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CAPÍTULO 7

Pena


Mais uma segunda-feira se iniciava e Sakura tinha que fazer um esforço enorme para levantar da cama e ir para a escola. A única coisa que a motivava era o teste para a equipe de natação que se aproximava. Hoje ela teria treino antes das aulas começarem, já que ficar até tarde na escola não estava sendo muito seguro ultimamente.

Ela chegou uma hora mais cedo e foi direto para o ginásio onde ficava a piscina olímpica.

Enquanto dava braçadas e mais braçadas sobre a água morna, Sakura tentava descarregar toda sua raiva e esvaziar a mente. Queria estar preparada pelo que ainda iria enfrentar naquele dia e a ansiedade que a invadia era quase que sufocante e nadar a ajudava a ter pelo menos alguns minutos de paz.

Depois de tomar um banho e se vestir, ela foi para a sala de aula se sentindo revigorada. Ainda era cedo e pouquíssimos alunos tinham chegado. Mas ao se aproximar do pátio principal, ficou surpresa ao ver um grupo grande de colegas da sua turma lá.

Ela ficou atenta ao passar por eles, ao desconfiar de que pudessem estar tramando alguma coisa, como atirar ovos e farinha na cabeça dela. Mas conforme caminhava até as escadas e o grupo se abria dando passagem a ela, Sakura percebeu que não se tratava de ovos e farinha dessa vez.

Nas paredes, no mural e nas colunas do pátio estava escrito todo o tipo de insultos e baixaria que Sakura já tinha visto.

“Haruno Sakura já fez 6 abortos”, estava pichado em vermelho no mural de avisos. Acima do mural na parede estava escrito “Haruno Sakura é uma vadia! Não é mais virgem”.

Nas colunas perto da escada tinha “Vadia” em letras coloridas.

Enquanto Sakura lia em choque cada uma das ofensas, ela ouviu uma das meninas da sua turma, a loira que era líder de um trio de patricinhas, falar com uma indignação fingida:

-Quem teve coragem de fazer isso? Logo no pátio principal?

-Sim! Um lugar por onde todos passam! Isso é nojento. – desdenhou uma das amigas dela.

-Não deveriam revelar o segredo dos outros assim! – Gritou a terceira e todas as três começaram a rir.

Sakura olhou para elas em silêncio e soube na mesma hora que elas eram as culpadas. Sem dizer nada, ela continuou seu caminho até as escadas, mas quando chegou ao segundo andar, ao invés de ir para sala de aula, continuou subindo e correu até a escada de incêndio do último andar. Sentia algo entalado na garganta e precisava colocar para fora.

Ela apertou o parapeito e gritou.

-Fiz seis abortos?! Vadia?! Eu ainda sou virgem! Nem tive meu primeiro beijo ainda!

Sakura ofegante e corada pela raiva, se deu conta de que tinha acabado de gritar que era virgem aos sete ventos só naquele instante. Ela arregalou os olhos apreensiva e olhou para baixo, no outro lance de escada onde Gaara costumava se sentar, temendo que ele pudesse estar ali.

Mas graças aos deuses ele não estava.

Ela respirou aliviada por um segundo, até ouvir a voz dele às suas costas:

-Então você ainda é virgem.

Sakura se virou para o garoto que soltou uma risada. Embora parecesse surpresa e meio hipnotizada pela risada dele – que era a primeira vez que escutava – Sakura estava constrangida demais para ignorar o fato de que ele estava rindo às custas da humilhação dela.

-Não ria, por favor. – Ela pediu, virando-se novamente para o parapeito, com um suspiro.

-O que aconteceu dessa vez? – Gaara apoiou os braços no parapeito ao lado dela, os olhos perdidos no céu nublado daquela manhã.

-Você não passou pelo pátio principal? Está todo pichado com as piores ofensas que eu... Ah, por que estou aqui falando com você? É tudo culpa sua e dos seus amiguinhos.

