Bourbon Street

26 Capítulo Vinte e Seis - Conversa de um homem só


Notas iniciais
Espero que gostem :*

Acordei um pouco desorientado, procurando o sol e a espreguiçadeira quebrada, mas tudo que eu senti foi uma brisa fria entrar pela janela e meu corpo de encontro a lençóis macios.

Ainda de olhos fechados, senti o calor de Rafael e me aconcheguei ainda mais nos seus braços fortes, sentindo-o apertar minha cintura. Um sorriso de canto de boca nasceu em meus lábios quando me lembrei da nossa primeira vez. Fora tudo tão suave e doce, que chegava a acariciar minha alma.

Eu desejava sentir aquilo pelo resto da minha vida.

Eu ouvia passos pelos corredores, mas aquilo era tão normal quanto sexo, já que havia dezenas de empregados naquela casa.

— Rafael — a porta se abriu.

Meu corpo inteiro tremeu de susto quando vi a senhora parada à soleira da porta. Levantei meu tronco, fugindo das mãos do homem ao meu lado e a observei. De repente percebi que estávamos nus e, em um puxão rápido, nos cobri com um lençol.

— Oi, eu... hã...

— Quem é você?

Eu não tinha palavras para aquele momento.

— Eu sou o Enzo, eu... hã... posso me vestir antes de tudo? — minha feição deveria estar horrível.

A senhora assentiu, dando meia volta e saindo do quarto.

Respirei fundo ao mesmo tempo em que jogava meu corpo para trás. Aquilo fora extremamente constrangedor. Eu nem sabia quem era aquela senhora e já desejava nunca mais vê-la.

Com a cabeça começando a ficar dolorida e um embrulho no estômago, saí da cama e comecei a me vestir. Olhei diversas vezes para Rafael, perguntando-me se deveria ou não acordá-lo e, por fim, decidi que o deixaria dormir. Ele precisava de um descanso.

Andei pela casa, só encontrando a senhora na sala do andar debaixo. Parei encostado à lateral da escada, observando-a.

Não parecia possuir mais de setenta anos apesar das marcas de expressão por todo o rosto. Tinha olhos azuis e cabelos loiros, muito bem penteados para trás.

Sua expressão não era nada boa e, julgando pela força que passava as páginas da revista em suas mãos, estava estupidamente irritada.

Não sei o que a fez girar o rosto na minha direção, mas ao fazê-lo, cruzou as pernas e jogou a revista em cima da mesa sem sequer desviar o olhar do meu. Senti como se estivessem enfiando uma faca no meu peito ao olhar diretamente para seus olhos. Ela tinha os mesmos olhos azuis de Rafael.

— Você tinha que escolher justamente o meu filho para praticar esses atos chulos? — sua voz era áspera.

Cerrei os olhos. Aquilo não podia estar acontecendo.

— Foi ele que me escolheu — respondi com toda educação que há nessa vida — E não o contrário.

Minha resposta pareceu corroê-la por dentro.

— Ele sempre fez as decisões mais estúpidas — praticamente cuspiu as palavras.

— Eu não fiz nada para você.

— Me trate com respeito — sobrepôs um tom — Não sou da sua laia.

Por um tempo eu apenas fiquei pensando no que responder, mas depois acabei me decidindo que não valeria a pena lutar. Seria em vão.

— Sim, senhora — apenas assenti.

— Eu vim ver o idiota do meu filho, mas parece que ele não quer me ver — bateu as mãos na coxa, levantando-se.

Pelo jeito ninguém quer ver a senhora — pensei comigo mesmo.

— Escuta, Enzo — ela parou de frente para a porta, virando-se apenas para olhar dentro dos meus olhos — Você não é bem-vindo na minha família e muito menos na minha casa.

E aquele foi o gran finalle.

Abaixei a cabeça depois de vê-la saindo da casa. Deixei que um suspiro escapasse da minha boca, mas não permiti que uma lágrima escorresse pelo meu rosto. Eu era forte, havia suportado coisa demais para me sentir mal apenas por aquilo.

Com aquelas últimas palavras presas na minha cabeça, voltei para o quarto e me deitei ao lado de Rafael. Ele se remexeu na cama, puxando-me para mais perto e, com a cabeça colada em seu peitoral, deixei que meus olhos se fechassem.

Pouco tempo depois, acordei ao ouvir Rafael se levantar. Mesmo de olhos fechados eu podia senti-lo dobrando um dos lençóis, incomodado com a bagunça. Sua mania de organização chegava a ser engraçada.

Abri os olhos, exibindo um sorriso de canto de boca. Ele já me analisava, sorrindo largamente ao ver meu corpo entre seus lençóis.

