Bourbon Street
33 Capítulo Extra - Se você tiver que morrer, lembre-se da sua vida
Notas iniciais
— E o que você fez na semana passada, Dudu?
O menino mulato levantou os olhos extremamente negros e me encarou por baixo dos cachos alongados. Esperei que me respondesse, mas apenas abaixou a cabeça e jogou os dados em cima do tabuleiro mais uma vez. O observei enquanto mexia seu carrinho e, então, quando chegou ao fim, deu de ombros, completamente entediado.
— O que acontece depois que consigo todo esse dinheiro? — Voltou a me olhar — Viro uma estrela? Como a mamãe?
Aprumei meus ombros e observei com atenção seus movimentos.
— Você decide o que fazer — disse com a voz calma — É preciso fazer uma escolha.
— Porque eu faria isso?
Melancolia.
— Escolhas formam caminhos. Você precisa de um para evoluir.
— Quero continuar como estou.
— Por quê?
Ele se silenciou.
— Sabe que pode confiar em mim, não sabe?
Um simples balançar de cabeça.
— Já brincou com o Jack hoje? — Tentei.
— Eu já disse que não vou para o outro lado da casa.
— Já sim — conformei — Só não me contou o porquê.
O menino empurrou as peças do jogo e em um movimento rápido abraçou o próprio corpo, os olhos estavam fixos em um ponto no chão.
Regressão.
— Do lado de cá nada mudou.
— Mas mudanças também podem ser boas.
— Essas não são.
— Por quê?
— Minha mãe não está lá.
Assenti, o peito carregado de tensão.
— Mas você pode escolher mudar isso.
— Eu não gosto de escolhas. Quando vai entender isso?
Respirei fundo enquanto me aprumava na poltrona. Os olhos continuavam fixos no menino, as mãos quietas sobre meu colo, todos os sentidos aguçados e prontos para detectar todo e qualquer detalhe; verbal ou não.
— Por quê? — Eu me sentia como uma criança na fase dos ‘porquês’.
— Você sabe o porquê.
Eu sabia.
Toc. Toc. Toc.
— Enzo? — Uma moça de cabelos loiros acastanhados se colocou sob a porta, tinha um meio sorriso no rosto e um olhar de repreensão — Já se passaram os...
— Está bem — sacudi a mão para ela enquanto me levantava — Nós já estamos indo.
Eduardo olhou bem nos meus olhos ao se levantar. Eu sabia que aqueles olhos queriam me dizer alguma coisa, e isso vinha acontecendo há muito tempo, o problema é que eu era psicólogo e não vidente.
— Até mais — ele disse e se virou, então andou até a porta.
— Tenha uma boa semana — respondi com os olhos nele.
Foi aí que o menino parou e se virou para mim. Com os olhos cheios de lágrimas, ele correu a passos longos e abraçou minhas pernas com bastante força.
— Eu gosto de você.
Assim que consegui, agachei-me na sua frente e sorri, solidário a ele.
— Eu também gosto de você.
Ele assentiu, um sorriso tomava forma em seus lábios.
— Até mais.
— Até mais — eu não queria me despedir dele naquele instante, mas não era eu que impunha as regras ali.
O menino saiu a passos lentos da sala, arrastando consigo um ursinho de cor azulada. Enfiei as mãos nos bolsos e o observei até que a porta fosse fechada, então suspirei e tentei me concentrar em outra coisa.
Meu celular mostrava duas chamadas não atendidas de Rafael, mas, de qualquer forma, eu não conseguiria chamá-lo de volta.
A porta de repente abriu, era Joana outra vez.
— Está tudo bem? — Parecia preocupada.
— Sim. Por quê?
— Não é nada demais — sacudia a cabeça — Você não parecia bem quando eu saí daqui.
— Obrigado por se preocupar.
— Faço questão — mostrava todos os dentes em um sorriso alegre — Ah, seu amigo está aqui fora querendo falar com você. Posso mandá-lo entrar enquanto seu próximo paciente não chega?
