Breaking Kurosaki
3 2º golpe - O caçador aprende com a caça
Notas iniciais

Grimmjow estava irritado.
Esconder sua reiatsu enquanto perseguia sua caça deixara de ser engraçado na tarde anterior, quando voltara sozinho ao Hueco Mundo — sem ter finalizado sua presa e concretizado sua vingança, claro.
Agora estava seguindo a pequena e patética shinigami pelas ruas de Karakura à espera do momento perfeito para atacar. Apesar de não parecer, era paciente e quando caçava sabia que essa era, de fato, a única qualidade necessária para não espantar a presa e pôr tudo a perder.
Grimmjow não poderia deixar isso acontecer.
Mas a verdade é que estava irritado com o fato de estar o dia inteiro atrás de Rukia, que não fizera nada além de patrulhar a cidade e matar um ou dois hollows que apareciam em seu caminho.
Não ousara interferir. Sabia que isso estragaria seu disfarce e era cuidadoso demais para espantá-la. Como na tarde anterior, quando a garota se livrara de seu domínio e fugira para a Soul Society.
Tentara segui-la. Fato. Mas as grandes portas feudais se fecharam em sua face quando se movera adiante.
Retesou a mandíbula. Era por isso que estava tão irritado e, diga-se de passagem, cuidadoso. Havia falhado uma vez e não se permitiria falhar novamente.
Ainda se lembrava com perfeição de como a tivera entre suas mãos. Seus dedos sobre sua garganta pálida. A pele suave, quase uma porcelana de tão frágil, entre seus dedos. Com um leve pressionar em sua garganta, não mais do que isso, poderia clamar a vida dela para si e concretizar sua vingança.
Perguntava-se o que aconteceria com a shinigami caso a matasse. Desapareceria? Viria para o Mundo Real numa reencarnação tola e sem sentido? Quanto mais se questionava, mais dava espaço para que ela agisse.
E a vadia agiu.
Ô se agiu.
Para o desgosto de Grimmjow, a shinigami levantou dois de seus dedos até a altura de seu peito. Mas ele a subestimou. Fraca como estava, não acreditava que pudesse opor qualquer resistência, muito menos atacá-lo.
Mas ela o fez.
Ainda se lembrava de sua voz praticamente sumida, bem baixinha, quase um sussurro, a dizer: “Hadou #73 Souren Soukatsui!”. Uma luz azulada escapou de seus dedos e atingiu o peito de Grimmjow, atirando-o longe.
Com o impacto do golpe, foi parar a vários metros de distância, o que deu tempo suficiente para sua oponente desaparecer entre os portões feudais que a levariam de volta para a Soul Society.
Tentou segui-la, é claro, mas os portões de merda se fecharam antes que pudesse alcançá-la. A única coisa que lhe restava era retornar ao Hueco Mundo antes que fosse atrás de Ichigo e ferrasse com a vida dele de uma vez por todas.
Estava irritado.
Com raiva.
Sentia ódio.
Mas sorriu. A shinigami fora esperta, não poderia negar. Corajosa. Não se rendera, sequer correra dele, fugira. Enfrentara-o de igual para igual e o vencera com o quesito estratégia. Tudo isso por uma única razão: porque Grimmjow a subestimara.
Ela não o superestimara. Nem se subestimara. Reconhecia a própria força e mesmo estando em clara desvantagem, não desistira.
Grimmjow admirava isso.
Mas odiava na mesma proporção.
Mãos nos bolsos, tencionou levemente os músculos de seus braços poderosos conforme a curiosidade o dominava completamente. Aonde a garota ia?
Agora já sabia que não mais patrulhava. Sua postura corporal era diferente. Sua atenção era diferente. Caminhava mais despreocupadamente, mas sem, no entanto, relaxar.
Sabia que ela estava pronta para qualquer ataque. Entretanto, um novo ataque era a última ideia que passava pela sua cabeça no momento. Queria saber o que ela faria e porque voltara no dia seguinte ao mundo real.
— Humpft, finalmente! — resmungou baixo para si ao vê-la alcançar uma construção de aparência antiga. Na placa jazia “Loja de Doces Urahara”, e logo na entrada viu-a cumprimentar dois adolescentes: um de cabelos vermelhos, feio pra caramba, que dava vassouradas na cabeça de uma menina cujos cabelos cor-de-corvo estavam presos em duas maria-chiquinhas patéticas e tão feiosas quanto a cara do adolescente que lhe batia.
Ela não esperou que eles respondessem e já foi entrando. Grimmjow se escondeu ao lado de uma construção próxima. Mal podia conter sua curiosidade, mas seria paciente. O que quer que aquela vadiazinha estivesse tramando, iria descobrir.
