Brasmenia Conquests
2 Capítulo 2 - De novo esses olhos!
Notas iniciais

Já se passavam das 4 p.m quando finalmente acordei e fui direto tomar banho. A fragrância do banho era possível ser sentida já no inicio do corredor e viu quando Rosa saiu do banheiro com alguns itens em mãos caminhando pelo corredor em sua direção. Rosa era como se fosse minha cuidadora, era uma espécie de governanta da casa e super rígida com alguns assuntos.
—- Boa tarde pequena Holy.
—- Boa tarde Rosa. – Meu riso saiu tímido e de canto como sempre, Rosa retribuiu meu sorriso e seguiu seu caminho então entrei no banheiro, me despi e encarei aquela banheira enorme.
Entrei na banheira já preparada por cuidadora, água morna com alguns sais minerais e essências diversificadas.
Relaxei.
Minha mente instantaneamente retrocedeu a algumas horas antes, precisamente para a imagem daqueles olhos amarelos. Senti um frio na barriga. Fazia tanto tempo que não se divertia e se sentia a vontade na presença de alguém que, aqueles momentos vividos foram quase mágicos. Então respirou fundo, revivendo as lembranças de agora de manhã:
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—- Então quer dizer que você também é um beta testers? – Ele soltou um suspirou como se quisesse puxar assunto somente por não procrastinar aquele silêncio absoluto.
Não respondi. Eu apenas o encarava tentando desvendar aqueles olhos que pareciam tão tristes, diferentes daqueles que possuía enquanto lutava. Acho que me demorei demais em sua face, sem querer os olhos foram para as madeixas, depois reparou nas bochechas que pareciam ter uma batidinha de blush e por fim os lábios, finos e rosas.
—- Vênus? – Ele deu alguns passos em minha direção e colocou a mão sobre meu ombro. – Você está bem cara? Vai desmaiar de novo? – E quando disse isso, esboçou um largo sorriso, mostrando todos os dentes e quase deixando escapar uma risada zombeteira. Não pude deixar de rir junto com ele.
—- Vai se foder Saturn, tá lembrando que eu o salvei não? Quanta ingratidão e arrogância. – Fingi a ofendida né, cruzando os braços e caminhando mais rápido deixando-o para trás. Deu pra ouvir a gargalhada que ele soltou. O ouvi correndo para meu lado, caminhando novamente um ao lado do outro.
—- Sabe, eu te julguei mal desde o começo, acho que começamos de uma forma bruta... e errada. Me desculpe e muito obrigado! Sem você eu não teria conseguido a KIMI e essa habilidade aqui que não faço ideia pra que serve. – Falava enquanto mostrava o inventario com seu novo item (espada) e aquela habilidade sem descrição com o nome “give life to an item”. Ele pareceria realmente entusiasmado com as conquistas. – O que você ganhou?
Eu não sabia.
No meio dessa correria que foi nem mesmo lembrei que ganharia itens especiais. Abri o inventario procurando algo que anteriormente não estivesse lá e a única coisa diferente de lá era o ultimo item da mochila “ovo”. Mostrei a ele o novo item e ele pareceu surpreso e cheio de interrogações.
—- Como assim um ovo? PELO AMOR DE DEUS, QUASE MORREMOS PRA GANHAR UM OMELETE, ISSO SÓ PODE SER PEGADINHA. – Esbravejei por fim, não estava acreditando nisso. Saturn ganhou uma espada super foda, seu poder de ataque subiu quase 4x mais enquanto eu ganhava um OVO, UM FUCKING OVO. Ele se assustou com meu breve surto de desapontamento, por fim explicou:
—- Seu item é um dos 5 mais raros do reino de Brasmênia. Você devia se sentir sortudo, aliás você pode ser mamãe. A questão é saber, mamãe do que... – Ele pareceu se perder nas suas próprias perguntas como se fossem as mais óbvias a serem feitas, me deixando boquiaberta com a informação de ter um item raro e ainda por cima “mãe” de um item. WHAT THE HELL.
—- Como assim mamãe? – Foi a única coisa que consegui perguntar. Ele riu, voltando a me encarar.