Por um tempo eu parei e pensei naquilo, não em deixar Rafael entrar ou não, mas em como era bom sentir que ele estava perto. Eu só esperava que meu próximo paciente demorasse muito a chegar.
— Claro — meu sorriso saiu muito mais verdadeiro do que antes.
Ela ficou de lado para que o rapaz pudesse passar. Seus olhos azuis encontraram os meus por um único segundo e, então, ele se virou para a mulher e abriu mais um daqueles sorrisos que faria qualquer um se apaixonar.
— Obrigado — disse com os olhos nos dela.
O rosto dela não poderia ficar mais vermelho, aquilo me fez sorrir.
— Sempre que precisar... — Murmurara com a voz fraca enquanto se afastava de costas pé por pé e fechava a porta.
Rafael, com um sorriso de orelha a orelha e os olhos brilhantes, se virou para mim.
— Estou com ciúmes.
Se eu pensava que seu sorriso não poderia ficar maior, estava errado. Rafael balançou a cabeça enquanto sorria ainda mais e esticava os braços.
— Não precisa ficar... — Aproximava-se — Vem cá.
Eu não fui, não porque estava realmente com ciúmes ou porque não queria, mas porque estava exausto demais para fazer qualquer tipo de movimento. Ele pareceu perceber — como sempre — que eu não estava bem e, tudo o que fez, foi dar três passos para frente e me envolver com todo o carinho e paixão que podia. Seus braços me davam uma segurança e uma sensação de conforto totalmente indescritíveis enquanto seu perfume apenas reforçava que ele estava realmente ali comigo. Aquele corpo era meu e, há muito tempo, eu precisava dele para saber como seguir em frente. Sem Rafael, eu não seria muita coisa.
— Quer me contar o que está acontecendo? — Sua voz sempre me acalmou.
— Você sabe o que está acontecendo — afirmei — Eu não sei ser psicólogo.
Rafael se afastou alguns centímetros e me encarou com seriedade e solidariedade, arrastou o polegar pela minha bochecha e sorriu de lado.
— Claro que sabe.
— Não sei, Rafael.
— Sabe sim, Enzo.
— Eu não consigo ser neutro, sempre me emociono com as histórias e pessoas que passam por aqui, não consigo não sentir nada por elas e... — Respirei fundo — Definitivamente eu não sei ser...
— Sschh — colocara o indicador nos meus lábios — Você sabe que você é humano, não sabe?
Olhei para o lado.
— Eu estou aqui, olhe nos meus olhos — falara com tamanha firmeza que eu acabei fazendo o que pedia — Você sabe tão bem quanto eu que tudo isso é normal. Sabe?
Assenti.
— Você só é um pouco mais sensível, Enzo. Isso é normal.
Assenti mais uma vez.
— O que aconteceu dessa vez?
O empurrei levemente e me arrastei até o outro lado da sala, sentando-me na poltrona. Ele continuou no mesmo lugar, olhando-me com apreensão. Meus olhos não estavam nos dele mais, fixando-se na parede à minha frente. Não era a minha cor favorita, mas eu não podia escolher muito.
— É um garoto — anunciei.
— Eduardo?
— Ele está tendo uma vida difícil.
Rafael esperou, mas eu não tinha muito a dizer.
— Ele me disse que não gosta de escolhas.
— Ele disse o porquê?
— Não.
— Você sabe o porquê.
Eu sabia.
— Porque enquanto não se escolhe, tudo parece possível.
Silêncio.
— Pelo o que você me conta, parece que ele está...
— Eu sei. Está sendo escravo da depressão e não vê motivo para se libertar. — Olhei para ele — Acha que vou conseguir ajudá-lo?
Rafael sorriu.
— É claro que sim, amor — seus passos o levaram até a mim — Acredito no seu potencial — as mãos fortes tocaram as minhas com delicadeza, os olhos nos meus me passavam um sentimento de confiança tão grande que eu comecei a agradecer mentalmente por ele estar ali — E qualquer coisa que precisar, saiba que eu estou aqui.
— Você sempre está.
