Brave Heart
35 Capítulo 35 - O Primeiro Dia
O discreto relógio de bolso de Benjamin, tamborilava entre meus dedos impacientes. Já se passava da hora costumeira de Dimitri aparecer, e eu o aguardava na biblioteca, sem nenhum sono aparente. A conversa com seu irmão mais velho ainda me incomodava, e eu não fazia idéia de como ou o que exatamente, contar a Dimitri.
“...Eu não quero Dimitri envolvido em meus assuntos...” — A voz de Benjamin ecoava dentro da minha cabeça.
–Mas que droga. – Apertando os olhos com força, resolvi levantar da poltrona e ajeitar as saias.-Vou dormir antes que fique louca. – Murmurei.
–Fique louca pelo que? — A voz aveludada de Dimitri, fez todos os pêlos do meu pescoço de eriçarem. Cautelosamente, girei em meus calcanhares para encará-lo.
–Por te esperar. – Forçando um sorriso, comecei a caminhar em sua direção. Dimitri suspirou.
–Eu já te disse para não ficar acordada até tão tarde. – De braços abertos, ele me acolheu. – Depois do jantar, pode se deitar. Eu ando bastante atarefado e não quero atrapalhar seu descanso – Beijando o topo da minha cabeça, ele se afastou um pouco para me fitar. – Como está se sentindo?
–Bem. Eu estou apenas cansada. É estranho, mas acredito que ainda não me recuperei totalmente da doença nos nervos.
Dimitri ergueu meu queixo.
–E eu sou um completo palerma por te deixar adiar a consulta com o médico. E se não for os nervos?
–Foi sim. Tudo começou quando tomei o susto naquele dia. – Pelos meus traços, Dimitri percebeu meu descontentamento. Ele se limitou a sorrir.
–Ainda está ciumenta? – Ele me puxou de volta para seus braços. – Eu já te disse que não existe outra mulher em minha vida.
–E eu acredito, mas isso não quer dizer exatamente, que eu possa me sentir confortável. –Fiz uma careta e ele gargalhou.
–Venha, vamos sentar um pouco. – Me puxando para seu colo, Dimitri se acomodou em uma das poltronas confortáveis. –Como foi seu dia? – Ele puxou uma mecha do meu cabelo e cheirou. A sensação de seus dedos era incrível.
–Eu acompanhei minha irmã a uma loja de roupas, comprei alguns doces e...
–Trouxe algum para mim ou comeu todos? — Dimitri me interrompeu divertido.
–Oh não. – Toquei meus lábios para abafar uma risada. – Eu teria trazido vários, se a bandeja não tivesse se espatifado no chão, quando a carruagem nos alcançou.
–O que? Foi atingida por uma carruagem? – Os olhos castanhos de Dimitri começaram a analisar meu rosto e braços, cobertos pelo cetim. Sua voz era urgente.
–Estou bem. Eu fui salva a tempo por... – Automaticamente eu freei. Eu ainda não estava preparada para contar a Dimitri sobre Benjamin. E se seu irmão não me perdoasse e resolvesse fugir novamente? Não. Eu teria que guardar aquele segredo por algum tempo.
–Foi salva por quem? – Dimitri quis saber e eu engoli seco. Seria minha primeira mentira.
–Por um jovem atencioso que estava passando.
–Oh. E era alguém que conhecia? – Dimitri pareceu um pouco surpreso eu diria. Talvez, até um pouco desconfiado.
–Definitivamente não. – Segurei seu olhar. Por Deus, eu odiava mentiras. Tomava sempre como base meu próprio pai e seus vícios.
Dimitri me encarou por um longo momento. Era uma situação embaraçosa, como se na verdade, ele pudesse ler minha mente.
Rezei em silêncio.
–Rose você é uma péssima mentirosa. – Sua voz era calma. Controlada.
–Por que diz isso? – Contra qualquer coisa, eu tentei sorrir.
–Por que outro motivo estaria suando dessa forma? – Ele ergueu uma sobrancelha perfeitamente delineada pra mim.
Toquei minha testa.
–Está calor aqui. – Era uma mentira, mas eu precisava tentar. Comecei a ficar tonta. Se Dimitri resolvesse insistir com aquilo, eu possivelmente iria entregar Benjamin.
E para minha total descrença, Dimitri sorriu. Um lindo e aberto sorriso.
–Estou brincando meu amor. E sim, está calor aqui. – Ele então se aproximou mais de mim, me puxando de encontro ao seu corpo. – Fico feliz que esteja bem. Eu não poderia tolerar um único hematoma em sua pele. Mas é claro que sinto muito pelos doces. – A descontração em sua voz, fez com que minha tensão dissipasse.
–Está bastante bem humorado não? – Foi minha vez de erguer as sobrancelhas.
–Estou feliz. Só isso. – Ele me puxou e rolou por cima de mim no sofá.
–E será que posso saber o motivo de tanta felicidade? – Perguntei depois de um momento, assim que consegui me recompor, jogando meus cabelos para trás.
–Recorda-te de Ivan? Aquele que foi nos visitar na Pensilvânia?
–Ah sim, seu amigo loiro? – Arrisquei enquanto mentalmente eu tentava recordar as feições do belo homem.
