Brave Heart
24 Capítulo 24 - A Cabana (Parte I)
Notas iniciais
*Boa leitura*
POV Dimitri
Rose havia adormecido em seu lado no banco, a pouco mais de meia hora. Não ousei se quer fazer o mínimo de barulho, para que ela não acordasse de seu profundo cochilo. Sua cabeça estava apoiada na janela minúscula da carruagem sem nenhum cuidado, enquanto suas mãos estavam depositadas sobre seu colo macio, coberto pelo cetim escuro.
Observa-la tão frágil e assim de perfil, fez-me questionar sobre o quão forte ela estaria sendo, naquele exato momento. Não que isso realmente fosse algo sobre o qual eu devesse questionar, mas as manchas escuras quase despercebiveis embaixo de seus olhos e a forma como ela expressou raiva mais cedo, acabaram por me deixar um tanto preocupado.
De fato, o matrimônio precoce -como ela mesma citara assim- não era algo vistoso aos olhos, principalmente tratando de uma pessoa tão jovem como Katherine, sua irmã mais nova. Rose tinha um senso nato de mãe e responsabilidade para com a menina, mesmo sendo somente poucos anos mais velha que ela. Foi por esse motivo em particular, que ela havia inclusive resolvido deixar sua vida em um Convento, para se casar comigo.
Espantando minha linha de pensamentos sem sentido algum ao menos momentaneamente, levantei do lugar onde estava ao notar rose se mecher ligeiramente no banco da carruagem. Com facilidade retirei meu paletó pardo — e lhe cobri os ombros nus, puxando-a para o meu peito no processo.
Rose abriu os olhos, sonolenta.
–Onde estamos? – Ela perguntou, fitando-me com aqueles intensos olhos castanhos.
–Quase chegando. – Beijei sua testa, a puxando para mais perto. Rose se deixou levar.
–Onde estamos indo que é tão longe? – Ela bocejou. Lancei um olhar para fora da carruagem e notei que estava prestes a escurecer.
–Vamos a um lugar especial, que quero que conheça antes de partirmos para Londres. – Sorri, conseguindo uma perfeita sobrancelha escura dela, erguia para mim.
–E que tipo de lugar é este? – Ela voltou a bocejar.
–Um tipo... – Pausei fingindo pensar e obtive totalmente a atenção dela. – Especial. – Conclui e Rose não conseguiu evitar sorrir.
–Isso eu já sei. – Bem de leve, senti sua mão em meu peito, como um gesto de protesto. –Vamos passar a noite nesse lugar? – Ela franziu o cenho, fitando a janela próxima de nós.
–Era minha intensão, mas não sei ao certo se você irá realmente apreciar isto. – Misteriosamente voltei a sorrir, somente para receber um olhar curioso de sua parte.
Rose estava prestes a protestar, quando a carruagem enfim parou. Distanciei-me o suficiente dela para verificar a outra janela, quando a porta fora aberta. Finalmente havíamos chegado a nosso destino.
Desci primeiro e logo ergui a mão para Rose, que prontamente a pegou. Cambaleando para fora, ela enrugou sua testa em surpresa, quando percebeu aonde havíamos parado.
–Que lugar é esse? – Negando-se a se sentir ameaçada ou recuar, Rose deu alguns passos para frente, alisando a saia de seu vestido, pouco franzida.
–Uma cabana – Dei de ombros, virando-me para encarar o cocheiro que aguardava ansiosamente por minhas próximas ordens. Com um leve acenar, ele se distanciou para um velho estabulo não muito longe de nós, e logo me virei para minha esposa curiosa, beirando a porta central da velha casa de madeira.
–Confesso que estou surpresa – Rose disse sem se virar. Parei ao seu lado, apenas tentando adivinhar sua real reação com tudo aquilo. Para mim, era importante sua aprovação, mesmo que eu não entendesse realmente o porquê naquele momento.
–Você queria saber sobre meu passado, não é? – A instiguei, recebendo novamente sua total atenção. Rose era tão previsível. Eu quis sorrir, mas mantive minha expressão neutra perante aquilo. Eu estava preocupado sinceramente com o rumo que as coisas pudessem tomar, quando Rose descobrisse totalmente a verdade.
Não esperando por sua resposta, dei um passo à frente e girei a gasta maçaneta de metal.
