Breaking Kurosaki
2 1º golpe - O pequeno coelho assustado
Notas iniciais

Por vários dias, a ideia de vingança ficou estocada dentro de Grimmjow enquanto ele planejava seus passos cuidadosamente.
Era um homem impetuoso, verdade, mas, acima de tudo, um caçador, e quando se tratava de estudar, cercar e atacar sua presa, ele não se afobava. Assim, o arrancar passara os últimos dias perseguindo seu rival.
Kurosaki Ichigo estava literalmente na merda. Não entendia porque insistia tanto em se vingar de alguém que estava tão ferrado.
Não.
Ele sabia a razão.
Ele queria mais. Queria toda a miséria do mundo para o seu inimigo favorito. Queria que Kurosaki Ichigo implorasse por clemência.
Grimmjow enfiou as mãos nos bolsos enquanto assistia ao garoto ruivo apertar um suco de caixinha entre os dedos. Era intervalo e um dos amigos dele — havia aprendido seus nomes há alguns dias —, Keigo, um adolescentezinho punheteiro, nada engraçado e sem talento algum, aproximou-se.
De onde estava, recostado contra a parede no terraço, o Espada acompanhava, com certa impaciência, a rotina de Ichigo. Keigo lhe ofereceu um sanduíche, que o ruivo prontamente recusou. Uma pergunta foi feita, mas a resposta sempre continuava a mesma, um balançar de cabeça, um sacudir de ombros. Nada realmente diferente.
Kurosaki Ichigo não passava de uma representação patética, imóvel e sem vida do que um dia fora.
O Espada se sentou sobre a construção de caixa d’água do terraço e ficou a observar o garoto. Suspirou em descontentamento. Era assim todo dia.
Poderia pegar o que quisesse de Ichigo que ele não iria nem notar, tão apático estava. Claro, o garoto continuava a bater em Keigo todos os dias e suas notas ainda eram altas. Mas qualquer observador atento notava que algo estava... Diferente. Faltando em sua vida.
Grimmjow se perguntava o que poderia fazer para deixá-lo ainda mais fodido. Mas isso já parecia impossível.
Após observá-lo tão atentamente, poderia afirmar que nada deixava o garoto plenamente satisfeito, exceto uma coisa — e isso soava completamente ridículo para o arrancar —: proteger alguém.
Ichigo era um protetor — aquele nome de fruta quase tão gay quanto seu nome tinha outro significado — e nada poderia mudar isso. Isso nunca seria modificado nele: sua vontade de proteger aqueles ao seu redor e as pessoas com quem se importava.
Por vezes pensara em fazer algo a alguém da sua família. Ou aos seus amigos. A garota peituda parecia ser uma boa opção, mas no fim das contas, qualquer um daqueles amigos dele eram tão entediantes que Grimmjow desistiu antes mesmo de tentar.
De seu lugar, franziu o cenho ao sentir uma mudança na energia espiritual ao seu redor. Olhou para Ichigo, mas o garoto continuou apático como sempre. Sem chance de que ele recuperasse seus poderes tão cedo.
Olhou para cima e se deparou com uma porta feudal. Primeiramente uma borboleta negra, logo depois vestes de um tom igualmente ébano surgiram, moldadas num quimono.
Shinigami!
Grimmjow não precisava vê-la para saber de quem se tratava. Conhecia aquela energia espiritual bem o bastante.
Isso estava ficando interessante.
Não precisava de mais indicações para saber que sua vingança começaria naquele dia. Mas, muito embora, tivesse data de início, não tinha para acabar.
“Talvez até que eu tire sua vida.”
#
As grandes portas de madeira em estilo feudal se abriram trazendo uma garota pequena e uma borboleta negra. Os fortes ventos vespertinos balançaram sua mecha teimosa e seu cabelo cor-de-corvo, que agora exibia um novo corte.
Respirou fundo.
Parecia que eras haviam se passado desde que colocara o pé pela última vez na cidade de Karakura. Entretanto, a sensação que tinha era de que sempre estivera ali, tão familiarizada estava com cada mínimo canto da cidade humana.
Ela sabia que deveria estar treinando e, claro, preenchendo relatórios. Os últimos meses haviam sido dessa forma: Rukia ficaria do lado de seu capitão atuando como sua tenente, ainda que fosse apenas uma oficial sem assento.
Gostava de ajudar, fato, mas também gostava de patrulhar. Sentia falta das rondas que fazia em Karakura e, ainda que nunca fosse admitir, de Ichigo.
