Brave Heart
33 Capítulo 33 - Destino de Sangue
Formas de luz arredondadas iam tomando forma ao meu redor. Onde eu estava e por que, eu me sentia tão cansada?
–Rose,Roza, por favor não se mova. – A voz aveludada, com um toque de preocupação nítida, soou com um timbre decidido, em meus ouvidos.
–O que aconteceu? – Me negando sucumbir àquela confusão, pisquei mais algumas vezes e então sentei. Dimitri segurava minha mão direita com ambas as suas. Seu rosto até então vivido, estava um pouco pálido.
–Você desmaiou. – Ele murmurou sem pestanejar.
Toquei minha cabeça dolorida e lapsos de memória cruzaram meu cérebro. E então entendi.
–Oh meu Deus. Onde está Benjamin? — Olhei ao redor, mas então Dimitri se postou em minha frente, cobrindo minha visão com seu peito amplo.
–Está no andar de baixo.
Encarei seus olhos, estavam frios. Antes que eu pudesse protestar, outra parte do ocorrido naquela mesma noite voltou a minha mente e então, suspirei.
–E a sua convidada? – Minha voz refletiu meu tom amargo. Não me importei.
–Também está no andar de baixo. – Dimitri suspirou de forma exausta, me fazendo com um gesto repetindo, encarar nosso relógio de cabeceira. Eram quase quatro horas da manhã.
–Esta tarde. – Murmurei desviando o olhar. Ele apenas concordou com um gesto de cabeça.
Depois do que pareceram décadas, Dimitri voltou a falar.
–Roza, eu...
–Não se de ao trabalho. – Virando um pouco meu corpo, encostei as solas de meus pés agora descalços, no chão. Dimitri acompanhou todo o processo em silêncio, sabendo que eu não iria escutá-lo, mesmo que protestasse por mais infinitas vezes. – Vamos conversar com eles.
A luz fraca da biblioteca passando pela fresa da pesada porta, me guiou até nossos visitantes. Benjamin estava de costas quando entrei, apoiando sua cabeça em uma das poltronas marfim. Já a mulher que estava tão quanto pode distante dele, tinha as mãos em seu colo. Sua expressão antes desfocada, agora estava fixada em mim.
–Senhora Belikov, fico aliviada que esteja bem. – A voz de Marie vindo de algum ponto, soou como um sussurro assustado. – Nos preocupamos pela sua saúde. – Quando virei minha cabeça me deparei com os olhos gentis de minha criada que ainda segurava uma bandeja de prata, com aparência pesada. Marie ainda estava em vestes de dormir, mas tinha o olhar alerta.
–Estou bem agora. Obrigada. – Lhe sorri de volta.
Dimitri se aproximou um pouco mais de mim e foi então, que entendi o motivo. Seu irmão antes de aparência despreocupada, estava em pé e nos encarava com um olhar ilegível. Meu coração se apertou. Agora com o cabelo desalinhado e sem seu paletó cobrindo grande parte do dorso, ele estava ainda mais parecido com Dimitri. A semelhança era assustadora.
Ele pareceu entender meu constrangimento, pois logo pois se a falar:
–Já me parece melhor, Rose. Sendo assim, — Ele suspirou. – Estou partindo.
–Não. – Dei um passo à frente, me desvencilhando da presença de Dimitri. A atmosfera ao redor era de confusão. Não me surpreendi. –Quer dizer, obrigada por ter me ajudado esta noite, mas não gostaria de ficar um pouco mais e conhecer nossa casa? Digo, já que finalmente encontrou seu irmão. – Me virei para Dimitri e forcei um sorriso. Seus olhos cautelosos trabalharam em mim com cuidado. Aguardei paciente, até que ele finalmente ele pareceu decidido.
–Benjamin – Ele começou, mas foi interrompido.
–Não, obrigado. – Pegando seu chapéu bruscamente, Benjamin se afastou a passos largos. Encarei Dimitri confusa e ele me retribuiu o olhar, sem intenção alguma de se opor. Revirando os olhos, dei dois passos a frente, mas ele segurou meu braço.
–Não acho uma boa idéia, Roza.
Encarei seus dedos longos, apertando minha carne pálida demais.
–Acho que já conversamos sobre isso. – Puxando meu braço bruscamente, me soltei. –Você não está exatamente em posição de alguma exigência.
Dimitri abriu tanto os olhos, que me custou um segundo para começar a caminhar.
O irmão de Dimitri já estava perfeitamente vestido e pronto para sair, quando o chamei.
–Benjamin, por favor espere. – Ele se virou devagar e então seus olhos castanhos se encontraram com os meus.
