Brave Heart

8 Capítulo 8 - O Casamento


Notas iniciais
Segue novo post.
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Dimitri Belikov estava parado ao lado do padre, apenas me observando avançar. Seus olhos eram indecifráveis e sua postura, rígida. Minhas mãos eram trêmulas, assim como minhas pernas, refletindo o pânico crescente dentro de mim. Ao meu lado, meu pai com expressão carrancuda, me levava até o improvisado altar, no interior da residência de meu atual noivo. Embora eu me colocasse relutante sobre a audácia no uso de cores escuras e marcantes, os reflexos da madeira mogno contrastando com as paredes de papel pardo, ainda assim eram impressionantes. A textura das pinceladas precisas, dos quadros das ruas de Londres, Paris e Veneza, me fizeram questionar por um momento, se realmente ele havia visitado este número de lugares, ou se como eu, os conhecia somente através de literatura e pinturas famosas.

Algumas pessoas me observavam curiosas conforme passávamos, provavelmente pelas súbitas mudanças no casamento do Conde. Tentei não me focar nos olhos de piedade e surpresa da amiga de minha avó, ou nos de decepção de Richard. Desde que havíamos nos conhecido, ele possivelmente havia contado, com uma possível união entre nós. Eu não o culpava de tudo. Ele era um bom rapaz, mas eu não era nem de longe, a pessoa ideal para ele. A meu ver, eu não era a pessoa mais indicada na vida de nenhum cavalheiro e estava eu aqui, casando com um suposto assassino.

Quando paramos finalmente, Dimitri pegou minha mão e com um olhar de desdém, dispensou meu pai, que logo partiu. Ele então nos levou até o altar. Logo nos ajoelhamos e a cerimônia se iniciou.

Enquanto o Padre pronunciava palavras que para mim não cabiam sentido, me peguei observando de soslaio, a expressão de Dimitri. Ele ao contrário de tudo o que esperei, parecia absorto as palavras do Padre e tinha uma expressão serena. Aquilo não se prorrogou, pois logo percebeu que eu, o estava o observando. Com uma mudança drástica em sua expressão, ele se fechou e cerrou um pouco seus olhos, parecendo irritado pelo meu gesto. Queria ele, que eu me mantivesse sem ao menos olha-lo? Sem entender direito sua reação, voltei minha atenção para o Padre, sentindo seus olhos em mim.

Senhor Dimitri Belikov, aceita a Srta. Rosemarie Mazur, como sua legítima esposa? – Ele perguntou de repente, me fazendo escapar de meus devaneios.

-Sim, aceito. – Dimitri respondeu brevemente, acentuando ainda mais seu sotaque desconhecido. Cada vez mais, me peguei intrigada em sua história.

-Senhorita Rosemarie Mazur, aceita o Senhor Dimitri Belikov, como seu legítimo esposo? – A pergunta havia sido feita. Foquei minha atenção então ao Padre, me sentindo pequena e precisando de amparo. Meus olhos eram suplicantes e só Deus sabia, como aquilo estava sendo insuportável para mim. O Padre pareceu notar minha urgência e desconforto, mas um pigarreio forçado de Dimitri, interrompeu qualquer dúvida que ele pudesse ter. Então, ele repetiu a pergunta.

-Senhorita Mazur? – Ele forçou em tom impaciente. Dimitri levou então sua mão discretamente até o meu pulso e o apertou. Graças ao tecido espesso do vestido, duvidara que alguém houvesse visto seu gesto. Ele estava terrivelmente irritado, percebi. Mesmo sabendo que me arrependeria depois, soltei minhas próximas palavras.

-Sim, eu aceito.

O resto dos fatos passou como um borrão. Tudo aquilo não se resumia a mais de vinte convidados e enquanto todos bebiam e comiam alegremente, me vi sentada em um canto, desamparada. Katherine havia se aproximado de mim várias vezes com minha avó, mas as dispensei, dizendo que preferia estar sozinha. Dimitri meu marido, conversava com três homens há um bom tempo, sobre algum assunto, que resolvi ser dispensável a minha atenção. Meu pai a muito, havia partido e eu, estava prestes a sair correndo.

-Vai ficar calada e sozinha a noite toda? – Dimitri se aproximou de mim, me fazendo quase pular do lugar, com seu sotaque próximo de meu ouvido.

-Estou bem aqui. – Dei de ombros, não demonstrando estar afetada. –Não te vi chegar.

-Presumo. – Ele pareceu incrivelmente entediado. Logo se sentou ao meu lado no sofá. –Em pouco tempo, vamos nos retirar.

