Bourbon Street
27 Capítulo Vinte e Sete - O passado bate à porta
Notas iniciais
Eu corria o mais rápido que conseguia, forçando minhas pernas doloridas a não pararem. Entretanto, quanto mais eu corria, mais o mundo parecia mais lento e o tempo, mais rápido.
Rafael se negou a falar qualquer coisa pelo telefone e aquilo não me deixou só assustado, mas com muito medo. Eu senti a urgência na sua voz e por isso decidi não insistir. Eu não podia perdê-lo também.
Sequer sei como cheguei inteiro naquela clínica; foram tantos carros que passaram por mim, tantos sinais vermelhos que ultrapassei e dezenas de pessoas em que esbarrei.
Minha ansiedade não deixou que eu esperasse o elevador e, subindo feito um desesperado as escadas, cheguei ao andar certo. Meus olhos se depararam com Rafael sentado em frente a uma mesa com as mãos na cabeça e uma expressão desanimadora. Eu quase nunca o via assim. Na verdade, acho que nunca o vi assim.
Corri até ele. Pelo canto do olho vi alguém sentado em um dos bancos, mas não prestei muita atenção.
— Enzo — ele se levantou com rapidez, envolvendo meu corpo com os braços e meu rosto com apenas uma mão.
— O que aconteceu? — me desesperava.
Rafael se afastou por alguns centímetros, mantendo seu olhar fixo no meu. Ele suspirou e acariciou meu rosto com o polegar.
— Preciso que mantenha a calma — pediu.
— O quê? Por quê?
— Tente não se desesperar demais, sei que vai ser difícil, mas tente manter a calma.
Assustado. Era assim que eu estava.
Sem saber direito o que falar ou fazer, assenti de leve. Minha expressão era a definição de assombro.
Rafael fez um gesto com a cabeça ainda olhando para mim. De repente senti uma movimentação estranha e acabei por me virar.
Eu não sei o que aconteceu, mas me vi no meu passado.
— Enzo — o homem de olhos negros sorriu para mim.
Um sorriso de dor.
— Cássio — ouvi minha própria voz sussurrar.
Ele fungou, tendo os olhos cheios de lágrimas.
— Eu senti sua falta — ele disse — Você sentiu a minha?
Engoli em seco.
— O que aconteceu? — eu me desesperava apenas de vê-lo naquele estado.
Ombros caídos, lágrimas no olhar e voz falha. Aquele não era o rapaz que eu conhecia.
— Você sentiu a minha falta? — repetia um pouco mais alto.
— É claro que eu senti, seu idiota — respondi ao mesmo tempo em que andava até ele e o envolvia com carinho.
Cássio me abraçou tão forte, que parecia que iria me esmagar. Senti-me novamente no passado e aquele sentimento pareceu envolver meu peito de forma quase acolhedora.
Enquanto o abraçava, o ouvia chorar em silêncio, soluçando contra meu peito. E quando o soltei, vários minutos depois, ele me olhou, limpando as lágrimas com as costas da mão.
— Eu te procurei na sua casa, mas você não estava lá — dizia — Então liguei para a Jeane e ela me disse que vocês não estavam mais juntos.
— Ela disse mais alguma coisa? — eu precisava saber se ele sabia sobre minha sexualidade, mas pensando bem, naquele momento pouco importava.
Balançou a cabeça em negação.
— Fui ao seu antigo trabalho e uma moça me deu o telefone dele — apontou para Rafael — Só aí consegui.
— Pra que tanto trabalho?
— Somos irmãos, não podemos ficar distantes um do outro.
Não era só aquilo.
— O que aconteceu?
Ele engoliu em seco, fechou os olhos e soltou um profundo suspiro.
— Eu não sou muito bom com essas coisas, então... — olhou-me nos olhos — Aconteceu um acidente.
— Ah, não — levei as mãos ao rosto enquanto me sentava — Outro acidente não.
O senti ao meu lado.
— Precisa ser forte — ele me abraçou de lado.
Só podia ser mentira.
— O que aconteceu? — o olhei nos olhos.
— O carro em que a mamãe e o Frederico estavam derrapou pela pista, ele não conseguiu manter o controle e caiu do barranco.
O banco se mexeu ao meu lado e eu pude sentir a mão forte de Rafael envolver minha coxa direita.
— Quem mais estava no carro?
— Os dois filhos dele — disse com a voz chorosa.
Respirei fundo.
— Como estão? — por mais que eu soubesse a resposta, não queria saber.
— Frederico e o filho mais novo estão no hospital. O garoto sofreu apenas alguns arranhões enquanto o pai quebrou uma perna e um braço.
Assenti. Minha garganta latejava.
— E os outros? — eu não queria saber.
