Bourbon Street

13 Capítulo Treze - O chorar do céu


Notas iniciais
Como prometido, aqui está o capítulo :3 Playlist: Nome: Everything's Alright - Laura Shigihara Link: https://www.youtube.com/watch?v=Cdux5CnfPIk

As pessoas olhavam para mim com o olhar carregado de pena à medida que eu me movimentava vagarosamente pelas ruas do centro de New Orleans. Eu já havia me acostumado, era assim há exatos um mês. Pelo menos elas não tentavam conversar comigo nem perguntavam o porquê da minha feição.

O olhar baixo e cansado, a barba por fazer e as roupas amassadas eram algumas das minhas características naquela nova fase da minha vida. Meus ombros já estavam cansados de carregar o peso do mundo e das minhas perdas e, viver já não tinha significado.

Desde pequeno decidi que o que me faria viver seria o amor, pois de todos os sentimentos ele é o mais bonito. Porém, eu nunca o havia experimentado até encontrar Nicholas.

Não posso negar que sexo era a única coisa que eu queria dele nos primeiros dias, mas depois tudo mudou. Eu desejava muito mais do que uma noite ao seu lado, muito mais que seu corpo. Eu queria seu coração.

— Enzo? — olhei para os lados procurando quem me chamava — Meu Deus, quanto tempo — a mulher exclamou e eu já podia sentir seu corpo bater contra o meu. Não demorou muito para que eu percebesse quem era — Você está bem? — Lia se afastou alguns centímetros e me encarou, ainda segurando meus ombros — Que saudade de você — seus lábios tocaram os meus em um selinho demorado e se afastaram.

Aquilo foi a primeira experiência de beijo que eu tive em tempos.

Estava assustado com sua aproximação repentina e não sabia se minha voz sairia normal, já que eu não conversava normalmente com alguém há muito tempo. Era apenas “bom dia”, “estou bem” e “boa noite” que eu era obrigado a pronunciar ao chegar e sair do trabalho. As pessoas deviam estar começando a achar que eu era mudo.

— Enzo? — ela ergueu as sobrancelhas.

Molhei os lábios, preparando-me para dizer que tudo estava bem, mas não consegui abrir a boca e pronunciar uma única coisa sequer, então apenas assenti afirmativamente com a cabeça.

— De verdade? — cerrou os olhos.

Eu precisava falar, mesmo não querendo.

— Sim — minha voz saiu falha, como eu já imaginava.

— Sua voz está horrível — ela me avaliava.

— Só estou um pouco gripado — aquela devia ser a maior frase que eu havia dito dentro de um mês — E eu preciso ir.

— Ah, claro — exclamou — Ah, só uma última coisinha antes de você ir... — murmurava cautelosa — Já pensou em cortar o cabelo?

— Não vai ser preciso.

Lia me olhou como se tentasse entender.

— Porque nós não saímos algum dia desses? — ela parecia estar intrigada.

— Não vai ser possível.

— Enzo, tem certeza que está bem?

— Preciso ir, Lia, obrigado pela preocupação — beijei sua bochecha contra minha própria vontade e me afastei velozmente, já andando para o lado contrário.

Certamente aquela fora uma das conversas mais tensas que já tive.

Já fazia alguns dias que um pensamento e uma vontade estavam estigmatizados na minha mente. Mas eu tinha medo.

Medo de sentir dor, medo de parar de respirar.

Simplesmente tinha medo de ser amaldiçoado por Deus – mesmo não acreditando muito nele – e acabar como mais um andarilho no purgatório.

Eu já fui muito feliz na minha vida, apesar de ter sofrido bastante também. Porém, naquele momento eu parei e pensei. Felicidade é algo que não existe, é apenas uma coisa que você coloca na cabeça e almeja lograr. Ela depende apenas do que você possui e eu já não possuía mais nada.

Enquanto eu retornava para o prédio em que trabalhava, várias imagens passavam pela minha cabeça. Nick sorrindo maliciosamente enquanto suas mãos me acariciavam, seus olhos brilhantes e até mesmo enraivecidos.

Há algum tempo eu daria tudo para estar com ele novamente, até mesmo minha vida. Porém, naquele momento eu estava disposto a perdê-la.

Fechei os olhos ao perceber que chuviscava. Era uma chuva fina que caía do manto nublado estendido acima de todas as pessoas. Era suave, mas ao mesmo tempo intensa, como meu eu interior. Aparentemente eu poderia estar calmo, mas minha cabeça era uma fusão de pensamentos ensandecidos e meu coração uma mistura inexpressível de sentimentos.

Naquele momento eu já havia passado pelo porteiro e já me dirigia para o último andar, onde passaria para o telhado.

Em algum lugar do meu cérebro uma música tocava e seus versos se repetiam sem parar. Uma melodia suave e uma voz bonita unidas formavam uma harmoniosa e bela canção. John Lennon tinha o poder de me acalmar. Pena que naquele momento ele não me faria mudar de ideia.

O céu nublado se estendia sobre mim, a noite estava fria, sombria e chuvosa.

Meu cabelo já estava levemente molhado e minhas roupas tomavam o mesmo rumo. Meu peito doía de tanto ser espancado pelo meu coração idiota. As lembranças de uma vida inteira passavam pela minha mente como as imagens de um filme em preto e branco. Minhas lágrimas misturavam com as gotículas da chuva, fazendo zigue-zague pela minha pele, dançando como o vento em um dia de primavera. E, a cada piscar de olhos e a cada barulho de sirene, uma lágrima fugia.

O céu chorava, meu coração chorava e eu chorava.

O chão do telhado estava completamente molhado e algumas poças isoladas se faziam presente.

Caminhei até a ponta do prédio e olhei para baixo, trinta metros até o chão e poucos segundos para o meu fim. Aquele era meu doce fim. Ecoava dentro de mim.

O vento raso começou a debater contra mim, como se gritasse “não” diversas vezes e eu não pudesse escutar. Fechei os olhos e senti cada pedaço do meu corpo. Ele tremia de medo, pavor, terror, horror e todos esses sinônimos idiotas.

Eu não queria morrer, não queria sentir dor, não queria ser fraco a ponto de tirar minha própria vida. Nunca pensei muito sobre suicídio, mas o que um suicida realmente é? Uma pessoa corajosa ou uma pessoa fraca? Não sabia e provavelmente nunca saberia.

Meu coração se despedaçava aos poucos, quebrando-se por partes e espalhando meus sentimentos e emoções no chão, como uma enxurrada.

As sirenes altas podiam ser escutadas ao longe. Muitas pessoas estavam paradas nas ruas lá embaixo, olhando para cima e esperando que eu pulasse.

–[Fim de Flashback]-

Era por isso que eu estava chorando, por causa do merda do Nick e, era exatamente por isso que eu iria desistir da minha própria vida.

Sempre por causa daquele idiota, estúpido e infeliz chamado Nicholas Phillips.

Apoiei meu pé na ponta do prédio soltando um último e exasperado suspiro. Eu podia ouvir vozes vindas das escadarias e sabia que em alguns minutos algum bombeiro ou policial viria conversar comigo e pedir que eu não fizesse o que estava prestes a fazer.

O portão do telhado se abriu, mas eu não me virei sequer para averiguar quem era.

O que eu definitivamente não esperava era ouvir aquela voz.

Notas finais
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