Branca de Niev

4 Força e coração


O perfume das rosas talvez fosse a sua lembrança mais remota. Dizem que desde o dia em que nascera, sua mãe a levava para passear nos jardins do palácio para ver as flores. Ela tinha morrido muito antes que a menina conseguisse sequer ter consciência de que era uma pessoinha, então não havia qualquer memória do seu perfume, da textura da sua pele, do som da sua voz. Tudo o que ela tinha eram pinturas e as histórias que ela pedia que as criadas repetissem mais vezes do que poderia contar. Assumiu então, por um cruzamento de lembranças, que o perfume da sua mãe era o perfume daquelas rosas, e já que as flores tinham o mesmo tom rosado das suas bochechas, provavelmente elas teriam uma textura parecida, então.

Branca cresceu correndo pelos jardins, cuidando das flores que tanto a faziam pensar na sua mãe e sendo cuidada pelas mesmas aias que cuidaram de Maya. Sabia que era a futura rainha de Ayer, mas gostava que a chamassem de princesa Branca de Niev, já que Niev era o nome do reino que sua mãe comandara.

— Aia Nadine, conte novamente a história de quando a mamãe e o vovô acabaram com a guerra? – pedia a pequena Branca, agitada, antes de dormir.

— Branca, você já decorou essa história, precisa dormir agora. Amanhã eu posso contar – a aia a cobria e tirava uma mecha de cabelo do seu rosto

— Aia Nadine, por que papai nunca me conta histórias antes de dormir?

— Porque seu pai é o rei, Branca. Ele é um homem muito ocupado e é para isso que eu estou aqui. Para cuidar de você.

— E a minha madrasta? Por que ela nunca vem me ver? Ela não gosta de mim?

— A rainha? – Nadine hesita por um segundo, sem saber bem o que responder – não é isso, meu bem. A sua madrasta é uma mulher diferente das outras, ela não é muito maternal, sabe? Ela prefere ficar nos seus aposentos e cuidar dos seus assuntos particulares, só isso.

— Ela é má, Nadine? Outro dia ouvi o jardineiro dizer que ela era uma bruxa.

— Oras, mas que bobagem! Não dê ouvidos a tudo o que dizem. A rainha é apenas uma mulher reservada. E você é uma mocinha curiosa demais para essa hora da noite! Trate de dormir! – Nadine pedia, com firmeza e doçura.

Vez ou outra Branca sentia falta de sua família, mas como nunca teve uma família normal, esse era um sentimento que não chegava a incomodar. O pai era distante, mas não a tratava mal quando estavam juntos. Branca ocupava seu tempo estudando, conversando com as pessoas, cuidando das suas flores e tinha um sonho secreto de conhecer a vida fora dos muros do palácio, mas isso nunca lhe era permitido.

Ela cresceu ouvindo grandes elogios sobre a sua beleza, mas quando se olhava no espelho não conseguia reconhecer muitos traços da sua mãe, o que de certa forma a entristecia. Não tinha os cabelos avermelhados e nem a pele rosada pelas sardas. Seus cabelos eram muito pretos e a pele pálida apesar dos passeios diários no jardim. Ela já estava se tornando uma adolescente e as histórias sobre a sua beleza já haviam cruzado as fronteiras do próprio reino, enquanto ela mesma só conseguia alcançar o próprio quintal.

Mas adolescentes têm certa rebeldia que independe do tempo ou do contexto social. Branca passou meses arquitetando uma fuga e, numa distração de Nadine, se enfiou em uma carroça com roupas velhas que seriam descartadas e, antes que qualquer um percebesse, ela já estava, finalmente, do lado de fora do palácio.

Nunca tinha sentido seu coração batendo tão forte. Não fazia ideia de que o mundo do lado de lá da sua fortaleza tinha tantas pessoas, tantos sons, tantos aromas. Pela primeira vez em sua vida, ela não tinha todos os olhares ao redor a vigiando, controlando, protegendo. Pela primeira vez em sua vida ela não se sentia no centro do universo, e aquilo parecia bom. E assustador.

Andou o dia inteiro, em silêncio, mas observando cada centímetro que podia daquela terra, da sua terra. Ayer. O reino que serviu de cenário para quase todas as histórias que contaram a ela por anos, mas que ela nunca tinha conhecido de perto. Era maior, mais populoso e mais agitado do que ela imaginava. O povo trabalhava com concentração e seriedade, mas aparentavam ter paixão pelo que faziam. E como eles eram diversos! A divisão igreja-nobreza-comércio-agricultura dos livros na verdade tinha muito mais camadas quando se olhava pessoalmente. Cada um parecia protagonizar sua própria aventura épica, e não apenas servir de apoio para os grandes feitos de generais, príncipes e reis.