— Eu cumpro minhas promessas — um sorriso delineou seus lábios — Vou sempre te amar.
Consenti, um sorriso começava a nascer no meu rosto.
Rafael, em um gesto rápido, olhou para o relógio em seu pulso. Em seguida, fez uma careta.
— Seu paciente está demorando.
Dei de ombros.
— Aqui é assim — sorri — Já me acostumei.
— Poderia estar trabalhando na...
— Eu sei que poderia, mas você sabe que eu quero construir o meu próprio caminho. Não posso ficar lá sabendo que um dos motivos para eu estar lá é porque sou seu marido.
— Você sabe que não é só isso...
— Sei sim — apertei suas mãos entre as minhas — Por isso falei “um dos motivos” — e então sorri, vendo-o me acompanhar — Me deixe fazer isso aqui por um tempo, me deixe tentar ajudar um pouco mais a essa população daqui e, eu prometo a você que, depois que eu me sentir estabelecido profissionalmente, volto a trabalhar com você. Isso aqui é importante para mim.
Ele sabia disso, eu não precisava repetir, mas, de qualquer forma, quis falar. Eu sabia que era difícil para ele aceitar algumas das minhas decisões, mas sempre o fazia, preocupando-se primeiro comigo e com o que eu queria para mim, porque sabia que o que eu mais queria era ver a nossa família feliz. Eu não faria nada que trouxesse a infelicidade para um de nós.
Rafael se levantou em um pulo quando ouviu a maçaneta se mexer, rapidamente se colocou em frente a um quadro na parede e fingiu estar extremamente concentrado. Quando a porta se abriu e Joana entrou com um sorriso enorme e os olhos brilhantes, ele se virou.
— Parece que está liberado — se dirigiu a mim — Seu paciente ligou.
Levantei-me.
— Pelo menos ligou.
Ela riu.
— Em cima da hora, mas ligou.
Assenti com um sorriso de mesmo tamanho.
— Obrigado por avisar, Joana.
— Não há de que — dizia olhando para Rafael — Vocês vão sair hoje? Sabe como é... divertir...
— Provavelmente — respondeu — Você está usando batom?
— Você gostou? — A mulher se enrubesceu.
— É, gostei.
— E então, vocês vão sair? — Insistia.
Rafael olhou para mim. Parei de arrumar minhas coisas dentro da mochila e encarei a cena um pouco sem saber o que responder.
— Você quer sair, amor? — Indagou ele, com os olhos ainda em mim.
O susto que Joana tomou foi imenso. Ela abriu a boca e ao mesmo tempo a tapou com a mão, os olhos muito arregalados. Então, depois de dar muito na cara, suspirou e sacudiu a cabeça, firmando os olhos no chão.
— Ah... Podemos. — Tentei amenizar.
— Ah, acho que... acho que me lembrei de um compromisso. Desculpem-me. — Ela saiu da sala rapidamente, deixando Rafael um pouco desorientado.
— O que aconteceu aqui? — Apontava para a porta — Ela não sabe que somos casados?
Neguei com um aceno.
— Por quê? Porque não me falou?
— Rafael, aqui as coisas não funcionam como eu quero e você sabe disso. — Joguei a mochila por cima dos ombros e andei na sua direção — Eu sei que você sabe.
Ele soltou todo o ar preso nos pulmões com apenas um suspiro, foi aí que assentiu.
— Eu sei.
— Não é uma escolha minha — aproximei nossos rostos, tocando seus lábios com os meus — Desculpe-me se te chateei.
— Você sabe que eu entendo — sua mão acariciava minha bochecha — Fica tranquilo — um sorriso brincou nos seus lábios, que logo tocaram os meus. — Só fiquei um pouco... confuso. — Suspirou — Vamos?
Assenti.
Ao invés de segurar minha mão como sempre fazia, Rafael seguiu andando à minha frente. Eu sabia que ele não estava enfurecido, mas de qualquer forma aquilo me deixou um pouco fora do ar. Nós passamos por Joana, que simplesmente nos deu as costas ao invés do animador sorriso, mas quando nos aproximávamos da porta, fomos surpreendidos.
