Brave Heart
16 Capítulo 16 - Perséfone
Notas iniciais
POV Rosemarie
Novamente depositei o gasto marca páginas dentro do livro de capa esverdeada, negando-me a me concentrar em qualquer leitura. Minha atenção estava simplesmente, do lado de fora daquela casa. Mais precisamente, em Dimitri.
Pela ampla janela da biblioteca, a qual eu estava sentada de frente, pude notar a atual ocupação de meu marido, a cerca de meia hora. Dimitri ao lado de um criado qualquer nos fundos de nossa imensa casa, estava por tentar domar um animal aparentemente feroz. Um grande cavalo negro, estava amarrado em uma árvore frutífera, se negando a deixar-se montar. De tudo eu não culpava o pobre animal. Claramente Dimitri e seu ajudante, estavam apenas o assustando ao invés, de tentar alguma aproximação.
Dimitri claramente estava prestes a perder sua paciência. O vi passar a mão por seu cabelo escuro pelo menos umas quatro ou cinco vezes, embora sua expressão ao menos de longe, parecesse inalterada. Dimitri tinha essa estranha vantagem sobre as demais pessoas. Mesmo com o coração martelando no peito ou em um caso de vida ou morte por exemplo, eu me negava a acreditar, que sua expressão mudaria. Era no fundo, como uma mistura estranha de falta de interesse, com auto-preservação. De fato, eu não sabia dizer. De fato, eu não arriscaria muitas coisas a seu respeito ainda, mas eu duvidara seriamente, que ele fosse tão mal quanto gostaria de aparentar.
Respirei fundo, depositando o livro que até então estava em meu colo, para a mesa ao lado da poltrona onde estava sentada. Cansada demais para apenas observar aquilo, resolvi ir de encontro a eles, para averiguar pessoalmente seu progresso com o pobre animal.
Dimitri consultava um relógio de bolso quando o encontrei. Seu paletó em tom pardo estava jogado ao chão sem nenhum cuidado e ele agora, exibia uma camisa branca aberta em três botões, mostrando parte de seu peitoral. Seu criado ainda entretido com o cavalo, sibilava algumas palavras cujo significado, eu desisti de tentar entender. Quando os olhos castanhos de Dimitri cruzaram com os meus, tive um vislumbre de surpresa em seus olhos mas que logo, fora substituído por indiferença.
–Posso ajuda-la com alguma coisa? – Dimitri perguntou-me. Cruzei as mãos na frente de meu corpo, apenas analisando o animal de pelo azeviche e bastante brilhoso. Seus olhos eram tão negros quanto sua pelagem. Assim de perto, ele era ainda mais magnífico.
Sem responder a pergunta de Dimitri, apenas dei alguns passos a frente mas logo, Dimitri parou-me com suas mãos firmes, em meus braços. Encarei seus olhos, não entendendo seu gesto.
–O que acha que está fazendo? – Uma pontada de irritação e surpresa, transpareceram em seu tom de voz. Apenas encarei suas mãos em meus braços e ele então, pareceu entender minha nota silenciosa, soltando-me em seguida.
–Pode se machucar ao se aproximar desta besta. – Dimitri então voltou a mecher em seu cabelo e novamente, sua expressão se alterou por um milésimo de segundo. Ele parecia, aborrecido.
–Qual nome do negro corcel? – O ignorei, voltando minha atenção ao belo cavalo negro. Dimitri então ponderou por um momento sua resposta, antes de finalmente libera-la.
–Ainda não tem nome. – Ele deu de ombros, porém não se afastou de minha frente. –Chegou a esta manhã e ainda estou avaliando se irei ficar com ele.
Sua resposta me fez tirar os olhos do belo cavalo e voltar a encara-lo.
–E suponho que sua decisão, dependa da domesticação da bela fera. – Cruzei os braços no peito, não conseguindo evitar um sorriso, quando percebi sua frustração.
–Essa bela fera como diz, atacou um de meus cavalos há pouco. Não sei se poderei mantê-la por muito tempo, fora dos celeiros. – Dimitri pousou seu olhar sobre o animal, dando um passo para o lado, para me dar algum espaço.