O mundo era só paz desde que Aizen fora derrotado e ela não poderia evitar se perguntar se isso não era estranho. À ela soava como se alguma corda estivesse faltando numa cítara antiga, fazendo com que seu som saísse mais baixo, tranquilo e fora do usual. Feio. Corrupto e... Errado.
A cidade de Karakura não era conhecida por sua pacificidade. Ao contrário, era alvo de hollows o tempo todo. Apenas alguns ataques muito pontuais aconteciam e, ultimamente, antes mesmo que algum shinigami da divisão pudesse administrar a questão, os hollows desapareciam.
Eles simplesmente desapareciam! Sem deixar vestígios.
Era como se alguém os eliminasse antes que a Soul Society pudesse sequer ter conhecimento. Até onde sabiam, Ishida, Inoue e Sado não estavam envolvidos em tal assunto. Estavam tão surpresos quanto eles.
Ukitake Juushirou parecia concordar com ela e, portanto, a enviara para uma breve investigação. Byakuya não fizera objeções, mas também não parecia satisfeito. Rukia não conseguia entendê-lo. Alguém conseguia?
Estava feliz, entretanto. Caso obtivesse êxito nessa pequena missão, ele permitiria que ela se tornasse tenente. Era um sonho se tornando realidade! Não podia deixar essa chance lhe escapar por entre os dedos.
Pulando de telhado em telhado, Rukia parou exatamente na frente da sala de Ichigo. Ele não prestava atenção ao professor. Típico. Olhava diretamente para ela, como se pudesse vê-la. Mas ele não podia. Sabia disso.
Sorriu amargamente para si mesma. Queria se aproximar, perguntar como ia a vida, a escola e sua condição de humano, porém, tanto quanto desejava lhe falhar, sabia que era imprudente.
Não se mexe em feridas recém-abertas se você quer que elas cicatrizem, ou tinha ouvido algo assim durante sua estadia no Mundo Real. Ichigo estava bem como estava. Não precisava dela para bagunçar sua vida de novo.
Seu Soul Phone tocou.
Franziu as sobrancelhas. Hollow.
Finalmente!
Perto da escola, bem junto aos portões, estava um hollow de porte pequeno a perseguir um Plus. Usando shunpo, ela se aproximou, Zanpakutou em mãos, e o cortou verticalmente de cima.
O hollow não teve tempo para se esquivar, tão rapidamente ela agira. Com um urro de dor, ele desvaneceu, suas partículas negras se desfazendo no ar da cidade.
O Plus, uma garotinha que não parecia contar mais que cinco aniversários, respirou aliviada e olhou para Rukia. Um sorriso delineou seus pequenos lábios.
— Obrigada, moça. — Seus olhos brilhavam.
Rukia sorriu de volta. Estava feliz por fazer isso novamente. Lembrava-a do porque gostava de ser uma shinigami.
Voltou-se para o Plus, estava pronta para mandá-la para a Soul Society quando o mundo tremeu.
Foi intenso.
Terrível.
Seus olhos se arregalaram consideravelmente. Conhecia aquela reiatsu. E não gostava nenhum pouco dela.
Às suas costas, uma voz grave e poderosa se fez ouvir. Rukia tremeu.
— Olá, shinigami.
#
— Tchau, Ichigo! — Mizuiro se despediu com um gesto de mão. Ichigo apenas balançou a cabeça.
— Tchauzinho, Ichigooooooooo! — Keigo correu até seu amigo, mas o ruivo se esquivou, deixando-o cair desajeitadamente no chão. Tatsuki, que vinha logo atrás, pulou por cima do garoto e se aproximou, perguntando:
— Você não vai com a gente?
Estirado no chão, Keigo implorava por ajuda, mas foi ignorado por todos. Em seus olhos, lágrimas falsas brotavam devido ao tratamento indiferente que lhe era dispensado.
— Por que tão ruins comigo?
Tatsuki estava prestes a responder, mas Ichigo sacudiu a mão e pulou por cima de Keigo, andando em direção à saída:
— Não. Vou trabalhar de goleiro. — Sem se virar ou gesticular sua despedida, Ichigo atravessou os portões da escola. — A gente se vê por aí.
Olhou para o relógio em seu pulso. Ainda não passava das 15h00, o que significava que ainda tinha muito tempo para treinar com os garotos do ginásio. Para ser bem sincero, Ichigo era bem indiferente àquele emprego de goleiro, mas estavam lhe pagando uma quantia razoável, além de ser uma forma de passar seu tempo.
Todos os seus amigos estavam trabalhando, cada um num lugar diferente e ele não queria — nem poderia, seu pai faria um inferno de sua vida — ser o único a ficar em casa sem fazer nada.