—- É um ovo de uma criatura PET. Quando ele ou ela nascer, vai te seguir como se você fosse a mamãe dele. É instinto, você poderá vende-lo também... Mas as chances do ovo chocar são diminuídas em quase 80%. É como se esse ovo tivesse sido escolhido ser dropado por você...
—- Entendi.
Na verdade eu não tinha entendido nada, como assim um ovo me escolhe? Achei que a porcentagem dos drops fossem definidas por números e tal, não por “escolhimento”. Tirei por fim o ovo do inventario, colocando-o por dentro do casaco, como se para deixa-lo quentinho. Pelo menos era assim que eu achava que devia “choca-lo”. Saturn riu, entendendo a minha intenção.
—- Eu preciso ir. – Eu olhei em sua direção e seus olhos novamente demonstraram aquele brilho de tristeza.
—- Te vejo mais tarde? – Eu falei sério, meu semblante até ficou tenso, mas disfarcei esboçando o melhor sorriso que consegui, como se quisesse que ele soubesse o quanto gostei da sua companhia. Ele pensou, alguns segundos me olhando. Eu sustentei seu olhar, querendo prolongar aquele contato o máximo que desse.
—- Talvez. – Ele sorriu por fim antes de mexer no painel e desconectar-se, sumindo dali do meio da cidade principal que estavam.
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Estava ansiosa por entrar novamente no jogo, já sentia saudade daquela sensação, adorava fantasiar e poder vivenciar aquele mundo virtual era revigorante. Mas antes, precisava comer e se arrumar para a faculdade, mesmo que preferisse atualmente sua vida on-line, sua vida real necessitava de uma atenção muito grande, e ainda, não inventaram um CHEAT para as provas orais, então tinha que prestar atenção naquelas aulas, eram 4 aulas seguidas com o mesmo professor e aquilo era desgastante demais. Arrisco a dizer que era até mais eficiente do que um sonífero.
O motorista já estava a minha espera quando abri a porta da frente. Hesitei. Por um momento não quis ter o conforto daquele automóvel exclusivo para mim. Com tantos pensamentos rondando minha mente, queria ar, queria estar entre as pessoas, buscava alguma coisa, queria ver algum olhar.
—- Obrigada Marcus, mas eu vou de metrô hoje. – Decidi e notei a expressão de Marcus murchar e senti-me culpada por dispensar a preocupação do mais velho, então tratei de me retificar. – Mas quero muito que vá me buscar, tudo bem? – Marcus, Sr de aparência gentil com seus cabelos pretos já dando inicios dos grisalhos, seus olhos de tom escuros e pele morena lhe sorriu e assentiu, então eu segui pelas ruas até entrar no metrô mais próximo.
E assim se passaram, as 4 lerdas e torturantes aulas.
Dei tchau para alguns dos colegas mais íntimos e com outros combinei de jogar de madrugada como era rotina. Caminhava calmamente pelo campus da universidade indo para o estacionamento entrar com o motorista, tinha comigo minha bolsa apoiada a lateral do ombro direito, as aulas tinham sido uma bosta e resmungava da falta de tato do professor com aquela matéria. Perdida em meus próprios devaneios não conseguia desviar do pensamento que vez ou outra lhe preenchia a mente, aqueles olhos âmbar... Já sentia-se incomodada com tamanho impacto que aqueles olhos lhe causavam. Talvez tenha sido por isso sua indecência em segui-lo. Nunca teve a intenção de rouba-lo ou persegui-lo, mas aquela troca de olhares que aconteceu na cidade lhe deixou tão incomodada a ponto de não conseguir se divertir com seu grupo de amigos e então no meio da madrugada saiu para procurar aquele rapaz. Nem sabia se ele estaria online, ou quem sabe em outro mapa ou com alguma party... Quem saberia? Tinha de arriscar, sempre fora muito curiosa e aquele olhar tinha tantas coisas expressadas, podia-se dizer que estava até excitada.
Corei.
Não deu pra saber muito bem como aconteceu, só que no segundo seguinte me choquei contra um corpo, corpo esse que caiu para um lado e eu para outro. Ainda demorou alguns instantes para recobrar a consciência do acontecido e olhar para frente. Viu aquela cabeleira negra e cumprida toda espalhada por cima da face da garota que aparentemente era mais alta. Alguns papeis que ela carregava espalhavam-se pelo chão e eu mais que depressa me prontifiquei a junta-los.
