Bourbon Street
2 Capítulo Dois - Olá docinho
Notas iniciais
As várias luzes no alto dos vários postes iluminavam a rua e a noite.
Eu caminhava sozinho por toda a extensão com o objetivo nulo de chegar em casa. A rotina chegava a me cansar, mas naquele dia acabaria o sofrimento. Ou pelo menos parte dele. Eu daria um ponto final a toda àquela mentira.
Entrei em casa, retirei meu suéter e pendurei em um dos ganchos na parede do corredor. A única luz era a proveniente da lareira, e o único barulho era o do criptar das chamas.
— Jeane? – chamei à medida que me aproximava do quarto.
Adentrei o local, que só não estava vazio por que os móveis continuavam lá. Andei até o armário e percebi que apenas minhas roupas se faziam presentes.
Sentei-me na beirada da cama e coloquei o rosto entre minhas mãos. Meus olhos se fixaram em um ponto distante fora da janela enquanto meus pensamentos tentavam se reorganizar. Eu estava confuso, e não podia dizer se o peso sobre minhas costas fora aliviado ou piorado. Uma lágrima escorreu dos meus olhos, mas não era de tristeza ou nem mesmo de alegria. Era nula de sentimentos ou emoções.
— Enzo? – assim que ouvi sua voz olhei para a porta.
Minha esposa carregava em suas mãos um cesto de roupas, que eu logo percebi sendo as dela. Não movi nenhum músculo sequer, tentando não demonstrar o quanto fiquei assustado com seu sumiço.
Ela revirou os olhos à medida que se encaminhava até o armário. Não passou muito tempo até eu usar a coragem que havia demorado a reunir.
— Precisamos conversar — pronunciei tranquilamente.
— Agora você quer conversar? — retrucou em um tom mais alto que o necessário. — Vai ter a decência de permanecer aqui?
Respirei fundo tentando manter a calma. A verdade era que eu quase nunca a perdia; podia-se dizer que eu era bastante paciente. Levantei-me e me pus de frente para ela, ainda mantendo distância.
— Eu sei que fui errado em te deixar falando sozinha naquele momento, e estou aqui agora para terminarmos o que foi começado — ela levantou as sobrancelhas de forma cética.
— Conversar sobre o que, Enzo? — perguntou, desanimada — Não temos nada para conversar — reforçou.
— Exatamente, não temos mais nada — bradei e logo me arrependi, eu não precisava ter falado de tal forma — Nós não estamos nos dando tão bem quanto antes... — balbuciei, tentando consertar meu erro anterior — Então porque continuarmos juntos?
— Por que a gente se ama — falou — Nós nos casamos porque nos amamos — introduziu, me fazendo sentir o cafajeste da história — Mas quer saber? A culpa de todas essas brigas e discussões é sua — praticamente gritou, fazendo meus tímpanos estalarem — Porque me deixa sozinha? Porque me abandona? — sua voz ribombava pelas paredes, e eu sem conseguir conter minha irritação, gritei.
— Porque eu sou gay.
Ela me encarou com os olhos esbugalhados e, suas mãos tremiam tanto, que quando ouvi um enorme barulho, percebi que era o cesto caindo no chão. A tensão entre nós era palpável, e eu não fazia ideia de como ela iria reagir depois daquilo.
— Sai daqui — falou rispidamente, com a voz baixa.
— Jeane, eu...
— Sai daqui agora – gritou histérica partindo para cima de mim. Ela dava fracos socos em meu peito até que eu me cansei e segurei seus pulsos com força. — Sai. Sai daqui. Sai daqui. Sai. — ela gritava repetidamente, me fazendo querer estar em qualquer lugar, mesmo ali.
— Chega, Jeane — falei ainda mais alto, vendo-a se afastar e sentar na cama. Apoiou o rosto entre as mãos e lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos.
— Porque, Enzo? — perguntou com a voz embaçada. — Porque se casou comigo? Porque me deixou pensar que gostava de mim? Por quê?
— Era o único jeito de esconder o que sou. Desculpe.
— Desculpe? — ironizou e levantou, agarrando um copo de vidro em cima da cômoda e jogando no chão. O barulho só faltou estraçalhar meus tímpanos. — Peça desculpa a esse copo e veja se ele volta ao normal — eu sabia que estava errado, e estava ainda mais errado por não querer ouvir sua gritaria sabendo que ela estava certa, mas não deixaria que ela me expulsasse da minha própria casa.
— Você está certa em ficar nervosa, mas...