A velha cabana, ainda tinha o mesmo aspecto rústico e aconchegante, como de quando eu a havia visto pela última vez. O caldeirão de barro e mais duas panelas agora limpas, ainda estavam em cima do forno improvisado a lenha, elaborado há vários anos atrás. Bem de frente, uma grande estante de madeira com os vidros pouco embaçados, guardavam alguns utensílios de cozinha e copa, também limpos. Uma mediana cama de casal já do outro extremo do cômodo, bem ao lado de um gaveteiro de quatro gavetas, estavam em uma parte bem pouco iluminada, mas nem por isso, pouco aconchegante. Um pequeno sofá com dois lugares e uma mesa de centro por fim, estavam em perfeita harmonia com o tapete listrado, bem próximos da porta. Era uma bela memória de família.
Estava tão absorto em meus próprios pensamentos, que mal me dei conta quando Rose começou a caminhar silenciosamente, em direção ao copo de cristal agora vazio, em cima da mesa de madeira. Com cuidado excessivo, Rose retirou suas luvas claras que cobriam-lhe as mãos suaves, e tocou a superfície do copo, parecendo pensativa.
–Foi aqui que esteve quando sumiu, não foi? – Ela perguntou sem me olhar. Ela não precisava. Rose, dentre todas as pessoas que eu conhecia, tinha a incrível capacidade de saber de coisas, que ninguém sabia. Coisas que ninguém atrevia-se a querer saber. Era quase como se ela pudesse, ler minha mente. Não havia necessidade de resposta e eu sabia disso. Então me mantive apenas a observando, cativo.
Aquele lugar era uma espécie de santuário para mim, era ali que eu vinha toda vez que precisava me encontrar. O lugar que fazia parte da minha história. Eu achei que nunca mais iria dividi-lo com mais alguém e agora, cá estava eu, procurando palavras que pudessem explicar exatamente o que estava sentindo com relação a tudo aquilo, naquele momento.
Rose agora me observava, mas não de uma forma rancorosa ou irritadiça, mas sim, de uma forma preocupada e afetuosa. Novamente me surpreendi com a direção de seu gesto. Ela parecia realmente, me entender. Depois que passei aqueles dois dias ali longe dela, tentando colocar meus pensamentos e sentimentos em ordem, foi que eu definitivamente percebi que desejava demais fazer com que nosso casamento desse certo, e eu temia que isso não ocorresse por causa de meu passado, mas eu enfim entendi que se quisesse que Rose confiasse em mim, eu precisaria confiar nela primeiro.
–Não estou brava com você – Ela sorriu cumplice. Lentamente, levei minhas mãos a meus bolsos da calça escura. Rose logo mudou a direção de seus olhos, para um vaso de flores de porcelana decorada, também em cima da mesa. Ela então da mesma forma que fizera com a taça, tocou a superfície do vaso.
–É um belo vaso – Ela disse sem me olhar. –Mas infelizmente as flores murcharam. – Percebi que Rose tinha um esboço de sorriso em seus lábios. Nitidamente ela estava tentando dissipar um pouco da tensão, que eu tinha certeza estar exalando por meus poros. –Sabe que pensei seriamente que quando havia sumido, pudesse estar com outras mulheres.
Seu tom era neutro, mas pude notar uma leve pontada de irritação nos traços de seu rosto, que eu já conhecia bem. Novamente a vontade de sorrir de fez presente dentro de mim, mas mesmo assim, me neguei a deixa-la florescer.
Seus olhos castanhos então cruzaram-se com os meus, com notável intensidade.
–E estava realmente disposta a enfrenta-lo, se caso o tivesse feito. – Ela franziu o cenho irritadiça desta vez, recebendo uma leve tonalidade escarlate em suas bochechas.
Sorri fracamente, incapaz de conter minha felicidade, enquanto contemplava a bravura daquela jovem. Eu estava bastante disposto a continuar com nossa conversa, e dizer de uma vez por todas que eu queria que nos portássemos como um devido casal, mas um relâmpago do lado de fora da casa, me fez adiar o momento.
–Acho que vai chover. – Franzi o cenho, levando meus olhos a uma das janelas ainda fechada da pequena casa. Rose acompanhou meu movimento com os olhos, mas percebi que ela ainda aguardava uma resposta minha. Tirando lentamente as mãos dos meus bolsos, segui para ela a passos largos, parando bem a sua frente. Com a ponta de meus dedos da mão direita, ergui seu rosto para a altura do meu e disse serenamente:
–Eu não preciso desse tipo de entretenimento. – Olhei bem fundo em seus olhos. – Não quando tenho uma linda mulher me esperando em casa. – Mantive minha expressão, enquanto observava suas reações. – Respondendo a sua pergunta anterior, sim. Eu vim aqui para pensar sobre muitas coisas. Inclusive, sobre você. Mas estive sozinho o tempo todo. – Conclui sem necessidade, pois eu sabia que ela havia entendido e aceitado minha resposta.
