Break My Heart

9 O Presente - Parte I


Finnian e Bard esgueiravam-se atrás da parede, observando atenciosamente a ratoeira prestes a ser fisgada pelo roedor que se escondia nos escombros.
Bard apertou o cabo da espingarda em suas mãos e Finnian torceu a luva suja.
Sons de saltos batendo no chão foram aumentando e Cassandra apareceu. O uniforme de empregada coubera-lhe perfeitamente bem; respeitando as dobras de seu corpo. Um lenço branco prendia seu cabelo, deixando ondinhas negras caírem por cima das orelhas.
– O que estão fazendo?
– Tentando capturar o rato que vêm causando aborrecimentos ao jovem mestre. — respondeu Bard, o sangue subindo para suas bochechas.
– Ele não vai sair daí se vocês continuarem a cochichar. Vamos cuidar das coisas agora, não é? Temos muito o que fazer.
– Hum? — indagaram.
– Não acredito que se esqueceram do aniversário do jovem mestre.
Cassandra saiu e os dois a seguiram apressados para realizarem as tarefas ainda não atendidas.

***

Ciel despertou com os raios solares batendo em seu rosto. Viu por detrás das pálpebras decaídas o seu mordomo prender as cortinas e cumprimentá-lo:
– Bom dia, Jovem mestre.
Ciel escancarou a boca em um enorme bocejo e espreguiçou-se. Sentou na beirada da cama e deixou que Sebastian lhe vestisse, ainda a cabeça pesando para o lado. Quando retornou a abrir os olhos, já estava vestido e em seu colo pousava uma bandeja com o seu café da manhã.
Torradas passadas na manteiga, uma xícara de chocolate quente com um desenho de uma rosa na superfície, leite, ovos mexidos e um bolinho com uma vela acesa fincada no centro. Em cima, estava escrito de glacê branco: "Parabéns!".
– Parabéns joven Mestre! — disse Sebastian alegre — Desejo-lhe muitos anos de vida.
– Eu havia me esquecido. Não informe essa data a ninguém. Muito menos àquele indiano e à Elizabeth. Não quero passar o dia com dor de cabeça.
Ciel se dirigiu a porta e antes de abri-la, foi impedido por Sebastian:
– Lamento informar-lhe de que a srta. Elizabeth nunca se esqueceu da data de seu aniversário e os indianos — disse num tom de deboche — Estão lá embaixo, esperando para darem-lhe os parabéns.
Ciel deixou um gemido de cansaço escapar.
– Você os avisou com antecedência, não foi?
Sebastian sorriu e disse:
– Eu só me preocupo com a socialidade do jovem mestre.

***

A sala de estar estava cheia de balões coloridos e fitas. Preso na parede, estava um cartaz dizendo: Parabéns, Ciel!
Elizabeth era quem organizava os enfeites e Finnian e Bard sofriam em suas mãos, pois ela os forçava a colocar fantasias ridículas de palhaços.
– Vamos, coloque! Vai ficar fofinho! — dizia Elizabeth, tentando colocar um chapéu rosa na cabeça de Bard.
– Não, não! Eu tenho que fazer o bolo!
– Ora...
Cassandra entrou e trazia consigo alguns tecidos para ajudar na decoração. Elizabeth pôs os olhinhos azuis grandes e brilhantes na nova empregada e correu esperançosa até ela.
– Você é linda! — disse.
– Hã... obrigada.
– Será que eu posso te deixar mais bonita ainda? Vamos, tenho um vestido que servirá perfeitamente em você. Não é mesmo, Paula?
– Ah sim, Milady. — disse a acompanhante de Elizabeth, balançando os sinos nas mãos.

Ciel e Sebastian desceram a escada e viram a festa toda pronta. Os convidados estavam todos ali, inclusive o príncipe Soma e seu leal servo, Agni. Quando viu o amigo, correu para abraçá-lo. Ciel foi sufocado.
– Ciel! Você está crescendo! Parabéns. Como o tempo passa tão rápido. Parece que foi ontem mesmo que você e eu nos conhecemos.
– Me larga!
– Cieeelllll!!!! — Soma criou uma cachoeira de lágrimas.
Quando o relógio resolveu anunciar as oito horas, todos — empregados s e amigos — posicionaram ao redor da mesa de jantar, onde um enorme bolo de sete andares com cobertura de chocolate preto e branco escorria em listras. Velhinhas postas em forma circular no topo e todas acesas, bruxuleando na escuridão.
Uma salma de palmas no mesmo ritmo da canção de aniversário que era soada dos lábios dos convidados. Ciel enrubescia a cada instante; mas não por vergonha. Por raiva.
Elizabeth, quando terminou de cantar, cortou a primeira fatia do bolo e o entregou num prato a Ciel, que recebeu de forma vergonhosa. Todos esperaram ansiosos pela aprovação do dono da casa quando este levou um pedacinho à boca.
Ciel pensou em forçar um sorriso para não fazer desfeita; pensando que o bolo estava ruim. Mas não foi necessário, pois na realidade aquele bolo era o mais delicioso que ele provara. Macio e crocante ao mesmo tempo, graças aos pedacinhos de coco ralado.
– E então, Ciel? — perguntava Elizabeth — O que achou?
– Delicioso.
– Isso soa como uma canção para meus ouvidos, jovem mestre. — disse Cassandra na porta, aparecendo pela primeira vez desde que fora experimentar o vestido que Elizabeth lhe indicara.
Era uma mistura de rosa com preto. Babados contornando o peitoral deram volume aos seios e um véu preto com vários desenhos bordados pendia da cintura e se arrastava pelo assoalho. Os cachos negros descansavam nos ombros nus e os olhos; tão verdes e vivos.
Mais uma vez Cassandra causou silêncio.
Todos admiraram a sua beleza. As mulheres a invejaram e os homens a desejaram.
– Fui eu que fiz o bolo. — disse ela por fim — Gostou?
Ciel só pôde concordar com a cabeça.

Quando todos sentaram-se a mesa, o jantar já havia sido posto. Era lagosta defumada com porco assado e peru. Comiam com cuidado, lembrando dos ossos mais finos do peru; que poderia causar um engasgo até a morte.
Sebastian parecia um poste com um lenço branco descansando no braço. Observava atentamente Cassandra se servindo do peru.
Ela tinha modos de uma garota da alta escala social. Quem a visse assim, logo de primeira, a confundiria como uma convidada de honra de Ciel.
Momentos depois, a campainha tocou. Sebastian foi atender e não encontrou ninguém, apenas uma caixa preta com uma faixa branca envolvendo-a e terminando em um laço. Sob o laço, havia um pequeno bilhete. Não se sabia quem havia mandado, mas apenas o cheiro familiar dava uma pista do remetente.