— Mas nada, Enzo. — bradou, desolada — Se não for sair de casa, pelo ao menos me deixe sozinha por um tempo.
Agachou-se de repente, catando suas roupas.
Observei-a em silencio por um tempo, apenas lembrando tudo que passamos juntos. Eu não a odiava ou deixava de gostar dela, mas não a amava. Não havia como eu sentir algo forte por ela, afinal, eu gostava de algo diferente.
Balancei a cabeça em negação antes de sair a passos lentos do quarto e da casa, parando apenas para vestir meu suéter. Estava frio lá fora, como sempre. New Orleans era uma cidade bastante agradável, levando em conta o clima e a vista.
A rua estava um pouco escura, as luzes dos postes já estavam desligadas e a única fonte de luz era a de um bar no fim da extensão. Sem pensar duas vezes comecei a caminhar até lá, afinal, eu não tinha mais lugar nenhum para ir.
Minha mãe não me odiava, mas preferia meus irmãos. Eu sempre fora muito parado, e para ela, aquilo era significado de fraqueza, e segundo ela, ninguém precisava de um filho assim.
Antes da morte do meu pai, ele me disse que eu devia seguir meus sonhos, não importava o quão longe estivessem. Eu realmente esperava poder seguir seu conselho, porque o que eu mais queria na vida quando era criança, era ser feliz, e eu precisava realizar tal fato. Eu ainda não sabia onde estava minha felicidade, mas com certeza não estava naquela vida que eu levava. Não estava com Jeane e muito menos com minha mãe. Meus irmãos sempre zombaram de mim, e me chamaram de muitas coisas, inocentemente, claro, pois ninguém sabia da minha real sexualidade, mas da mesma forma causava dor.
Não demorou muito para que eu chegasse ao bar, e demorou menos ainda para que eu começasse a beber como um louco. Eu tinha todos os motivos do mundo para desabar, mas a maioria deles era minha culpa. Eu era o culpado de tudo de ruim que acontecia. Como alguém poderia gostar de mim? Eu me perguntava isso todos os dias. Às vezes eu parecia a pessoa mais correta da Terra, mas no final, o errado era sempre eu, e eu tinha a plena consciência disso. Não levou muito tempo para que eu começasse ver as coisas meio tortas, então paguei o que devia e saí para o tempo gelado, que parecia ter esfriado ainda mais.
Olhei para meu relógio de pulso e percebi que já havia passado das dez horas da noite. O lugar onde eu trabalhava já devia estar fechado, mas a ideia de ir até lá não saía da minha cabeça, então segui minha intuição e comecei a caminhar.
Eu prestava serviços em uma das clínicas de psicologia mais conhecidas da cidade, e talvez seja por isso que eu era um pouco louco, por ouvir demais os problemas das pessoas e esquecer os meus. Ou talvez até mesmo misturá-los.
— Enzo? O que faz aqui? — Denis, um dos seguranças noturnos perguntou se aproximando aos poucos.
Olhei para cima, e percebi que as luzes do escritório do meu chefe estavam acesas, indicando claramente que ele ainda estava lá.
— Preciso falar com o Sr. Auditore — minha voz saiu embaçada por causa das várias bebidas que eu havia colocado pra dentro. O homem pareceu perceber, e logo levou a mão até a arma que ficava ao alcance da sua mão direita.
— Não pode deixar para amanhã? — perguntou levantando as sobrancelhas em sinal de ceticismo.
— Não — foi a única coisa que respondi, deixando tanto ele quanto o outro segurança apreensivos. Eles sabiam que eu era do bem, mas sabiam também que não poderiam confiar em um funcionário bêbado.
— Enzo, que tal você ir para casa e resolver seu problema depois? — Ed, o outro guarda, perguntou.
— Porque eu não sei qual problema resolver primeiro — gritei revoltado. A essa altura do campeonato, ambos sabiam que eu estava bêbado, pois eu nunca falaria assim com ninguém, muito menos com dois colegas.
— Hey, acalme-se — Ed fez um gesto com as mãos à medida que se aproximava tranquilamente.
— Eu não quero me acalmar — Bradei entre dentes. Minhas mãos estavam fechadas em punho, e a veia do meu pescoço pulsava incontrolavelmente.
Eu não sabia direito o que deu em mim para estar daquele jeito, mas eu estava nervoso o suficiente para cometer um assassinato. Eu odiava aquele emprego idiota, odiava tudo da minha vida, e eu estava determinado a acabar com tudo que me incomodasse daquela forma.