—- Eu sinto muito, eu não vi você... – Falei enquanto estendia os papéis para a moça que se levantava resmungando algo que pareceu como um “porra, mas de novo”, e a encarava esperando alguma resposta. Ela me olhou emburrada, parecia pronta para soltar um palavrão, até chegou a entreabrir os lábios, mas travou. Seus olhos se fixaram nos meus e eu não pude deixar de assim como ela, me perder nessa troca de olhares. De novo esses olhos, de novo esse mesmo esbarrão... É muita coincidência! Ou seria destino?
—- Você.. Vo-v-ce é... – Balbuciei inutilmente algumas palavras, ainda surpresa demais encarando aquele par de olhos mel que curiosamente surpresos como ela o sustentavam de uma forma intensa.
—- Com licença. – E ainda sustentando meu olhar ela pegou os papéis de minha mão e sem mais nem menos ela saiu andando apressadamente. Ou teria fugido? Vai saber, só sei que eu fiquei ali, parada como uma estátua ainda mais perdida nos mesmos pensamentos, só que agora com um rosto real, não mais um personagem MMO. Se sentiu quente de repente, tendo sua mente invadida por aquela garota. Agora parando para lembrar-se melhor de suas feições, ela parecia estar chorando... Seus olhos pareciam úmidos o que ressaltou ainda mais o amarelado da íris. A ponta de seu nariz vermelho por conta do frio e seus lábios incrivelmente desenhados e rosados.
Senti uma pontada.
Ela era realmente linda... Não só isso, ela era estranhamente familiar.
—--x---
Já eram 22:30 quando chegue em casa, era um nobre sobrado com um modesto quintal, seu interior era detalhadamente pensado e a frieza do ambiente me dava conforto. Por um momento o sentimento de solidão me apoderou, por sorte, esse pensamento foi logo afastado quando Rosa chegou para me recepcionar, tirando minha bolsa do ombro assim como meu casaco e colocando ambos os objetos no cabideiro ao lado, passou as mãos em meus cabelos e falou:
—- Está tudo bem, Senhorita? Precisa de algo? Já deixei preparado seu lanche, o aguarda em seus aposentos como de costume. – Me olhou com ternura como uma querida tia preocupada.
—- Esta tudo bem sim Rosa, obrigada. Não vou precisar de mais nada por hoje, já pode ir descansar se quiser. – A senhora acenou positivamente e antes de partir depositou um beijo no topo da minha cabeça. Aquele gesto aqueceu meu coração e me vi corada com tamanho afeto que recebia de todos os “criados” sendo que isso era para ser feito pelos meus pais.. Onde será que eles estavam agora? Sorri saudosa.
—- Boa noite Rosa.
—- Boa noite Senhorita S.
23:45 quando finalmente me deitei ajeitando no colchão e vestindo a viseira do NewAge71. Senti a ansiedade me atingir, aquela famosa contração no ventre.
Então o riso de canto surgiu.
Surgiu juntamente com a necessidade de ver aquelas íris amarelas novamente. O console foi ligado e minha digital foi colhida, fechei os olhos ainda com borboletas no estômago.
Bem vindo de volta a Brasmenia!
A mensagem dizia enquanto o avatar tomava formas de suas características criadas. E logo eu estava ali de novo, onde tudo aconteceu, bem no centro da cidade inicial. Estava tão cheia e até mais que na noite anterior, pareciam ser mais novatos que o de costume. A falação estava alta e a euforia tomava conta.
—- Onde será que ele está? – Pensei alto andando meio cabisbaixo para uma taverna. Precisava fazer uma lista dos itens que precisaria repor e nada melhor do que pensar tomando uma cervejinha. Ri sozinha pensando no gosto que teria, tomar algo tão comum num mundo de fantasia realístico virtual. A lista estava quase feita o problema era o dinheiro, não tinha gold suficiente para comprar tudo o que pretendia. Desesperançosa, olhei pela janela do estabelecimento, notando uma pequena aglomeração na entrada da arena. Desviou a atenção quando o NPC – que era na verdade uma garçonete se aproximou e deixou a caneca de cerveja sobre a mesa. O agradecimento fora automático mesmo sabendo que não era necessário pois era somente um NPC sem sentimentos. Encarou aquela generosa caneca em sua frente, pegando-a firmemente trouxe-a para os lábios. Estava gelada, refrescante e agradável. Bem como se lembrava da ultima vez que bebeu. Agradeceu por isso e mais uma vez ficou maravilhada com o que a tecnologia estava proporcionando atualmente.