Sakura olhou para ele furiosa, pronta para descontar sua raiva, mas ficou em silêncio ao ver o rosto dele de perfil. Tão pensativo e contemplativo. Ela queria poder saber o que ele estava pensando.

-Sabe a diferença de horário entre o Japão e a França? – Perguntou Gaara ainda com o olhar perdido no céu.

Que pergunta mais aleatória. Pensou Sakura.

-Eu acho que estamos sete ou oito horas à frente da França. – Ela respondeu e Gaara virou o rosto para olhar para ela. Os olhos cor de jade pareciam mais claros, assim tão perto, na luz daquela manhã cinza.

-Sério? Então todos ainda estão dormindo lá.

Sakura não queria se sentir tão atraída por aquele garoto, mas não podia evitar. Os olhos calmos, o semblante meio triste, tudo nele parecia um imã que a puxava para mais perto. Ela queria poder entende-lo, queria poder conhece-lo, descobrir seus segredos, entender como alguém como ele tinha amigos tão fúteis e cruéis.

Mas ela deveria acordar. Gaara pertencia a um mundo totalmente diferente do dela. Sakura não podia se deixar levar por uma paixonite sem sentido.

-Eu tenho que ir. – Ela disse dando as costas para ele, para seu mundo, para tudo que ele a fazia sentir.

Seu coração batia forte, mas ela dizia a si mesma que era por causa do cartão vermelho do maldito C4, das pichações do pátio naquela manhã, da raiva que ainda sentia e não por causa dos olhos cor de jade de Sabaku Gaara.

Já dentro do prédio, quando Sakura chegou ao segundo andar e virou um dos corredores que levava até sua sala, ela avistou Uchiha Sasuke perto dos armários. Ele tinha os braços cruzados, um olhar sério e estreito na direção dela.

Sakura o encarou de volta e continuou seu caminho sem se intimidar, quando uma chuva de ovos crus caiu sobre sua cabeça.

Ela parou por um instante, enquanto a risada de seus colegas crescia com um barulho estridente à sua volta. Sua visão tinha sido tapada pela franja molhada, por isso ela apenas empurrou o cabelo para longe dos olhos e continuou seu caminho.

Os olhos verdes, destemidos e brilhantes de raiva encararam os olhos negros e estreitos mais uma vez sem se intimidarem. Sakura endireitou as costas e caminhou como se tivesse uma coroa na cabeça e passou pelo Uchiha de queixo erguido.

Sim, é por isso que meu coração bate forte. Pensou ela reprimindo como podia toda a raiva que sentia.


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-Você sabe se ovo faz bem para o cabelo? – Perguntou Sakura distraída enquanto preparava um buquê de rosas.

Estava em seu emprego de meio período naquela mesma tarde, sentindo-se exausta e desanimada. Era mais fácil demonstrar força quando estava na escola, mas quando saía de lá, ela parecia prestes a desmoronar.

-Deve fazer, já que proteína faz bem para a saúde – respondeu Hinata dando de ombros. Ela queria fazer uma piada, mas se arrependeu ao ver a expressão da amiga. – Ainda estão jogando ovos em você?

Sakura apenas assentiu e Hinata se aproximou dela preocupada.

-Achei que isso não fosse durar muito tempo. Pelo jeito me enganei sobre o nível de futilidade desses adolescentes ricos e mimados. – Hinata não gostava de ver a amiga com aquele olhar triste e cansado.

Sabia que Sakura era destemida e forte como ninguém, mas até a pessoa mais forte do mundo se cansava ao ser atacada todos os dias.

-Escreveram umas coisas sobre mim nas paredes e eu tive que limpar tudo ou levaria outra advertência.

-O que?! Que injusto!

Hinata apertou a mão da amiga, fazendo-a parar e olhar para ela.

-Sei que disse que você era forte e que passaria por tudo de cabeça erguida, mas Sakura... Será que não é melhor você sair dessa escola? Estou preocupada com você. Essas pessoas podem te machucar de verdade.