–És uma égua? – Perguntei maravilhada, voltando a dar alguns passos em direção ao animal e dessa vez, Dimitri apenas manteve-se ao meu lado.
–Não se aproxime muito. Ela pode estranha-la. – Dimitri poi-se a falar. Virei então para encara-lo rapidamente, com um sorriso no rosto.
–Eu não tenho medo de cavalos. Não se preocupe. – Quando aproximei-me o suficiente para tocar o animal assustado, o criado de Dimitri trocou olhares de preocupação, com seu senhor, mas Dimitri apenas o ignorou.
–És muito bela – Calmamente, depositei minha mão próxima da cabeça da égua, que instintivamente foi um pouco para trás, em um movimento desajeitado. Dimitri deu um passo à frente, mas o tranquilizei com uma mão em seu peito. Notavelmente contragosto, ele retrocedeu.
Tentei novamente e desta vez, a agitada égua não recuou. Com dedos calmos, deslizei minha palma fria pela ansiedade, pelos belos pelos negros do animal.
–Ela parece gostar de você. – Uma voz soou bem próxima do meu ouvido. Virei de soslaio para encarar o rosto de meu marido e me deparei, com um meio sorriso surgindo do canto de seus lábios.
–Eu acho que ela apenas está assustada – Retribui seu sorriso, logo desviando o olhar. –Ela foi muito bem tratada. – Aprofundando um pouco a pressão de meus dedos, deslizei-os pela crina em tom azeviche, perfeitamente penteada da égua, enquanto a analisava. –O brilho de seus pelos denuncia a saúde.
–Eu a comprei por uma boa quantia assumo, mas é um belo animal. – Dimitri então tentou se aproximar um passo da ligeira égua, mas ela recuou bruscamente, fazendo meu coração se acelerar. Mesmo assim, neguei-me a me intimidar com tal gesto e logo, minha mão voltou a seu pelo brilhante, enquanto o homem ao meu lado, apenas manteve-se em sua postura firme.
–Tem certeza que quer continuar a bajulando? Ela não parece tão inofensiva assim. –Dimitri fez um som meio estrangulado, forçando-me a virar meu olhar. Não consegui evitar sorrir o observando de forma defensiva.
–Já que notavelmente o animal é seu, mas não ela não se da muito bem com os outros cavalos, eu poderia amansa-la — Meu tom determinado, fez Dimitri olhar diretamente em minha direção e sim, havia surpresa ali.
–Está dizendo-me que agora, é experiente com corcéis? – O tom de sarcasmo em sua voz, quase me fez virar os olhos.
–Eu tenho alguma experiência com cavalos. Lido com eles desde menina. – Ignorei sua tentativa de me frustrar e mantive a voz firme. –De qualquer forma, eu acredito que posso lidar com ela. Deixe-me tentar ao menos.
Dimitri me analisou durante um longo tempo, como se decidindo se realmente valia seu esforço, entregar simplesmente seu novo bem em minhas mãos. Claramente ele não confiava em mim, mas não era bem isso que ele parecia considerar. Estranhamente, ele parecia aliviado.
–Ela pode machucar lhe. – Ele disse por fim, cruzando seus braços no peito e desviando o olhar para o lacaio próximo de nós. – Não preciso de mais problemas nesta casa. – O lacaio então se aproximou e sem nenhum cuidado desamarrou as rédeas do animal da árvore, prestes a leva-lo embora.
–Não – Negando-me a deixa-lo levar a égua, parei de frente ao lacaio e logo, puxei-lhe a rédea de suas mãos bruscamente, encarando Dimitri com um olhar aborrecido. –Sei que não confia em mim e que acha que ela pode me machucar, mas nem se quer ao menos me deixa tentar.
Os lábios de Dimitri tremeram o suficiente, para eu perceber seu descontentamento com minhas palavras, mas ao invés de gritar comigo ou me expulsar dali, ele tomou outra decisão.
–Convenceu-me. A égua é sua, portanto, sua responsabilidade. Não a quero machucando mais um de meus campeões. Aqueles cavalos valem uma fortuna e pretendo vende-los por um bom preço, antes de partimos para Londres. – A menção sobre Londres só fez meu coração voltar a se apertar com a lembrança de minha família, mas por agora, eu precisava lidar com o futuro do pobre animal.
