Notas iniciais
OIE! Postando minha segunda fic do Pride Month Fanfics porque eu claramente não tenho nenhum autocontrole. Boys Don't Cry nasceu enquanto eu ouvia a música do The Cure e pensava sobre o tanto que os marotos sofrerem, sobre como a geração deles era de homens com uma masculinidade muito mais tóxica do que hoje em dia (embora eu não enxergue qualquer um dos marotos - exceto Peter, maybe - com masculinidade frágil ou tóxica. Espero que gostem, deu um aperto no peito escrevê-la, mas gostei muito do resultado!

Desde criança você ouvira que, como garoto, um futuro homem, não devia chorar. Não. Você devia ser forte e resiliente, ser persistente e corajoso, porque garotos não choravam, e você não podia ser tão frágil assim, não se quisesse ir para a grifinória.

Ser mordido por um lobisomem com apenas 4 anos, em retaliação a uma fala absurda de seu pai, fora a primeira vez em que você desrespeitou essa recomendação parental, afinal doía muito, e você estava com medo. Por que sua mãe estava chorando tanto? E por que seu pai estava tão pálido se era você quem perdia um monte de sangue? Você chorou de dor, mas não foi repreendido por isso

Você descobriria depois que haveria dores piores a serem sentidas, e que era muito mais uma característica da Lufa-Lufa do que da Grifinória não ter medo da dor.

Não chorar era um exercício interessante a ser praticado, já que você cresceu sem amigos, porque ninguém podia saber do seu probleminha peludo. Você nem mesmo sabia se poderia ir à escola aprender a usar sua magia, e aquilo era um motivo bom para chorar, mas você se manteve estável.

Você descobriria depois que, às vezes, você era calmo até demais, e que quando perdia a cabeça era porque as coisas já estavam no limite.

Fazer amizade com James, Sirius e Peter foi um grande marco. Quer dizer, não foi do dia para a noite, e vocês acabaram se juntando sem você nem mesmo entender como acontecera. Quando eles descobriram sua licantropia você pensou que seria muito ruim perder algo a que tinha finalmente se acostumado, o fato ter amigos, mas as coisas passaram longe disso.

James foi quem descobriu que doces ajudavam você a ganhar alguma cor mais rápido, e as barras de chocolate sempre existiam aos montes no seu dormitório. Quando você soube que os três estavam estudando transfiguração avançada sozinhos, se arriscando a se transformarem em animagos, achou que fosse surtar.

Era preciso muita maturidade e domínio de magia para ser um animago, e Sirius e James não eram lá exemplos de conduta ideal. Além disso, mesmo que conseguissem passar pelo processo, o Ministério jamais legalizaria adolescentes animagos. Eles seriam ilegais, apenas para acompanhá-lo em suas transformações da lua cheia. Essa ideia o causava mais ansiedade e nervosismo do que propriamente vontade de chorar, e Sirius sempre estava fazendo piadinhas, aliviando a tensão e lhe fazendo rir.

Você descobriria depois que Sirius seria o responsável por fazê-lo chorar, especificamente outras três vezes em sua vida, e isso seria marcante. Eternamente.

A primeira vez, você chorou de raiva, porque a imaturidade e a inconsequência de Sirius tinham atingido outros níveis. Ele não só fora irresponsável com Snape, incitando-o a arriscar o pescoço indo até o túnel do salgueiro lutador quando você estava transformado.

Não.

Sirius tinha arriscado James, que se enfiara lá para evitar que Snape fosse triturado vivo, e ele arriscara você. Sirius agira como a grande criança irresponsável e descontrolada que quase sempre era, e ameaçara não apenas expor seu segredo mais íntimo e difícil, mas a vida de uma pessoa.

Você não achava que Snape era uma pessoa legal, mas também não achava correto aquela perseguição ridícula e arrogante de James e Sirius contra ele. De fato, você achava aquilo uma babaquice, mas era mais fácil não se intrometer nas azarações dos dois, porque você devia muito a eles, e Snape era grandinho para se defender só.