Não queria.
— Eles não resistiram.
Eu não consegui mais suportar sozinho, colocando tudo para fora em forma de lágrimas. Rafael agarrou uma das minhas mãos enquanto me puxava forte para um abraço cheio de carinho e compreensão. Ele tentava me acalmar, mas os soluços fortes arrebentavam meu peito de forma quase agressiva, deixando-me com uma dor de cabeça insuportável.
Cássio continuava ao meu lado e eu podia jurar que ele também se desesperava com meu desespero.
Eu chorava por ter perdido uma mãe que nunca teve muito contato comigo.
Ele chorava por ter perdido seu apoio. Talvez o único depois que me afastei.
Minha garganta doía, mas eu me forcei a ser forte. Respirei fundo e me soltei de Rafael, procurando os olhos do meu irmão mais novo. Ele estava lá, estacado com os pés no chão e o olhar em mim. Ele tentou sorrir ao me ver junto com o outro homem, mas o momento não era propício à sorrisos.
— Em que hospital eles estão? — tentei dizer.
— New Orleans East Hospital — suspirou — Vou para lá antes de passar no cemitério e acertar as coisas.
Assenti.
— Vou com você.
Ele sorriu de lado, agradecendo-me silenciosamente pela companhia.
Com um último suspiro, virei-me para Rafael e apertei sua mão por sob a minha.
— Estamos bem? — indaguei.
— Na medida do possível — se inclinou para deixar um selinho na minha bochecha — Quer que eu vá com você?
Neguei com a cabeça. Seria bom passar um tempo sozinho com meu irmãozinho.
— Qualquer coisa é só ligar para mim. Você sabe, não é?
Assenti novamente.
— Eu sei — levantei-me.
Cássio se levantou também, parando ao lado da porta.
— Não perca o controle — disse — Tudo vai acabar se ajeitando.
Assenti com um sorriso sincero.
— Será que um dia teremos paz?
Ele sorriu sinceramente, apertando minhas mãos com as suas.
— Não tenha dúvidas disso — um selinho foi o que bastou para ele se afastar.
— Até mais tarde — murmurei.
— Mantenha o controle — disse com um sorriso.
Assenti e comecei a andar para a outra direção, alcançando meu irmão rapidamente.
xXx
Era um novo dia.
Um novo e triste dia.
O tempo estava frio e o céu, nublado. Um típico dia de tristeza.
Sentado à mureta do cemitério, eu balançava as pernas inquietamente e olhava para baixo. Eu não sabia o que sentir na verdade, mas estava triste. Nunca é bom perder um ente querido, ainda mais um garoto de quase doze anos.
Eu não pensava muito na minha mãe, justamente por não saber o que pensar. Eu a amava, certamente, mas eu... eu realmente não sabia o que pensar.
Talvez a ficha não tivesse caído ainda.
— Como estamos? — Rafael se sentava ao meu lado.
— Estamos... — levei meu olhar ao dele, erguendo uma sobrancelha — ...confusos.
Ele assentiu, passando o braço pela minha cintura.
— Tudo vai se ajeitar.
Deitei a cabeça em seu ombro, deixando meus olhos se fecharem.
— Eu espero que sim.
Ficamos em completo silêncio, apenas observando a movimentação próxima ao caixão.
Eram muitos amigos, tanto da minha mãe quanto do meu irmão mais velho, que foram para consolá-lo por causa do filho mais velho. Muitos deles choravam, mas eu não acreditava naquelas lágrimas. Não em todas.
— Seu irmão é legal — o homem murmurou.
Tinha a voz perdida no ar.
Levantei a cabeça e apanhei seu olhar no ar. Ele observava meu irmão mais novo, que também estava sentado em uma mureta. Sozinho. Tinha o olhar baixo e uma feição triste.
— É, ele é — concordei.
— Ele me perguntou se nós estamos namorando — seus olhos azuis voltaram para mim, encarando-me.
— E qual foi sua resposta?
Ele deu de ombros.
— Você deu de ombros? — cerrei os olhos.
— É — suspirou — Eu dei.
— Por quê?
— Não temos nada definido, Enzo — sua voz parecia desgastada.
— Já está na hora, não acha? — tentei parecer alegre.
Ele sorriu de lado.
— Não é uma boa hora para te pedir em namoro — sorriu de lado, puxando meu rosto pelo queixo — Vamos pensar nisso depois.
Então ele tocou minha bochecha com os lábios e se afastou.
O resto do enterro ocorreu como todos os outros, intensos e tristes. Cássio e eu ficamos abraçados por boa parte do tempo, pois eu sentia sua dor e sua fraqueza e, não queria que ele se perdesse como eu me perdi há muito tempo.
