Bourbon Street

28 Capítulo Vinte e Oito - Decisões


Notas iniciais
Boa leitura xD

— Rafael — murmurei assustado.

Ele apareceu por trás de mim, firmando o queixo na curva do meu pescoço. Suas mãos, na minha cintura.

— Rafael — repeti com a voz baixa — Ele se mexeu.

Meu coração quase esmagava meu peito.

— Você tem certeza? — cerrou os olhos, afastando o rosto para me encarar.

Assenti, não tinha palavras.

— Vou chamar um médico — ele disse rapidamente, saindo do quarto e deixando a porta aberta ao passar.

Continuei olhando para o rosto do homem, esperando que — em algum momento — ele abrisse os olhos. Não foi assim que ocorreu. Mas eu senti aquilo novamente.

Olhei para a minha mão unida à dele e lá estava a confirmação. Seus dedos se moviam nos meus. Lentamente, mas se moviam.

Por um instante inteiro fiquei sem respirar e, quando criei coragem para erguer o olhar, senti meu pulso se acelerar. Eu via aquilo que queria ver há meses.

Soltei um sorriso carregado de dor enquanto sentia uma lágrima escorrer pela minha bochecha. Eu não sabia se sorria ou se chorava, se ficava alegre ou desesperado. Eu simplesmente não sabia o que fazer.

— Ei, Enzo — o médico me pegou pelos braços e tentou me afastar, mas eu não me mexi — Enzo, por favor.

Rafael não deixou que ele pedisse outra vez, puxando-me pela cintura. Assim que me afastei, dois médicos e uma enfermeira se colocaram ao redor da maca, mexendo nos aparelhos e no homem. Meu olhar não encontrava outro lugar para pairar e, com o rosto virado um pouco para o lado, Nicholas me observava.

Os olhos verdes.

Aqueles que eu mais desejava ver.

Quando os mesmos se fecharam suavemente, virei o rosto e o coloquei no pescoço de Rafael, sentindo suas mãos fortes apertarem minha cintura.

— Schh — ele sussurrou contra minha testa — Tudo está finalmente entrando nos eixos, fique calmo.

Assenti.

Seus lábios tocaram o alto da minha cabeça e eu me senti mais leve, até mesmo respirei com mais facilidade.

Passou exatos cinco minutos até o momento em que o médico se virou para falar conosco. Ele tinha um sorriso no rosto e os braços abertos.

— Está tudo correndo muito bem — seu sorriso ia de orelha a orelha — Você venceu.

Funguei, sentindo uma lágrima escorrer dos meus olhos.

— Ele venceu — murmurei, deixando um sorriso brincar em meus lábios.

O médico cruzou os braços em frente ao peito, chamando tanto eu quanto Rafael para o corredor.

— Você pode falar com ele, mas vá com calma — uma expressão séria ia tomando conta do seu rosto — Ele está muito fraco ainda e precisa do seu apoio. Não conte nada muito abalador para ele e não deixe que ele perca a paciência.

Assenti.

— Vou providenciar tudo que ele precisará futuramente — deu um tapa no meu ombro e soltou um belo sorriso — Você tem sorte.

Eu não acreditava muito naquilo.

Quando ele finalmente se lançou pelos corredores, adentrei o quarto novamente, encontrando-o vazio de pessoas. Exceto por uma.

Andei até a maca com bastante rapidez, pegando a mão do homem sobre ela e a massageando com carinho. Ele tinha os olhos em mim, mas parecia abatido demais para falar qualquer coisa.

— Nicholas — sussurrei, tinha um sorriso no canto dos lábios.

— Eu não desisti — ele disse aos sussurros.

Uma lágrima desceu pela minha bochecha.

— Eu ouvi — sua voz pareceu travar — Eu ouvi você.

Senti a tensão nas minhas veias.

— Você ouviu tudo?

Ele balançou a cabeça com leveza, negando.

— Ouvi você me pedindo para não desistir — uma tentativa de sorriso — Eu não desisti.

Respirei aliviado.

— Você vai ficar bem — eu disse em meio a lágrimas.

— Porque está chorando?

— É muito bom ouvir sua voz.

Ele novamente tentava sorrir.

