Break Of Dead
7 Capítulo 10 - Forget The Costums (Final de Volume)
Notas iniciais
Só continuarei postando caso alguém me traga notícias que está a ler, não vale a pena partilhar com o boneco xD
E que venha o segundo certo? =)
As grandes portas estavam cada vez mais escancaradas e com isso alguns de nós fomos para as paredes do edifício, para não estar cara a cara com o quer que saísse dali, mas eu não tive tempo de o fazer, só de puxar debilmente da pistola. Para além de mim, só Marcus e Elizabeth, ambos de armas em punho, ficaram nos mesmos lugares. Ela então estava mesmo na frente das grandes portas e eu tinha uma visão do que de lá poderia sair assim que estivessem mais abertas.
Esperava zombies, esperava mais homens com armas, mas o que de lá saiu foram duas mulheres de meia-idade, que ficaram completamente aterrorizadas connosco. Senti que o meu papel na abordagem tinha mudado e que a do grupo também. Depois de durante a viagem de carro termos começado a pensar a sério pelo que Elizabeth tinha passado, mesmo sem detalhes, cada um à sua maneira soube que as coisas não poderiam ser tratadas da mesma maneira que á tempos atrás.
A mulher de descendência indica ia decerto pedir para que elas não se mexessem e eu segundos depois pedir-lhe a ela que tentasse abordar de outra forma, mas aquelas duas começaram a gritar alto e estridentemente e depois a correr para dentro. Aproximei-me de Elizabeth com o coração aos pulos. Tinha olhado de relance para o parque de areia e lá ao fundo os dois homens com as armas pareciam ter tomado atenção ao que se estava a passar e cada vez mais próximos de nós.
– Não foi a melhor abordagem… — Comentei com ela. Reparei que por trás das portas existiam dois vãos de escadas, um para cima à esquerda e outro para baixo à direita. Não sabia para onde elas tinham seguido.
– Tinhas uma melhor?! – Começou a andar para a frente, carregando a caçadeira e preparando-a para o primeiro disparo. Tive de ser corajoso e colocar-me à frente dela. – Oh, o que pensas fazer?
– Conquistar. Não era o plano desde o início?
– O plano mudou assim que aquelas duas pessoas apareceram na porta. – Marcus tinha-se juntado a nós.
– Então é melhor carregarem agora as armas, aqueles guardas lá do fundo devem ter ouvido não? – A mulher baixou a caçadeira, mas afastou-se da porta. Estávamos mais desprotegidos em frente dela. Colocámo-nos o mais perto da parede, sem que ela nos impedisse de mover. Passaram o revólver a Claire para autoprotecção e apenas os adolescentes não tinham nenhuma naquele momento em mãos, salvo Brian que deixou bem visível o taco de basebol.
– Eu vou falar com eles. Não sabemos as suas intensões, mas também não vamos começar por ai a disparar em pessoas. Cubram-me. – Disse o bombeiro loiro, seguindo para o parque.
– Tu é que sabes… — Mesmo a queixar-se, Elizabeth levantou a arma e tentou mirar um bom local. Marcus foi para a frente, onde ainda o conseguimos ver a levantar as mãos em sinal de paz quando os dois homens se chegaram perto dele. Conseguíamos ouvi-los e também vê-los e certamente o contrário também aconteceria.
– Calma…
– Quem és tu? Quem são vocês? – Falou um deles, aquele com o nariz mais afastado. Trazia consigo uma arma de disparo preta como eu vira à distância, mas dali parecia algo do tipo que só se via com militares, muito mais assustadoras e perigosas de perto.
– Não queremos nenhum mal. Viemos até aqui porque pensamos que poderíamos ficar neste local, como um local seguro, mas vemos que está ocupado. Se não tiverem abrigo para nós, nós partiremos, não se tem de preocupar connosco.
– Oh, pensávamos que eram alguns assaltantes. Mas bem, não tem lá muito cara de assaltantes, eles costumam ser um pouco mais… feios. Mesmo que fossem, estes monstros são um pouco melhor que aquilo que tem nas mãos. – Disse o outro, com as bochechas cheias de sardas e um cabelo mais para o arruivado, que se parecia em demasia com Jack. Marcus riu com eles, depois Chris, eu e até Brian, mas os restantes estavam relutante e se se mostraram mais contentes, foram breves sorrisos em que eu não reparei. O bombeiro à frente deles foi aquele que mais tempo riu com eles e depois parou para continuar a falar.
– Isso quer dizer que podemos ficar? Este local livre de zombies?
– Não nos vêem aqui? Claro que é. Fazemos patrulhas para mante-lo no exterior das grades. E claro, acolhemos pessoas como vocês. Temos ido em busca de sobreviventes nos arredores de Washington e Centreville e traze-los para cá.
– Vivem em comunidade? – Perguntou Chris animado. Como sempre eu tinha um pé atrás.
– Sim, pode-se dizer que uma mini-comunidade. Este asilo tem sido o nosso refúgio desde que os mortos começaram a voltar.
– Vosso… quer dizer que são um grupo? Seis, sete pessoas? – Elizabeth estava a ser intrometida e Chris até lhe fez um olhar de reprovo, mas ela estava-se muito pouco lixando.
– Não, não. A nossa comunidade é muito maior que isso. – Apontou para o edifício. – Somos trinta e se contarmos que pretendem ficar connosco, ora, ficam trinta e oito. – Não queria acreditar no que o homem de nariz achatado nos estava a dizer. Trinta pessoas, juntas naquele local, seguros e sem problemas. Se ele falava verdade estavam ali desde que as coisas pioraram.