Ouviu-se um grito.
Alto e de ira. Veio lá de fora, todos os olhares se dirigiram pra lá. Inclusive os da garota que notou a aglomeração da frente da arena sendo ainda maior e tomando o resto do liquido todo da caneca, largou algumas moedas de ouro e foi até a confusão que ali começava.
Meus passos eram lentos e cuidadosos, observava atentamente os envolvidos naquele aglomerado, e um deles me chamou instantaneamente a atenção. Saturn. Mas que diabos ele estava fazendo gritando e discutindo igual um louco no chat global? Quando cheguei mais perto pude ouvir o conteúdo da discussão:
—- Eu não vou te pagar cara, não vou pagar pra um cara que usa CHEAT. Você é nível 11 e usa 5 técnicas diferentes, isso é impossível. IM-PO-SSI-VEL. O server abriu ontem, qual é a tua seu ladrãozinho. – Falava um avatar loiro, aparentava um jovem de 18 anos, claramente um iniciante com informações privilegiadas que se achava superior aos demais que esquecia-se da existência dos betas testers.
—- Eu já falei que é impossível usar CHEAT em um jogo RV. Se você não consegue aceitar sua derrota e não é homem o suficiente para pagar suas dívidas, você não terá futuro em Brasmenia. – A voz saia neutra mas a expressão de Saturn dava medo, seu olhar faiscava e pude notar que suas mãos se fecharam em punhos.
—- Você se acha tão bom assim, por que não derrota todos nós ao mesmo tempo, hm? – Quem falou dessa vez foi um dos comparsas do loirinho, esse era alto, bombado e com cara de mal, aqueles famosos bodybuilder. Falava enquanto apontava para ele e mais 5 integrantes do grupinho. Saturn não respondeu de imediato, como se pensasse seriamente nessa possibilidade de fazer um seis vs um. 6x1.
—- Qual foi bonitinho, sua coragem foi embora? – Tornou a falar aquele grandalhão, sua voz ridicularizando acompanhada dos risinhos de seus “seguidores” logo atrás. Não me aguentei. Os cabelos grisalhos deu-se seus passos duros e seguiram em direção ao centro daquela conversa, fui me esbarrando e tropeçando nos avateres que formaram uma rodinha envolta deles, pedindo desculpa sem mesmo me importar. Curiosos.
—- Você se acha muito machão chamando um cara pra um 6x1, não é mesmo? – Meu tom de voz saiu desafiador ao mesmo tempo em que meus olhos o fitavam, frios e calculistas. Meus olhos rolavam por entre os avatares até encontrarem de relance os de Saturn e pude jurar ter visto um riso se formar. Pude ver que o grandalhão ia voltar a falar mas o interrompi. – Eu vou te propor algo mais desafiador... Não só esse magrelo aqui – Apontou para os olhos mel. – Mas nós dois iremos dar uma surra em vocês.
Os avatares em volta cochicharam e um novo alvoroço surgiu como se já começassem a torcer para um determinado lutador, apontando os dedos e gritando algo como “wow, oloco, vai arregar”.
—- E então, o que me diz? – O sorriso de canto surgiu como um reflexo e a cara soberba dominava a expressão.
—- O desafio será da seguinte forma: Na primeira vez que lutamos apostamos 1kk de gold, e isso era 1x1. Então desta vez eu quero apostar 6kk. Tendo em vista que o lucro será divido em 2, nada mais justo. – Saturn disse, primeiramente aparentando várias interrogações e depois entrando na minha onda, caminhando despreocupadamente em direção aos meus cabelos grisalhos enquanto fitava o grupinho dos moleques se entreolhavam chegando num consentimento. O grandalhão por um breve momento pareceu repensar e recuar, mas as vozes de incentivo dos demais em sua volta cutucaram seu orgulho, e muito a contra gosto ele aceitou o desafio.