Mas não quando Sirius o enviara para o encontro de um lobisomem transformado. Não. Ali você chorou, sentindo a mais genuína raiva de sua vida, a traição mais absurda possível, e sentiu-se quase satisfeito quando viu o enorme roxo no rosto de Sirius ao finalmente retornar ao dormitório, dias depois.

Você soube, por Peter, que James e Sirius não estavam se falando, mas havia tanta mágoa e raiva em você, que você não sentiu a mínima comoção.

“Eu fui um babaca.” dissera Sirius na primeira oportunidade. “O Ranhoso merecia um sustinho, para parar de se meter no seu problema. Era só uma brincadeira, eu não achei que ele fosse ser tão imbecil, mas juro que não queria expor você”.

“Mas expôs. E arriscou James, e minha permanência na escola. E o pescoço de Snape.” você respondeu, sem olhá-lo. “Se eu tivesse matado Snape, quem viveria com a culpa seria eu. E você sabia disso. Meus problemas são meus, vê se cresce, Sirius.”

A ideia de que você chorara, depois de tanto tempo sendo forte, por causa da idiotice e imprudência de Sirius o tirava do sério. Você ainda não estava pronto para aceitar as lágrimas, naquela época.

Levou mais uma semana até que finalmente as coisas voltaram ao normal, e apenas porque James achara um livro que podia ajudar na tentativa deles de virarem animagos. Você ficou quase feliz por aquilo, porque a ideia de perder seus amigos era algo que o deixava mais deprimido que o normal. Quando os três, James, Peter e Sirius, participaram da primeira lua cheia com você, alguns meses depois, quase no final do quinto ano, além de nervosismo e muito pânico, você sentiu vontade de chorar. De gratidão.

À medida em que você avançava em sua adolescência, você notava que oscilações de humor eram coisas comuns e banais, que aconteciam todos os dias, e em você eram potencializadas pelos seus problemas de saúde e o crescente medo daquela confusão que o mundo bruxo estava se tornando fora de Hogwarts.

Para além disso, havia todos aqueles hormônios ebulindo dentro de você, toda aquela tensão sexual e aquele nervosismo bom e latente, aquele calor e desejo insistentes que subiam por suas entranhas quando você via Dorcas Meadowes andando pelo corredor. Você até tentava não ser tão malicioso quanto James e Sirius, mas você não podia mentir para si mesmo que sim, você gostava de olhar a bunda dela quando ela passava.

Por isso foi tão esquisito quando você começou a perceber que aquele calor surgia não apenas ao dar uns beijos em Dorcas no armário de vassouras, mas quando James e Sirius voltavam dos treinos de quadribol, suados e exalando testosterona demais. Merlin, você sabia que era difícil até se concentrar para continuar estudando no salão comunal quando eles estavam ali. Especialmente porque Sirius ficava o tempo todo chamando por você e mostrando alguma idiotice que estava fazendo com a varinha, ou dando cambalhotas por cima do sofá.

Sirius não mudaria nunca, você pensava. Era simplesmente o jeito dele ser assim, arrogante e vaidoso, orgulhoso demais de sua própria esperteza.

Aquele calor latente e a pulsação na parte mais baixa do seu abdome quando Sirius sorria ou dava aquela gargalhada latida começou a deixá-lo muito confuso, porque não parecia nada inocente e amigável. E você não sentia isso por James, nem Frank, nem Peter. Mas Sirius tinha um carisma além do que você pudesse explicar, ele era apenas gostável demais, e você se sentia muito atraído.

Foi em um sábado a noite, quando vocês pegaram a capa de James e o mapa do maroto e saíram da sala comunal para colocar bombas de bosta na sala do zelador Filch, que então aconteceu. Sirius estava agitado e fazendo aquelas piadinhas habituais, mas você estava nervoso com a revirada que seu estômago dava sempre que você sentia a pele dele encostar na sua por debaixo da capa da invisibilidade, e não podia querer mais que aquilo acabasse logo.

Mas Filch apareceu no corredor, porque Sirius estava muito distraído para ter lido o mapa com o devido cuidado, e vocês precisaram se enfiar em um armário de vassouras para que Madame Norra não os sentisse ali e começasse a miar. Aquele armário era, precisamente, o que se esperava de um armário de vassouras: escuro, úmido e apertado, com aquele cheiro azedo de mofo e ar parado. Certamente não tinha sido projetado para dois rapagões de dezesseis anos ficarem enfiados ali, juntos.