Rose limitou-se a sorrir, tocando minha mão com a sua palma quente. Deus, como eu precisava dela. Como eu queria beija-la e me perder em seus braços. Mas eu tinha prometido a ela que iria seguir a diante com paciência, mesmo que aquilo custasse grande parte de minha sanidade mental.
–Está bem. – Ela respondeu gentilmente, enquanto aproximava seu rosto para mais próximo do meu, com a ajuda da ponta de seus pés. Decidido à aceita-la, baixei meu rosto e fechei meus olhos, quando uma batida urgente na porta da cabana, acabou nos interrompendo. Contragosto me afastei, para saber do que se tratava.
–Diga. – Abri a porta impaciente e logo deparei-me com o atrevido cocheiro bem na soleira.
–Desculpe-me pela intromissão senhor Conde, mas uma tempestade está se aproximando com força. Penso que se o senhor e sua esposa desejam voltar à casa grande, talvez seja melhor nos apressarmos. – Meio sem jeito, o homem deu a volta em seu próprio corpo, apontando para o céu agora coberto por nuvens carregadas.
Soltei um longo suspiro, voltando-me para Rose que agora, estava tentando acender uma lamparina em cima da mesa. Percebendo a notável impaciência do criado, ela se aproximou de nós e fitou as nuvens através da porta aberta. Um rodamoinho de vento, erguia milhares de folhas do chão.
–Vai chover em poucos minutos. Acho que poderíamos ficar. – Ela tocou meu ombro e fitei seus olhos. –Mas não sei se há exatamente um lugar para o cocheiro. – Ela comentou sem jeito, tentando olhar ao redor.
–O velho estábulo pode não aguentar a esse volume de chuva. – Comentei um pouco mal humorado, enquanto pensava rapidamente.
–Talvez ele possa ir e nós ficamos. – Rose se atreveu a me adiantar, embora eu não tenha me importado. – Creio que para ele seja fácil arrumar algum abrigo em algum local. Algo bem diferente para nós. – Ela sorriu e outro trovão se fez bastante audível e perto desta vez. Eu precisava agir rápido, ou todos ficaríamos molhados ou pior, presos com o cocheiro em uma cabana demasiadamente pequena, enquanto meus cavalos tomariam toda a fúria de um temporal.
–Estou de acordo. Vá embora e amanhã nos apanhe no primeiro horário. – Me apressei a dizer e tão logo quanto se apresentou, o homem correu em direção à carruagem.
Fechei a porta para evitar o vento, e Rose voltou novamente sua atenção à lamparina.
–Talvez não tivesse sido uma boa ideia traze-la aqui tão tarde. – Desculpei-me me aproximando para ajuda-la. Com uma mão, Rose sugeriu que eu me distanciasse.
–Está tudo bem. – Ela me olhou de soslaio sorrindo de forma curiosa. –E não se preocupe, pois não me importo de pousar aqui.
–Fico aliviado. – Respondi desfazendo o apertado nó de meu colarinho. Tirei então meu paletó e em seguida, soltei os botões das mangas de minha camisa branca. Depositando as peças em cima da cama, voltei-me para Rose que já havia conseguido acender o utensílio doméstico.
–Consegui – Ela sorriu, esperta.
Passei por ela, indo em direção a pia para pegar a outra lamparina e acende-la.
–Agora pode fazer com esta. – Ela sugeriu soltando um longo suspiro. Em seguida, se acomodou em uma das duas quatro cadeiras da mesa, apoiando seu rosto em suas duas mãos. –Pode começar a me contar, por que não me disse sobre esse local. – Ela instigou.
–Não tinha muito o que dizer. – Fitei seus olhos, enquanto caminhava até a outra extremidade do cômodo, para depositar a lamparina em cima de uma pequena cômoda. –Eu vinha muito aqui quando era mais jovem. Quando queria me sentir mais próximo de minha mãe.
–Sua mãe gostava daqui? – Rose perguntou entretida.
–Minha mãe adorava esse lugar. –Respondi com um sorriso triste. – Meu pai havia ajudado a construir essa cabana para ela, antes mesmo de eu nascer.
