A neve caia lentamente, juntando-se aos poucos ao manto branco que já cobria as rua, chegando à altura dos tornozelos. Era uma cena agradável de se observar de casa, naquele Natal. Os flocos imaculados enchendo a cidade com sua graça. As crianças sorriam às mesas de jantar, dando uma ou outra olhadela para as meias natalinas penduradas na lareira, expectante. Em uma casa em especial, a família se reunira depois de muitos anos de briga, com sorrisos enfeitando rostos de várias idades diferentes.

Eles estavam concentrados demais em sua própria alegria para ouvir um chamado discreto vindo do lado de fora, pronunciado por uma voz rouca e entrecortada, de alguém que apoiava-se no portão com desolação, tentando se manter equilibrado diante da fraqueza e da neve que lhe atrapalhava o andar. O garoto apenas deixou de tentar quando percebeu que era impossível. Ninguém lhe ajudaria naquela casa.

Soltou-se lentamente do portão de ferro, sentindo as mãos arderem horrivelmente, graças ao frio. Arrastou os pés pela neve, tendo que se esforçar para continuar sua caminhada. Em seus cabelos lisos e loiro-claros, pequenos flocos de neve se prenderam, aos poucos caindo com os passos torpes do garoto e sendo substituídos por outros. Pelo caminho que passava, deixava um rastro de neve remexida e pequenas manchas de terra que logo eram cobertas pelo branco puro e monocromático novamente.

Seu nome era Tino. Sua idade não importava, pois, como não mudaria novamente, ao invés de ser representada por frios e indiferentes números, era mais aconchegante dizer que era sua idade eterna. Havia saído de casa sob a ordem de seu pai, um miserável viúvo bêbado, que lhe disse que deveria voltar apenas quando conseguisse algo de comer, mesmo que um pão fosse. Infelizmente, poucas pessoas saiam de casa naquele dia, estavam ocupadas em preparar a ceia e enfeitar a casa. Tampouco lhe atenderam quando chamou.

O loiro não tinha mais reais esperanças de conseguir algo àquela hora. A meia-noite já estava próxima. Um coro reconfortante e harmonioso vinha da Igreja e o garoto pensou em entrar para se aquecer, porém algo na rua lhe chamou a atenção antes que pudesse ver a bela morena que representava a Virgem Maria e as crianças vestidas de anjo. O canto de seus olhos lilases capturaram de relance longos cabelos dourados e suavemente ondulados. Quando se virou, porém, não havia nada. Ignorando tal fato, seguiu pela direção contraria à Igreja, seguindo para onde achou que aquela mulher fora.

Entretanto, pouco depois de virar uma rua, por novamente ter visto o vulto dourado, suas pernas cederam. Caiu na neve, sentindo o frio da neve adentrar suas roupas. Seus lábios arroxeados se tornaram um sorriso fraco ao sentir mão cálidas, delicadas e conhecidas, brincarem com seus cabelos.

— Feliz... Natal... mamãe... – disse com dificuldade, permitindo-se fechar suas pálpebras e relaxando o corpo.

Fora o último Natal de Tino.

His light went out

Notas finais
Espero que tenham gostado e que tenham tido um feliz Natal ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!