–Está me dando a égua de presente? – Ergui minha sobrancelha para Dimitri, não conseguindo acreditar no gesto inesperado. Ele soltou um longo suspiro.
–Sim. Quero ver de perto sua tentativa em domestica-la. Isso promete ser bastante interessante – Dimitri então piscou de forma maliciosa para mim e logo se voltou ao lacaio. – Agora leve a égua para o estábulo. – Seus olhos castanhos se dirigiram as rédeas firmes entre meus dedos e sem voltar a olhar para o lacaio, ele voltou a falar – Creio que já encerramos por aqui. Preciso conversar com minha esposa.
Quando seus olhos voltaram a cruzar com os meus, entendi o que deveria fazer. Soltando um suspiro, entreguei as rédeas ao criado.
–Tome cuidado com ela. Agora é minha. – Meu tom de advertência, fez Dimitri abrir ainda mais seus olhos em notável surpresa.
Quando já estávamos sozinhos, sem desviar os olhos para onde o animal havia partido, Dimitri suspirou ao meu lado, me fazendo virar o corpo em sua direção.
–O que queria mesmo falar comigo? Só espero que isso não seja uma desculpa para revogar meu presente – Amassando distraidamente a saia de meu vestido lilás, voltei a iniciar a conversa com Dimitri. Ele então por sua vez, levou as mãos distraidamente aos bolsos de sua calça parda, apenas encarando a distância, seu paletó jogado sob a grama úmida.
–Eu andei pensando sobre o que me disse há alguns dias atrás. – Dimitri então voltou a me olhar ignorando totalmente meu comentário anterior e eu percebi, o conflito no uso de suas palavras, aguardando ansiosamente por alguma pronuncia minha. – E decidi que permitirei a visita de sua irmã e avó em nossa casa.
Sem que eu pudesse controlar minha surpresa, abri um pouco meus olhos, enquanto processava suas palavras.
–Quer dizer que posso trazê-las aqui quando quiser? – Ergui uma sobrancelha desconfiada para ele e foi o suficiente, para que Dimitri suspirasse alto.
–Quer dizer que estou tentando ser mais paciente do que já sou. Em breve nos mudaremos e não quero passar uma má impressão a Ivan ou até mesmo a sua esposa Vasilisa, de que somos um casal em conflito o tempo todo.
–Isso não é totalmente mentira. – O desafiei, cruzando meus braços no peito, enquanto refletia por um momento. –Mas também não é totalmente verdade. Tem sido gentil em seu gesto de me dar a chance de cuidar de Perséfone. – Dei de ombros, novamente obtendo a atenção de Dimitri.
–Perséfone? – Ele perguntou curioso, me fazendo sorrir.
–É como vou chamar minha égua. A filha de Zeus. – Juntei minhas mãos, lembrando-me da leveza de seus pelos entre meus dedos e de sua beleza incontentável. – Eu realmente acredito que consiga amansa-la.
–Se você diz. – Dimitri também sorriu por um breve momento enquanto mexia levemente sua cabeça, fazendo com que uma mecha castanha, caísse por cima de um de seus olhos. Logo em seguida, seguiu para pegar seu paletó no chão. –Acho que não estamos atrasados demais para o chá. – Percebendo que eu poderia estar prestes a esquivar de sua companhia para verificar minha égua, Dimitri voltou a falar. – Perséfone estará bem – Ele insistiu quase que impaciente. Com um suspiro pesado, o segui para dentro da casa.
A mesa fora servida com fartura. Bolinhos redondos recheados de creme, bolo de frutas e mais algumas especiarias, centravam a superfície redonda na sala de chás. Foi servido a mim um pouco de chá, enquanto silenciosamente, Dimitri bebia de sua xícara de porcelana, café.
–Não vai comer nada? – Ele perguntou-me de repente. Ergui meu olhar de minha própria xícara, enquanto perdia-me em pensamentos.
–Na verdade antes de ir ao jardim, eu comi um farto pedaço de bolo de chocolate. – Me desculpei com o olhar, enquanto ele ainda me analisava. – Você também não parece com fome. – Apontei dando de ombros.
–Eu não tenho muito entusiasmo por doces. – Com uma franzida rápida em sua testa, Dimitri denunciou seu gosto.