— Hey — era a voz dela — Enzo.
Me virei. Joana vinha correndo na nossa direção.
— Sinto muito.
Rafael e eu cerramos os olhos ao mesmo tempo.
— Pelo o que?
— Eu só fiquei surpresa. Desculpem-me.
Rafael sorriu para ela.
— Está tudo bem — disse ele.
— Não, não está, eu deveria ter percebido — apontou para as alianças em nossas mãos — Vocês estão sempre juntos e... bom... desculpem-me.
— Não se preocupe — respondi e, quando eu percebi que o clima começava a pesar com o profundo silêncio que se instaurava, procurei desviar o assunto — Ah, a gente estava mesmo pensando em sair com uns amigos amanhã... — Olhei para Rafael, procurando ajuda.
— É verdade. Seria bom se você fosse — o sorriso dele era animador.
Ela sorriu um pouco envergonhada.
— Não sei se devo...
— Claro que deve — Rafael deu mais um daqueles sorrisos que me fazia derreter por dentro — Uns amigos nossos reservaram uma mesa no GW Fins, fica próximo à Bourbon Street. Estaremos lá as 21hrs.
— Vamos te esperar — apressei-me em dizer.
Ela sorriu, trocando olhares entre nós dois.
— Obrigada.
Com um último sorriso de lado e uma ação um pouco precipitada para mim, que, há muito tempo vinha tentando manter outras aparências, levei a minha mão até a dele. Não sei se vi o seu sorriso aumentando à medida que andávamos lado a lado até o carro, mas sei que nosso relacionamento se modificou mais uma vez.
As pessoas que me conheciam nos olhavam às vezes distantes às vezes me cumprimentando. Eram pessoas de classe extremamente baixa e que precisavam de ajuda, não só psicológica. Rafael parecia perceber em mim a mudança que elas haviam me causado, pois me olhava com atenção pelo canto do olho enquanto tentava esconder um sorriso. Tive a impressão de que só naquele instante ele percebeu o quanto aquelas pessoas se tornaram importantes para mim.
A rua de difícil acesso e pouca iluminação se estendeu por mais alguns metros, até que simplesmente sumiu em um simples fechar de olhos assim que adentrei o carro.
Durante todo o caminho permaneci daquela forma, permitindo-me a escutar apenas o Blues suave que saía pelos alto-falantes. Rafael ficou quieto como sempre fazia quando sentia que eu precisava, ele sabia que eu sentia sua presença e que aquilo era o suficiente para eu me sentir seguro.
— Enzo.
— Oi.
— Você não quer ficar dentro do carro para sempre, quer?
Eu sorri de lado, sabendo que ele fazia o mesmo.
— Achei que fossemos sair — balbuciei ao abrir os olhos e ver que estávamos em casa.
— E vamos — abria a porta — Só preciso tomar um banho rápido.
Assenti, saindo do carro.
Ainda morávamos na mesma casa de quando nos casamos. Isso fazia quase dezessete anos. Foi o período da minha vida que passou mais rápido e agora estávamos mais velhos, com dois filhos adolescentes e escutando Blues. É, realmente o tempo havia passado.
— Está tudo bem? — Rafael me olhava, compenetrado.
De repente ele parou e me fez parar, tinha os olhos nos meus. Aquilo fez minhas mãos tremerem. Ele sentiu e, olhando para elas, cerrou os olhos. Tentei me concentrar no que acontecia dentro da minha cabeça e dentro do meu coração, mas tudo que eu consegui amenizar foi no quanto ele ficava bonito quando se preocupava comigo. Um sorriso nasceu em meus lábios e quando finalmente ele ergueu os olhos e me encarou mais uma vez, uma lágrima escorreu pela minha bochecha e, lutando para escondê-la, virei-me de lado, limpando-a com o polegar. Rafael se colocou na minha frente, quase colando seu corpo ao meu. Um sorriso nasceu também nos lábios dele, que, em um segundo estava nos meus. Um beijo tão doce quanto o pecado.