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— Ora, ora... Olha só quem resolveu dar as caras na minha humilde loja, Yoruichi-san. — O loiro sorriu atrás de seu famoso leque branco.
— Pois é né, Kisuke! Quem tá vivo sempre aparece.
— Boa tarde para vocês — Rukia disse ao adentrar a sala. Yoruichi e Urahara tomavam chá e comiam biscoitos. Já passava das cinco horas da tarde e apesar de ser primavera, já começava a escurecer.
— Boa tarde — respondeu a dupla em uníssono.
— Quer também? — Yoruichi ofereceu, acenando para o zabuton desocupado ao seu lado. A shinigami meramente meneou a cabeça positivamente e se sentou ao lado de ambos.
— A que devo essa inesperada visita? — o loiro perguntou, servindo-a.
Rukia inalou o líquido quente e fechou os olhos levemente.
— Missão.
— Ah, finalmente alguém percebeu que a pacífica cidade de Karakura está muito pacífica.
— É — concordou. — Por isso eu vim investigar. Porém, eu acredito que o problema não seja exatamente aqui.
— Hueco Mundo — Yoruichi acrescentou por ela num tom pensativo.
O silêncio envolveu a sala tão logo a morena disse essas duas palavras. Os três olharam cada um para o seu chá e deram um longo e lento gole.
— Se for esse o caso — Urahara começou. — Então Kurotsuchi-san já deve saber.
— O que faz sua vinda até aqui desnecessária — Yoruichi atestou.
— Sim — Rukia concordou. — Mas uma vez que a cidade de Karakura está sob a jurisdição da 13ª divisão, Ukitake Taichou me pediu para investigar pessoalmente.
— O que significa que você não está trabalhando com o Kurotsuchi-san.
A garota concordou com a cabeça.
— Hai, hai. — Urahara sorriu, levantando-se. — Nós podemos te ajudar a entrar no Hueco Mundo sem o conhecimento da 12ª Divisão.
— Isso vai ser divertido. — Yoruichi também se levantou. Tinha um sorriso enorme no rosto. Algo entre malicioso e contente.
Rukia não sabia decifrar o que tal gesto significava, mas também se levantou, seguindo-os para o quarto dos fundos. Não havia pedido por tal ajuda, mas seria totalmente bem-vinda.
— Acredito que você irá precisar do seu gigai.
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Já estava escuro quando seus olhos cerúleos captaram a forma feminina deixando a loja de doces. Grimmjow soltou um aliviado “até que enfim” e se preparou para saltar do telhado e abordá-la quando reparou que a shinigami já não mais vestia aquele típico quimono preto que ela e seus companheiros idiotas sempre trajavam. Algo como um vestido florido e um lenço arroxeado adornavam seu corpo e pescoço.
Roupas humanas.
Humpft. Grimmjow cuspiu no chão. Que coisa mais idiota! Para que se vestir como um humano se eles sequer poderiam vê-la?
Começou a segui-la dos telhados das casas, mas parou ao ver um senhor se curvar diante dela e acenar cortesmente. Rukia fez o mesmo e seguiu seu caminho. Um sorriso em sua face.
Atônito, o Espada continuou exatamente onde estava, observando o senhor caminhar a passos lentos na direção oposta de Rukia. Não havia corrente em seu peito e sua energia era extremamente comum. Pobre. Desprovida de qualquer atrativo. E isso só poderia significar que não se tratava de um Plus.
Não.
Aquilo era curioso pra porra.
Grimmjow sorriu.
Era daquilo que precisava. De algo que pudesse fazer as pessoas o enxergarem.
Fazer seu inimigo favorito ser capaz de enxergá-lo.
Deixou a shinigami de lado e rumou para a loja de doces de onde a tinha visto sair. Iria buscar o mesmo que ela.
Sabia que ela havia pego aquele corpo falso — também chamado Gigai, ou assim o inútil e lambe bolas do Ulquiorra os havia chamado uma vez. Precisava de um igual.
O sorriso em seu rosto só cresceu diante da ideia de roubar. Ou melhor, pegar algo emprestado sem pedir previamente.
Se Kurosaki Ichigo não poderia vê-lo, o Espada arrumaria uma forma de ser notado.
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— Ouviu isso, Kisuke? — Yoruichi perguntou antes de mover sua peça no tabuleiro. Jogavam Go desde que finalizaram a janta e as crianças se retiraram para seus quartos.
Nesse momento, Tessai adentrou a sala seguido por Jinta, que coçava os olhos, e Ururu, que carregava o livro que lia nas mãos.