— Você não estava assim quando eu te trouxe para cá — referia-se às minhas roupas.

— É, eu acordei um pouco antes de você — tentei sorrir.

Ele assentiu com um sorriso, guardando o lençol dentro do armário.

— Sabe — ele ruminava — Estava pensando, poderíamos repetir a dose de mais cedo?

Levantei-me da cama de repente, jogando-me na poltrona.

— Podemos sim, mas só depois que você me disser o que sua mãe está fazendo em New Orleans. Pensei que estivesse morando em Paris.

— O quê? Minha mãe j-já? — olhou assustado para o relógio e levou as mãos ao rosto — Como foi? — jogava-se sentado na cama.

— Bom, você e eu estávamos nus — dei de ombros — Então foi tudo bem tranquilo — ironizei.

— Droga — parecia repreender a si próprio.

— O que foi? — procurava seus olhos, não encontrando.

— Ela te viu nu mais rápido do que eu — e lá estavam os belos olhos azuis, encarando-me com um sorriso desenhado nos lábios.

Não deixei de rir, sendo acompanhado por ele.

— Idiota — murmurei ao começar a ajudá-lo a arrumar a cama.

Ele se levantou e se aconchegou atrás de mim, roçando a ponta do nariz no meu lóbulo.

— Minha mãe ainda está aqui?

Revirei os olhos, tomando cuidado para ele não perceber.

— Foi embora.

— Humm — murmurava — O que achou dela?

— Ah, nós não conversamos muito, mas ela é legal — tentei mentir.

— Humm é, você só errou em uma coisa — abraçava-me com mais força.

— O quê?

Ele se afastou, sentando-se na cama à minha frente.

— Minha mãe não é legal.

Respirei fundo.

— Tenho certeza que ela já te provou isso.

Fiquei sem palavras.

Eu precisava me decidir.

Falar a verdade ou mentir.

Qual?

— Sua expressão já disse a verdade — sorriu de lado — Não precisa mentir.

Suspirei com peso.

— Desculpe.

— Não, está tudo bem — disse, apertando minha mão com leveza — Todo mundo acha.

— Sinto muito.

Ele sorriu, confortável com meu calor.

— E então — puxou-me para perto, abraçando-me pela cintura — O que ela te fez?

No início hesitei em contar a ele a conversa que tive com sua mãe, mas seus olhos me observando tão de perto me incentivavam a falar a verdade. Eu também não queria mentir para ele e, muito menos, começar um relacionamento embasado em mentiras.

— Enzo — ele balbuciou assim que eu terminei — Eu sinto muito por isso.

— Não precisa se sentir culpado.

— Mas isso é sério, eu não devia ter me esquecido o dia em que ela chegaria e...

— Schh — tapei seus lábios com o indicador — Já aconteceu — sorri sinceramente — Não podemos fazer mais nada, então... — toquei seus lábios com calma — ... esqueça.

Ele assentiu, apertando minha mão.

— Bom, eu tenho um paciente daqui há pouco — anunciou — Vou tomar banho, está bem?

Assenti.

— Rafael — o via andar — Será que...?

— Eu posso te levar ao hospital sim — piscou antes de adentrar o banheiro em completo silêncio.

Olhei para baixo, tentando manter o sorriso no meu rosto.

Eu sabia que ao encontrar Nicholas novamente voltaria a ficar confuso e aquilo acabava por me deixar com um pé atrás. Mas uma coisa era certa: Eu não o abandonaria de forma alguma.

xXx

Depois de me deixar na porta do hospital e me dar um beijo de arrancar suspiros, Rafael seguiu para sua clínica mais próxima.

Ao passar pelos corredores do hospital, encontrei Amélia próxima ao quarto onde Nicholas estava. Ela conversava com o médico.

— Eles continuarão aqui — dizia.

— É o melhor.

— Enzo, meu caro — ele abriu um sorriso assim que me viu — Achei que só viesse mais tarde.

— Ah, é — suspirei — O Rafael precisou atender um paciente aqui perto e... — os olhos de Amélia sorriam para mim e eu acabei ficando com vergonha — Ah, eu... ah... Posso ver o Nicholas?

O médico sorriu.

— Vai lá — abriu a porta para que eu pudesse passar.

Sorri para ele antes de cumprimentar Amélia com um aceno de cabeça e adentrar o quarto.

A porta foi fechada atrás de mim.

Um último suspiro fugiu silenciosamente dos meus lábios quando meus olhos encontraram Nicholas desacordado sobre a maca do hospital. Era sempre a mesma coisa, sempre o mesmo sentimento, sempre o mesmo desespero. Meus olhos infinitam os meus sentimentos toda vez que eu passava por aquela porta e o encontrava tão fragilizado.