–Não ligue para as desavenças com meu marido por agora. Ele gosta muito de você.
Ele fechou os olhos lentamente e o sorriso que se formou em seus lábios cerrados, não era nada amigável. Dando dois passos, ele se aproximou de mim.
–Eu creio que ele não contou a você o porquê de não nos falarmos. – Sua voz era sombria, como reflexo de sua própria expressão.
–Sim ele falou. – Mexi minhas mãos desconfortavelmente na frente do meu corpo.
Benjamin alterou minimamente sua expressão. Minimamente.
–E suponho que vossa senhoria entenda meu lado, é claro. – A ênfase desnecessária, me fez engolir seco.
Como ele não teve resposta, suspirou e voltou a caminhar em direção a porta novamente. Algo se remexeu em meu estômago. Se eu o deixasse passar por aquela porta, por Deus, eu tinha a certeza que ele nunca mais iria voltar. Fechei meus olhos, me ponderando sobre o que mais eu poderia falar a meu favor.
–Benjamin. – A voz masculina atrás de mim soou tão inesperada, que eu me virei. – Esta tarde. Creio que pode passar a noite conosco. É o mínimo que posso fazer, por ter mantido minha esposa salva.
Os traços de Dimitri eram sérios e rígidos e ele transmitia uma estranha sensação. Era como se estivesse passando por cada centímetro do seu orgulho, para pronunciar cada sílaba dita calmamente. Manualmente as engrenagens de minha cabeça começaram a funcionar e então, me recordei que era muito difícil para ambos, qualquer manifestação de afeto ainda mais, depois de todos esses anos e um passado escrito a sangue.
O silêncio era mortal. Só se ouvia o uivar de nossas respirações tensas e o descompasso do meu coração. Por fim, Benjamin voltou a falar:
–Agradeço a hospitalidade, mas tenho outros planos. – E assim, ele bateu a porta com força, nos deixando ali.
***
Sem vontade para conversar e me sentindo a pior das criaturas por não ter conseguido resolver nada, subi para meu quarto, enquanto Dimitri se despedia se sua convidada noturna. Eu não quis me intrometer naquilo. Não quis ser testemunha de mais nada, quando eu me sentia tão pequena.
Um pouco mais de algum tempo depois que eu estava pronta para dormir, senti a presença de Dimitri no quarto. Minhas mãos se agitaram embaixo do travesseiro macio, enquanto o escutava se desfazer de suas roupas. Sua mão então tocou meu cabelo e me permiti fechar olhos. Dimitri beijou meu cabelo e o afagou com ternura.
–Perdão meu amor. – Ele sussurrou contra meu ouvido, fazendo minha pele se arrepiar. – Eu não tive intenção de passar por cima de você, ainda mais, aparecendo tão de surpresa com Natasha.
A leve menção do nome da mulher de cabelos escuros, me fez revirar os olhos e então, girei meu corpo para encará-lo. Nossos rostos estavam a centímetros um do outro e uma já conhecida antecipação entre nós, surgiu. Dimitri tocou meu rosto e eu me aproximei do seu corpo, descansando minha cabeça em seu peito nu. Ele me puxou para mais perto de si, enquanto distribuía beijos no topo da minha cabeça.
–Eu acho que você não deveria deixá-lo ir, sem antes lhe contar a verdade. – Não havia necessidade de citar nomes. Ele sabia.
–Eu não sei se ele me escutará Rose. É complicado. – Sua voz era morna, assim como sua pele em contato com a minha.
–Se você não tentar, não vai conseguir nada. – Ergui meu rosto para o seu e ele se permitiu sorrir. Aquele sorriso de fazer parar meu coração.
–Sabe, eu me preocupei com você hoje. Você ficou pálida e desmaiou.
–Eu me senti um pouco mal. Acho que foi pela emoção toda e também, tinha aquela sua amiga. – Enruguei meu nariz de forma tão espontânea, que Dimitri riu.
–Nenhuma mulher é capaz de me fazer sentir desse jeito. – Ele tocou minha testa com a ponta do seu nariz e inalou. – Nenhuma mulher é capaz de me fazer desejar dessa forma.
Com um sorriso travesso nos lábios, o beijei a bochecha e logo voltei a nossa posição inicial.
–Está bem. Eu acredito. – Bocejei uma segunda vez e ele então suspirou.
–Acho que é melhor continuarmos essa conversa pela manhã. – Abri um olho.
–Já é amanha – Respondi de forma preguiçosa e ele riu.
–Então mais tarde. – Ele me apertou mais em seus braços e foi então, que adormeci.
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