Breaking The Cycle

3 I'm tired of talking


A jovem zaunita ainda tentava se situar, aos poucos.

Confia em mim.

A menina loira havia feito sua arma desaparecer, usando o que ela acreditava ser magia. Ela era uma maga? Em Demacia?

E ela visivelmente era de uma posição importante. Confrontou diretamente os soldados antes. Também a chamavam de “Senhorita Stemmaguarda”.

O líder que as acompanhava seguia na frente, guiando o caminho, enquanto ela e a menina seguiam atrás, junto de um cavalo que Lux segurava as rédeas. Nunca tinha visto um de verdade antes, e sua atenção nele não passou despercebida.

— O nome dele é Fogo Solar — disse a loira, sorrindo para ela, sem parecer se importar com o soldado à frente. — Ele tem um ótimo faro pra pessoas. Sabe julgar o caráter delas melhor do que ninguém.

— Vou tentar manter distância dele, então — brincou em resposta, ácida. Para sua surpresa, porém, a demaciana riu.

— Você é engraçada, sabia? É difícil prever o que vai dizer.

A zaunita sentiu vontade de perguntar se Lux achava graça de tudo que ela não conhecia, mas uma questão mais imediata veio em sua mente.

— Eu vou ficar numa cela? — indagou, encarando a demaciana nos olhos. Eram de um azul tão inocente e familiar que a irritavam.

A menina assumiu um semblante sério, e pela primeira vez espiou o soldado à frente antes de falar, seu tom baixo como um sussurro.

— Talvez nas primeiras horas, mas vou fazer o que estiver ao meu alcance pra que saia de lá logo.

— Por quê? — questionou, ainda desconfiada, mas mantendo o mesmo tom. — Você nem sabe se pode confiar em mim.

— Eu também não sei se não posso confiar.

— Sabe que isso não faz sentido, não sabe?

— Eu tenho uma intuição — respondeu a loira, fazendo biquinho, e a azulada revirou os olhos. Por Janna, ela parecia uma criança. — E você?

— Eu o quê?

— Por que acha que merece ficar numa cela?

— Eu não disse isso.

— Mas é o que acha, não é? — A expressão no rosto de Lux ainda era leve, como se dissesse que o mar era azul ou que o dia estava bonito. — Dá pra ver uma nuvem de culpa ao seu redor.

— Se esse é o seu jeito de tentar que eu confesse alguma coisa, você é ainda mais idiota do que parece — respondeu, irônica, e apressou o passo para que desse a conversa por encerrada.

Sem se dar conta que fizera o resto do caminho todo abraçando a si mesma.

***

Mesmo depois dela se afastar, Lux não conseguia tirar os olhos da “invasora”: as bandagens, a franja azul desproporcional ao cabelo curto, as tatuagens, a personalidade que oscilava entre uma despreocupação exagerada e uma insegurança discreta. Eram perguntas demais, das quais a jovem se questionava se um dia teria a resposta para ao menos metade delas.

Contudo, ela sabia que o mais importante naquele momento era tentar mantê-la segura — e usaria todas as armas a sua disposição para isso.

Quando enfim avistaram os planaltos rochosos onde a cidade era composta, com as torres de mármore e tijolos brancos brilhando com os raios solares que começavam a despontar por trás das nuvens, a demaciana viu a menina finalmente soltar os próprios os braços, contemplando a vista diante de si por breves segundos, sem parar de caminhar.

Sorriu para si mesma, pensando em como nunca enjoava da vista de sua terra natal. Mesmo já tendo visitado a capital diversas vezes, tendo contato com o palácio e a mais refinada arquitetura do país, a paisagem dos riachos em meio às montanhas e as construções que preservavam o estado natural do lugar criavam uma sensação de paz inigualável, um acalento no coração que duvidava que poderia sentir em qualquer outra região do mundo.

— E então, o que achou? — perguntou, alcançando a azulada para dar um leve empurrão com seu ombro. Ela, todavia, continuou com um olhar fixo e neutro na cidade.

— Esse lugar... — começou a intrusa, dando uma leve pausa antes de se virar para Lux, uma sobrancelha erguida. — é meio sem cor, né?

— Sem... cor? — A demaciana já havia ouvido muitas opiniões sobre Alta Pratânia. Que era esplendorosa, rica, que tinha uma beleza única. Os que queriam soar menos impressionados diriam que ela era elegante, ou que tinha uma arquitetura “insólita”, enquanto mexeriam em seus bigodes e roupas e contemplariam mais da vista quando achassem que ninguém estava olhando.

Mas... sem cor? Com o verde das plantas, o azul profundo dos rios e a clareza do céu? Com os raios solares ricocheteando nas rochas, pedras, casas, torres?

— Tudo muito branco — continuou a outra, alheia ao seu choque. — Não fosse a água e as montanhas, ia parecer o lugar mais chato do mundo. Ainda parece, na verdade.

E, sem mais nem menos, a menina continuou o trajeto, olhando para o caminho à frente de novo, seguindo Áaron, sem se preocupar em tentar ver mais da arquitetura ou das edificações demacianas. Como uma criança que encontrava um brinquedo velho e ficava surpresa por um instante, até se dar conta que não tinha interesse de verdade naquilo e continuava fazendo suas próprias coisas, alheia a tudo.

