Brave Heart
16 As chamas do coração

Depois de horas de viagem, já era madrugada quando Rosinante e Law chegaram na nova casa. Ou melhor, não chegava a ser exatamente uma casa e sim, um amontoado de madeira cheio de pregos quase soltos. Rosinante vivia em um campo cheio de lixo em volta e o lugar onde ele morava não passava de uma casinha minúscula quase quebrando de vez.
– Então, é aqui onde eu moro.
É dispensável dizer que ambos estavam quase mortos de cansaço. O loiro estava com a maquiagem borrada de tanto chorar, porém já estava bem melhor de sua doença. Law ficou em espanto ao ver onde era o local que ficaria.
– Cabem duas pessoas aqui...?
– Law, já já você vai entender o motivo do seu pai ter mandando você ficar com o Doflamingo ao invés de mim.
Assim que abriram a porta, que quase quebrou, Law pode ver melhor o que havia lá dentro. Não tinham móveis, só papel. Várias pilhas de papel e só dois cômodos: uma sala de estar e uma cozinha. Os únicos móveis que tinham era uma mesa sem cadeiras, um fogão sem fogo e um colchão que servia como cama.
– Rossy! Até que enfim você chegou, eu estava preoc... – Sengoku apareceu. – Que coisa é essa na sua cara? E por que tem uma criança do seu lado?
– Sengoku, Law. Law, Sengoku. Pronto, já se conhecem. Eu quero que você cuide dele, a culpa é do meu irmão e eu não tô afim de falar. Se precisar de mim, estarei fumando, boa noite, fui.
E foi dessa maneira que Rosinante se retirou. Seu estado era igual a de um zumbi, ele não conseguia andar direito e estava semi-morto. Porém, antes que ele pudesse ir embora daquele cômodo e fumar um cigarro, foi impedido por Sengoku, um homem alto e com cabelos negros.
– Ei, calma aí! Eu como médico não posso deixar você fumar nesse estado, você precisa parar de brincar com a sua saúde! E você parece pior do que esse garoto, então a minha prioridade, como sempre, é cuidar de voc–
– CALA BOCA! – Ele exclama e fica realmente furioso, assustando Law. – Eu te chamei aqui por um único motivo, que foi cuidar dele. Eu não preciso de ninguém me dizendo o que eu devo ou não fazer, eu sei cuidar de mim.
– Argh, que seja, faça o que você quiser! Mas não vai fumar. Eu joguei todos os seus cigarros fora, já que eu te conheço muito bem pra saber o que você faria assim que chegasse aqui.
– Você fez o quê? Mas que merda, Sengoku! Se eu não fumar eu vou morrer!
– É justamente o contrário, se você fumar, você VAI morrer! Francamente, o que o Mingo fez dessa vez?
– Eu preciso de cigarros justamente pra esquecer as merdas que ele fez! Você vai entender assim que vir o Law direito. Agora, se me der licença, eu vou comprar mais cigarros.
– Você vai sair essa hora nesse estado? Tsc, que seja, morra logo então! Só não vem chorar pra mim mais tarde, eu desisto de tentar fazer qualquer coisa com você!
– Blá, blá, blá. Tchau!
– Pelo menos tira essa coisa da sua cara antes de ir.
– Tá, que seja. – Ele tomava banho em um rio que havia fora da casa.
Assim que Rosinante foi embora sem se despedir, Law ficou ainda mais perdido do que já estava. Agora ele precisava ficar junto com uma pessoa desconhecida, em uma casa caindo aos pedaços, se preocupar com Corazón e com o futuro.
– Ér... eu...
– Então, né. – Sengoku suspira forte e se abaixa para ficar na altura do garoto. – É você o garoto que o Rosinante vive falando?
– O Cora-san fala de mim? – Seus olhos brilharam, mesmo estando naquela situação.
– Sim, o tempo todo. E você é igual ao seu pai.
– V-Você também conhece o meu pai?
– Tá vendo todos esses papéis espalhados pela casa? Tudo isso são contratos, arquivos, ligações gravadas, e mais um monte de coisas que eu, seu pai e o Rossy juntamos por anos contra o Mingo.
– Sério?
– Pois é, é uma obsessão do Rossy. Ele fez de tudo pra tentar impedir o irmão de fazer certas coisas, mas nunca deu certo de fato. Posso saber o porquê de você estar aqui agora, Law?
– B-Bem... eu descobri que o Doflamingo matou a minha família, aí o Cora-san foi brigar com ele, e agora o Doflamingo sabe de toda história de vocês. – Law disse, meio triste e cansado ao mesmo tempo. Sengoku bufou.
– Argh, então foi isso. Eu já sabia que algum dia isso iria acontecer, só não pensei que seria agora.
– V-Você já sabia?
– Que o Mingo matou sua família? É claro. Quer dizer, eu não tinha provas e nenhuma informação concreta, já que o seu pai não falava nada. Mas porra, era óbvio que tinha dedo do Mingo nessa história, eles se odiavam.
– E o Cora-san também sabia...?