— Eu sei no que você está pensando — sussurrou, o calor dos seus lábios aquecendo o meu corpo — Nada mudou.
Eu queria acreditar naquilo.
— Tudo mudou.
— Pelo menos melhorou?
Abri os olhos naquele instante. Ele olhava para mim com aqueles olhos azuis brilhantes, enquanto os meus só conseguiam encarar seus lábios avermelhados e molhados.
— Você não faz ideia do quanto.
Um sorriso.
— Então porque ficar pensando nisso? Fiquei tão ruim de cama assim?
Balancei a cabeça, um sorriso divertido brincava no meu rosto.
— Meu amor por você vai muito além da nossa cama.
— Isso quer dizer que eu... fiquei ruim de cama?
Sorrimos juntos.
— Quer dizer que eu te amo — sussurrava, desenhando os traços do seu rosto com as pontas dos meus dedos.
— Não sei se quero sair hoje — disse ele, suspirando.
Eu não o culpava, estava mesmo muito calor ali.
— Não sei se quero deixar você sair do quarto hoje.
Estávamos em uma situação em que a concentração em apenas um ponto não nos deixava pensar em muitas coisas. O calor entre nós se tornava maior a cada segundo, a respiração dele já começava a pesar.
— Temos que chegar ao quarto primeiro — disse com dificuldade.
Uma risada divertida escapou pelos meus lábios e ele também sorriu. Suas mãos desceram pelo meu corpo e pararam ao lado do seu, um sorriso calmo e confiante desenhava seu rosto. Um passo para trás foi o que ele deu antes de indicar a porta com uma das mãos.
Com os pelos da nuca e dos braços arrepiados eu fiz o que ele pediu. A casa tinha as luzes apagadas e o silêncio reinava diferentemente de quase todas as noites quando, enlouquecidamente, Bernardo e Felipe traziam seus amigos para ficar jogando videogame e assistindo filmes de terror.
Rafael não sabia o porquê de uma pessoa gostar de assistir filmes dessa categoria, dizia não ver graça e não entender porque as pessoas assistem ou jogam coisas cujo objetivo é te dar medo. Eu achava engraçada a forma como ele colocava todos os argumentos e, depois de muito tempo tentando fazê-lo entender aquilo, acabei desistindo. Eu sabia como ninguém que, sim, ele sabia muito bem porque as pessoas faziam isso, mas aprendi com o tempo que não deveria insistir.
— Pai — escutei.
Rafael não procurou pela voz, mas eu a segui.
— Pai — era outra voz muito parecida.
— Bernardo? — Chamei — Felipe? Onde vocês estão? — Procurei pelo interruptor, mas antes que eu pudesse encontrá-lo, as luzes se acenderam.
— Surpresa — Muitas vozes gritaram juntas e eu acabei me assustando, aquilo fez Rafael sorrir de lado.
Parado no chão como um poste, encarei as várias pessoas à minha frente com a boca aberta. Todas elas tinham sorrisos animados desenhados nos lábios e balões nas mãos, algumas batiam palmas e outras assobiavam. Umas vieram na minha direção e me abraçaram, comigo ainda estupefato. Bernardo era um deles, trazia uma garota loira nos braços e um sorriso feliz no rosto.
— Feliz aniversário, sogro — disse ela, sorrindo com os olhos verdes brilhantes.
Sogro?
— Ah... — Fiquei assustado — ... Obrigado.
Ela sorriu ainda mais abertamente e deu um passo para trás para que mais pessoas pudessem me cumprimentar.
Em meio a tantos abraços fortes e sorrisos animados, eu me perdi. Felicidade era a definição para o que eu sentia ali e, claro, surpresa. Quando finalmente me libertaram, respirei fundo e puxei Rafael pela cintura, colando meus lábios na sua orelha.
— Você não fez isso. — Suspirei.
Um sorriso divertido brincou em seus lábios.
— Está nervosinho porque deixei sua calça apertada? — Tinha os olhos nos meus.