–Então não deveria pedir que servissem tantos assim. – Novamente levei minha xícara de chá a meus lábios, não desviando o olhar.
–Marie me informou sobre sua preferência por doces. – Pela ligeira impressão de seu rosto, percebi que ele estava se divertindo em me constranger.
–E também não é como se eu fosse uma verdadeira compulsiva – Dei de ombros e para minha surpresa, ele gargalhou.
–De acordo. – Dimitri então fixou seu olhar em mim, deixando-me confusa e um tanto, encabulada. – Como estão as aulas de etiqueta?
–Cansativas — Voltei a encara-lo, limitando-me a fatiar um pedaço de pão com a ponta dos dedos. –Eu não preciso mais delas.
–Madame Florence me enviou uma nota esta manhã, informando-me sobre seu desempenho. – Ele parecia entretido em suas próprias palavras.
–E? – O instiguei, curiosa para saber o que a velha mulher, havia falado sobre mim.
–Ela somente está preocupada com sua convivência com as acompanhantes dela. – Desviei o olhar, diante do seu inquisidor.
–Ela diz isso simplesmente por que não gosto de ficar expondo detalhes de minha vida pessoal. – Sem mais intenção de comer, deixei de lado o pedaço de pão mal tocado.
–Quer me falar a respeito? – Dimitri então soltou sua xícara e cruzou as mãos por cima da parte que lhe cabia sob a mesa.
–Não creio que seja apropriado. – Corei um pouco, ciente de que ele não encerraria o assunto.
–Tente. – Ele então pacientemente, encostou-se a seu próprio acento, apenas aguardando minhas próximas palavras.
–Elas querem saber sobre nossa vida. Como é estar casada com o Duque e até arrisco dizer, que elas parecem mais interessadas do que deveriam. Também queriam saber sobre minha experiência no Convento e por que resolvi me casar. – Eu sabia no fundo que aquilo era algo bastante provável de se acontecer, uma vez que a fama de meu marido não era dentre as melhores daquela região. Dimitri fora acusado de coisas brutais, como a mesma Alberta havia me informado uma vez. Mesmo assim, eu não estava tão certa sobre os rumores.
–E o que disse a elas? – Depois de uma pausa desconfortável, Dimitri voltou a falar. Ele parecia quase, aborrecido.
–Disse que isso não era um assunto ao qual, eu desejaria compartilhar com elas e sugeri, que elas se preocupassem com seus próprios casamentos. – A palavras saíram de forma indignada por meus lábios e percebi, que Dimitri havia aberto um pouco mais seus olhos, que agora estavam brilhando.
–E elas aceitaram isso como resposta? – Ao retomar sua pergunta, ele pareceu mais relaxado e até um pouco divertido. Na forma irônica é claro.
–Não gostaram muito, mas consegui vir embora antes que recomeçassem com suas perguntas. Agora preciso pensar em outra desculpa, quando voltar lá semana que vem. – Levando levemente o guardanapo a meus lábios, me preparei para levantar. Ao olhar novamente para Dimitri, percebi que sua expressão havia novamente se alterado. Ele parecia quase admirado.– Agora se me da licença, vou enviar uma nota a minha irmã, para que venha me visitar, antes que meu marido mude de opinião.
Notas finais
Nem demoramos desta vez vai!!! :)
Como vocês estão?
Primeiramente muito obrigada a todos os comentários.
Estaremos respondendo a todos.
Bom, sobre o capítulo eu sei que muita gente está na expectativa do primeiro beijo do nosso casal favorito. Temos boas novas. Ele esta chegando :) Só pedimos a todas um pouco de paciência por que além de um casamento arranjado e conturbado, nossa heroína estava com os dois pés atrás com a relação. Aos poucos, Dimitri vai conseguir faze-la observa-lo com outros olhos.
O que acharam do presente dele para ela? Confesso que estávamos em uma dúvida cruel sobre o sexo do corsel hahahaha. Mas acabamos escolhendo por uma égua mesmo.
Bom, então é só... estamos já no andamento do próximo capítulo então logo mais ele já será postado.
Um beijo a todas e obrigada por participarem com agente da fic.
Só mais uma coisa.... Deixe um recado pra gente =)
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