Ofereceram-nos para entrar e nós aceitamos. Foi o arruivado que nos acompanhou, enquanto o outro continuou a patrulha. Lá dentro, no grande hall com uma enorme escadaria à frente estavam quatro pessoas, duas delas as mulheres que se assustaram connosco e possivelmente os seus maridos ou namorados. Mas quando o guarda lhe falou o que se parara e como o nosso grupo era mais um de sobreviventes que procuravam refugio, apresentaram-se agradavelmente. Até descobrimos o nome do guarda, Kevin.
– E quanto a mantimentos Kevin? Tem o suficiente para tanta gente? – Perguntou Marcus, curioso enquanto subíamos a escadaria enorme e dobrávamos a curva para a direita, onde outra menor nos levava ao andar de cima.
– Oh, nem queiras saber. O asilo tinha o seu próprio stock quando o mundo ficou de pernas para o ar, mas logo depois foi munido de mais assim que o governo viu a possibilidade de se tornar um refúgio. Alguns estão cá desde o início da epidemia, outros foram-se embora depois de um tempo. Eu cheguei cá a meio tempo, cerca de cinco semanas, cinco e mais metade de outra. Quem vos pode responder a perguntas mais aprofundadas disso tudo é o nosso líder. Quer dizer, não lhe chamamos líder, mas é ele que toma conta das coisas por aqui percebem? Distribui comida, assegura-se do bem-estar, merdas dessas. Depois de ir dar ao primeiro andar Kevin levou-nos para a porta de vidro da direita, por onde seguimos em frente por um corredor com paredes de cor azul escura. À nossa direita ficavam janelas grandes, que davam para um pátio interior, rodeado pelo edifício. Estavam lá em baixo pelo menos cinco pessoas.
Kevin continuava a relatar coisas a Marcus, mas eu fiquei distraído dessa conversa pois Brian deu-me uma leve cotovelada.
– Ei, este local é de doidos! – Sussurrou, minimamente animado. Marie ao seu lado sorriu ao ouvir. Limitei-me a conforta-los com um sorriso também. Queria desconfiar da sua amizade, queria ter perguntas e ficar curioso com o local, mas os últimos tempos esgotaram-me.
Viviam ali montes de pessoas, víamos algumas no pátio e quando deixamos aquele corredor e fomos para a esquerda, para trás de nós ficou outro corredor idêntico, com mais três homens a andar descontraidamente. Um deles espreitou-nos pelo ombro, ao mesmo tempo que o fiz e deve ter-se virado como se nada fosse, tal como eu.
– Aqui fica o escritório, é onde o podem encontrar vulgarmente. Só à noite é que não, todos necessitam de dormir. – Kevin bateu três vezes à porta depois de falar e recebeu um murmúrio do outro lado que o deixou abrir a porta. Reparei na placa dourada que estava na porta, dizia “Frank Aeman”. – Primeiro os convidados.
Fiz questão de entrar nos primeiros lugares, logo após os dois bombeiros e Elizabeth. Espalhámo-nos pela grande sala, à medida que íamos tendo medidas do se cumprimento. Devia ter quase o tamanho do anterior corredor por onde passamos e uma longa zona com cadeiras apenas ao início, talvez para quem não trabalhava ali. Depois um longo balcão de madeira e só do outro lado é que estava alguém. Existiam muitas secretárias com computadores desligados e alguns até deitados ao chão, mas existia electricidade, pois não existiam janelas e estava uma luz agradável. Na secretária central, com a placa de Frank Aeman estava sentado um homem.
– Frank Aeman, presumo? – Comecei eu, mas do homem apenas arranquei um sorriso.
Tinha uma testa alta e um cabelo para o castanho mel, todo penteado para um dos lados, mostrando uma entrada de tamanho médio. Os olhos eram de um verde-escuro e a barba com mais ou menos uma semana, cálculos feitos por mim. A cara era franzina e dava-se um aspecto magro e pouco saudável, mas mesmo assim ele parecia bem de saúde.
– Não, não. Frank Aeman não está connosco desde que a epidemia começou. Ele era o verdadeiro director do asilo, mas como partiu, fiquei eu. Bem-vindos, sou Gage Auston. – E pronto tivemos também de nos apresentar, dizer de onde viemos e fazer um pequeno relato da viagem até ali, eu não quis aprofundar muito sobre Richmond; Marcus não quis aprofundar muito sobre tudo antes do parque de campismo e até ai se “esqueceu” de pormenores e Elizabeth apenas contou o que se seguiu depois do nosso grupo encontra-se com ela e Chris. Gage ouviu tudo com olhos e ouvidos. – Compreendo. Mas fizeram bem. Aqui estamos a salvo, podem acreditar. Temos comida que chegue para mais 2 meses a contar com vocês e a vossa comida e quando for necessário, existem supermercados aqui bem perto do asilo.
– E a luz, como é que raio tem ainda luz? – Questionou Dennis, indignado por estar tão confuso com isso, presumo.
– Não se preocupe, não andamos a roubar a electricidade do mundo. Temos quatro geradores instalados neste asilo, todos a funcionar a gasolina. Conseguimos encontrar muita por ai, não anda tanta gente agora a viajar no seu automóvel. – Depois mudou de assunto, quando nenhum de nós colocou mais nada a dizer. – Se quiserem ficar connosco, tudo bem, é o que temos estado a fazer, juntar pessoas para sobreviver juntos. Se quiserem apenas alguns dias connosco, também aceitamos, faremos o que pudermos para ajudar.
– Dê-nos cinco dias. Até lá, iremos ponderar ficar ou partir. – Comentou Elizabeth, fria como sempre.
– E agradecemos desde já o que estão a fazer por nós. – Finalizou Marcus.