— Mais tarde... — Comecei entre dentes — ... eu vou destruir você.
A risada que saiu dele foi espontaneamente alta.
— Pai — Felipe andava na minha direção — Está gostando? — sorria, os olhos azuis brilhando.
— Lipe, o que você está querendo agora?
O menino riu alto, abraçando-me mais uma vez.
— Com você, nada. — Então olhou para Rafael — Pai, eu posso sair com uns amigos sábado que vem?
Era muita cara de pau mesmo.
Rafael olhou para mim como sempre fazia e esperou que eu dissesse alguma coisa contra, mas eu apenas sorri e assenti.
— Vamos conversar ainda, Felipe — disse — Preciso saber...
— Onde, quando, como e com quem — O menino deu de ombros — Eu sei. Só me diz aí, pai. Não é difícil.
— Em primeiro momento, sim.
Felipe comemorou e se afastou, agradecendo por uma vida.
— Até ela está aqui — apontei com o queixo para a mulher no canto da sala, bebendo algo parecido com Whisky — Você não chamou o Nicholas, não é?
Rafael sorriu abertamente.
— Cheguei a pensar nisso, mas parece que, para a maioria das pessoas, o marido do aniversariante chamar o ex-namorado dele para a festa é esquisito.
— Não pensou mesmo nisso, pensou?
Rafael gargalhou.
— Não, não pensei.
Rafael se perdeu entre vários grupos de amigos e eu o fiquei observando, sentindo mais uma vez que fiz a escolha certa. Preferindo não continuar ali, caminhei até a cozinha, onde peguei um salgado escondido e saí para o jardim, que dava para a rua. Havia um banco de praça onde me sentei e fitei as estrelas, sorrindo sozinho.
— É o seu aniversário.
Assustei-me com a aproximação repentina do rapaz, que ultrapassava alguns arbustos pequenos para me alcançar. Nicholas sorriu para mim.
— Faz bastante tempo desde a última vez que nos vimos — respondi com um sorriso, avaliando-o.
Ele assentiu com a cabeça baixa, as mãos enfiadas nos bolsos da calça.
— Não existiram muitos motivos para nos encontrarmos.
— É, depois do que você me disse, eu acharia melhor não aparecer mesmo.
Nicholas assentiu e mudou o peso para o outro pé, lançando olhares ansiosos para a porta da casa.
— Só vim entregar uma coisa.
Ele puxou um cordão de dentro do bolso e andou até mim, sentando-se ao meu lado no banco. Colocou o cordão na minha mão e sorriu ao ver minha expressão. Era um escapulário de ouro que eu não via há bastante tempo.
— Nossa — exclamei — Onde ele estava?
— Estava comigo quando entrei em Coma, os médicos devem ter tirado de mim e colocado junto com as minhas outras coisas.
— Mas eu não ficava sem ele — olhava com atenção para o cordão.
— Você o deixou em cima da cômoda antes de ir cortar o cabelo. Lembro-me de olhar para ele e pensar mesmo que você nunca o tirava, então coloquei em mim para não me esquecer de entregar.
— Mas esqueceu.
— Estou entregando agora.
Assenti.
— Obrigado, Nicholas.
Ele respondeu com um aceno rápido de cabeça e se levantou.
— Tchau, Carter — ele começava a se afastar.
— Espera, Nicholas — pedi — Como você está?
— Bem — deu de ombros — Preciso voltar, Danny não sabe que eu saí.
— Danny?
Ele abriu um largo sorriso ao assentir.
— Até mais, Carter.
— Nicholas.
Ele parou onde estava e se virou mais uma vez para mim.
— O que foi, docinho?
— Quer entrar?
Nicholas soltou um sorriso sarcástico e olhou para a casa, rindo baixinho.
— Não, Carter, eu não quero me misturar com a minha ex-mulher, o seu marido, que, inclusive, foi um dos meus namorados, e os seus filhos. Estou bem como estou.
— Eu só...
— Eu sei o que você pensou, mas, acredite, não estou me sentindo excluído.