Mas bem que podia ter sido, porque naquele escuro você sentiu uma necessidade absurda de saber qual era o gosto da boca de Sirius. E você descobriu. Você puxou Sirius para um beijo que começou muito sutil, e então sentiu suas entranhas queimarem de desejo, exatamente como acontecia quando você conseguia escorregar uma das mãos para dentro do sutiã de Dorcas e tocar os seios dela por um momento.

Ao contrário do que você pensou, Sirius não o empurrou, nem abriu o armário de supetão, dando o fora dali. Ele ficou igualmente envolvido, e segurou seu pescoço de um jeito que você gostou muito. Era diferente ao mesmo tempo que era igual. Era instigante e dava uma adrenalina boa, com aquele sentimento de que era errado, embora sentisse ser certo. Você achou que fosse explodir.

— Gostei disso, Aluado. – dissera ele antes de beijar você outras várias vezes naquela noite, deixando de lado o plano das bombas de bosta.

Você não chorou quando chegou à percepção de que era bissexual, mas houve um nó em sua garganta e você jamais conversou disso com qualquer pessoa, porque garotos não choravam, e nem revelavam que são bissexuais. Não na época em que você cresceu, pelo menos.

Sirius e você continuaram envolvidos naquilo durante muito tempo, e você gostava da ideia de ter algo secreto e em comum com ele. Algo que nem mesmo Peter, ou James, o melhor amigo, sabiam sobre Sirius. Talvez fosse uma pontinha de ciúmes e insegurança que a autossabotagem inerente a você o fazia sentir, mas você sentia, e jamais confessaria isso a ninguém.

Você sabia que era imaturo pensar daquela forma, todos vocês eram amigos, não havia necessidade dessa competição, mas você sentia que esse segredo mútuo o fazia mais vivo e pertencente. Era como se, pela primeira vez, você pudesse se dar ao luxo de vivenciar algo especial e particular que não fosse ruim. Esse pensamento era feliz e mórbido na mesma intensidade, e você sabia, já naquela época, que a melancolia era um traço intrínseco a você.

Hogwarts acabou mais rápido do que você gostaria, e o mundo bruxo não seria nada acolhedor e gentil com um licantropo recém formado; isso deu a você vontade de chorar todos os dias, mas garotos não choravam, e você se acostumou a apenas morder os lábios quando seus olhos ardiam. As coisas ficavam mais difíceis a cada dia, e quando Sirius e você entraram para o treinamento da Ordem da Fênix, pioraram.

Você descobriria, anos depois, que ele se preocupava mesmo com você, como mais do que um amigo, e estava tentando protegê-lo, mas àquela altura, sendo muito jovem para saber como amar de verdade, você entendeu tudo errado.

Sirius e você estavam juntos na casa dos Potter, e aquelas eram as semanas que antecediam a cerimônia de casamento de James e Lily. Sirius estava sugerindo a você que deixasse o país por um tempo, até que as coisas se acalmassem. Que seria melhor se você estivesse seguro em algum lugar mais estável, como a França ou a Alemanha.

Naquele dia você ficou realmente chateado, e quanto mais ele sugeria que você fugisse, mais você se irritava, pensando quem ele achava que você era para fugir daquela maneira quando o problema estava em frente aos seus olhos. Você não deixaria seus amigos sozinhos em uma guerra, mesmo que tivesse apenas dezenove anos e as pessoas ainda achassem você jovem demais para tamanhas preocupações.

Vocês dois disseram coisas que não deviam naquele dia. Sirius chamou você de teimoso e egoísta, e você disse que ele era covarde e que pedia que você fugisse das coisas, que ele era manipulador e controlador como a família sanguínea. Você disse que ele não gostava de você o suficiente para querê-lo perto, e que, para ele, você não devia passar de uma distração luxuriosa da época de colégio, e ao ver a mágoa nos olhos de Sirius, você soube que tinha passado dos limites.