— O que está acontecendo aqui? — o chefe Auditore apareceu no portão, e eu o olhei como um louco desvairado. Aquele homem me tratava como um lixo; e eu estava decidido a nunca mais deixar ninguém me tratar daquela forma.
— Está tudo sobre controle, Sr. Auditore — Denis pronunciou tentando manter a voz calma — Pode voltar para o trabalho se quiser...
— Este é Enzo Carter? — o homem mais velho perguntou.
— Sim senhor, estamos apenas conversando... — Ed respondeu e logo se virou para mim — Vá para casa, senão perderá o emprego. — praticamente implorou.
— Não, nós não estamos apenas conversando — tentei me aproximar do homem, mas Ed me barrou. — Eles estão tentando me impedir de entrar aí e quebrar sua cara.
— Quem você pensa que é, Carter? — perguntou — É um mero funcionário, e eu posso acabar com a sua vida a qualquer momento — ele podia estar com medo, mas não perdia a pose.
— Não é diferente com o senhor — sorri, sarcástico.
— Ele está bêbado?
— É o que parece — Dênis respondeu — Enzo, por favor, volte para casa.
— Primeiro eu vou...
— Acabem com ele — o dono da clínica falou. — Já tenho problemas demais para prestar atenção em um sujeitinho desses.
— Desculpe-me senhor, não podemos — Ed informou.
— Como não? Eu estou mandando.
— Não somos pagos para isso senhor — foi a vez de Dênis.
— Então chamem a polícia — mandou e eu os olhei curiosos. Não demorou muito para que Dênis pegasse o celular e discasse o número do serviço de emergência.
— Pera aí — tentei me soltar, mas foi em vão. O chefão voltou a passos largos para dentro da sua sala, provavelmente feliz da vida por me ver naquela situação. — Me solta — grunhi.
— A gente pediu para você ir, mas não nos ouviu, agora temos que obedecer, senão seremos despedidos, assim como você. — Ed falou, mas eu não consegui prestar atenção, pois me soltar era a minha prioridade naquele momento.
Consegui soltar uma mão, que usei para socar seu rosto. Ele foi afastado de mim, e eu acabei conseguindo andar alguns passos, até que alguém me segurou pelo colarinho, fazendo com que eu fosse arremessado na parede. Ed acertou um soco na minha barriga e eu me curvei um pouco. Antes que eu pudesse me recuperar, meus braços foram imobilizados e puxados para trás. Uma algema fora colocada em meus pulsos logo depois.
A raiva estava exposta em meus olhos e como se aquilo não bastasse, o ódio que eu sentia poderia servir para acertar todos ao meu redor, mas agora eu estava cercado por policiais, e não seria nada legal desrespeitar um deles e ficar preso para o resto da vida.
— É só a gente chegar que você finge de bobo, não é mesmo? — um dos policiais sussurrou contra o meu ouvido — Conheço o seu tipo... esperto, mas lento. — completou — Deveria aprender a correr — falou divertido me empurrando para o banco de trás do carro.
Dois guardas entraram um de cada lado do meu corpo e me olharam como se sentissem nojo de mim. Não demorou muito para que o veículo começasse a andar, e demorou menos ainda para estarmos parados de frente para a delegacia.
Meu corpo tremia de nervoso e, mesmo bêbado eu sabia que havia feito muita coisa errada.
— Está com medo? — um soldado perguntou enquanto me ajudava (lê-se: empurrava) a sair do carro.
— Não — claro que eu estava mentindo.
Os três soltaram sorrisos sarcásticos antes de me empurrarem para dentro da delegacia. Na entrada ficavam várias repartições e muitas pessoas trabalhando. Seguimos por um corredor de paredes brancas e logo chegamos há uma sala que mesmo sendo de vidro, não dava para enxergar o que havia dentro. O homem mais forte bateu levemente na porta, e nem cinco segundos se passaram para que a mesma fosse aberta. Fui jogado para dentro do local, e meus olhos não acreditaram no que estavam vendo.
Um homem alto e forte se levantou de uma poltrona de couro marrom e andou vagarosamente até o centro da sala. Usava uma calça jeans apertada, uma jaqueta de couro preta por cima de uma regata branca e um coturno da mesma cor do paletó. Seu cabelo negro estava bagunçado e seus olhos verdes estavam fixos em mim. A pequena cicatriz no lábio superior se curvou assim que seus lábios fizeram o mesmo, deixando que um sorriso sarcástico se formasse nos mesmos. Nicholas me encarava com a feição transformada em diversão, e não demorou para que falasse com a voz contorcida em animação e sarcasmo.
— Olá docinho.
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