Assenti calmamente e sorri para ele, levantando o cordão em uma das mãos.
— Obrigado novamente.
— Por nada.
Ele se virou rapidamente e voltou pelo mesmo caminho que havia se aproximado. Fiquei observando enquanto ele sumia na esquina e suspirei quando não pude mais vê-lo. Havia passado muito tempo desde que o vira pela última vez que nem cheguei a perceber o quanto minha raiva por ele havia diminuído, o que era — de certa forma — bom.
Virei-me para a casa novamente e encontrei Rafael atravessando o jardim na minha direção. Sorri para ele, que devolveu o gesto, e acariciou minha coxa com ternura ao se sentar ao meu lado.
— Sabe, as pessoas costumam perceber quando o aniversariante escapa da festa.
Sorri abertamente.
— Desculpe, precisei de um tempo para pensar.
— Tudo bem, não quero voltar para lá também — sorriu, acariciando minha mão com o polegar — Quero comemorar o seu aniversário na nossa cama.
Ri baixinho e agarrei sua mão, olhando nos seus olhos.
— E de quem foi a ideia de fazer uma festa surpresa?
— Felipe.
— Imaginei mesmo.
Sorrimos juntos.
— E essa história de sogro?
Rafael gargalhou como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo.
— Está incomodado com isso?
Deitei a cabeça em seu ombro, sentindo-o acariciar meus cabelos.
— Não, é só que... — suspirei profundamente — Fico com medo deles se machucarem.
Ele se moveu, inquieto.
— Todo mundo sofre por amor uma hora, Enzo, e nós somos os pais deles, precisamos deixá-los seguir o caminho deles.
Assenti.
— Eu entendo, mas dá uma dor no coração perceber o quanto eles cresceram.
Rafael sorriu de lado e entrelaçou os dedos nos meus.
— Acredite, eu entendo.
A temperatura continuava caindo, o que fez com que sentíssemos um frio considerável, levando em conta que estávamos do lado de fora de casa e sem nenhum casaco. Rafael desatou o nó da própria gravata à medida que se levantava e me levava junto.
— O que acha de nos escondermos no nosso quarto? — Perguntei, desatando o nó da minha gravata.
— Acha que os meninos não pensaram nisso? — Parecia cansado — As portas dos quartos estão fechadas.
Bufei.
— E o que vamos fazer então?
— Acha que eu não pensei nisso? — Ele sorriu e puxou minha mão, arrastando-me silenciosamente até a garagem, onde abriu o portão com bastante cuidado e o fechou assim que passamos.
Fiquei recostado à parede enquanto o via trancar tanto o portão quanto a porta que levava para dentro da casa. Sem ligar a luz, ele acendeu uma vela sobre uma mesinha no canto da parede e conectou o aquecedor no mínimo. Ele sorria para mim enquanto ia até o carro e trazia do porta-malas dois travesseiros e duas mantas de lã. Ele estendeu uma delas no chão e se sentou, oferecendo uma das mãos a mim.
— É melhor do que nada — sorria.
Aceitei o seu chamado, retirando minha camisa ao me sentar ao seu lado. Ele arrumou a outra manta sobre nós ao deitarmos e me abraçou pela cintura, deitando o rosto sobre meu peito.
— Feliz aniversário — sussurrou, sua respiração quente aquecendo minha pele.
— Sabe, houve uma parte da minha vida que eu não acreditava em Deus, e nunca conversei muito com Ele — acariciei seus cabelos — Mas desde que conheci você, eu não passei um dia sem agradecer.
Pude sentir os lábios de Rafael se repuxando em um sorriso.
— Eu amo você.
Inspirei e expirei calmamente.
— Amo você.
O sono veio rapidamente. Podia ser a luz bruxuleante da vela ou o silêncio, mas eu continuava a acreditar que era por ele, o homem quente em meus braços. Senti-lo contra mim ainda era uma das melhores sensações que eu poderia ter, trazia paz.
Ele podia muito bem ter bagunçado minha cama, mas de uma forma muito mais primordial, havia arrumado minha vida.
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