Você perceberia naquele, mesmo segundo, que tinha exagerado e sido muito mal educado, mas não fazia diferença, porque Sirius não quisera mais conversar e você tivera que ir embora. Mesmo que quisesse ficar e se desculpar.

Você quis chorar por Sirius dessa vez, de remorso, porque a saudade que ele fazia era maior do que a raiva que você sentira naquela conversa, mas, por algum motivo, as lágrimas não saíam. Era como se você estivesse quebrado, tão machucado que não havia como lamentar.

Era inevitável comparar os erros de Sirius com os seus, e você já nem mesmo sabia quais atos queria justificar, porque vocês dois eram adolescentes, e por mais que você tivesse crescido sendo doutrinado a ser prudente, era impossível acertar todas as vezes. Você seria passional em alguns momento, mas só quando fosse impossível segurar a situação na racionalidade.

Você acabou se afastando da Ordem da Fênix, porque sabia que era um risco para todos, e ficou fugindo por vários meses ao longo do país, tendo visto seus amigos pela última vez no casamento de James e Lily. Lily estava tão bonita, e James estava tão feliz e orgulhoso dela, que você sentiu vontade de chorar de emoção, mas garotos não choram e você resistiu bravamente, derramando duas lágrimas. Uma para cada noivo.

O tempo voou naquele ano seguinte, e você percebeu que as pessoas da Ordem da Fênix desconfiavam de você, como uma herança do preconceito à sua doença, e isso realmente incomodou e machucou. Todos ali sabiam que havia um infiltrado, e você sabia que não demoraria para que as suspeitas se virassem a você.

As coisas eram como eram, afinal.

Você soube que James e Lily tinham tido um filho e desejou demais poder conhecer a criança. Mas você soube também, por murmúrios da Ordem, que os Potter corriam perigo por conta uma profecia, e que todos planejavam escondê-los. Você mandou flores e um cartão quando a criança fez um ano, e recebeu fotos do menino, Harry, igual a James e com os olhos lindos de Lily, montado em uma vassoura de brinquedo, que sua amiga disse ter sido presente de Sirius.

Doeu quando ela falou em Sirius, não por ele ser o padrinho da criança, mas por fazer uma falta gigantesca em sua vida, e suas últimas palavras terem sido duras um com o outro. Você tinha certeza de que Sirius era o fiel do segredo que protegia James e Lily. Não tinha como não ser, ele era o melhor amigo de James! E agora, mais do que nunca, Sirius com certeza não quereria se reencontrar com você, porque também ele desconfiava de que você fosse um infiltrado de Voldemort na Ordem da Fênix.

Aquilo doía. Ele julgar você daquele modo, como se não o conhecesse. Se alguém tinha direito de não confiar em outra pessoa, esse alguém era você em relação à Sirius, depois do episódio do Salgueiro Lutador, e mesmo assim sua lealdade permanecera. Fora tão fácil para ele se afastar, que você se perguntava se algum dia aquele segredo mútuo nos armários de vassoura realmente existira.

No dia 31 de outubro você recebeu um patrono de Dumbledore dizendo que James e Lily tinham sido assassinados por Lord Voldemort, e você sentiu como se seu coração tivesse sido arrancado para fora de seu peito. Tudo sangrava dentro de você de uma maneira inestancável. Você chorou como uma criança, porque James estava morto e jamais veria o filho crescer, nem contaria a ele do mapa do maroto, e Lily nunca passaria a bondade e gentileza dela à criança.

Você chorou mais ainda ao perceber que eles estarem mortos significava que Sirius os tinha traído, e aquilo foi outro golpe duro demais, porque você confiava tudo a Sirius. Seus segredos, seus afetos, e sua vida, e ele traíra o próprio “irmão”. Você não queria acreditar, principalmente ao descobrir que seu outro amigo, Peter, tinha sido assassinado por Sirius, com uma rua inteira de testemunhas oculares do fato.

Sirius era inconsequente, e podia ter um senso de humor meio maldoso, ser fã de azarações, mas você nunca imaginara que ele seria capaz de trair os amigos daquela forma. Que ele seria capaz de explodir uma rua inteira de pessoas e ficar lá, gargalhando, como um sádico irreversível.