— O que devemos fazer, Urahara-dono?
O loiro levou alguns segundos para responder. Sorriu.
— Nada.
— Como assim nada? — Jinta perguntou ainda coçando os olhos. Yoruichi olhou para ele com suspeita. O garoto praticamente cambaleava. Tessai o amparou.
— Nada. — Urahara repetiu, prestes a mover sua peça. Yoruichi se voltou para ele e deu um tapa em sua mão, tirando-a do caminho. O loiro sorriu com fingida inocência.
— Vão dormir vocês dois — disse, ainda olhando com suspeita para o garoto ruivo. — E Jinta — chamou-o. — Vê se faz a sua lição ao invés de deixar tudo para a Ururu.
O garoto revirou os olhos ao perceber que fora pego tão facilmente. O que, exatamente, o denunciara? Não teve tempo para pensar, pois tão logo abriu a boca para responder, foi agarrado por Tessai e levado para fora da sala.
— Você também sentiu — Urahara comentou tão logo se viram a sós.
— Sim — concordou e só então moveu sua peça.
O loiro sorriu mais uma vez e deu continuidade ao jogo. A essa altura estavam ambos empatados.
— Ele levou algo.
— Um gigai. Modelo novo, com localizador, e algumas roupas do Renji.
Silencio os envolveu por alguns segundos enquanto a morena planejava seu próximo movimento. Queria finalizar Urahara o quanto antes. Estava cansada e queria dormir. A invasão não era nada mais do que um pequeno estorvo, mas desde que o gigai possuía localizador, era, na verdade, irrelevante.
Poderiam cuidar disso a qualquer momento do dia seguinte. Ou dias depois. Tanto faz. Seria até bom deixar que alguns dias se passassem para terem dados de onde a pessoa ia e o que fazia.
Roubar um gigai...
— Pense bem — comentou ao mover sua peça mais uma vez. Urahara moveu a sua própria tão rapidamente que Yoruichi não teve escolha a não ser sorrir. Ele sabia que estava cansada e por isso a estava deixando ganhar.
Que gentil. Assim não tinha graça. Moveu a próxima de uma forma que ele não esperava. Não finalizou o jogo. Agora queria continuar. Se fosse vencer, seria porque conseguia fazer isso sozinha. Não iria deixá-lo pagar de cavalheiro.
— Sim? — instigou-a a continuar.
— Aquelas roupas são tão horríveis e bregas que se ninguém as levasse, eu mesma iria queimá-las um dia desses.
Eles riram e continuaram a jogar.
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Estava descendo a rua em passos leves e descuidados, observando tudo ao seu redor, principalmente as lojas ainda abertas e decoradas com detalhes florais quando notou.
Havia notado muito antes. Passos. Oscilação de reiatsu. Mas acreditara piamente estar enganada.
Agora, apesar de não sentir nenhuma energia espiritual próxima, podia ouvir os passos atrás de si.
Virou-se de repente. A brisa noturna e suave tocou seu rosto. Bagunçou seus cabelos, fazendo-os dançar conforme o vento.
Seus olhos se arregalaram.
— Olá, shinigami — Grimmjow a saudou, mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans. Era um pouco apertada e devido ao seu costume com calça hakama, usualmente mais largas, estava levemente incomodado.
— Arrancar!
— Eu tenho nome. — Aproximou-se dela a passos lentos, comedidos. Cercava-a, como fazia com todas as suas presas. Só parou quando estava a menos de um braço de distância.
A diferença entre suas alturas seria o suficiente para incomodar qualquer um, mas não Rukia. Ela o encarou com firmeza, seu olhar fixo, desafiador.
— Eu também tenho.
— Rukia — disse ele, sorrindo. Seus caninos grandes tocavam os lábios inferiores.
A shinigami retrocedeu ao ouvir seu nome. Não gostava da entonação de Grimmjow. Algo entre malicioso. Mau. Vil. Carregado de luxúria. Não sabia como lidar com isso. Mas medo, certamente, não era uma das sensações que a dominavam no momento.
— Você tem um gigai — apontou. Não iria dizer o nome dele como ele havia dito o dela. Não iria cair naquele jogo. Olhou mais atentamente para as roupas que ele vestia. A camisa florida, completamente brega e fora de moda, recordava-a das roupas que Renji costumava usar quando vinha ao Mundo Real. Quase riu, mas parou ao perceber que elas ficavam muito menores nele do que em seu amigo.
Era quase indecente.
Grimmjow correu a mão pelos cabelos azulados. Ao fazê-lo, o único botão fechado da camisa se abriu expondo seu peitoral forte e poderoso.
