As portas automáticas do aeroporto Suvarnabhumi se abriram com um silvo. O primeiro impacto não foi visual, mas físico: uma bofetada quente e úmida atingiu Leo, sufocando-o como um abraço pesado. Diferente do calor de Salvador, ali não havia brisa atlântica para aliviar — apenas asfalto fervente e multidões apressadas.

Logo vieram os cheiros. O ar trazia uma mistura avassaladora de capim-limão, pimenta ardida, incenso doce queimando em algum altar e a fumaça oleosa dos tuk-tuks. Nada lembrava a maresia ou o acarajé no dendê que significavam "casa".

— Vamos, Leo. Fique perto — disse Ricardo, o pai, com firmeza ensaiada, como quem tentava se convencer. Suava em bicas ao segurar a mala pesada.

Ana, a mãe, tocou o ombro do filho. — Tudo bem, meu filho?

Leo apenas assentiu. Não havia palavras. O tailandês ao redor soava como música indecifrável. As placas em caracteres elegantes o faziam sentir-se analfabeto, invisível. O garoto de quinze anos, pele negra brilhando sob as luzes do terminal, sentia-se opaco por dentro.

— Ali! Acho que é ele! — Ricardo apontou um homem magro segurando uma placa: RICARDO ALVES.

O motorista sorriu, juntou as mãos ao peito e curvou-se levemente. — Sawasdee krab.

Enquanto Ricardo gesticulava em inglês quebrado, Leo seguia em silêncio até a van.

Fora do terminal, a cidade era um vendaval de cores e ruídos. Táxis rosa-choque e verde-limão competiam por espaço; motos costuravam impossíveis entre carros; templos dourados surgiam entre arranha-céus de vidro. Fios elétricos se enrolavam como ninhos sobre as ruas. Um caos hipnótico.

Dentro da van, o ar-condicionado parecia um milagre. Leo colou o rosto no vidro gelado. Monges laranja caminhavam serenos; cozinhas de rua lançavam labaredas; um lagarto escalava muros. Cada detalhe era um lembrete cruel da distância de casa.

Os pais conversavam animados sobre o restaurante, sobre Seu Carlos, sobre oportunidades. Para Leo, porém, tudo era silêncio. Ele se sentia fantasma num filme sem legendas.

A van entrou em uma ruela estreita, um soi. Vendedores empurravam carrinhos de espetinhos; barbearias improvisadas disputavam espaço com lojinhas barulhentas. E então, um pedaço do Brasil surgiu como miragem: Corcovado.

A fachada pintada de amarelo vibrante e verde-bandeira exibia o Cristo Redentor iluminado no letreiro. Do interior escapava samba-rock abafado.

Seu Carlos, corpulento e sorridente, correu a recebê-los. — Ricardo, compadre! Ana! Bem-vindos à sua nova casa! — e os abraços quebraram parte da tensão.

Leo desceu por último, acanhado.

— E esse garotão deve ser o Leo! Mais alto do que eu imaginava! — riu Carlos, batendo em suas costas. — Daqui a pouco você fala tailandês e come grilo frito.

Leo forçou um sorriso.

Encostado na porta, Luan, de relógio caro e olhar frio, mal ergueu o queixo em cumprimento antes de voltar ao celular.

Na mesa externa, duas garotas observavam. Aline, de traços mistos, ergueu os olhos do livro com curiosidade. Cassandra, cabelos curtos e rebeldes, revirou os olhos com desdém.

— Venham, vou mostrar o apartamento! — anunciou Carlos. — Fica em cima da cozinha. O cheiro de moqueca sobe, espero que não liguem!

O espaço era simples, recém-pintado, cheiro de tinta e naftalina. Caixas com "LEO — FRÁGIL" ocupavam um canto. Ana abriu as janelas, deixando o burburinho da rua invadir. — Nosso cantinho — disse, emocionada.

No quarto pequeno que seria seu, Leo se sentou na cama. Pela janela, não via o mar da Barra, mas telhados, antenas e varais. Tentou fechar os olhos e resgatar a memória das ondas, do berimbau, do picolé na praia. Mas o que restava era o zumbido constante de Bangkok vibrando dentro dos ossos.

Abriu os olhos. O peso da distância se abateu sobre ele. Entre quem era e onde estava, havia agora um oceano inteiro.