O sol queimava sua retina quando cruzou a próxima esquina a um passo comedido, sem prestar muita atenção aos seus arredores. Contava quantos pontos precisava tirar em cada matéria para fechar o semestre tranquilamente ou, precisamente, quantas horas teria que estudar. Seria um mês bem cheio, já pressentia. Além disso, ainda havia as finais de campeonato. O time até que ia bem — entre muitas aspas, uma vez que quem fazia boa parte do trabalho era ele, impedindo que a bola entrasse no gol.
Parou de repente ao sentir uma garota se chocar contra suas pernas. Era pequena, completamente mirrada. Não parecia contar mais do que oito anos e estava muito assustada. Com o impacto, ela caiu no chão e Ichigo se voltou para baixo, resmungando:
— Oe! Olha por onde anda! — Com um suspiro irritado, ajudou a criança a se levantar, mas tão logo estava de pé, continuou a correr. Não pediu desculpas, tampouco agradeceu.
Ichigo coçou a cabeça, intrigado, e seguiu seu caminho. Poucos segundos depois, virou a cabeça levemente para trás e seus olhos se conectaram aos da garota. Ela continuava a correr na avenida e de tempos em tempos olhava para trás como se estivesse fugindo de alguém... Ou algo.
Uma única coisa lhe veio à mente: Hollows.
#
Num piscar de olhos, a shinigami usou shunpo para retroceder, colocando uma boa distância entre eles. De onde estava, o sorriso de Grimmjow só aumentou. Mãos nos bolsos, ele a observava com atenção.
— Arrancar! — a garota exclamou, retirando sua Zanpakutou da bainha. Preparava-se para liberá-la, quando, num sonido impressionante, Grimmjow avançou contra ela.
Rukia escapou por pouco. Muito pouco, admitiu com a respiração entrecortada ao esquivar de seu golpe de mãos. Por alguma razão que desconhecia, ele não havia utilizado nada além de sua velocidade — alarmante, admitia — e força bruta. E era com o que mais se preocupava: a força do Arrancar.
Vira o que ele fizera com Ichigo na primeira vez em que se encontraram, com ela própria, recordava, e não fora nada agradável.
— Qual é, shinigami? — ele perguntou, sua voz e sorriso de maníaco a deixavam cada vez mais nervosa. — Vai ficar aí parada? Já tá se borrando?
Ela apertou a Zanpakutou entre os dedos. Detestava aquele tom de voz. Detestava a forma como avançava novamente em sua direção, como uma pantera prestes a dar o bote em sua presa: rápida e mortal, mas nem por isso menos graciosa e amedrontadora.
— Hadou #33 Soukatsui! — Uma bola azulada, de proporções gigantescas, saiu de sua mão, voando em direção ao Espada. Desnecessário dizer que Grimmjow se esquivou tão facilmente como se espreguiçasse após uma longa soneca.
Logo ele estava sobre ela. Os dois trocaram alguns golpes. Grimmjow era rápido, incansável e forte. Cruel. Shunpo e sonido eram utilizados por ambos, shinigami e arrancar, para retroceder e atacar. Uma verdadeira dança de passos cronometrados, algumas vezes erráticos, mas tão mortal e perigosa quanto qualquer jogo entre a caça e o caçador.
A única diferença é que Rukia sabia que não era a caçadora. Nunca seria.
Grimmjow era a pantera. Ágil. Feroz. Mortal. E ela...
...Ela era o coelho. Lento. Frágil. Assustado.
O Espada não retirou sua Zanpakutou. Rukia tampouco queria que isso acontecesse. Nunca havia visto a Resurrección de Grimmjow, mas também não estava disposta a ver pela primeira vez. A destruição que ele causara naquela primeira vez em que aparecera na cidade de Karakura era prova o suficiente do quão perigoso já era sem tais recursos extras.
Ela, no entanto, empunhava sua Zanpakutou, mas não conseguira liberar sua shikai. Usava-a para parar os golpes de seu oponente, para bloquear e afastá-lo. Também se valia de seu hakuda, mas sua força física era inferior a dele. Sua vantagem basicamente consistia em sua velocidade, que também se equiparava a dele, e inteligência. Grimmjow era todo ferocidade, todo agilidade, todo força, mas pouca, quase nenhuma, chegara à conclusão, estratégia.
Seu estratagema, se é que ele tinha um, consistia apenas em atacar, atacar e atacar. Mas sempre recuar quando estava prestes a feri-la seriamente. Tivera inúmeras chances, mas não o fizera.