– Como disse, é aquilo que quero fazer, ajudar. Kevin, manda chamar a Lucy. Ela que disponibilize os quartos para eles, de preferência próximos ou até juntos uns dos outros, não é? – Queria nos deixar à vontade, isso tinha a certeza. Olhou para nós mais uma vez. – Parecem fatigados e as vossas roupas estão um pouco… gastas e ensanguentadas. Quando a Lucy vos der os quartos peçam-lhe algumas roupas, temos uma quantidade de sweatshirts e calças de ganga que podemos também oferecer e essas irão para lavar. Devolve-mos assim que estiverem secas, não vos queremos tirar tudo.
– Quer dizer que também lavam roupa? – Chris estava boquiaberto e foi o primeiro a manifestar-se. – Mas isto é o céu? – Gage riu com ele.
– O mais próximo que puder colocar disso. As condutas de água próprias deste local têm um abastecimento a meio. Só tomamos banhos e lavamos roupas quando estamos, diga-mos, imundos. Vocês necessitam.
Nem sabia ele como estava a dizer uma boa verdade.
***
– Tens a certeza que existem quartos para todos, Lucy? Eu não me importo de partilhar com alguém, não viemos incomodar. – Disse eu a ela, enquanto me apresentava o meu novo quarto. Era quase como uma casa dentro de outra casa, como aquelas que alugamos nas férias. Uma divisão que eram todas juntas, mas mesmo assim espaçosa só para mim. Uma cama de casal, uma mesa e cadeiras perto de uma televisão que agora não passaria de algo nada importante, e apenas a pequena casa de banho estava divisível do resto por uma parede e uma porta.
– Não se preocupe Bruce, temos que sobrem. Todos nós temos quartos individuas, excepto aqueles que querem ficar mesmo juntos, casais e assim. Com o tamanho deste local, ainda sobram salas por explorar. Já sabe onde os seus colegas estão e pode ir ter com eles quando quiser. – A rapariga não teria muito mais de 18 anos. Cabelo castanho claro até aos ombros e um olhar azulado e penetrante. Uma rapariga muito bonita.
– Ok, ok. Obrigado por me guiares até aqui.
– Ora essa. Se necessitar de algo diga. Pode ao início ser difícil descobrir as coisas, pois estes corredores parecem todos iguais, mas com o tempo vai sendo mais fácil. – Foi para a porta, mas lembrou-se de algo na ombreira da porta. – Oh, Gage disse que poderiam querer tomar banho, os chuveiros dos quartos não funcionam. O local que está fornecido pela água do abastecimento é o do balneário no terceiro andar, quadrado do pátio dois. Existe um dos homens e outro das mulheres, tem os símbolos para distinguir. Sorriu e com um aceno da minha parte deixou-me ali.
Já sabia daquela conversa dos pátios um e dois. Parece que por aqui eles distinguiam os corredores da esquerda e da direita, já que o edifício engolia dois pátios individuais. E pelos vistos o asilo tinha quatro andares, mas só três deles estavam aproveitados. Lucy falou que a escadaria para o quarto andar estava inutilizada.
Fiquei ali como um parvo a olhar as quatro paredes e até fiz uma volta completa pelo quarto depois disso, analisando cada recanto, incluindo a pequena janela de menos de 20 centímetros oval que dava uma vista para Centreville e a zona por onde tínhamos entrado. Visto bem o nosso monovolume cinzento estava entre as árvores longínquas à direita. Deduzi que este deveria ser mais um dos muitos quartos para os mais idosos, já que o asilo devia tratar tanto de malucos como de envelhecidos. Mas isso trouxe-me uma pergunta à cabeça: Onde estariam as pessoas do manicómio? Seria uma pergunta a fazer a um dos “locais” assim que simpatizasse com algum. Não deveria ser difícil, eram muitos pelos vistos.
Á muito tempo que não via tanta gente junta, nem que fosse só um grupo de quatro mulheres a passar no corredor onde ficava o meu aposento e uma delas era bem gira. Fogo, á muito que não via tantas mulheres… Sinto que estou a esquecer a minha noiva, mas eu não sei nada sobre ela… Se está viva, ou morta, ou zombie… E um homem tem as suas necessidades, mas por enquanto não quero fazer nada estúpido ou precipitado. Sinto que devo mais algum tempo ao luto por Emily. Devo-lhe isso por tudo o que me fez sentir de bem na vida.
Sem pensar mais no assunto, encaminhei-me com alguma roupa lavada nas mãos pelos corredores laterais, em direcção ao pátio dois. Depois de passar por imensos corredores de paredes azuis todos iguais e confusos, finalmente lá encontrei a escadaria do segundo para o terceiro andar. Existia também uma no pátio um e estava mais perta de ser alcançada de onde o meu quarto se posicionava, mas dali tinha uma viagem mais curta no andar de cima até ao balneário.
Estavam mais pessoas por ali e cheguei a perguntar a um rapaz onde ficava concretamente o local e ele indicou-me mais um corredor para a frente. Lá acabei por ver ao fundo uma placa da casa de banho.
Naquele momento, não sei explicar porque, senti-me bastante sozinho. Seria por ter passado tanto tempo perto de Brian, Marie e os restantes que agora tinha necessidade de os ter por perto? Cada passo era difícil, como se estivesse mais distante deles e só se tinha passado meio-dia desde que chegamos. Vou ter de os procurar, falar um pouco com eles e mandar esta ansiedade estúpida para trás. As pessoas aqui pareciam estar seguras e de maneira alguma perigosas. Vi famílias, alguns velhotes e até adolescentes e juro que vi um bebé. Seria esta mini comunidade a nossa salvação?