Sakura encarou os olhos preocupados da amiga. Já tinha pensado em desistir muitas vezes, mas não podia ceder agora. Ela tinha muito a perder.

-Só mais um pouco. Tenho que aguentar só mais um pouco. – Ela respondeu pensando em tudo que ela perderia se desistisse agora. – Logo vou terminar o ensino médio e esse pesadelo vai acabar.

Ainda faltava um tempo para o fim.

Mas o fim sempre chegava, não é mesmo?


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No dia seguinte, a manhã na escola começou sem grandes emoções. Sakura não foi atacada por ovos, ninguém a empurrou ou jogou lixo em seu armário, nem escreveu novas ofensas nas paredes.

Era estranho, mas Sakura não estava reclamando.

No fim da segunda aula, Sakura notou que Karin não tinha aparecido na escola e só na hora do almoço foi que ela descobriu o porquê.

Enquanto guardava os livros no armário, ouviu alguém dizendo que Karin tinha recebido um cartão vermelho naquela manhã e que ela tinha se escondido no banheiro a manhã inteira.

-Onde ela está agora? – Gritou Sakura para a garota que contava aquilo para a amiga com um sorriso maléfico. – Onde?

-Levaram sua amiguinha para o pátio. Fiquei sabendo que foi culpa sua. Viram ela te ajudando ontem a lavar o cabelo no banheiro.

Sakura fechou seu armário bruscamente e saiu correndo na direção das escadas em disparada. Não iria permitir que Karin fosse atacada por culpa dela. Ela não tinha feito nada de errado!

Quando Sakura estava lavando o cabelo da chuva de ovos que tinha recebido no dia anterior, Karin só a ajudou lhe entregando uma toalha. Aquilo não era justo!

Mas desde quando acontecia justiça naquele lugar?

Antes que Sakura descesse até o pátio principal, ela já podia ouvir os gritos e risadas. O pátio estava apinhado de alunos e de muito barulho. Sakura passou pela multidão empurrando e se esgueirando para chegar até a frente, onde provavelmente estava Karin.

Quando conseguiu chegar até a metade, conseguiu ver por cima de algumas cabeças onde estava o C4, como sempre, no trono deles obtendo uma vista privilegiada de toda aquela algazarra. Uchiha Sasuke no centro, seus amigos ao redor dele. Gaara ignorando tudo, como se não estivesse em um lugar tão barulhento.

Sakura conseguiu enfim ver onde Karin estava, no centro do círculo, sentada no chão e encolhida, toda suja de ovos e farinha de trigo. Sakura empurrou um dos garotos que estava jogando os ovos e gritou com os outros, ordenando que eles parassem.

Quando a viu, Sasuke ergueu uma mão e todo o barulho cessou na mesma hora. Gaara, que estava lendo um livro como se estivesse numa biblioteca também ergueu o olhar para Sakura.

-Por que está fazendo isso com ela? – Gritou Sakura ofegante, abaixando-se ao lado da Karin. – Seu alvo sou eu!

Todos olharam para o Uchiha em silêncio absoluto. Ele estava sentado em seu trono, o olhar estreito na direção de Sakura e um meio sorriso que Sakura quis tirar com um soco na boca dele.

-Bem lembrado. – Disse ele com uma sobrancelha arqueada.

E isso pareceu uma deixa para que a multidão voltasse a atacar. Eles começaram a jogar objetos na direção das garotas e Sakura levantou o braço para proteger o rosto, mas dessa vez o ataque não durou muito.

-PAREM! – gritou Sasuke se colocando de pé.

Sakura também se levantou, percebendo que o Uchiha parecia furioso, o que só a deixava furiosa também. Qual motivo ele teria para estar com raiva? Não deveria estar se divertindo com aquela perversão gratuita?

-Se você quiser que isso acabe – disse ele a encarando – se ajoelhe e peça desculpas. Assim sua amiguinha será liberada do cartão vermelho.

