Boycott Luv
1 Apresentação
Sabe aquela coisa que você fala quinhentas vezes com uma pessoa, mas mesmo assim a pessoa em questão não assimila? E mesmo que você insista, ensine, xingue, berre, esperneie, a coisa não adianta? Pois é, bem vindo ao meu mundo.
Bem, desculpem-me pela rudeza, nem me apresentei e já estou aqui lamentando de meus problemas. Meu nome é Alphonse Craft. Moro em um apartamento no centro da cidade. Sou formado em ciência da computação em uma renomada faculdade, porém, trabalho como Chef de cozinha em um restaurante. Cozinhar sempre fora um hobbie passado de geração em geração na família Craft, e eu resolvi adotá-lo como método de vida. Tenho 27 anos e dois prêmios de melhor cozinheiro do ano pela badalada revista Olion.
E como essa situação desesperadora começou? Ah, sim claro. Tudo começou há exatamente 3 anos atrás, onde, em uma medida desesperada para conseguir dinheiro, me ofereci para dar aulas para alunos do ensino médio.
Meu primeiro aluno foi ele. Um garoto magricela, baixinho, de cabelo castanho caindo na testa. Um projeto de gente. Vou te contar: A criatura... Digo... O ser humano em questão era mais desastrado do que um elefante na loja de cristais. Por exemplo, mostrando como a lei de Murphy é poderosa, ele deixou um enfeite de vidro que ganhei de presente de minha falecida Avózinha cair no chão e se espatifar em mil pedaços. O mais engraçado, é que o enfeite em questão estava dentro de um armário. Não perguntem como, mas a proeza foi realizada.
Enfim, apesar de tudo, ele era muito esforçado e uma graça de pessoa. Acabou que aula vai, aula vem — e uma tentativa de suicídio da minha parte — depois, nós acabamos tendo um... Rolo.
E esse rolo durou. Durou durante dois anos (sendo que só nos víamos uma vez a cada duas semanas, por aí, graças aos céus), até que ele se formou na escola e... O trágico aconteceu.
Lá estava eu, esparramado pelo sofá, com uma bacia de pipoca na barriga e assistindo a Discovery Chanel, quando alguém — cujo qual nomeei um infeliz no momento, para não citar outras coisas — bateu na porta. Relutante, e com medo de ser um daqueles vendedores de porta, fui atender. E era esse garoto.
Acreditam que a mãe da criatura o colocou para fora de casa, sem base nenhuma, assim quando ele fez 18 anos, alegando que ele já estava grande demais para se cuidar sozinho? Desnaturada, não? Eu que o diga. Na verdade, acredito que ela foi levada para um manicômio alguns meses depois, mas isso não vem ao caso.
A questão é que: Ele veio para onde? Para o único lugar que seu cérebro de minhoca pensou: A minha casa. Compadecido, deixei então que ele morasse comigo, contanto que, como ele não trabalhava, fizesse uma faculdade e limpasse a casa. Pelo menos reduzi os gastos com a empregada.
Desde então, aqui estamos.
—Ok, Kyle. Pessoas normais NÃO explodem microondas. Não duas vezes.
— Mas... Mas... — ele vai te olhar com cara de cachorro sem dono e você vai ficar com dó — Eu... Eu... Me desculpa Al...
Você vai revirar os olhos para cima e avaliar se o estrago foi muito intenso. No caso, dessa vez foram alguns azulejos da parede, mas nada que um bom pedreiro não resolva. O pobre coitado do microondas se extinguiu de sua pobre existência.
É nessa hora, que ele vai se chamar de fracasso e vai bater na cabeça, quase começando a chorar. Você vai correndo que nem uma mãe cuidadosa amparar o pobre coitado, mesmo perguntando se a pena por jogar uma pessoa da janela é muito alta.
— Não tem problema, querido — tenho medo da minha voz melosa nessas horas, sério — o importante é que você não se machucou, certo?
— Certo — ele vai fungar um pouco, e logo depois vai se recrutar a limpar a bagunça, não sem tropeçar pelo menos uma vez antes.
— E você lembrando que não pode colocar metal no microondas...
— Não vou esquecer! Pode deixar. — ele vai dizer, catando os pedaços do falecido eletrodoméstico. Mas você tem a certeza que seu próximo aparelho não durará um mês.
Isso me lembra a vez que eu perdi-o no shopping. Ah claro, como posso escrever tal experiência tão traumatizante? Como vou contar um dia para minha família que encontrei meu namorado no cercadinho das crianças perdidas, abraçado com um panda de pelúcia?
— Olá, tudo bem? — perguntei simpático, para a balconista do guichê de informações.
Ela sorriu, igualmente simpática e me respondeu.
— Sabe, eu perdi uma pessoa por aqui, mais ou menos 1,65 de altura, cabelo castanho...
A balconista me olhou tão desconsoladamente, que cheguei a ter pena dela.
— Er... É aquele ali? — E me apontou no meio das crianças pirulitantes, o meu namorado, deitado no chão acolchoado e dormindo, abraçado ao panda.
Um dia, eu juro que vou me mudar para o Himalaia.
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