Só sabia que estava agora a entrar nas instalações balneárias, com uma luminosidade grande, mas não apenas pela electricidade que era gasta. As janelas não permitiam ver para o interior nem para o exterior pois eram opacas, mas também eram grandes, o que permitia que o balneário fosse um local amistoso e também um pouco barulhento. Haviam alguns homens de tronco nu e toalha na cintura a prepararem-se para vestir, mas dos poucos que por ali estavam, apenas reconheci o bombeiro loiro e ele a mim, quando me aproximei.
Para muitos pode ser um pouco constrangedor tomar banho em público e mesmo com os chuveiros que dividiam as pessoas umas das outras da cintura para baixo, continuávamos a estar expostos. Mas nunca me importei muito com isso, já no liceu o fazia logo é algo que nos habituamos. Consegui o chuveiro ao lado do dele. Foi bastante bom ter novamente água para me lavar e nem aquela “lavagem” no rio de á um mês atrás foi tão bom como este. Agora era mesmo água própria e quente, devido ao gerador a gasolina.
– Foda-se, isto é que é vida… — Comentou Marcus e eu ri-me. – Este asilo tratava muito bem os seus hospedeiros. Deve ser um dos melhores que já vi.
– Mesmo. Nunca estive num local como este, mas sempre os achei…
– Mais miseráveis, não é? – Eu anui ao que ele disse, quando a seguir coloquei a cabeça debaixo de água e sai com o cabelo encharcado.
– É bom saber que nem tudo está completamente mudado. Quer dizer, estamos aqui á horas e já sinto que está tudo normal… dentro dos possíveis.
– Sim, também sinto isso. – Ele devia ter quase bebido água, pois estava a cuspir. – Consigo andar dentro destas paredes sem sentir que o próximo zombie vaia aparecer naquela esquina ou na outra. – Mas depois sussurrou quando reparou que ninguém estava perto demais para ouvir, ajudando-se ao encostar o corpo mais para a divisão do meu chuveiro. – Mesmo assim, acho que nos devemos manter juntos, por precaução.
– Concordo e ia mesmo sugerir isso. O quarto da Claire e do Chris fica a duas portas do meu, o da Elizabeth e da Marie a cerca de três ou quatro para a direita e o do Dennis no outro lado do quadrado. É perto e não podemos estar mais a pedir coisas a quem nos acolheu, mas devemos passar algum tempo juntos, não te parece?
– Sim. O meu quarto fica perto do Brian e do Dennis, mas mesmo assim sinto que estamos separados demais. Se algo acontecer, temos que ao menos ter um plano de nos juntarmos. – Marcus falava como alguém que tinha sobrevivido tempo lá fora o suficiente para perceber que neste mundo nada era garantido. Elizabeth juntou-se a nós e aumentou ainda mais a nossa noção de sobrevivência. Tínhamos passado o bastante para ter sempre um pé atrás em tudo, algo que eu já fazia muitas vezes, mas desta vez especialmente, gostava de ter a certeza. E se bem confio nas minhas capacidades, sei que vou passar muito tempo a investigar este local.
– Hoje depois do jantar, que eles dizem que vai ser servido, no meu quarto. – Disse e Marcus pareceu logo de face concordar com a ideia.
– Claro, eu digo aos outros. – E depois disso durou mais dois minutos no banho e saiu.
***
Já não me sentia confortável com todo aquele suor, frio e sangue ou tripas de zombies. Consegui uma boa camisa de malha e umas calças de ganga ao meu tamanho, suficiente para me sentir quente por ali. Parecia que dentro do edifício nunca estava tanto frio como lá fora, onde a neve deveria estar nos seus últimos momentos de vida.
Já tinha jantado e conhecido algumas das pessoas que por ali viviam, principalmente a “família” de Lucy, a rapariga que me ajudou com tudo. Apresentou-me ao namorado da mesma idade dela, um tal de Jordan e o pai deste, Stan. Tudo o que consegui apurar era que vinham de New York.
Estava mais fixado em Marcus, que estava mesmo ao meu lado como a maior parte dos do meu grupo a jantar, mas o bombeiro já devia ter arranjado forma de não chamar à atenção, pois um a um, ou aos pares, eles foram saindo sem esperar pelos restantes. Marcus saiu por ultimo, antes de mim e foi à procura de Elizabeth e Chris que não tinham ainda por ali aparecido. Eu ainda apreciei mais uns quinze minutos por ali, afinal até a comida parecia mais normal que as simples latas que apanhava-mos na rua, esta vinha em pratos, mesmo que continuasse a ser apenas aquela que consegue aguentar alguns meses sem se estragar. Depois abandonei o refeitório do primeiro andar e fui directo ao meu quarto pelas escadas laterais.
Quando entrou percebendo que ninguém estava a ver ou pudesse suspeitar que eles estavam por ali, mesmo que por nada de mal, viu que já lá estavam, excepto dois.
– O Chris e a Elizabeth? – Perguntei. Brian e Marie estavam próximos em duas cadeiras da pequena mesa; Dennis mantinha-se em pé, perto da janela, ora olhando para dentro, ora para fora; Marcus também estava de perto, mas caminhava lentamente de um lado para o outro no meio do quarto e Claire estava também numa das cadeiras, mas tão apática como se nem lá estivesse e aquilo começava a arrepiar-me.
– Fui à procura deles como tinha prometido e encontrei ambos no quarto dele. Apanhei-os em… tu sabes. Eles vêem daqui a pouco.
– Fogo, já? Como consegue aquele minorca saltar para cima da maldisposta de merda? – Comentou Dennis, partilhando aquilo que eu e decerto muitos de nós já tínhamos pensado. A personalidade de Chris com a de Elizabeth eram completamente contrárias, mas pareciam contemplar-se.
Claire desprezou-o.
– Afinal porque viemos hoje aqui? – Perguntou.