De repente, você tinha apenas vinte e um anos e estava sozinho, com todos seus amigos mortos de maneira brutal, e a única pessoa que algum dia acessara seu coração estava presa por ser um traidor homicida. Pensar em Sirius doía como brasa quente na pele, e rasgava toda sua sanidade mental, mas você desejava falar com ele e ver nos olhos dele se havia remorsos pelo que ele fizera.

E você queria chorar de desespero quando pensava na possibilidade de não haver.

Não foi essa, ainda, a segunda vez que você chorou por Sirius. Ali, você chorava porque é isso que garotos fazem quando seus amigos morrem em meio a uma guerra.

Você se escondeu e esperou que tudo baixasse a poeira, sentindo a solidão do preconceito à sua licantropia todos os dias durante 12 anos, até finalmente ser convencido a um emprego fixo. Ser professor no único lugar em que tinha sido genuinamente feliz.

Lecionar ao filho do seu melhor amigo era um privilégio amargo, uma felicidade que beirava a tortura. Você vivia pensando em como gostaria de contar a James quão fascinante era aquela criança que só conhecera tragédias e cujos dementadores o faziam ouvir a mãe gritando a própria morte. Harry era uma versão mais bondosa e humilde de James, e você sorria ao pensar que ele era a mistura exata dos pais.

O talento para confusão e aquela petulância adolescente de Harry, seguidos da vontade de se provar digno e herói, eram tão conhecidos seus que você se pegava rindo ao imagina a convivência de James com o filho tão idêntico. Lily teria síncopes ao imaginar o jeito como Harry gostava de enfrentar (o agora professor) Snape, e James ficaria orgulhoso.

Quando o mapa do maroto mostrou a você que Peter estava vivo foi que tudo ficou claro, ele era o traidor. Você quis chorar ao entender que Sirius era inocente, mas garotos não choravam, e você resistiu um tempo. Seu coração doeu por todos aquele anos de julgamento, por você nunca ter se prestado a defender Sirius na Suprema Corte dos Bruxos, nem lutar pela liberdade dele. Você queria pedir perdão, porque Sirius vivera todos aqueles anos injustamente em uma cadeia imunda e infeliz, sem conviver com o afilhado.

Você se perguntava por que tinha sido capaz de, por tanto tempo, desconfiar da lealdade de Sirius, que sempre preferia ter morrido a desapontar James ou você. O remorso dele pelo episódio com Snape, anos atrás, consumia suas lembranças, e você sabia que por mais impulsivo que Sirius pudesse ser, ele não trairia os seus.

Mas você também sabia que isso era inútil. Era tarde demais, e pedir desculpas não faria voltar atrás os anos presos, nem devolver a jovialidade de Sirius, ou o coração menos amargo e mais divertido que ele tinha.

Essa foi a segunda vez que você chorou por Sirius, ele merecia mais do que a vida tinha dado a ele, e você tivera sido tão ingrato com tudo que ele fizera por você que as lágrimas de arrependimento vinham em excesso quando você pensava na crueldade que fora deixá-lo ser preso. A crueldade que fora saber que Dumbledore não mexeria um dedo para tirar Sirius da prisão, e você fora conivente.

Mas assim que você se encontrou com Sirius, naquela noite de lua cheia, foi como se tudo fosse exatamente como antes, como se aquelas acusações imaturas do passado tivessem ficado para trás, e ele não sentia rancor algum de como você agira. Ele o compreendia e continuava a adorar você tanto quanto antes.

Ele também desconfiara de você, e sabia que vocês estavam quites, machucados e igualmente sofridos naqueles anos todos de injustiças. Ele sentia sua falta, e o abraço quente e magro de Sirius acalentou seu coração. Você queria beijá-lo e pedir perdão, mas não houve tempo, ele fugiu antes de vocês se resolverem.

Conviver com Sirius na casa que fora o maior pesadelo da adolescência dele não era fácil, porque havia muitas emoções reprimidas naquele garoto, agora homem, que a vida machucara tanto. Mas, é claro, havia momentos bons. Havia risos e memórias gostosas daquela adolescência imatura e marota, aprontando tudo que podiam na escola.