Depois de presenciarmos o fim, fomos embora.
Fomos os últimos a chegar. E os primeiros a sair.
Cássio parecia bem mal, então o levamos até um restaurante e o fizemos comer um pouco.
— Sabe o que vai fazer a partir de agora? — perguntei.
— Sair da casa da mamãe e tentar viver — respondia com a voz falha.
Cássio era o tipo de garoto vidrado à mãe. Ele não a largava de forma alguma, sempre estando presente para entregar seus remédios e cuidar caso acontecesse algo ruim. Enquanto todos os outros filhos saíam de casa, ele permanecia. Trabalhava duro para comprar seus remédios e sustentá-la. A verdade é que ele tinha medo de vê-la morrer. E pior, sentir remorso.
— Está namorando alguém?
Ele negou com a cabeça.
— Está gostando de alguém?
Rafael envolveu minha coxa com sua mão por baixo da mesa. Sem sequer perceber, desci minha mão até estar massageando a sua.
Cássio ergueu o olhar, tomou um gole de Coca Cola e assentiu com um sorriso melancólico.
— E quem é? — eu sorria de lado.
— Uma garota da minha faculdade — murmurou, enrolando o macarrão no garfo.
— E como ela é? — virei o rosto, procurando encontrar seus olhos.
— Ah, é... — ele ergueu o olhar, trocando-o de Rafael para mim diversas vezes — Você não vai gostar de qualquer forma.
Sorri de lado.
— Eu sei quando uma mulher é bonita — disse com um sorriso — Vamos lá, quero saber tudo sobre ela.
Ele assentiu, bebendo mais gole de refrigerante.
— Eu ainda não sei de qual curso ela é, mas... — parou e olhou para um ponto distante — ... eu não sei — suspirou — Ela é diferente, sabe? Nunca a vi acompanhada e sempre está de fones nos ouvidos.
Soltou um riso sem fôlego e voltou a olhar para o prato, envergonhado.
— Já falou com ela? — Rafael falava pela primeira vez.
— Não — falou simplesmente.
— E por quê? — perguntamos juntos.
Ele trocou olhares entre nós dois e voltou a enrolar o macarrão no garfo.
— Eu não sei.
— Vai esperar ela tomar uma atitude? — Rafael continuava.
— Eu não sei.
— O que pensa em fazer então? — tentei.
— Eu não sei.
Ele bebeu um gole de refrigerante.
— Não pode ficar esperando alguma coisa acontecer, precisa tentar — o moço de olhos azuis murmurou.
— E o que quer que eu faça? — ele dava de ombros, tendo as sobrancelhas erguidas.
— Olhe para ela — Rafael sorriu — Veja se ela retribui.
— Isso é ridículo — ele deu uma garfada na comida.
— Isso o quê?
— Esse lance de olhar e esperar retribuição...
Rafael sorriu.
— Isso se chama flertar e milhões de pessoas fazem isso todos os dias — disse.
— Mas é ridículo, você não acha não? — Cássio olhava dentro dos olhos do moço.
— É, tem razão — Rafael assentiu — Mas o destino não vai fazer nada por você, precisa tentar.
Cássio assentiu, dando um último gole no refrigerante.
— Vou tentar criar coragem — sorriu.
Rafael e eu sorrimos juntos.
— Podemos ir? — perguntava — Quero ver o Frederico e o Paulo antes de anoitecer.
Assenti.
Rafael se levantou e pagou a conta contra a minha vontade, mas eu não reclamei muito. Ele tinha boa intenção.
Quando chegamos ao hospital, Rafael liberou nossa passagem fora do horário de visita e seguimos pelos corredores.
— Qual quarto eles estão? — perguntei ao meu irmão.
— 409 e 410 — apertou o botão do elevador.
— Escuta, eu vou até o quinto andar — olhei dentro dos seus olhos — Mas eu não vou demorar.
Ele assentiu.
— Te encontro daqui há meia hora — prossegui.
— Tudo bem — ele sorriu para nós dois antes de sair do elevador.
Rafael apertou o botão do quinto andar e me abraçou pela cintura, deixando um beijo no alto da minha cabeça.
Segurei suas mãos por sob a minha e suspirei profundamente.
— Ele só tem vinte anos, não merece passar por isso.
Rafael me abraçou com mais força.
— Ele é forte — disse — Vai superar.
Balancei a cabeça em sinal afirmativo.
Nós andamos pelo corredor até estarmos de frente para o quarto 507. Os seguranças liberaram nossa passagem e, assim que entramos, andei até Nicholas e o observei.
Não havia mudado em nada.
— Você vai sair dessa — suspirei baixinho ao segurar sua mão — Tenho certeza que vai.
Eu só não esperava sentir aquilo.
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