–Ele mesmo. – Dimitri se ajeitou um pouco melhor, enlaçando uma mão em minha cintura. – Sabes que sua esposa está grávida não?
–Sim, é claro. Ele estava super feliz.
–Pois bem. Ele me convidou para ser padrinho da criança. – Dimitri não disfarçou o sorriso tímido.
–Oh que maravilha querido. – O abracei e beijei o rosto com carinho – Fico realmente feliz com a notícia.
–Eles irão vir formalizar o convite por esses dias. Acredito que nesta mesma semana. – Dimitri pensou por um momento.
–Ah, sim é claro. Faremos um jantar especial.
Houve um momento longo de silêncio, onde Dimitri apenas me observava.
–Aconteceu algo? – Perguntei, me sentindo inquieta.
–Sabe Rose, você não gostaria de ter filhos? – Sua pergunta de certa forma constrangida, fez algo remoer dentro de mim. Eu havia sido pega de surpresa.
–Oh, bem, eu gostaria. – Respondi meio sem jeito e Dimitri voltou a sorrir. De forma aliviada desta vez.
–Então o que acha de tentarmos? – Ele se acomodou melhor e deslizou uma mão pela minha saia. – Eu ficaria muito feliz com um filho.
–Oh. Bem. – Meu rosto se tornou escarlate e por mais que eu soubesse como funcionava a forma de ter filhos, não consegui evitar o constrangimento. –Agora? – Perguntei quando Dimitri afrouxou o colarinho de sua camisa.
–Já. – Ele então começou a beijar meu pescoço e suas mãos, subiram juntas pelo meu vestido. –Sabe Roza, eu acredito que nunca vou cansar disso.
Minha risada engasgada, fez com que Dimitri erguesse seu olhar para o meu.
–Alguma coisa errada? – Ele perguntou alarmado.
–Estou sentindo cócegas.
–Ah. Assim? – Suas mãos voltaram a se mover e eu voltei a rir. Dimitri tinha um sorriso diabólico nos lábios.
–Pare Dimitri. – Me encurvei um pouco e ele mordeu minha orelha.
–Ah Rose, você nunca cansa de me surpreender.
***
Eram quinze para as onze e eu não havia recebido nada. Absolutamente nada. Será que Benjamin havia desistido de me encontrar? O pensamento me aterrorizava e me irritava ao mesmo tempo.
–Aquele belo tratante. – Amaldiçoei pela terceira vez, quando ouvi uma batida na porta da biblioteca.
–Sra. Belikov? – Era Marie na soleira. – Chegou isso para a Senhora
Eu mal havia notado que estava correndo, até Marie perceber minha ansiedade. Sem mais delongas peguei a pequena nota.
–Obrigada. Agora pode ir.
Antes mesmo de a porta ser fechada, eu a abri.
Senhora Belikov;
Gostaria de convidá-la para uma singela reunião, no humilde local ao qual resido temporariamente às 15h00min da data de hoje.
2581 Edigard Voilong.
Graciosas Lembranças
B.B
Antes mesmo de fechar a nota, lancei um olhar ao relógio de pendulo. Tudo indicava que eu teria ainda um tempo para almoçar e posteriormente, acompanhar Katherine a entrada da loja de roupas, junto de Marie.
Dimitri não apareceu para almoçar, o que era previsível. Na maioria dos dias, ele se locomovia até seu escritório no centro de Londres, para conversar com alguns acionistas e colegas de trabalho sobre seus investimentos e trabalho.
Assim que o almoço terminou, convenci Katherine e Marie, que precisávamos nos apressar para ir ao centro, pois eu teria um compromisso no final da tarde. Mal havíamos nos preparado para sair, quando um dos empregados da casa se aproximou, informando uma visita repentina.
–O amigo de vosso marido e sua esposa, aguardam na biblioteca a pedido do Sr. Belikov.
–Dimitri está em casa? – Perguntei alarmada, observando Katherine ajeitar seu chapéu para sair do quarto.
–Sim senhora. – O criado foi objetivo e logo saiu. Me deixando ali sozinha com as duas mulheres.
Sem opções para responder a aquilo, tirei meu chapéu e luvas e desci para o andar de baixo. Quando estava prestes a alcançar a porta da biblioteca, ouvi risadas abafadas. Possivelmente o assunto era engraçado, o que contrastava ferozmente com meus humor. Benjamin tinha um encontro comigo e com toda a certeza do mundo, eu não poderia comparecer. Eu não tinha sequer alguma alternativa.
–Minha esposa chegou! – Dimitri sorriu ao me ver e logo, se levantou do estreito sofá de dois lugares, ao qual ele se sentava sozinho.
–Boa tarde. – Graciosamente me encurvei em cumprimento a alta e esbelta senhora de cabelos loiros claríssimos e olhos verdes, acompanhada de seu gracioso marido, também loiro. Um acumulo em seu ventre me chamou a atenção. Ela estava grávida.
Dimitri se adiantou e deu um passe adiante.
–Rose o Ivan você já conhece e está é Vasilisa, sua esposa.
–Muito prazer em conhecê-la – A voz da jovem assim como sua aparência, era bastante delicada.
–O prazer é todo meu. – Apertei gentilmente sua mão enluvada e ela sorriu.
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