Na manhã daquele mesmo dia eu não estava tão confuso, mas tudo pareceu vir à tona de repente novamente e, parado ao lado dele, envolvi sua mão com a minha e fechei os olhos suavemente.

— Você podia tanto estar aqui — sussurrei cabisbaixo — Não quero muito de você, Nicholas, só preciso que esteja aqui.

Suspirei e, como se ele falasse comigo, respondi:

— Eu sei que transei com outro homem, mas você não pode me culpar por isso. Não, de forma alguma.

Ainda apertando sua mão, puxei uma cadeira e fiquei ali. Lado a lado.

— Eu descobri tanto de você antes de tudo isso acontecer e agora tudo parece ser uma névoa de confusão dentro da minha cabeça e, mesmo sabendo que descobri tanto, percebo que não é nem a metade do que você esconde.

Soltei um sorriso melancólico.

— Você não pode me culpar por tentar ser feliz, Nicholas, não pode.

Balançava a cabeça inconscientemente, como se o repreendesse.

— Eu estou com ele, mas também estou aqui. Nunca vou desistir de você; sei que a nossa situação é bem difícil, mas não é impossível. Nós podemos conseguir.

Deitei a cabeça sobre nossas mãos unidas.

— Estou diferente? Pelo menos um pouco? Sabe, estou falando da minha personalidade. Eu pareço mais calmo, entende? Acho que aprendi isso durante esses meses que convivi com o Rafael. Ele é assim. Paciente.

Sorri ao pronunciar o nome dele.

— Ele acaba passando tranquilidade para mim. De alguma forma consegue esvaziar minha cabeça e aí tudo fica mais leve — respirei fundo — Eu não deveria estar falando de outro homem para você, não é mesmo? Sinto muito. Sério.

Ergui o olhar, contemplando seus traços faciais.

— Eu não tenho mais ninguém para conversar sobre ele, sinto muito — meu olhar pareceu ficar distante — Sei que é errado, mas... eu preciso de ajuda.

Respirei fundo, tentando conter o desespero que tomava conta de mim.

— Ele assumiu que me ama — suspirei — Não que eu já não soubesse disso, mas ele disse isso em voz alta e para mim — olhei para a parede — Não consegui responder e isso me preocupa. O que ele está pensando? Não sei se consigo parar de pensar e eu tenho tantos problemas que já não sei mais o que fazer.

Engoli em seco.

— Acho que o jeito é continuar vivendo — minha cabeça começava a latejar — Um dia tudo melhora.

Vagarosamente me ergui, preparando-me para deixar um beijo em sua testa e, quando meus lábios tocaram sua pele, senti aquela conhecida corrente elétrica percorrer minhas veias. De olhos fechados, suspirei.

— Foi uma conversa difícil.

Aquela voz acabou por me assustar e, pulando de susto, virei-me para trás.

Suspirei ao ver quem era.

— Está aí há muito tempo?

— Não muito — o médico se sentou na poltrona — Pode conversar comigo, se quiser.

— Não quero tomar o seu tempo — disse.

— Pode deixar que eu me preocupo com o meu tempo — sorriu de lado.

Assenti, sentando-me na cadeira novamente. Dessa vez de frente para o médico.

— Você o ama — ele insinuou.

— Eu amo os dois — limpei meus olhos com uma mão — Isso é tão impossível.

— Não acho — ele estava sério — Você pode amar os dois ao mesmo tempo, só não pode achar que vai ser fácil e... bom... os dois precisam saber disso.

— Rafael sabe da minha confusão e vem sendo bem paciente — minha dor de cabeça aumentava silenciosamente.

— Mas um dia a paciência dele vai acabar, Enzo — deu de ombros — Pense nisso.

Ele se levantava.

— Bom, até amanhã — sorriu de lado.

— Até breve — tentei sorrir também — Ah, obrigado.

Ele assentiu ao fechar a porta atrás de si.

Suspirei, voltei a contemplar o homem deitado e apertei sua mão uma última vez.

— Eu não sei se você desistiu de viver, mas eu não desisti de você e nem vou — uma lágrima deslizou pela minha bochecha.

A última coisa que eu fiz antes de sair dali foi deixar um selinho em sua testa.

Amélia estava sentada em um banco fora do quarto e sorriu para mim quando me viu, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, meu telefone tocou e eu o atendi.

— Enzo? — era Rafael.

— Aconteceu alguma coisa? — a voz dele não estava nada normal.

— Precisa vir até aqui — suspirou.

Meu coração pareceu gelar.

— É urgente.

Notas finais
Até o próximo e comentem o que acharam :*