– Temos de ter um plano de fuga. Não que seja já necessário ou que venha a ser realmente necessário, mas é sempre melhor estar prevenido que ter de remediar. – Respondeu Marcus, já próximo da mesa.
– Planos, planos, planos… quando será que vamos ter descanso! Estou farta de planear tudo. Pensava que este local seria o fim das preocupações. Esta comunidade acolheu-nos, será pedir muito acalmar por um pouco? – Tinha de admitir, a Filmore estava a fazer uma figura de parva que era quase insuportável. Quer dizer, percebe-se devido a tudo o que lhe aconteceu, mas tipo… temos de seguir em frente.
– Mas eu não quero ser apanhado desprevenido novamente… – Continuou o bombeiro loiro, mas ela não permitiu. Levantou-se de rompante e ficou perto demais dele.
– Teres saído do parque de campismo e abandonar-nos com os machados, deixando-nos à mercê de zombies foi estar desprevenido?
– Claire, por favor, eu não…
– Tu não o quê? Achas que é fácil engolir que tens a total culpa de a minha filha estar morta neste momento? Já imaginaste que se não tivesses feito aquilo, podia ter conseguido trazer a Tanya até aqui em segurança? – A voz dela era áspera. – Cada vez mais penso que Deus te devia ter levado a ti em vez de a ela.
– E se em vez de ser o Jack a ser mordido, tivesse sido a Tanya, Claire?! Teria deixando-a ali, para morrer, ou simplesmente enfiar um tiro na cabeça dela, é? – Marcus tinha aguentado bastante, mas também não o podia deixar exceder muito. Tentei agarra-lo pelo ombro para o acalmar, mas ele afastou-me.
– Não tens o direito de dizer como eu faria as coisas, até porque elas não aconteceram assim.
– Mas eu sei que não teria deixado a sua filha morrer aos poucos enquanto esperava para que se transformasse. Eu quis ter esperança de arranjar uma maneira de salvar o meu melhor amigo. Eu não tive culpa dos zombies terem entrado no campo naquela altura, podiam tê-lo feito a qualquer momento antes, mesmo quando o Bruce ainda não tinha chegado. Fiz o que pensei que poderia e se pudesse voltar atrás, talvez voltasse a fazer o mesmo, nem que tenha de arrecadar com a culpa da morte dela para o resto da vida. Eu tentei. – Via-se que ele estava esgotado daquele desentendimento. – Sempre tive em mente como nos conduzir a todos para a frente, antes de partirmos do campo e depois durante toda a viagem para aqui. Eu assumi o papel de líder, quando ninguém mais o quis.
– Eu nunca te permiti que mandasses em mim.
– Mas permitiu que eu a conduzisse até aqui. Tentei redimir-me ao ajudar os que sobreviveram até aqui e conseguir que mais ninguém morresse pela minha estupidez, mas a Claire não me deixa nem respirar por dois minutos sem que me culpe profundamente pelo que aconteceu.
>— Desculpe. Eu sei que não vou melhorar nada com desculpas, mas é a única coisa que posso dar agora. Eu sinto muito, mas não esteja sempre a desejar que eu estivesse morto em vez dela. Nenhum de nós sabe dos seus familiares, pais, mães, irmãos… Acho que não estou a ser egoísta ao ponto de dizer que a Claire foi sortuda em ter permanecer com a sua filha o tempo todo. Nós perdemos tudo e não sabemos se estão vivos, mortos, zombies, ou qualquer outra coisa pior. – Entreolhei todos os restantes. Sabíamos que era verdade. – Sabem, eu tinha uma filha…
– Marcus… — Pela primeira vez via Dennis a preocupar-se com algo. Estava a tentar impedir o amigo.
– Não, não há problema… Eu tinha uma filha com a minha ex-mulher, separamo-nos à um ano mais ou menos e ela ficou com a tutela. Via-a todos os fins-de-semana, uma vez pelo menos. Ela tinha 8 anos, por isso sempre achei por bem participar na sua vida, sabem. Até que me foi dada aquela missão de patrulhar as estradas com os bombeiros. – Suspirou. – A última vez que a vi foi nesse mesmo dia, quando a voltei a entregar à mãe ao fim da manhã. Ela disse que me amava e eu também. Tinha-lhe ido comprar a prenda de natal e nessa altura ela estava tão feliz…
>— Depois deu-se aquele incidente na estrada, separamo-nos dos outros e eu telefonei para a minha ex-mulher. Não recebi resposta. Tentei até a bateria acabar, mas até hoje não sei como elas estão. Rezo para que se tenham salvo e eu não sou uma pessoa religiosa. Eu…eu… eu preferia ter visto a minha filha morrer nos meus braços que sentir este aperto de incerteza… — Foi-se completamente abaixo, de tal maneira que se sentou. Estava saturado decerto. Dennis aproximou-se dele e colocou-lhe uma mão no ombro.
Entretanto a porta abriu e de lá apareceram os dois que faltavam, Elizabeth com a sua cara de poucos amigos de sempre e cabelos agora desgadelhados e igualmente Chris, vermelho e cheio de calor.
– Já começaram? – Perguntou ele, quando a porta se fechou. Estávamos todos ainda chocados com Marcus e eles perceberam.
– E vocês, já acabaram? – Gracejou Dennis, mesmo não demonstrando nenhuma graça.
– Sabem que um homem viril tem de demorar o seu tempo… — Brincou o loiro, quando a companheira lhe deu um soco leve na cabeça.
Nesse mesmo momento Claire percorreu todo o caminho até à porta sem falar e fechou-a atrás de si. Terá sido demasiado para ela? Bem, é demasiado para todos nós e temos de aguentar…
– Foi alguma coisa que eu disse?
