Break My Heart
15 Ilusão
Notas iniciais
Não sei dizer exatamente quando vim a ter essas alucinações; mas uma coisa é certa. Asseguro-lhe de que é pouco tempo para me tornar maluco, e tempo o bastante para me intimidar. Pois, meu caro leitor, acredite se quiser em minhas palavras, mas essas alucinações não são comuns como as de vocês humanos.
São intensas, parecem ser tão reais que até eu me confundo e chego a acreditar que são. Acredito que a mente pode ser sua melhor amiga; mas também sua pior inimiga. Sei muito bem que a mente e o coração não são ligados. Ainda bem que não estão, pois se estivessem, meu caro leitor, pode-se dizer que a frágil carne humana não aguentaria.
Como vocês são seres dignos de atenção e que facilmente se deixam levar pelos pensamentos de outros de vossa raça, posso então afirmar que o subconsciente é algo a se temer. Ainda mais quando mexe com as suas memórias e emoções. O que controla o homem é a fé e o medo.
E posso dizer também, confessar, para ser mais claro, que fui vítima de tais importunos.
Irei transportá-los até o momento em que minha loucura começou.
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Um mês atrás...
O dia amanheceu e eu me encontrava na cozinha, limpando a teimosa mácula que persistia em habitar o fundo do bule. Usei um pouco mais de força e consegui tirá-la. Depois despejei em seu interior um pouco de água quente para varrer o resto das impurezas. O vapor subiu e veio-me uma estranhíssima sensação de êxtase quando este tocou minhas ventas.
Por algum motivo ainda misterioso, visualizei mentalmente um belo par de olhos. Olhos castanhos, reluzindo à fraca chama de uma vela. Abri os meus e voltei à realidade. Retornei a fechá-los na esperança de voltar a sentir aquela sensação prazerosa. Mas foi inútil. Gozado, nunca havia me sentido assim; nem mesmo no que os humanos denominam ser os prazeres espirituais.
Preparei o café da manhã do humano a qual sirvo, e o levei em uma bandeja até o quarto em que este dormia. Ao entrar, deparei-me com seu pequeno corpo enrolado pelo cobertor e depositei a bandeja sobre o criado-mudo. Permaneci ereto, esperando-o acordar. Ouvi a respiração vinda de suas narinas acelerar e então veio em seguida o farfalhar dos lençóis de seda.
Ciel bocejou e sentou-se na cama, esfregando os olhos. Servi-lhe o café.
– Bom dia, jovem mestre. — Cumprimentei.
– O que tem para hoje, Sebastian?
Disse-lhe o cardápio. Ciel não demonstrou, mas pareceu muito entusiasmado quando eu disse que haveria mousse de chocolate.
Mais tarde, encontrei Finnian e Bard. Os dois estavam fazendo seus devidos trabalhos, então fui cuidar de limpar os móveis da mansão.
***
Depois de muito trabalho, não estava nem um pouco cansado. E como Finnian ocupava-se ajudando Bard a preparar o jantar, fui cuidar do jardim.
Enquanto aparava as roseiras brancas para que novos ramos pudessem brotar, de repente ouvi um som. Este era melodioso e suave, como uma canção infantil. Então exasperei-me, pois a reconheci. Se houvesse um coração palpitante sob este peito, meu caro leitor, acredite que o mesmo certamente estaria batendo forte o bastante para poder conseguir escapar. E se nessas veias houvesse sangue, aposto que estaria aquecido.
Então ergui o olhar da rosa, e o pousei na bela mulher que jazia diante de mim. Um vestido branco e esvoaçante cobria seu corpo escultural e os cabelo ruivo escorria pelas costas, como uma cascata de chamas vindo a aquecer-me interiormente. Seus lábios de mel sorriam-me divertido. Eu transpirei e vibrei.
– Meyrin... — Sussurrei seu nome.
Seu sorriso desapareceu, então ela me deu as costas e desapareceu em meio as árvores. Corri atrás mas não a encontrei. Parecia que havia evaporado; literalmente. Passei as mãos pelo rosto, a tirar os fios que grudavam na testa. Engoli um seco e tentei acalmar os nervos. Inútil.
Voltei para a mansão e ao entrar, dei de cara com Cassandra. Seus olhos verdes cintilavam e o cabelo cacheado estava rebeldemente solto; como se tivesse acabado de acordar. Ela não parecia alegra como eu sempre a via. Agora transmitia um ar sombrio e amedrontador.
– Sr. Sebastian, onde estava? — Perguntou ela, aproximando-se.
– Devo-lhe explicações?
– Sim. Depois daquela noite, acho que mereço...
– Volte ao seu trabalho. — A interrompi.
Passei por ela e me dirigi à cozinha. Enquanto caminhava, pensamentos confusos embrulhavam-se em minha cabeça; impedindo-me de pensar com clareza. Primeiro, é claro, Meyrin veio. Depois Cassandra. Ainda havia o mistério a ser resolvido. '' Por que vi Meyrin? Era uma ilusão, claro. Será que isso quer dizer alguma coisa? Se for, o que será? '' pensei. — Às vezes a resposta é tão óbvia que nos recusamos a vê-la.
Mas havia uma pergunta que me incomodava mais do que ninguém. Quem era Cassandra Miller?
Grell me intimidou com as fotos, mas nada adiantou. Fui até ele esperando que me revelasse algo importante. Mas nada pode se esperar daquele shinigami fajuto e bissexual.
Ainda assim, Meyrin persistia em me assombrar. Na cozinha, ouvi o sino do quarto de Ciel tocar. Era a hora do chá. Preparei a bandeja e aproveitei a oportunidade para entregar a correspondência junto. Noite passada, fomos surpreendidos por um assassinato. E o infeliz a ser morto foi justamente um dos pertencentes à Aliança formada contra o Submundo; que ainda nos é um caso sem solução.