— É bom ouvir a sua também — seus dedos deslizaram pelos meus — Na verdade, é bom fazer qualquer coisa mesmo que eu esteja limitado.

Ele olhou para os aparelhos ao seu redor.

— Vai acabar rapidinho — sorri para ele — Daqui a pouco estará no passado.

Ele assentiu de olhos fechados.

— Estou confuso — disse — Não sei como vim parar aqui e... — ele abriu os olhos e os levou até o fim da sala, onde Rafael estava — ... e o que ele está fazendo aqui?

Fiquei de lado e olhei Rafael sentado sobre a poltrona. Ele soltou um belo sorriso e andou até a maca.

— Eu vim ver como você está — disse com os olhos brilhantes — E é bom te ver também, Nicholas.

Nicholas cerrou os olhos e respirou fundo, apertando meus dedos entre os seus.

— Não quero que me veja nesse estado — sua voz era dura.

Um sorriso de canto surgia no rosto do outro homem.

— Já te vi em dias piores.

Nicholas virou o rosto para o outro lado.

— Mas tudo bem, se não me quer aqui, não vou insistir — deu de ombros — Hã — se virou para mim — Podemos conversar lá fora?

Assenti.

— Já volto — disse para Nicholas.

Rafael e eu andamos até o outro lado do corredor, onde ele me segurou pelas mãos e olhou dentro dos meus olhos.

— Eu vou até o quarto andar, vejo como seu irmão está e volto — sorriu — Não vou demorar.

Seus lábios tocaram minha bochecha demoradamente e, fechando os olhos, suspirei.

— Rafael — o peguei com força pela mão — Estou te magoando?

Ele cerrou os olhos, sorrindo de lado.

— De onde tirou isso?

Apontei para o quarto 507 enquanto tentava começar a falar, mas ele sorriu de orelha a orelha e me abraçou com força.

— Não me importo em esconder dele que estamos juntos — suspirou contra meu pescoço — Pelo menos enquanto ele estiver fraco.

O apertei contra meu peito com mais força, soltando-o logo depois.

— Estamos bem? — indagou.

Dei um sorriso de lado.

— Estamos.

Com um último selinho, voltei para o quarto enquanto o via seguir para o quarto andar.

Quando adentrei o espaço e encontrei Nicholas de olhos fechados, uma sensação horrível nasceu em meu estomago e fluiu pela minha garganta, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ouvi uma voz.

— Fique tranquilo — o médico disse encostado à soleira da porta — Ele está apenas dormindo.

xXx

Foi um longo mês, não posso negar, mas também não posso dizer que foi o pior da minha vida. Tudo finalmente estava entrando nos eixos e, embora Nicholas ainda continuasse no hospital, estava cada vez mais forte e saudável.

— Huuumm — Rafael gemeu contra meus lábios — Você poderia me visitar mais vezes assim... — ele falou, com um sorriso divertido enquanto voltava a me beijar.

Postei minhas mãos em seu quadril, desenhando a curva da sua cintura e subindo para seus ombros fortes. Os apertei com mais força ao mesmo tempo em que gemia baixinho. Rafael delineou meus lábios com a língua e calou meu gemido ao acelerar o beijo.

— Sempre que eu tiver um tempo livre — murmurei abrindo um sorriso antes de sentir seus lábios nos meus.

Deslizei minhas mãos pelos ombros dele e o abracei pelo pescoço, puxando-o para mais perto. Rafael embrenhou uma mão em meus cabelos enquanto eu escorregava a minha até sua bunda, apertando-a com vontade.

— Mas o tempo que temos sempre é pouco — sussurrei — Não podemos fazer nada de muito interessante.

O beijei novamente. Nossas línguas se acariciavam numa sintonia perfeita e nossos movimentos eram delicados e firmes ao mesmo tempo. Ele me segurou perto de si, provocando em mim sensações novas com o mais sutil dos toques. Fomos intensificando o beijo cada vez mais até meus lábios ficarem dormentes e o fôlego acabar.

Mesmo ofegante, continuei beijando-o com a mesma avidez, sem querer me afastar.

— Meu terno vai ficar amarrotado — ele disse ao escapar do meu beijo por um segundo.