— Peguei emprestado.
Rukia estreitou os olhos.
— Roubou.
O Espada deu de ombros. Havia roubado mesmo e não havia nenhum problema em assumir isso. Tampouco iria se justificar por seus atos.
Na verdade, havia sido mais fácil do que pensara. Agira tão silencioso como sempre quando caçava uma presa, só que dessa vez não havia nada envolvido com caça. Só fizera um leve barulho quando, ao sair pela janela, as malditas correntes de sua calça jeans engancharam no pino.
Ninguém viera detê-lo.
Isso o surpreendera. Já estava pronto para brigar. Pode-se dizer que ansiava por isso. Mas conforme os minutos se passaram e nada aconteceu, decidiu que iria embora.
Encontrar a shinigami não estava em seus planos, mas a garota não era exatamente muito boa em esconder sua reiatsu. Melhor que o Kurosaki, admitia, mas estava longe de se equiparar a ele próprio.
Foi em passos lentos, despreocupados, que começou a segui-la. Era muito mais fácil controlar sua energia dentro daquele corpo artificial. Incomodava um pouco também, uma vez que ele se sentia pequeno, limitado e sem poderes dentro dele. Mas iria se acostumar.
Tinha que se acostumar.
Seus passos, a princípio, eram desajeitados, e ele tinha a impressão de que era muito menor do que realmente era. Mas era apenas isso: impressão.
Enquanto a seguia pelas ruas pacíficas da cidade, olhou-se numa vitrine. Tinha exatamente o mesmo tamanho de sempre. 1.86cm. Não mais que isso, nem menos. Seus cabelos ainda eram azuis, bem como seus olhos. E sua aparência poderosa, máscula e viril não mudara nem um pouco.
Achava-se atraente e o olhar que as mulheres humanas lhe direcionavam apenas comprovava isso. Sorriu para elas mais de uma vez, não porque as encontrava bonitas, algumas sim, admitia, mas pelo fato de que elas pareciam muito mais fáceis e dispostas que qualquer mulher com quem ele já havia transado.
Assim não tinha graça.
Naquele momento, olhou para a garota a quem seguia. Ela andava com uma leveza e graça que ninguém nunca diria que estava limitada dentro de um corpo artificial. Então olhou de volta para o seu próprio reflexo na superfície de vidro. Sorriu.
Se a garota podia fazer isso, ele também podia. Afinal, o caçador sempre aprende com a caça.
Com um suspiro, Rukia se virou para ir embora. Não estava disposta a dizer algo do qual pudesse se arrepender depois. Safara-se por pouco da última vez e não desejava passar pelo mesmo sufoco novamente.
Voltou a caminhar pela calçada e ruas cheias da cidade. Por ser sexta-feira, muitos adultos passeavam pelas ruas e faziam compras. Muitos adolescentes que não teriam aulas no sábado também.
Iria para bem longe do Espada. O que quer que ele estivesse tramando, poderia descobrir depois.
Mas Grimmjow não poderia deixá-la ir. Não tão facilmente.
Agarrou-a pelo pulso. Puxou-a para si levemente. Não sabia o que pretendia fazer com ela. Não havia planejado isso. E, verdade seja dita, Grimmjow não era do tipo que planejava muito.
Simplesmente agia.
Seguia seus impulsos.
Olhou-a nos olhos. Intenso azul se conectou ao indignado violeta.
Rukia fez um leve movimento de pulso para se soltar e conseguiu. Mas, nesse mesmo momento, um garoto que andava de skate pela calçada, trombou neles, fazendo com que Rukia se desequilibrasse e caísse para frente. Acabou ficando presa nos braços de Grimmjow. Ainda tentando se equilibrar, o Espada se inclinou levemente para frente. Um beijo aconteceu.
Foi apenas um leve roçar de lábios que não durou. Um leve selinho. Em poucos segundos, garota se afastou e o acertou com um tapa na face.
Fugiu.
Correu para bem longe.
Estava mortificada com o que havia acontecido. Não olhou para trás. Limpou a boca e cuspiu no chão, indignada.
Grimmjow continuava parado no mesmo lugar, atônito. Observou sua forma ágil desaparecer na próxima esquina e então, só então, sorriu.
Tocou os lábios onde ainda o suave calor dos dela permanecia nos seus.
Sorriu ainda mais.
Gargalhou dessa vez.
Estava feliz.
Infinitamente feliz.
De uma forma que só ele diria: feliz pra caralho.
Ali, naquele beijo suave, inocente e inesperado, estava a maneira perfeita de quebrar Kurosaki.
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