Cheguei à sala e Ciel leu as cartas. A penúltima ele a abriu e seus enormes globos azuis percorreram aquelas linhas pequenas.
– Fui convidado para um baile de máscaras. Ocorrerá daqui a uma semana.- E ao notar meu silêncio, indagando-me: — Algum problema?
– Não, Jovem Mestre. — respondi.
– Então prepare-se. Na verdade isso é a verdadeira máscara.
– Hm?
– Quer dizer, um disfarce. Com a morte de mais um membro, é compreensível que eles tentem em por uma pedra sobre o assunto. Mas sendo que essa pedra logo será removida. — Ele se levantou e andou pelo escritório — Nós vamos. Você, eu e Cassandra.
– Por que ela? — Indaguei.
– Ora, não foi você mesmo o primeiro a desconfiar dela? Se Cassandra Miller for uma ameaça em relação a nós, deixando-a ir conosco ao baile será uma chance perfeita de descobrirmos algo a mais.
Fiquei em silêncio e o deixei terminar.
– Se Cassandra fizer mesmo parte do Submundo, ela terá que se afastar de nós por algum momento. E é aí que você entra.
Arregalei os olhos.
– Você irá entretê-la enquanto encontro o Sr. Norman em sua sala que com certeza deve ser em um dos aposentos secretos da casa. O Baile é o aniversário da fiha dele; Lidia. Fique do lado da nossa empregada a todo instante. E se ela tentar se afastar... Bom, já podemos ter uma ideia.
Me inclinei, levando a mão ao peito; reverenciando-o.
– Sim, Jovem Mestre.
***
Dei graças quando a semana se passou; pois durante esse tempo fui injustamente atormentado pelo fantasma de Meyrin. Confesso que fiquei maluco e havia momentos em que eu ansiava por sua presença. Mas infelizmente ela não aparecia. Senti sua falta intensamente. Ah, que saudade minhas mãos frias e mortas sentiam de tocar sua pele rosada e viva. Meyrin não fez mais as suas aparições depois que contei à Cassandra que ela fora convidada para ir ao Baile. Admito que o pior tormento foi esse, caro leitor; de não poder nem ao menos sequer ver a mulher que é a culpada de me provocar esses sentimentos esquisitos.
Vesti Ciel e descemos a escadaria. Cassandra nos esperava lá fora, vestida com um vestido preto com um grande decote atrás; exibindo suas costas nuas. Ela conversava com o cocheiro que se esticava para fora da carruagem para ouvir o que ela tinha a dizer, e também para sussurrar-lhe algo. Seja lá o que for a conversa, esta foi interrompida quando chegamos perto.
Cassandra esbanjava beleza. Eu não me intimidei, mas Ciel enrubesceu. Entramos todos na carruagem e Ciel sentou à nossa frente, deixando a mulher pálida se acomodar ao meu lado. Ela em nenhum momento olhou para mim ou para o garoto. Contemplou-se em observar a estrada que passava pela janela. A estrada era íngreme e pedregosa; o que provocava alguns pulos e sacolejos da carruagem. Eu permanecia no eterno silêncio, mas minha mente gritava por uma libertação.
A carruagem parou em frente à uma mansão grandiosamente bela; adotando em seus pilares e vidraças, portas e janelas, o estilo arquitetônico gótico. Descemos e não houve como não se impressionar diante de tamanha arte. Ciel puxou a bengala e pôs a cartola sobre a cabeça. Deu-me um leve empurrão na costela e eu percebi que se tratava de apenas um lembrete.
Os dois puseram suas máscaras sobre o rosto; e eu ergui a minha, que mais parecia a cara de um pavão, com seu bico e penas coloridas.
Entramos, e o salão estava recheado de pessoas. Todas vestidas elegantemente e escondendo as feições através de máscaras. Uma mais ridícula que a outra. Quando Ciel disse seu nome ao homem que recebia os convidados na porta, este anunciou-o com uma voz alta. Imediatamente o conde atraiu todos os olhares, provocando burburinhos. Descemos os poucos degraus e um caminho entre as pessoas abriu-se diante de nós, permitindo-nos passar por ela como se fosse uma passarela.
Depois de um tenso momento, todos voltaram a se ocupar com o que faziam antes da nossa chegada. Pelo canto do recinto, vi Lorde Norman passar. Ciel também viu, pois ele me dirigiu um olhar penetrante que dizia: ''Faça como combinamos''. E foi atrás do dono da festa; deixando-me só com Cassandra. Ela permanecia quieta como uma rocha. Mas seu pescoço não dava um sossego, já que se movia em todas as direções como se procurasse por algo.
– Algum problema? — Perguntei.
Ela olhou assustada para mim, como se percebesse agora que eu estava ao seu lado.
– Não, não. Mas... — Ansiei por sua resposta. — É que preciso ir ao banheiro.
''Ah, a velha desculpa do banheiro'' pensei.
– Ora, mas antes não gostaria de tomar um refresco? Talvez um vinho?
– Não, não.
– Ora, vamos. — Insisti.
– Não estou com vontade. — E Cassandra me transmitiu um olhar umbroso, que causou arrepios em mim.
– Certo, certo. Então... — olhei para o salão — gostaria de dançar?
A agarrei pelo braço antes mesmo que dissesse algum palavra. Nós fomos ao centro do salão e a puxei para mais perto de mim. Envolvi os braços em sua cintura, o que me pareceu mais magra e pequena. Seus ombros encolheram, e os braços tornaram-se finos e delicados. Essa bizarrice só foi ter uma explicação quando eu tirei a máscara de seu rosto. Não era Cassandra quem eu segurava.
Era Meyrin.
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