Enquanto os olhos mel caminhavam em minha direção, ambos nos encaramos, cada um com seus próprios pensamentos. Nenhuma palavra foi trocada mas a troca de olhares falava muito.
—- Isso vai ser interessante. – Por fim sua voz saiu em meio um silêncio que se fazia, um sorriso esboçado e seu corpo estacou ao meu lado, sua postura exalava confiança e eu ali, me contagiando com sua presença e entusiasmo. Você é mais interessante. O pensamento foi involuntário, balançou a cabeça negativamente e se deixou levar pela emoção de uma disputa.
A rodinha dos curiosos/torcedores havia sido formada como se fosse um ringue e no centro estavam os 8 avatares. De um lado o grupinho do grandalhão, e do outro os dois jovens magrelos.
O bodybuilder tomou a dianteira e lhes enviou o convite do desafio 6x2 que aceitaram prontamente. Surgiu um tipo de telão com a contagem regressiva em 5 segundos.
—- Vamos repetir a última estratégia? – Minha voz saiu quase num sussurro enquanto no telão a contagem estava em 3. Ele acenou positivamente e pude notar que preparou a bomba de fumaça.
2… 1…
Foi quase que instantâneo. A contagem chegou a zero e pude ver o clarão da bomba estourar e a cortina da fumaça começar a se erguer. Ri quando encarei meus adversários, e suas caras de espanto com o início da fight deu pena. Pareciam umas baratas tontas. Como fizemos com o Boss, cada um correu pra um lado, meio que encurralando-os. Usei minha agilidade para me esquivar de algumas kunais e facas jogadas em minha direção com facilidade. Apesar da diferença de nível ser pouca, o conhecimento da utilização das habilidades era muito maior. Aquele grupo não tinha a mínima chance contra nós dois.
A velocidade de Vênus era quase única. E aos olhos dos novatos era difícil acompanhar meus passos, e assim que derrotei dois deles de uma vez só, percebi que Saturn estava derrotando o terceiro. Aquele filho da mãe nem se mexeu direito, usou três dardos de veneno e esperou, odiava esse estilo de luta, era muito desonesto em sua percepção e então entendeu o porque daqueles caras estar lhe acusando de CHEAT. A fumaça já nem mais existia. Bufou, observando o rapaz que tediosamente andava na direção do único adversário restante. Apesar de EU achar “desonesto” era sua habilidade e se existe essa habilidade então é pra ser usada, e pensando melhor, ele estava certo em não demonstrar seu poder de ataque. Em torneios oficiais quanto menos souberem do seu poder, maior sua chance de vencer, ele só estava sendo cauteloso. Eu que fui burra. Suspirei pesadamente ao chegar na conclusão mais óbvia.
Então restou somente o grandalhão.
Foi de encontro a Saturn e caminhando lado a lado ficaram de frente ao maior.
—- Eu desisto. – E jogou sua espada no chão, o bodybuilder sequer tentou, olhava incrédulo para seus comparsas caídos, alguns deles chegaram até a se desconectar. Vergonha talvez?
O pessoal em volta gritou em comemoração, alguns xingando outros elogiando. Um misto de emoções estavam aglomerados ali. Novamente apareceu o telão com nossos nicks escritos e um “wins” com confetes caindo.
Como foi apostado, o grandalhão perante todos aqueles avatares, não teve opção a não ser nos pagar os 6kks, sendo repartido o pagamento assim que nos foi entregue o saquinho simbólico de moedas. Ele saiu muito pistola nos fazendo ameaças e que “nunca mais iriamos conseguir upar”. Nenhum de nós lhe respondeu, trocamos um riso discreto e saímos daquela confusão.
—--x---
A madrugada passou voando. Estando na companhia um do outro os dois personagens nem notaram as horas passar, tanto que eu já estava nível 45 e o moreno 46. Já eram 4 a.m quando Saturn reclamou de fome.
—- Acho que vou dormir, estou com fome e não estou afim de ir pra cozinha essas horas.
Eu não queria que ele fosse.