Isso a intrigara.
Rukia parou de repente, esperando seu próximo ataque. Ele vinha numa velocidade descomunal e quando a acertasse, caso a acertasse, doeria como o inferno. Mas ela tinha uma teoria e queria testar.
Precisava arriscar.
Ele se aproximou, mas o golpe nunca veio. Rukia abriu os olhos. Não sorriu, mas seus olhos brilharam ao constatar que estava certa. Grimmjow não tencionava feri-la. O que pretendia, então?
— O que você quer, Arrancar? — perguntou, abaixando sua Zanpakutou. — Não quer me ferir. Não seriamente. Já teve sua oportunidade.
Sua face estampava uma máscara que era parte confusão, parte raiva. Logo a raiva o dominou por completo.
A vadiazinha adivinhara sua estratégia.
O tempo para brincadeira acabara. Perdera a graça. Não havia sentido em cercar um animal que não mais estava amedrontado. O pequeno coelho assustado agora o desafiava. A palavra de ordem agora era atacar. O quanto antes. O mais breve possível. Antes que ela pudesse sequer ver.
Desapareceu com um sonido, apenas para reaparecer na frente dela. Foi surpreendido, porém, quando uma bola de energia vermelha surgiu próxima a sua face. Com um pequeno cero azulado, esmagou a grande massa de energia que Rukia atirara contra ele. Também retrocedeu.
As duas massas de energia, vermelha e azul, duelaram no céu, até explodirem em conjunto e fazerem a cidade sacudir.
Nesse meio tempo, Rukia conseguiu liberar sua Zanpakutou. A lâmina e o cabo, de um branco tão puro quanto a neve, com uma fita de cor igualmente cândida, brilhou contra o céu. Ela olhou para seu oponente, resolução escrita em sua face.
Grimmjow estava vindo para um novo ataque. Mas ela já não estava mais com medo ou assustada. Durante os poucos golpes trocados, Rukia havia observado que seu inimigo não queria feri-la. Não realmente. Seu propósito era outro. Só não podia precisar qual. Olhou para cima. Lá estava ele, vindo em sua direção, num ataque feroz e rápido. O sorriso arrogante agora tomava conta de quase toda a sua face. Isso a irritou.
— Tsugi no mai: Hakuren! — exclamou, fazendo um gracioso movimento de braço. Um pilar de gelo surgiu abaixo dela, a circunferência iluminou o céu e tão rápido quanto a queda de Grimmjow sobre ela, o gelo o envolveu até desaparecer entre as nuvens.
Olhou para baixo. Um cabelo alaranjado capturou sua atenção. “Ichigo!”, pensou, distraída, enquanto o observava cruzar as ruas em direção ao campo do outro lado do rio.
Estava tão concentrada em observar seu amigo e antigo companheiro de lutas que não percebeu que Grimmjow quebrava a circunferência de gelo. Havia se esquecido de que não era a primeira vez que ele fazia isso.
Desviou a atenção para ele, mas nesse mesmo instante, o olhar de Ichigo se voltou para cima. Exatamente para o horizonte, mas que a ela, parecia que ele lhe encarava. O adolescente franziu o cenho. Era como se pudesse vê-la...
— Não se distraia, shinigami! — Grimmjow gritou, acertando-a com o punho no estômago. Rukia cuspiu sangue. Uma dor lancinante envolveu seu corpo por completo. — Eu ainda não morri!
Rukia tentou erguer os dedos para desferir um kidou, ou algum golpe que pudesse afastá-lo, mas falhou miseravelmente quando ele a pegou pelo pescoço. Olhou bem em seus olhos cerúleos. Satisfação reluzia naquelas piscinas profundas. Era difícil encarar por muito tempo.
Olhou para baixo. Ichigo a fitou por mais alguns segundos. Seus olhos castanhos, mesmo que dessa distância, pareciam-lhe extremamente preocupados. Voltou a encarar Grimmjow. O sorriso não era mais arrogante, tampouco espontâneo. A risada que deixou seus lábios enquanto ele apertava sua traqueia entre seus dedos era sádica. Maníaca.
De soslaio, entretanto, ainda conseguia ver seu amigo. Logo, ele sacudia a cabeça em negação e continuava seu caminho.
Rukia fechou as pálpebras.
Sua reação não passou despercebida por Grimmjow que sorriu, aproximando seu rosto ainda mais de sua presa.
Ali, em seus braços, jazia uma shinigami mirrada e patética, a melhor... Não... A única maneira de quebrar seu inimigo favorito.
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