–E eles se davam bem? Quer dizer, seu pai e sua mãe? – Rose perguntou um pouco receosa. Engoli seco.
–Durante um certo tempo sim. – Respondi com cuidado. – Mas depois as coisas pioraram bastante – Pausei, indo em direção a pia para limpar minhas mãos com um pano surrado. — AS grandes contas dos navios começaram a nublar seus sentidos. Ele começou a beber e encher nossa casa com mulheres, bebida e opio. – As últimas palavras, principalmente a última em questão, tinha a capacidade de me ferver a alma em segundos. Meu pai havia se tornado um homem débil e intolerante a aquela maldita droga, e durante muitos anos, tornou a vida de minha mãe e a nossa, um inferno.
Percebi que Rose tinha a expressão chocada em seu lindo rosto. Prontamente, despejei o pano em cima da pia e caminhei em direção a ela, agachando na sua frente. Sem que eu tivesse a chance de continuar, ela mesmo o fez.
–E então você o matou. – Rose despejou de uma única vez, mordendo seu lábio com pesar.
–Não foi uma coisa pela qual eu me orgulhe totalmente. – Desviei meu olhar e fiz menção de me levantar, mas suas mãos quentes me mantiveram agachado a sua frente.
–Não vá. – Ela tocou meu rosto com a ponta de seus dedos. – Eu quero muito entender você e ajuda-lo, mas você sempre foge de mim. – Sua voz era gentil e compreensiva. Me senti fraco a sua frente. –Me conte como tudo aconteceu. Eu vou entender você. Já prometi que não iria te julgar.
A vontade de puxa-la para mim naquele instante se tornou absurda e quase inevitável. Cerrei minhas mãos em punhos, de forma quase dolorida. Se Rose fizesse ideia de como meu corpo e minha alma estavam entregues a ela de uma forma completa, talvez não insistisse nessa distancia que estava por me manter louco. Eu precisava perdidamente que ela me aceitasse como seu esposo e como homem.
Respirando fundo e tentando ao máximo guardar meus sentimentos dentro de mim, levantei-me do lugar e puxei suas mãos em silêncio, a levando em direção à cama. O singelo contato já acendia meu corpo e por isso, não demorei a senta-la e observa-la de longe e em pé, enquanto respirava fundo e iniciava minha história.
Notas finais
Meu trabalho e o da Kah essa semana está nos matando. Eu tinha previsto a postagem na segunda mas infelizmente, não consegui nada além do que escrever algumas linhas, depois de um dia exaustivo de trabalho.
Dessa forma, pedimos desculpas mesmo, mas tá complicado e esperamos que nas próximas semanas não seja assim.
Agora as partes boas: OBRIGADA!!! a todos os comentários e em especial, a recomendação que a fic recebeu. Ficamos mesmo muito felizes!!! OBRIGADA!!!!
Agora sobre o capítulo: Sei que vocês não vão estar satisfeitas com o final, mas como esse capítulo é algo bastante complexo, será dividido em duas partes e principalmente, por que quero postar hoje. Já estamos muito atrasadas e eu não gosto de deixar vocês esperando. Principalmente é claro, as leitoras que sempre estão participando com agente. Dessa forma, vamos fazer o seguinte: Eu estou postando hoje e segunda no máximo eu posto a parte II okay?! Deem-me tempo que é final de semana e eu também não sou de ferro rsrsrsrs. Enquanto isso, vocês podem comentar bastantão para ajudar na nossa querida inspiração.
Mais uma observação: Dimitri levou a Rose para a cabana né? eu sei que minha descrição da cabana está uma merda completa, mas eu tentei mesclar a cabana original com a cabana em 1845. Pensa na loucura?!??! De qualquer forma, espero que vocês tenham gostado e ahhhhhhhhhhhhhh, a melhor parte sem dúvida, é ser POV Dimitri né? Deu para perceber nesse capítulo, a verdadeira "tensão" do Dimitri quando está muito perto da Rose.
Vamos as apostas: O que vocês acham que vai acontecer? Será mesmo que ele vai contar tudo a ela? E se contar, como será que Rose vai reagir? Será que ela realmente vai aceita-lo da forma que ele tanto quer? Vamos ser sinceras que ta todo mundo esperando por isso e SIMMM eu fico tão nervosa quanto vocês, mas a fic é assim e precisamos manter a calma :)
Beijos e até a próxima :)
Amamos vocês ♥ ♥ ♥
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