– Não Chris, não te preocupes. – Comentei para o acalmar.
– Então não era para planearmos todos algo? – Questionou a rapariga de origem indígena.
– Era… A Claire só teve alguns problemas. Eu já vos contei o que aconteceu. – A rapariga afirmou que sim com a cabeça.
– Vamos dar-lhe um tempo. – Comentou Brian. – Entretanto, não podemos tratar das coisas sem ela?
– Vai ter de ser. – Disse eu.
– Não é necessárias grandes coisas, eu já percorri a maior parte do segundo e terceiro andar. O quarto tem as escadas bloqueadas com um cadeado e não pude subir.
– Cadeado? – Dennis ficou surpreso.
– Sim. Podem estar a proibir a subida para lá, ou então está lá desde que o surto de zombies começou. Não podemos precisar.
– E é algo com que nos temos de preocupar, certo?
– Claro Bruce. Mas isso podemos ir conseguindo apurar com a pessoas por aqui. A maior parte são partes de famílias que procuram abrigo. Eu não confio nos que já aqui estão á mais tempo.
– Gage, correcto? – Era óbvio que o líder da comunidade era aquele que estava á mais tempo no local. Só nos restava saber desde quando.
– Principalmente. Ele pode ser boa pessoa, mas o mundo de agora fez-me duvidar até de miúdas indefesas. Eu não vou deixar as minhas armas pousadas da mesa enquanto por aqui andar. – Elizabeth mexia no cinto, onde estava a sua famosa ferramenta de canalizador. – Ouvi dizer que eles tem armas menores, algumas deixadas por militares. Vou tentar arranjar uma assim para mim e para o Chris, como vocês já tem. O Brian e a Marie também necessitam de carregar uma, eu arranjo para eles. – Não me podia negar a aceitar isso. Aquela conversa no quintal com ela foi tudo o que necessitei para mudar de ideias e eu até sou muito de ideias fixas.
– É mesmo necessário? – Marie como sempre não achou piada. Brian pelo contrário estava super eufórico.
– Marie, podes não gostar, mas necessitamos de nos proteger com algo. Os zombies são mortíferos e as pessoas podem não ser de confiança. É sempre melhor termos algo com que defender. – Dizia muito sabiamente o rapaz. Achei uma atitude bastante madura.
– És capaz de ter razão… Mas eu não sei usar uma.
– Isso aprende-se. O local é grande e Gage não nos pode impedir de treinar. Posso ensinar aos que não sabem carregá-la muito bem. – Voluntariou-se Elizabeth.
– Ok, então quanto mais rápido melhor. – Dizia o adolescente.
– Primeiro falamos com o Gage, pelo sim pelo não. – Falou finalmente Marcus, na cadeira.
– E se a resposta for não, vamos embora daqui. Se nos impedem de o fazer só podem estar malucos. E o asilo é apropriado para eles. – Disse rigidamente ela. E por ali ficamos.
***
O fim do dia de ontem e o inicio deste foram os mais calmos que já tive depois do apocalipse. Finalmente por várias horas pude estar deitado na cama de manhã, sozinho e sem ter de me preocupar se o zombie da esquina se levantaria e aproximaria o suficiente para me morder. Por isso mesmo devo ter dormido bastante, pois quando de peito nu me levantei, pronto para buscar uma camisola e vesti-la devido ao frio, o sol já estava bem lá no céu, mesmo que por baixo de densas nuvens, aparecendo de tempos a tempos. Finalmente o Inverso parecia estar a levantar e a neve aos poucos a ter os dias contados.
Tinha em mente reencontrar Elizabeth naqueles longos corredores, mas depois de dar uma volta completa ao edifício naquele andar, que foi mais de uma boa meia hora, acabei por desistir de ir ter com ela. Talvez fosse mais rápido se estivesse parado num local e fosse ele a esperar, afinal as maiores desconfianças acerca deste local eram dela. Eu podia ter as minhas, mas queria acreditar que estava tudo mesmo a cem por cento, como se aquele fosse o ultimo local com humanidade como a conhecemos.
– Olá gatão… — Ouvi, quase um sussurro, ao seu lado quando tentava encontrar novamente o caminho para o refeitório. Estava ao meu lado uma jovem de mais de 23 anos, cabelos longos e castanhos, com linhas finas de madeixas loiras aqui e ali. Trazia roupa apertada, tanto as jeans justas, como as botas laranjas escuras por cima delas a darem-lhe pelos joelhos. Os seios também estava salientes no top simples de cor verde, tapado ligeiramente com um casaco de ganga aberto. Devo dizer que o olhar dela era matador, como o de Elizabeth, mas de uma maneira mais… sexual.
– Olá. – Disse, continuando o meu passo. Ela não desistiu.
– Então és um dos novos, aquele grupo que o Gage falou. Ainda só vos tinha visto de relance. E sabes, reparei logo em ti. – Eu tive de me rir um pouco.
– Espero que seja por bons motivos.
– És sexy sabes. Achas que chega? – Uau, andará ao ataque?
– Para mim chega… — Ri-me, mas reparei que se estava a tornar um riso parvo e constrangido. Tinha de dar a volta. – Bem, já que aqui estás, podes-me dizer para onde fica o refeitório? Perdi-me novamente.
– Bem, vais na direcção errada. É para ali. – Apontou para a esquerda, o outro lado do quadrado. – Agora já sabes Bruce, se necessitares de saciar mais alguma coisa, podes procurar por mim, fico a cinco quartos de ti, para a direita. – Disse, ao colocar a mão sobre o meu peito e ficar relativamente perto de todas as partes que me compunham. – Procura pela Kelly.