– Bom, eu disse pra ele. Sabe o que ele fez? Brigou comigo e defendeu o irmão. "Porra, Sengoku, olha o que você tá dizendo! Eu sei que o meu irmão não é santo, mas assassino ele não é. Isso foi um acidente que poderia ter acontecido com qualquer um!" Aí depois disso ele quebrou todos os móveis dessa casa, com raiva de mim.
– Então foi isso...
– Mesmo com tudo isso, aqueles dois se gostam muito. Não culpe o Rossy por não ter falado isso pra você, provavelmente ele queria te proteger. Eu acho que, no fundo, ele já sabia que o Mingo era culpado.
– Eu não estou com raiva do Cora-san, só estou preocupado com ele. E também não foi só isso que aconteceu... – Law tira todas as roupas, ficando apenas de cueca e mostrando as marcas roxas e as duas tatuagens. Sengoku põe a mão na boca e fica chocado com o estado daquele garoto e, logo, ele entende o motivo de Rosinante ter agido tão estranho há pouco.
– Foi o Mingo..? – Ele concedeu com a cabeça. – Entendo. Sinto muito, de verdade, eu vou cuidar de você.
(...)
– Voltei. – Rosinante chegou, de cara limpa, fedendo a cigarro e bebida. Apesar de ainda estar cansado e triste com tudo que acontecera, ele tentou parecer o mais forte possível. Sengoku foi até ele, com uma aparência séria.
– O Law já está dormindo, ele vai ficar bem.
– Que bom, isso me deixa mais calmo. Eu preciso mesmo falar com você.
– Rossy, o que você pretende fazer? Eu sei que esse garoto não tem pra onde ir, mas ele não pode morar num lugar como esse.
– Eu sei, eu sei, eu vou te dizer exatamente o que eu vou fazer. Eu decidi que vou dar um fim à minha obsessão com o meu irmão e vou queimar esta casa.
– COMO É? – Sengoku percebe que acabou gritando e abaixa a voz, para não acordar ninguém. – Você ficou louco. Agora que nós sabemos que o Mingo é um assassino, essa é a melhor hora pra acabar com ele de vez! É só deixarmos o Law como prova que nós conseguimos prendê-lo.
– Sengoku, eu já te disse um milhão de vezes, eu nunca quis prender o Doffy! Nunca quis botá-lo na cadeia nem nada do tipo, tudo o que eu queria era obrigá-lo a parar de fazer merda, mas agora as coisas ficaram diferentes.
– Diferentes como? O que você tá planejando? Vai ficar do lado dele?
– Ficar do lado dele? Depois de tudo que ele fez? NUNCA! Só que eu não quero envolver o Law nessa história e é isso que vai acontecer se eu não parar com isso de uma vez.
– Rosinante, o garoto já foi envolvido! Não tem mais desculpas pra usar. E se você queimar a sua própria casa onde diabos você vai morar?
– Com você, ué. Olha, Sengoku, eu tô falando sério. O Doflamingo só me deixou fugir com o Law porque eu prometi que queimaria todos os arquivos, e é isso que eu vou fazer. Se eu for denunciá-lo, ele vai subornar alguém e não vai ser preso! Pior ainda, além de não ser preso, ele vai matar o Law!
– Porra, você não precisa queimar tudo. Vai acabar com o nosso trabalho de anos? E não tem como subornar ninguém com a quantidade de provas desta casa! Você tá completamente louco, isso sim!
– Eu não quero queimar só por causa do meu irmão. Eu quero queimar pra esquecer de tudo isso, pra esquecer da minha obsessão. Eu decidi isso no táxi. Eu vou mudar de vida, ao invés de dedicar a minha vida pra botar o meu irmão na linha, eu vou cuidar desse garoto!
– Cuidar desse garoto? Você nem sabe cuidar de si mesmo! E se você colocar fogo nessa casa, do jeito que você é, é capaz de você acabar se matando!
– Então queima ela por mim! Olha, amanhã mesmo eu e o Law vamos ir morar na sua casa, depois de queimar tudo isso. Entendeu?
– Ei, quando eu te dei permissão pra ir morar comigo...?
– O Doffy não sabe da sua existência, é mais seguro eu ir morar com você. Além disso, você é o único amigo que eu tenho.
Depois de discutirem por mais um tempo, ficou decidido que Rosinante iria mesmo queimar a casa e todos os arquivos que incriminassem seu irmão mais velho. Ele estava decidido a deixar a vingança contra Doflamingo de lado, pelo menos até o garoto não correr mais nenhum risco.
Sengoku acabou indo dormir em um canto da casa e o loiro foi para seu colchão, local onde Law já estava descansando e deitou-se ao seu lado. Pouco antes de apagar, ele de um beijo na testa do garoto e ficou fazendo cafuné por alguns segundos.
– Desculpa por tudo isso, por ter gritado na sua frente, por tudo. Eu prometo que vou cuidar de você até o último segundo da minha existência, nem que pra isso eu tenha que abrir mão da vingança contra o meu irmão.
(…)
No dia seguinte, o primeiro a acordar foi Law. Logo ele percebeu que estava nos braços de Rosinante e se sentiu seguro pela primeira vez em séculos, onde não tinha mais que temer a chegada do loiro de plumas rosas.