Havia olhos úmidos quando vocês riam se lembrando de James, com aquele saudosismo risonho que disfarçava o choro de saudade, porque garotos não choram, e vocês sabiam bem disso àquela altura.

Snape pertencer à Ordem da Fênix era a maior ironia que podia haver, e você achava que Sirius enlouqueceria por estar preso no Largo Grimmauld há tanto tempo, vendo Ranhoso transitar em liberdade mesmo depois de tudo que fizera enquanto ele, homem inocente, tinha que ficar enfurnado e controlado. Você via o escárnio prazeroso nos olhos de Snape em ver as coisas terem mudado tanto, e queria revirar os olhos de desgosto por aquilo.

Harry não era James, mas você via que Sirius não conseguia diferenciar tudo completamente. Ele era o melhor padrinho que podia ser, depois de tantos anos de sofrimento e sem jamais ter tido afeto familiar, mas isso não mudava que, com Harry, ele se sentia jovial e vivo, como se ainda tivesse 16 anos. Era como se Sirius ainda estivesse fazendo NOMs, flertando com todas as meninas na beira do Lago Negro, se exibindo com suas habilidades com azarações.

Havia certa graça irônica na relação de Sirius e Harry, mas você via os problemas ali. Você via a inconsequência e o rancor de Sirius sobrepujando a necessidade de ser o adulto responsável, via a sede de justiça dele querer justificar todas as revoltas que Harry sentia. Você via os problemas se aproximando, e temia pela hora em que Harry também passaria a se ver como James, e achar que era dele a responsabilidade de salvar o pescoço de Sirius, quando, bem, não era.

Harry era só um adolescente de 15 anos. Era ele quem precisava ser salvo, não o contrário.

Você roubava beijos e carinhos de Sirius, e isso era quase o suficiente, porque vocês estavam em um mundo de guerra outra vez, e era insensato demais prometer algo na guerra. Mesmo que você o amasse, você não diria. Não naquele momento, porque vocês teriam tempo para isso depois, era o que você pensava.

Quando tudo aconteceu no Ministério da Magia, você percebeu que devia ter dito que amava Sirius quando teve chance, porque agora não fazia mais diferença. Ele tinha ido embora, para sempre, e nunca ouviria de seus lábios, entre beijos, que você o amava como nunca amara outra pessoa.

Sirius morrera fazendo o que prometera a James que faria, proteger o afilhado a todo custo, e você esperava que aquilo diminuísse a dor e o vazio em seu peito, porque você sabia que era assim que Sirius gostaria de ter morrido, como herói. Ele sempre fora grifinório demais para não ter morrido como herói.

Mas não diminuía, porque seus olhos se enchiam de água sempre que pensavam em como você tinha certeza de que Sirius ficaria ali para sempre, a seu lado, criando Harry e ensinando feitiços a ele. Você sentira seu coração ser torcido e queimado vivo quando a gargalhada de Sirius atravessou o véu, e sua dor era uma lança penetrante no meio do estômago, do tipo que petrifica. Mas ao ver Harry em completa confusão você soube que doía ainda mais nele.

Harry era novo demais para ter sofrido tanto, ter perdido tanto, e você achava que sua licantropia não era nada perto da vida miserável que ele estava vivendo, sem qualquer referência que o ligasse aos pais além das palavras dos outros. Você se pegou rindo, melancólico demais, no maior dissabor que já experimentara, ao recordar-se que Sirius costumava chamar você de piegas e emocionado, e você retrucava, dizendo ser apenas empático.

Era cruel que você tivesse partilhado tanto da vida de James e Sirius, e Harry tivesse tido tão pouco. Você queria chorar com essa ideia, e você chorou no segundo que pisou no Largo Grimmauld, número 12, para buscar suas coisas, naquela noite.

Essa foi a terceira vez que você chorou por Sirius, e ela se repetiu por dias a fio. A dor era tão lancinante que você desejava arrancar seu cérebro fora e parar de pensar. Tudo lembrava Sirius, e você só conseguia pensar que queria ter tido mais tempo. Tempo para falar que o amava, tempo para inocentá-lo, tempo para ser feliz como tantos anos atrás, naquele calor excitante de beijá-lo no armário de vassouras.