Depois disso virou caminho, com os cabelos a ondular e as nádegas também. Por mais respeito que eu tenha pelas mulheres, aquela rapariga estava simplesmente a provocar-me e tentar-me levar para a cama, sem sombra de dúvidas. Devo aceitar? Foda-se! Em que estou eu a pensar!?
Sorte foi a minha quando Elizabeth se cruzou comigo pouco tempo depois num dos corredores, com aquele ar misterioso e de poucos amigos. Agarrou-me pelo antebraço e levou-me para um dos locais menos movimentados do asilo. Será que o fez sabendo que o local era assim? Tornava-se assustador pensar que ela tinha uma capacidade intelectual tão grande ao ponto de conseguir analisar isso tudo num dia.
– Já falei com o Gage. – Foi o que disse. Depois calou-se e continuamos a andar devagar. Fiquei farto de esperar.
– E?
– Não correu como eu esperava… — Comentou, como se estivesse fula com o que acontecera. – Ele aceitou.
– Permitiu que treine-mos os nossos com as armas?
– Mais que isso. Indicou-me dois nomes de homem, um que serviu no exército e outro polícia para ajudar. Eles já têm um plano de treinos, é só acrescentar a todos os que necessitem de nós lá.
– Mas isso é óptimo. Quando disseste que não correra como esperavas, pensava em coisas piores.
– Tu não percebes pois não cabeça oca e cheia de estrume? – Pois os insultos. Quando nos habituamos a ela pensamos que se tornou outra, até nos presentear com isto. – É tudo um mar de rosas, com o maior cheiro a merda que eu posso imaginar. Ainda achas que podemos confiar em pleno neles quando fazem treinos desses?
– Mas que porra de treinos, Elizabeth?!
– Pegam em zombies, acorrentam-nos nos pátios interiores, de dias a dias, enquanto uns quantos patrulham lá fora para se certificarem que os tiros não chamam nenhum para dentro. Fizeram isso no dia em que chegamos, ontem, mas nós sabíamos muito pouco do local para descobrir.
>— Sei que sou a primeira pessoa a propor coisas dessas, são necessárias, mas algo não me cheira bem. Os olhares, não de todos, só de alguns… Nós não sabemos nada de como eles lidam com as coisas, ou como lidam com forasteiros.
– Eu falei com a Lucy e a família do namorado dela e pareceu-me tudo normal. Eles chegaram á pouco tempo, mas ainda não morreram.
– Lembraste quando disse que vocês: tu a Marie, o Brian, o Marcus e os outros não tinham todas as capacidades para sobreviver lá fora da maneira que estavam?
– Lembro. – Disse, ao franzir o sobrolho.
– Estes, que estão no asilo desde o início como dizem, o Gage principalmente, está preparado demais. Ele não nos contou tudo e é isso que eu não gosto que me façam, esse tipo de coisas. Sabes aquele ditado, amigos por perto, inimigos ainda mais? Podes ter a certeza que eu vou descobrir porque caralho aquele ultimo andar está encerrado e para onde foram todos os malucos deste local! – Afirmou ela, com a voz seca e ríspida, baixa para não chamar a atenção.
– Eu não estou menos atento que tu. Eu sei por experiência própria que aceitar hospitalidade sem estar preparado para o pior não é sequer uma escolha. Quando me juntei aos bombeiros e à Claire, como quando vos encontrei aos dois naquela casa, eu tive-vos debaixo de olho. Pode não parecer mas estão. – Também falei de uma forma mais profunda e severa. Uma coisa que ela não me podia dizer é que eu sou um parvinho qualquer. – Logo de início fui parar a uma quinta com pessoas que nos queriam dar de comer a uma mãe zombificada, de forma a mante-la viva até à cura. Podes ter a certeza que desde essa altura, eu sei perfeitamente o que é ficar com receio de todos e qualquer canto. Trago a arma comigo a todo os momentos, para a eventualidade e tento saber onde os outros estão, para se necessitar de fugir.
Ela reagiu de uma forma diferente daquilo que eu esperava. Riu-se, mas foi um riso cansado e mórbido.
– Tu podes ter passado por isso, mas acredita que eu estou muito mais experiente em traições e falsos hospitaleiros… Mas isso não interessa. – Suspirou e aproximou-se do meu ouvido. – Queres um conselho? Tenta falar com os teus e junta-los mais, não os deixes pensarem que isto é o futuro. Se tiveres de fugir, não vais querer estar meia hora à procura de alguém.
Confirmei com a cabeça.
– Terei isso em conta.
Ela acompanhou-me até ao pátio um, aquele da esquerda do edifício. Era a primeira vez que saia para ver aquilo por fora. Só dava para ver as paredes com as janelas em volta e o céu, com nuvens espessas aqui e ali. Ainda existia neve, mas estava a derreter, dava para vê-la mais líquida. Brian estava ao lado de uma rapariga da idade dele e Marie também ali estava. Notei que a ruiva estava no mínimo stressada e pronta para esganar o rapaz a qualquer momento. Gostaria ela dele?
– Então, como estão as coisas? – Falei, apenas para quebrar o gelo. Bem, o gelo: expressão, pois estava mesmo frio por ali.
– Bem, existem bastante pessoas para conhecer aqui. Já conhece a Julia? – Apontou para a rapariga de cor negra ao seu lado. Ela sorriu timidamente. “Deve gostar de tímidas, só pode…” Cumprimentei a jovem e depois pedi aos meus ex-alunos para uma conversa mais privada. Elizabeth tinha-se afastado, para perto de Chris, do outro lado, perto de uma árvore.