Sakura o encarou de volta, depois percorreu seus olhos pelo pátio. Ela olhou por um momento para o Gaara e ele a olhou de volta. Em sua expressão, Sakura percebeu que ele a encorajava a fazer o que o Uchiha pedia.

Então era assim que todos conseguiam um pouco de paz? Se submeter a ele? Fazer o que ele quisesse sempre que ele mandasse?

Sakura não era uma pessoa orgulhosa. Ela podia se desculpar quando estava errada, isso não era problema nenhum.

Mas o que ela tinha feito de errado?

Não.

Não vou me submeter a esse garotinho mimado. Ele que vá para o inferno!

Sakura respirou fundo e por um segundo ela viu que todos acharam que ela tinha aceitado a derrota. Mas ao invés de se ajoelhar, ela ergueu o queixo e deu um passo para frente.

-Pelo que, exatamente, eu tenho que me desculpar, Uchiha? – perguntou olhando diretamente para o líder do C4. – O que foi que eu fiz de errado? Alguém sabe? Foi por ter chamado você de riquinho mimado idiota? Ou por ter chutado essa sua cara feia?

Todo mundo ficou em silêncio, um silêncio apreensivo e de medo. A multidão ficou olhando de Sakura para o Uchiha.

Sasuke pareceu por um momento surpreso, mas logo a máscara inexpressiva assumiu seu rosto. Ele desceu do palco e se aproximou lentamente dela.

-Você se acha muito corajosa, não é Haruno? Mas é apenas muito burra. – murmurou ele, bem perto do rosto dela. – Você não é ninguém, você é como um pedaço de merda preso no meu sapato e acha que pode me enfrentar? Você tem ideia do que sou capaz de fazer apenas com um telefonema? Posso acabar com a sua vida sem fazer muito esforço.

Sakura não duvidava disso. Mesmo assim não podia abaixar a cabeça para ele. Sasuke era uma cabeça mais alta que ela, por isso Sakura precisou levantar a cabeça para olhar bem nos olhos dele.

-E por que você faria isso? Essa é sua ideia de diversão? Arruinar a vida de outra pessoa te dá prazer? – Sakura riu sem humor. – Deve ser tão triste ser você, Uchiha! Eu não tenho dinheiro como vocês, mas tenho tudo que preciso para ser feliz sem precisar causar dor a outra pessoa. Então, para mim, o pedaço de merda aqui é você. Tenho pena de você.

Sasuke pareceu ficar meio atordoado e não conseguiu responder. Sakura viu que os olhos dele escureceram de ódio antes de se afastar dela e gritar para que todos continuassem com o castigo.

Sakura tentou se proteger com os braços novamente quando a chuva de lixo e ovos retornou e correu até Karin. Ela viu alguém levantar uma garrafa de vidro na direção da amiga e correu para protege-la.

A garrafa jogada se espatifou no piso do pátio, um pedaço grande voou e bateu no antebraço de Sakura, rasgando sua pele.

O grito assustado de Karin foi o que fez todos pararem.

Sangue.

A cor viva, quente e brilhante se destacou no meio do caos, manchando o chão de pedra clara do pátio.

Sakura estava de joelhos ao lado de Karin, agarrando seu braço ensanguentado, a dor e o pânico invadiram seus sentidos sem permissão. Ela ficou em choque, olhando para o sangue por um segundo e no outro começou a chorar sem poder se conter.

Essas pessoas podem te machucar de verdade. Dissera Hinata e ela estava certa.

Medo gelou a espinha de Sakura e um soluço escapou de sua boca.

Alguém tapou e apertou sua ferida com um pedaço de pano, Sakura não conseguiu ver quem tinha se aproximado dela. Estava cega pelas lágrimas e pelo choque, mas reconheceu a voz de Gaara em seu ouvido.

-Vou te levar para a enfermaria. Fique calma.

Ele a ergueu em seus braços e a segurou no colo, levando-a rapidamente para longe dali.

E só por um segundo.

Apenas por um segundo ela se permitiu confiar nele.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.