Sua vontade de viver sumiu por semanas, e você se perguntava o porquê de seus amigos, tão mais brilhantes e necessários ao mundo, terem ido antes de você. O porquê de seus amigos tão mais corajosos, tão mais dispostos a se sacrificarem, tão mais capazes de não ligar para as opiniões alheias, terem morrido e você, que era amaldiçoado desde criança e não tinha muito que oferecer à sociedade, ter ficado. Sozinho.

Você não sabia que estava tão desacostumado a ser sozinho.

“Garotos não choram, Remo. Garotos são fortes!” fora o que seu pai dissera tantos anos atrás, mas depois de tantas guerras, você tinha entendido que garotos choravam sim, porque havia momentos em que a dor era desumana, insuportável, e chorar era só o que restava.

Você eventualmente se casou, com a mulher que amava, mesmo que Sirius continuasse a ter um lugar cativo reservado em seu coração. Sirius era a memória boa que sobrara de sua adolescência, era a lembrança de ter sido um jovem vivo e com perspectivas empolgantes de como salvar o mundo de comensais da morte. Você era tão inocente naquela época, que chegava a sorrir quando pensava nas memórias amargas dos tempos de Hogwarts.

Seu filho nasceu no meio da guerra, assim como tinha sido com Harry, anos antes, e você chorou de emoção e medo quando o viu por primeiro. Teddy era todo um amor fora do seu peito, e você sabia que nunca mais seria o mesmo depois dele. Parecera óbvio, quando você o segurou, porque James morrera tão facilmente, sem hesitar. Porque Sirius se expusera no Ministério àquela noite. Se você se arriscaria por Harry, você se entregaria de peito aberto por Teddy.

Era o tipo de emoção que o fizera chorar muito, e essa foi a última vez que você teve a chance de chorar, que teve tempo de chorar.

Quando a batalha em Hogwarts começou, você soube que era o único lugar em que poderia estar, e sentiu que sabia como James tinha se sentido ao dar a vida por Lily. Por sua família, você daria tudo. Não estava nos seus planos que Tonks tivesse a mesma intenção, pois você queria que Teddy tivesse alguém, se você e Harry acabassem morrendo ali, mas ela era uma mulher muito determinada, e nada a impediria de lutar.

Essa era, provavelmente, a coisa que você mais amava em Tonks. Ela era tão intensa e inconsequente quanto Sirius, mas era tão leal e corajosa quanto ele também. Fazia sentido ela ser da Lufa-Lufa, pois não havia dor que ela temesse sentir, e isso a fazia outra pessoa mais forte do que você. Não que você ligasse. Você já aceitara que sua força estava em outras habilidades, como sua empatia, e até em sua recém adquirida habilidade de aceitar chorar.

Uma herança positiva da guerra, você pensava.

Morrer foi rápido e indolor, foi um lampejo. Você, intuitivamente, pensou em Sirius quando morreu. Pensou se ele tinha sentido aquele mesmo pânico repentino, seguido de calmaria. Pensou se ele se lembrara de você naquele segundo final, se pensara que o amava também.

Amar Sirius fora uma das coisas pelas quais sua vida valera, assim como a família que veio depois dele. Você não ousaria comparar seus amores, nem suas experiências com eles. Eram completamente particulares, únicos, e tinham sido o que o mantivera vivo e são. Você partiu com três lágrimas no rosto, não que alguém além de você fosse saber. Uma por Teddy, uma por Tonks e uma por Sirius, e todas tinham o mesmo peso em seu coração que aprendera a chorar tão recentemente.

“Garotos não choram, Remo”. Talvez só garotos idiotas não chorassem, você concluíra. Porque seria completamente ridículo ter vivido a vida que você viveu e não chorar ao ver que, depois de tanto percurso até ali, as coisas finalmente estavam bem.

Notas finais
Estou desenvolvendo o péssimo hábito de gostar de acabar fics com "Tudo ficou bem" ou "Tudo estava bem". Vejo vocês nos comentários? Beijoos ❤
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!