Talvez, pela primeira vez naquela manhã, alguém havia aborrecido o humor de Lux Stemmaguarda.

***

— Bom dia, xerife Kiramman — disse o defensor assim que Caitlyn autorizou que entrasse em seu escritório. Era mais um da nova leva.

Depois dos problemas que tiveram com Noxus e as baixas sofridas pela população e a polícia, se fez necessária uma ação de processos de recrutamento, que seguia em curso. Apesar de ainda delegar funções, com a traição de Maddie Nolen e os problemas com Ambessa, mesmo tendo nome e rosto marcados daqueles que ajudaram no confronto da cidade, Caitlyn não podia se dar ao luxo de confiar em qualquer um, e por isso acompanhava a maior parte dos processos que podia pessoalmente. Logo, ainda que fosse emergencial aumentar o número de defensores e a capacidade da polícia de Piltover, ela fazia questão que as coisas retomassem aos poucos, vigiando cada cabeça que adentrava para sua força.

O que não ajudava nas tensões com o renovado Conselho, que pressionava e apressava ela, mas mesmo eles tinham outros problemas em mãos para resolver.

— Bom dia, defensor. — O nome do agente diante dela era Rei, e era o primeiro homem vindo de Zaun que recrutava sob seu comando. — Checou o que lhe pedi ontem?

— S-sim, senhora. — Apesar de projetar a voz, o jovem ainda tropeçava nas palavras, visivelmente inseguro com sua nova posição, mas dando o seu melhor. E era o que importava para a xerife. — Não houve relatos sobre nenhuma criatura nas proximidades da construção. Também nenhum relato sobre a Jinx ou sobre alguém de olhos rosados.

— E sobre os veículos aéreos?

— Não demos falta de nenhum dos veículos aéreos ainda funcionais. Também foram encontrados os esqueletos de todos os zepelins afetados durante o conflito, mesmo aqueles onde não há mais esperança de reparo.

Caitlyn deixou escapar um suspiro cansado, apreensiva. Tinha outras prioridades para lidar, mas sua intuição lhe dizia coisas. Porém, quanto mais investigava, menos sinais se mostravam. Também não tinha com quem conversar sobre aquilo: se Vi soubesse o que estava tentando investigar, ou diria que estava maluca ou criaria esperanças precipitadas. E, em verdade, também não sabia o que faria se no fim descobrisse que seus instintos estavam certos.

Se Jinx houvesse milagrosamente sobrevivido e escapado para algum lugar, o que fariam dali? Como xerife, seu dever era permanecer em Piltover, ajeitar as coisas, manter a cidade segura. E não podia perder a pessoa que mais confiava em um momento como aquele, enquanto começavam a engatinhar para restabelecer as coisas.

E se a zaunita quisesse aquela distância, que direito ela tinha de se intrometer na relação das irmãs?

Sentiu a cabeça latejar e fechou o olho, massageando o vinco no início do nariz com o polegar e o indicador.

— Certo, se isso é tudo, me dê o relatório escrito e está dispensado — falou, esperando ouvir o som das folhas de papel em cima da mesa para abrir o olho de novo, passeando com ele rapidamente sobre os registros de Rei.

— Espere — disse, interrompendo o defensor quando ele já estava com uma das mãos na maçaneta. — O que é essa observação sobre os dirigíveis?

— Ah — respondeu, parecendo um pouco envergonhado. — Achei que também seria de bom tom checá-los, mesmo que não usemos mais por causa da fragilidade do casco inflável.

— Aqui diz que há pelo menos cinco dirigíveis faltando. O que isso significa?

— B-bem, eu falei com os responsáveis por guardar os veículos. Como são antigos, esse trabalho é feito via bico entre moradores do subúrbio e da subferia.

— Via... bico?

— Quer dizer que não é um trabalho formal, senhora — respondeu o rapaz, apressado em explicar. — Alguns homens fazem a vigília em troca de alguns trocados.

— Eu sei que o significa — falou a xerife, um pouco impaciente. — Mas isso quer dizer que provavelmente não é um trabalho bem-feito, e que também não há como ter registro formal sobre os dirigíveis. O que você conseguiu descobrir?

— Que vez ou outra um veículo some mesmo, normalmente é roubado pra tentativa de revenda. Não é nada demais.

— Consegue descobrir se um deles sumiu no dia do confronto com Noxus?

— A-acho que sim, senhora. Mas não me parece provável que alguém tentasse revender um dirigível no meio daquela bagunça.

— Não estou atrás de uma revenda, soldado — respondeu Caitlyn, enfim se levantando da cadeira. O dia seria longo. — Estou atrás de uma fuga.

— M-mas no dia da batalha não tinha ninguém vigiando os zepelins. Seria mais eficiente roubar um deles, não? Você acha que alguém realmente usaria um dirigível?

A xerife deu uma última espiada para trás, vendo o quadro de investigações que ainda continha as anotações das semanas anteriores. Jinxers, registros de pinturas na cidade, movimentos de rebelião.

— O que eu acho, soldado — começou, dirigindo o olhar para Rei mais uma vez. — é que só uma pessoa doida faria algo assim.