– Queria dizer-vos que quem toma conta deste local, Gage, permitiu que vocês os dois se juntem ao grupo de aprendizagem no uso de armas. Parece que por aqui eles praticam algumas vezes para que as pessoas saibam mexer minimamente nelas. Há quem goste mais, há quem goste menos, mas é necessário para nos mantermos seguros.
– Quer dizer que vou finalmente poder usar uma arma?! – Claro como sempre, ele ficava com os nervos em pulgas.
– Sim, é isso mesmo. Quando for eu aviso-vos. Afinal também eu pretendo ter alguns treinos para melhorar.
– Tudo bem Bruce, acho que é… uma boa forma de aprendermos a sobreviver lá fora, mesmo que agora estejamos aqui protegidos. – Marie falava com menos infantilidade agora.
– Pois, lembrem-se. Mesmo que aqui estejamos entre estas quatro paredes, mesmo que passemos aqui o resto das nossas vidas, lembrem-se: Para mim este local numa será definitivo. Temos de estar preparados.
– Sem sombra de dúvidas. – Comentou o rapaz, puxando uma mexa de cabelo negro para trás da orelha, mesmo que esta não fosse muito grande.
Finalmente as coisas estavam a encaixar-se e esperava que se mantivessem assim. Tínhamos encontrado abrigo para o que der e vier e também pessoas, comida e até geradores para nos dar conforto por mais algum tempo. Ficaríamos muito melhor ali que na estrada à procura de sabe Deus o quê.
– Acudam, acudam! – Aquele grito de mulher chamou à atenção de todos os presentes no pátio, com exclamações, mais gritos e avisos. Tive de me concentrar no meio da confusão para perceber o que se passava e quase morri quando olhei para uma das janelas longas do terceiro andar. Empoleirada e com os cabelos ao vento, Claire estava apenas sustentada pela força das mãos ás paredes laterais onde a janela se afundava para dentro e estava ligeiramente inclinada devido às suas dimensões.
Ouvia ela a dizer qualquer coisa para dentro, impedindo que as pessoas no interior do edifício a tentasse ajudar. Que merda estaria ela a querer fazer? Não queria pensar o pior, tinha de correr para a ajudar.
Deixei de ter em conta onde Brian e Marie estavam, assim como perdi de vista onde Elizabeth e Chris tinham desaparecido no último olhar pelo canto do olho. Agora só me preocupava por contornar as filas de todas as mais de nove pessoas que estavam ali, para alcançar a porta e subir até ao terceiro andar.
No instante depois os gritos intensificaram-se e estava eu a meio caminho para entrar, quando me virei novamente e a sombra de Claire lá em cima desaparecera. O vulto escuro estava agora no chão, numa posição estranha e que dava vontade de vomitar. Senti a bílis subir aos solavancos quando me deparei a 1 metro dela, com partes do corpo despedaçadas pelo chão e o branco a manchar-se de vermelho a ferver. Alguns ajudaram-na a voltar-se e deu para perceber que ainda vivia. Fogo, que merda, ela está viva e ainda sente… Ela sente a dor da queda… Porquê? Nem consigo raciocinar direito.
– Não tem salvação. – Ouviu uma das pessoas dizer entre conversas aterrorizadas. Elizabeth apareceu chocada, mas não muito, ao meu lado, mantendo uma distância.
– Mas ela ainda vive! – Comentava outra voz, esperançosa.
– Não vês como o corpo está. Nem o melhor médico pode fazer nada neste asilo. Não existem formas seguras de a operar numa situação destas. – Respondia outra.
– Ela vai transformar-se… Mas antes vai ter uma morte lenta e dolorosa. – Disse friamente Elizabeth, como que por pena.
Olhei em redor. Todos tinham algum medo, outros apenas pena e alguns nem queriam ver. Mas ninguém parava o seu sofrimento, nem quando Claire balbuciou algo com dores e um gemido humano e seco.
– Não posso deixa-la assim… — Comentei à durona, a única que naquele momento poderia dizer algo. Ouvi Brian atrás de mim dizer algo como “Meu Deus” e “Caralho!”.
– Tens de faze-lo Bruce, se não queres que ela morra a sofrer. Não podemos fazer nada, ela escolheu isto.
– Mas… — Pela primeira vez duvidei. Com Jack, fui eu que pedi para que o fizessem, mas agora estava eu na situação. Era diferente e sentia-me fraco e estúpido por não conseguir seguir os meus próprios conselhos. – Eu nunca matei ninguém…
– Bruce porra! A mulher está a sofrer, acaba com aquela miséria, mais ninguém o vai fazer! Esquece os costumes, esquece as boas maneiras e o mundo cor-de-rosa. A morte rodeia-nos e a ultima coisa que tu queres é ensinar-lhe algo! – Disse, apontando para ela, uma triste comparação com o que ela se iria transformar.
Tinha de ser, ela faria o mesmo por mim. Tirei a Desert Eagle do bolso e carreguei-a. Ao me aproximar, ninguém me impediu, muitos choraram, outros afastaram-se, mas ninguém me parou. E ali estava eu, frente a frente com o seu corpo despedaçado e da sua cabeça a remexer para um lado e o outro até me encarar. Os seus olhos estavam brilhantes, quase como se chorassem, mas sem derramar lágrimas. Levantei a arma e respirei fundo. Foi a coisa mais difícil que eu tive de fazer na vida, sem sombra de dúvidas.
Depois o dedo deslizou e apertou quando mirava a cabeça e o disparo saltou como uma flecha no meu coração também. Senti-me miserável e impotente e mesmo rodeado de gente, sozinho. Voltei a pensar em Emily e como o mundo estava tão diferente desde o dia em que senti pela última vez os seus lábios grossos e reconfortantes.
>>FIM DE VOLUME<
Notas finais
Volume 2 em construção. Brevemente o primeiro Capítulo...
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