– Bom dia, Cora-san. – Disse, dando um beijo no rosto do mais velho e com um leve sorriso no rosto.
– Law... bom dia... – Respondeu, coçando os olhos e acordando com um pouco de dor de cabeça.
– Finalmente eu posso morar com você! Isso é tão bom...
Mesmo Law estando feliz, Rosinante ainda parecia preocupado, querendo falar alguma coisa entalada em sua garganta. Ele então senta-se encostado na parede e pede para que o garoto ficasse do seu lado.
– Law, preciso te falar uma coisa que você não quer ouvir.
– O quê? Nós não vamos morar juntos?!
– N-Não, não é isso. Pelo contrário, eu quero que você tenha em mente algumas coisas quando for morar comigo.
– Tipo..?
– Quando você disse que me amava, eu não sabia do lance com o meu irmão, então eu achei que fosse só por você estar crescendo e desenvolvendo certas... vontades... – Rosinante disse, com um pouco de receio do que falaria, já que ele não gostava de tocar nesse assunto. Law também não gostou nenhum pouco de ouvir aquilo.
– C-Como assim? O Doflamingo ter feito aquilo comigo muda alguma coisa? Você não gosta mais de mim?
– Não fala isso, é claro que eu gosto de você. E sim, isso muda muita coisa.
– Muda em quê? Por que você tá falando isso?
– Arfh... – Rosinante suspira, se acalmando para voltar a falar. – Porque agora eu percebo que, o seu amor por mim, é só um reflexo do que aconteceu com o meu irmão. Depois dele ter feito aquilo com você, Law, você acabou desenvolvendo um sentimento extra por mim, justamente para se proteger do Doffy.
– Não, não, não... – Law acabou ficando assustado com o rumo que a conversa tomaria, mas o loiro continuou a falar.
– Isso tudo foi um reflexo do trauma que você sofreu! Mesmo que você queira negar, a verdade é essa, não tem como você amar um adulto problemático e doente feito eu. E isso faz eu me sentir ainda mais culpado por ter te beijado.
– Não fala isso, por favor! Mesmo se você não quiser nada comigo, isso não vai mudar o que eu sinto por você, Cora-san!
– Para com isso... você fala de amor com a maior facilidade do mundo, e isso é bom, mas não é o que você pensa. Isso tudo com o Doffy foi muito recente e você não se recuperou totalmente, é isso.
– Então o que você quer que eu faça? Como eu posso provar que eu gosto de você de verdade? Olha, mesmo você não estando de maquiagem eu já consigo te tratar normalmente!
– Ahn? – Ele passa a mão no rosto. – Ah, é verdade, eu esqueci de colocar antes de dormir.
– Eu gosto de você do jeito que você é, então não precisa mais colocar isso! E eu vou esperar o tempo que for pra você ficar junto comigo, Cora-san.
– Tá bom, olha. – Rosinante se vira para ficar de frente para o garoto. – Se você quer tanto provar, então espera até todo esse lance ter passado. Quando você fizer dezoito anos, se você ainda conseguir dizer essas mesmas palavras...
– Você aceita namorar comigo?
– … Aceito. Se você tiver dezoito e ainda me amar, eu fico com você quantas vezes você quiser, mas até lá eu não vou fazer nada.
– Sério?! – Ele abre um sorriso enorme ao imaginar todo o futuro deles juntos e Corazón retribui o sorriso, adorando sempre ver o rosto de Law feliz. Logo, ele decide mudar de assunto.
– Bom, então continuando. Nós dois vamos morar junto com o Sengoku, porque eu vou queimar a minha casa.
– Se você queimar a sua casa você vai acabar pegando fogo junto...
– Não se preocupa, eu vou deixar essa parte com ele. E depois que a gente for morar com ele, eu vou ver se peço pra alguém tirar essas coisas da sua pele.
– Minhas tatuagens? Mas eu não quero tirá-las...
– Como assim? Você quer ficar com elas?
– Quero! Elas me fazem lembrar você, Cora-san, então eu quero ficar com elas. E eu também penso em fazer outras quando eu for de maior, todas de coração!
– … Você é meio estranho, sabia?
(…)
Um pouco mais tarde, Sengoku acordou e os três deram inicio ao plano. Álcool foi jogado por todo canto, nos papeis, no colchão e no fogão, até não ficar nada seco. Rosinante foi obrigado a se afastar da casa para não ter riscos dele acabar pegando fogo no processo e Law ficou junto com ele, observando as brasas.
– Então é isso..? – Rosinante fala, vendo a casa em chamas. – Anos de trabalho pra, no fim, acabar tudo queimado.
– Desculpa... eu atrapalhei o trabalho de você e do meu pai.
– Não, tudo bem. O fogo simboliza um novo começo. Eu não posso mais deixar o meu irmão controlar a minha vida, pelo menos não agora que eu tenho você, Law.
– Nós vamos morar juntos e esquecer o Doflamingo. Eu vou pedir ao Sengoku que me ensine tudo sobre a sua doença, assim eu posso cuidar de você do mesmo jeito que você cuidou de mim.
– E nós vamos viver juntos pra sempre, certo?
– Sim!
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