De desinteressada, minha expressão automaticamente se tornou alerta. Retirar-nos, significava que iriamos ficar a sós. A situação me enojava.

-Eu acredito que temos algumas pessoas para cumprimentar. – Disse sem pensar na implicância que aquilo teria. Dimitri ergueu uma sobrancelha curiosa para mim, mas não me importei. Percebi que bater de frente com ele, não seria uma boa opção. Afinal, concordei em viver com ele, sob seus termos. – Penso que talvez, pudéssemos cumprimentar os amigos de minha avó. – Com um gesto de cabeça, gesticulei para onde minha avó estava sentada e junto dela, o bancário da Villa e sua amigável esposa, Aurora. Forcei um sorriso.

Dimitri pareceu não gostar nem um pouco da ideia, mas resolveu se levantar e erguer sua mão para que eu a pegasse. Aproximamo-nos de minha avó e seus amigos e com um sorriso forçado, o aguardei iniciar uma apresentação.

-Boa noite. – Dimitri disse em carregado sotaque, apertando a mão do bancário. – Sejam bem vindos ao meu casamento.

O homem de aproximadamente cinquenta anos, com barba para fazer, se voltou então para mim:

-Meus parabéns aos noivos. – ele nos saudou alegremente- Senhora Belikov, me recordo perfeitamente de sua época de menina. – O homem apontou, me fazendo sentir enjoada, pela pronuncia do novo sobrenome. –Estava comentando com minha esposa, o quão inesperado para nós é este casamento, uma vez que soubemos que desde menina, foi para o Convento.

Minha garganta secou e então, Dimitri respondeu no meu lugar.

-É impressionante como o destino das pessoas muda. Antes uma devota de Deus e agora, pertence a mim. – Sua ironia e possessão, brilhava em sua face fria. Senti-me encolher ao seu lado, enquanto me mantinha apoiada em seu braço firme. O Bancário pareceu notar a forma de como eu me sentia e logo, seu sorriso murchou. Minha avó pareceu não interessada o suficiente, para se intrometer.

-Se nos dão licença, precisamos cumprimentar outros convidados. – Arrisquei em um gesto suicida, tentando encerrar o assunto de uma vez. Dimitri então me lançou um olhar aborrecido por eu ter o interrompido, mas logo me puxou para longe.

Quando estávamos o suficientemente distantes, para que não nos ouvíssemos, ele girou meu corpo para frente a ele e se aproximou do meu ouvido.

-Não ouse me interromper. – Sua voz era perigosa, me fazendo sentir calafrios pela espinha. –Está foi a primeira e única vez, que vou lembra-la disso. –Seu tom era claro e minha vontade de lhe responder a altura, transpassava qualquer chance de um diálogo coerente. Eu estava de todas as formas obrigada ali e não pretendia ceder totalmente a seus caprichos. Mesmo assim, respirei fundo, me negando a tornar minha vida um inferno maior, do que estava sendo. Quando ele distanciou o suficiente de mim, gesticulei com a cabeça em entendimento. Ótimo, agora eu precisaria de mais distrações.

Demos mais um volta pelo salão e então, Dimitri se colocou relutante em se aproximar de mais alguém. Temendo o pior por argumentar com ele, resolvi não me intrometer e permanecer muda, ao seu lado.

-Quando eu digo para não me enfrentar, não quer dizer necessariamente que fique muda. – Ele me alertou ao seu lado. Continuei sem responder-lhe. –Estou falando com você. – Ele insistiu, ríspido.

-Estou tentando não irrita-lo. – Disse ironicamente e ele pareceu curioso ao meu comentário.

-Entendo. –Ele voltou a me virar, para que o encarasse. – Vamos subir. Cansei desta coisa toda. — Tentei controlar meu pânico crescente, mas estava se tornando insuportável.

-Está bem. – respondi em um sussurro, não fazendo ideia do que me esperava.

-Espere aqui. – Ele então partiu, me deixando absorta em minhas próprias dúvidas. Questionei em minha mente milhares de vezes um plano de fuga, mas fui surpreendida novamente, quando sua mão quente apertou levemente meu braço. Ele então me arrastou em direção as escadas e eu surtei.

-Eu, não posso ir agora. – disse tentando não soar o quão desesperada, eu realmente me sentia.

-Não pode? – Sua expressão de curiosa, logo se tornou irritadiça. Antes que ele falasse ou fizesse qualquer outra coisa, toquei minha garganta.

-Estou com sede. – Disse rápido demais.

-Temos bebida lá em cima – Ele prontamente respondeu, me obrigando a subir dois degraus, ao seu lado.

