não te odeia de verdade e foi o calor do momento que a fez dizer aquilo assim como você que acabou sendo grosseiro com ela.

— Certo, faltou apenas uma questão. A mãe dela.

— Essa é de menos, sempre vai ter uma sogra que complica tudo, seja pelo lado da moça, como pelo lado do rapaz. E você se ferrou porque nesse caso a sogra complicada será pelo lado dela.

— Novamente, obrigado pela parte que me toca. – me soltei de seu abraço e sentei na cama — Mas não tenha muitas esperanças mãe, esse sentimento não me parece recíproco.

— Que chato... Pensei que você me daria netos!

— Wow! Nem tão cedo Sra. Kim! Seu filhote ainda é um filhote, como você diz.

— Não custa nada sonhar!

— De qualquer forma... – dei um beijo em sua bochecha antes de me levantar – Obrigado gatinha. Como sempre você me ajudou a entender minha cabeça oca.

— E bote oca nisso! — disse Mira que estava escorada na porta.

— É feio ouvir a conversa dos outros! – falei indignado. E um pouco envergonhado ao lembrar a posição que eu havia estado minutos atrás.

— E é raro ver um Gajeel com a guarda baixa. Não poderia perder isso!

— Eu disse que essa garota não prestava filho! Ela está planejando alguma coisa!

— Como vingança por não ter dito que ela estava aqui, Mira continue seu trabalho!

— Pode deixar patrão!

— E eu filhote?!

— Você continue pintando seu quadro e sendo cuidada pela sua amiga favorita, que eu me resolverei com a minha pirralha.

— Malvado... Mas boa sorte.

— Obrigado gatinha! E vai ter vingança demônio branco! – falei agarrando a cintura da Mira, e dando leves cascudos na cabeça dela, o que bagunçavam seus cabelos. – Você me viu fragilmente, não vou deixar isso passar.

— Ah!! Sai daqui seu chato! – ela disse em empurrando pela escada. – Eu tinha feito hidratação hoje!

Mostrei minha língua antes de sair pela porta da sala, e as duas me corresponderam com o mesmo gesto.

Subi em minha moto e fui em direção a casa da pirralha. No caminho pensei em motivos para “fazer as pazes” com ela, e motivos para não se envolver mais. E entre poder implicar sempre e não dizer nada mais que o necessário, escolhi a implicância.

Desculpe minha fera exterior, mais meu coração de manteiga interior falou mais alto e decidi que não quero não tê-la por perto.

Quando cheguei em sua casa, a porta estava destrancada, mas ela não estava na sala. Escutei uma musica alta e me dirigi até seu quarto, onde a encontrei dançando desengonçadamente uma musica pop. Ela não me notou, o que foi legal pois tive um show particular até a musica acabar e ela me ver na porta, dando um grito estridente pelo susto que tomou.

— Não sabe o que é bater antes de entrar?!

— A porta estava aberta e você não escutaria se eu batesse.

— Avisasse.

— Estava legal demais para eu avisar. E a propósito, você dança muito mal.

— Valeu.. Eu acho...

O silencio prevaleceu. E eu não sabia como começar...

— O que você quer? – ela perguntou aparentemente irritada.

— Pirralha... Nós... Precisamos conversar.