Branca era muito jovem, inexperiente e ingênua, mas não era tola. Em um dia, sua mente absorveu mais informação que em catorze anos, e ela não parava de pensar em que tipo de rainha precisaria ser para aquelas pessoas. Todos ali pareciam ter mais conhecimento, mais certezas e mais habilidades que ela. Como ela poderia, então, governa-los um dia? Como sua mãe conseguira? Ela imaginava que quando colocasse os pés para fora do palácio, teria a resposta para todas as perguntas que nunca tinham sido respondidas, mas tudo o que conseguiu foram novas perguntas. Muito mais complexas e incômodas que as anteriores.

A inquietação só parecia aumentar e consumir por completo seus pensamentos, tanto que nem se deu conta das horas que se passaram sem que ela parasse de andar, sem que comesse ou bebesse nada. Entrou em uma rua um pouco mais vazia que as outras quando sentiu as pernas falharem e a visão escurecer. Desmaiou.

A princesa acordou em outro lugar, e demorou alguns segundos até lembrar que não estava em seu palácio. Era uma casa pequena, pouco iluminada, cheirando a sabão, ou algo parecido. Sentou-se na cama, bem menos confortável que a do seu quarto, mas com um belo cobertor de lã, quando ouviu uma voz ao lado.

— Que bom que acordou. Estava preocupada – uma velha senhora sorria, se aproximando com uma bandeja com pão e leite – coma um pouco, você parece exausta e faminta.

— Muito obrigada, senhora, eu realmente estou – Branca aceita a badeja e começa a comer – acabei me perdendo e esqueci a hora de voltar.

— Entendo. Você precisa de ajuda? Para voltar para casa? Uma mocinha como você não devia ficar andando por aí sozinha.

Branca ficou muda por alguns instantes, enquanto sua cabeça fervilhava. Aquela senhora tinha sido gentil e bondosa, mas seria seguro revelar sua identidade? O que aconteceria se todos soubessem que a princesa estava nas ruas, sem nenhum tipo de proteção? Será que seu povo a amava como suas criadas? Será que ela seria bem-vinda? Achou melhor se calar naquele momento, mas como faria para voltar? Ela passou meses arquitetando uma forma de sair do palácio, mas esqueceu de como faria para retornar.

— Eu não sou daqui. Minha família tem uma propriedade próxima a Ayer, e eu estava de passagem pela cidade para comprar... frutas. Porque como todos sabem, Ayer tem as melhores frutas das redondezas, certo? Mas meu cavalo fugiu, e levou meu dinheiro e tudo mais. Então eu me perdi e agora estou aqui.

— Entendo – a senhora sorri – como você se chama, pequena?

— Maya. E a senhora?

— Hérmia. Bem, Maya, você pode ficar por aqui esta noite, tenho uma botica no andar de baixo, mas vivo sozinha aqui desde que meu marido faleceu, durante a resistência de Wint. Pela manhã peço a um dos empregados para te levar de volta até a sua propriedade. Seus pais podem enviar o pagamento.

— É muita gentileza a sua, senhora Hérmia. Se importa de conversarmos um pouco? Eu tenho muita curiosidade sobre este reino, talvez a senhora pudesse me falar mais sobre ele.

Hérmia falou. Sobre sua vida, sobre a comunidade, sobre como as mudanças de reinados, os golpes e a nobreza interferiam nas vidas dos cidadãos comuns. Sobre as dificuldades, as conquistas. E Branca conheceu uma história que nunca tinha imaginado existir. E soube como as pessoas enxergavam os membros da sua família, e o que o povo esperava de seus governantes. Quando Hérmia terminou e apagou as luzes, Branca não conseguiu dormir, organizando suas ideias e tentando imaginar quais seriam seus próximos passos.

Hérmia acordou assim que o sol nasceu e desceu para a botica. Branca a seguiu, oferecendo ajuda como retribuição pela noite passada. Mas antes que elas pudessem abrir as portas, foram convocadas, junto com todos os moradores do reino, para um pronunciamento na praça principal. Aos poucos a população se reuniu, e o burburinho parecia incontrolável com as especulações do que seria dito.

— Povo de Ayer – começou o mensageiro – trago notícias trágicas. Nosso reino foi atacado. Nosso bom rei Francis foi encontrado morto nesta madrugada, e a jovem princesa Branca de Niev está desaparecida, possivelmente raptada pelos assassinos do rei. Preparem-se para uma guerra. Tempos difíceis estão chegando novamente.

Branca estava em choque. Sua vida inteira parecia estar se despedaçando diante dos seus olhos. Seu pai estava morto. Assassinado? E sua fuga, justamente naquele momento, poderia desencadear uma guerra com um inimigo que talvez nem existisse.

Embora sentisse que algo grande estava mudando ali, o que ela não imaginava era que aquele dia definiria o seu futuro para sempre, e que naquele momento, usando a identidade da mãe, ela estava gerando uma nova rainha. No dia em que Francis morreu, Branca deu o primeiro passo para se tornar a governante que sua mãe sonhou: com a força de Bianca, e o seu próprio coração.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.