-Mas não é só isso. – Pausei novamente. –Sinto dor na garganta

Dessa vez, ele pareceu ainda mais curioso sobre meus argumentos. Sem espaço para a dúvida vindo dele, me apressei a continuar.

-Meu remédio está com minha avó. – Voltei a tocar minha garganta. – Mê de um minuto. – Praticamente suplicando com o olhar, toquei seu outro braço, com minha mão livre. Dimitri ponderou por um longo momento. –Por favor. – Me forcei a dizer, mesmo que as palavras soassem vazias, sendo pronunciadas por meus lábios.

-Não vou subir sozinho então, vou com você. – Sua decisão era clara. Dimitri desceu então os dois degraus, mas voltei a para-lo.

-Eu prefiro ir sozinha. – Seus olhos brilharam em raiva, voltei a toca-lo. – É só um momento. E afinal de contas, é só um remédio.

-Não faço ideia do que está tramando, mas acho que não seria estúpida o suficiente, para fugir. Vou te esperar lá em cima. Não demore. – O aviso era claro. Como um vulto, Dimitri passou ao meu lado e subiu as escadas. Às pressas, segui para onde minha avó estava sentada. Ela pareceu intrigada sobre minha presença e sozinha.

-Vovó pode, por favor, me acompanhar? – Perguntei timidamente e mesmo um pouco relutante, ela me seguiu. A guiei para o jardim e o frio, arranhou meus braços seminus.

-O que aconteceu? Por que não está com seu marido? – Ela foi direto ao ponto.

-Eu não posso. – Toquei meu rosto, sentindo que lágrimas estavam próximas de sair.

-Você está maluca? – Minha avó então puxou meu braço, olhando para ambos os lados, impaciente. Percebendo que estava me deixando ainda mais a beira do colapso, ela desceu um tom de voz. – Está tudo bem. – Ela me certificou, forçando um sorriso. –Ele agora é seu marido e não vai te machucar.

-Não estou totalmente certa disso. – Sussurrei, me lembrando da frieza com que ele me tratava. –Ele matou os próprios pais.

-Isso é bobagem. – Ela me incentivou, empurrando-me em direção a porta. – São somente intrigas de pessoas desocupadas.

-Não vi nenhuma outra pessoa de sua família. – Franzi o cenho. – Vovó, não pode me obrigar a passar a noite com este homem. – Finquei meus pés no chão, me virando carrancuda para encara-la. Sua expressão fulminante, mudou drasticamente e então, percebi que havia alguém atrás de mim. Fechei meus olhos com força, sabendo de quem se tratava.

-Com sua licença Senhora Hathaway, pode me deixar a sós por um momento, com minha esposa. – Sem me virar, escutei sua voz em minhas costas. Voltei a abrir meus olhos, quase que no mesmo instante, em que senti suas mãos em minha cintura. Tentei me soltar, mas seu aperto era firme, não me permitindo nenhum movimento.

-Eu já estava indo. – Respondi entredentes, analisando minhas opções. Gritar com toda a certeza, não era a melhor de todas.

-Compreendo. – Ele disse em tom desinteressado e então, senti suas mãos se afrouxarem no mesmo instante, que aproveitei para me distanciar, voltando-me para encarar-lhe. Sua expressão era indecifrável, mas tinha certeza que milhares e milhares de pensamentos, passavam por sua cabeça, naquele maldito instante.

-Presumo que agora poderemos subir, já que ouvi o suficiente, sobre você não querer passar a noite ao meu lado. – Se ele não fosse extremamente deselegante e frio, poderia jurar que senti a decepção, em seus olhos.

-Não quis ofender – respondi de cabes baixa, me sentindo irritadiça.

-Não faz diferença, afinal. – Ele disse rispidamente. Ótimo, seu mal humor habitual, havia retornado. –Se já acabou com suas desculpas, prefiro me retirar desta festa. Sinto dor de cabeça.

Não tendo outra opção, respirei fundo e assim o segui. Pelo caminho, Dimitri e eu cumprimentamos outros convidados de longe, mas um em especial, chamou minha atenção. Era minha irmã mais nova. Ao seu lado estava Alberta, com uma expressão indecifrável.

-Estou indo embora. – Ela disse, pegando minhas mãos nas suas. Seus olhos passavam nervosamente de mim, para Dimitri ao meu lado. Percebi que ela se sentia um tanto apreensiva. Forcei um sorriso.

-Logo que puder irei visita-la. – Sem mais delongas, beijei sua testa e com um olhar significativo que esperava firmemente que Alberta entendesse, as deixei partir.