—- Não sai não, fica só mais um pouco... – A voz saiu meio que apressada e me arrependi no segundo em que a frase foi dita. Meu rosto corou fortemente e tentei consertar olhando pra baixo – Q-Quer dizer.. A gente pode pegar nível 50 rapidinho.. ou ir pra cidade... Ou não... Não sei o tamanho da sua fome né... – Quanto mais falava mais me arrependia e conforme crescia meu arrependimento minha vergonha triplicava e meu rosto era quase um tomate. Nos encaramos, ele parecia pensar.
Então sorriu.
Puta que pariu. Eu to sabendo que é um MMO ok? Mas puta merda, aquele sorriso foi diferente de todos que ele já demonstrara, era um sorriso sincero, arriscaria dizer até que feliz. O corpo todo reagiu e não soube dizer em que momento tinha ficado tão quente aquele mapa.
—- Tudo bem, vamos pra cidade. Ouvi dizer que tem algumas tavernas com deliciosas especiarias, quem sabe comendo virtualmente minha fome passe? – Então caminhou em minha direção enquanto eu o olhava ainda envergonhada. Quando chegou bem próximo quase já me ultrapassando viu que eu não reagia e pegou na minha mão, puxando-me pelo caminho de volta ao portal que ia para a cidade.
Sua mão era macia e quente.
Ou talvez a quentura fique por minha conta. Dane-se. Mas aquele simples contato fez com que todas aquelas borboletas que estavam em meu estomago quando me conectei, retornassem com 100x mais delas. Pelo jeito meu rosto não ia voltar a coloração normal por algum tempo.
Voltamos pra mesma taverna em que estevemos anteriormente, pedimos uma rodada de petiscos e cervejas. Estava um clima gostoso e conversamos sobre coisas banais, porém nunca citando nossa vida fora do jogo. Fez-se um pequeno silêncio e notei uma expressão cansada no rosto do moreno, achei que ele ia se despedir mais uma vez, porém o que ele disse foi:
—- O tempo e o ar fluem diferente da cidade real aqui, e dá uma sensação tão boa. É quase um charme. – Falou enquanto tinha sua cabeça encostada na janela com uma ampla visão para com as ruas da cidade.
—- Sim, sei o que quer dizer. – Por um momento ele pareceu se recordar de alguma coisa e um pequeno riso de canto foi formado. – Pessoas de diferentes países vem e saem daqui, diferentes culturas se misturam. Isto torna a sensação muito mais especial. – Fiz uma pausa escolhendo bem as próximas frases. – Você disse agora a pouco não foi? Esse lugar é charmoso. Também acho isso... Sinto que ainda há muitos charmes que ainda não descobri.
Não sei bem como aquela conversa tomou ares de flerte, mas vi que Saturn corou e disfarçou discretamente, focando sua visão ainda mais lá para fora.
Sim tinha sido uma indireta. PORRA O QUE EU ESTAVA FAZENDO? MERDA.
Parecia que o silêncio mais uma vez iria prevalecer, mas juntando toda a coragem que restava tornei a falar.
—- Sempre quis saber, algum motivo especial para a cor vermelha? – Falei apontando para seu cachecol. Sua postura ficou ereta na cadeira e me olhou melhor como se questionasse silenciosamente aquela frase “é sério isso?” respondeu:
—- Não, apenas gosto de vermelho. Por que?
—- Dizem que vermelho é a cor do destino, sabe? Mesmo que não enxergue agora, pode te conectar a algo bom quando menos esperar.
O coração falhou uma batida. Ambos coramos assim que houve a troca de olhares.
Olhei pro lado como se procurasse algo desesperadamente para sair daquele clima que eu mesma tinha criado. Passou alguns segundos até que ouvi:
—- V-você tem um jeito incrível de pensar. – Saturn ponderou – Mas, talvez o destino já tenha me recompensado. Nos tornamos amigos, certo?
Minha cara foi no chão, eu tinha levado um fora, era isso? Putz, que vergonha. Respirei fundo esboçando um riso falso característico e o encarando respondi. – Certo.
Houve um novo silêncio.
—- É, acho que já deu pra mim por hoje. Você vai continuar? – Ele falou olhando pra mim enquanto eu ainda olhava pro lado me martirizando mentalmente por ser tão burra ao ponto de dar em cima de um personagem homem sendo outro personagem homem. OBVIO QUE NÃO IA ROLAR. Não com ele pelo menos.
—- Eu já vou indo também.
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