Tirei minhas mãos da sua bunda com bastante relutância e as movi até sua cintura. Sem pensar direito, o empurrei até colocá-lo sentado sobre a mesa. Ele envolveu minha cintura com as pernas e eu apertei suas coxas num pedido mudo para que continuasse assim. Apertei sua cintura com força, prensando-o contra meu peitoral sem ousar romper o beijo. Senti seu volume roçar contra mim e sorri de lado, subindo minhas mãos para seus ombros.

Assim que ele fez menção de me tocar mais abaixo, a porta se abriu e nos vimos paralisados diante à secretária. Novamente. A mulher nos olhou com os olhos levemente arregalados, num misto de surpresa e medo. Rafael e eu ficamos em silêncio por alguns segundos, paralisados.

— Hã, Natasha... — ele balbuciou, parecendo um pouco desconcertado.

Afastei-me dele delicadamente, colocando-me ao seu lado, encostado à mesa.

— Eu já pedi diversas vezes para você bater na porta antes de entrar — deslizou pela mesa até estar apenas encostado a ela.

— Desculpe-me, senhor.

— Sinceramente, Natasha, estou começando a acreditar que você quer ver o que acontece aqui dentro.

Apertei a mão de Rafael com a minha num pedido mudo para que ele parasse.

O homem respirou fundo e assentiu com leveza.

— O que tem para mim?

Ela andou até estar próxima e o entregou uma pasta amarela.

— Uma moça passou aqui para entregar isso, pediu para conversar com o senhor, mas eu a informei que o senhor estava ocupado — ela falava com os olhos fixos nele, que avaliava os papéis com os olhos cerrados.

— É um currículo — ele murmurou — Lia Hench.

— Como é? — me aproximei dele, espiando as folhas.

— Você a conhece? — seu olhar apanhou o meu.

Assenti.

— Natasha, ela já foi embora?

— Estava ao telefone a última vez que a vi — olhou para mim — Deve estar no elevador neste instante.

— Licença — pedi ao mesmo tempo em que saía correndo da sala.

Passei pelos corredores tomando cuidado para não esbarrar nos pacientes. Não daria para esperar o elevador, demoraria muito, então me lancei pelas escadas.

Quando cheguei ao hall de entrada, olhei para todos os lados e, só encontrando o que procurava, quando parei ao lado de fora.

— Lia — a chamei.

Ela se virou no mesmo instante, um sorriso começava a se formar em seus lábios.

— Enzo — ela correu e seu corpo bateu contra o meu, abraçando-me com força — Você está tão... — ela afastou seu rosto e me contemplou com os olhos brilhantes ao mesmo tempo em que acariciava os cabelos da minha nuca — ... bem.

Sorri junto.

— É, eu estou sim.

Ela sorriu novamente, puxando-me para mais um abraço.

— Eu não te vejo desde... — ela parou de repente, olhou nos meus olhos e suspirou — ...desde aquele dia.

Soltei um sorriso melancólico.

— Que bom que está vendo agora.

— É muito bom mesmo — tinha um sorriso sincero.

Nos encaramos silenciosamente por alguns segundos.

— Mas me diz uma coisa, o que está fazendo aqui?

Ela olhou para baixo e suspirou profundamente.

— Bom, é complicado — deu de ombros — Perdi meu emprego, estou procurando outro há quase duas semanas e não consegui nada até agora.

Cerrei os olhos.

— O que aconteceu com o Chapman?

— Você não acreditaria — disse.

— Vindo dele, acredito em tudo.

Ela sorriu com minha afirmação.

— Ele foi preso.

— Não acredito.

Lia riu alto, encostando a testa em meu peito e voltando a me encarar de longe.

— Você disse que acreditaria.

— Acho que fui pego de surpresa — ri também — Mas tudo bem, não importa.

Ela assentiu, desviando o olhar para baixo. Eu tinha me esquecido de que ela sentia vergonha até mesmo da própria sombra.

— Eu posso te ajudar — falei de repente, erguendo seu rosto com o indicador — Vem comigo.

Durante todo o caminho conversamos sobre o que fizemos da nossa vida a partir do momento em que nos separamos. Ela me repreendeu diversas vezes por atos inconsequentes e eu escutei calado, sabendo que ela estava certa.

Quando passamos pela secretária de Rafael, ela nos lançou um olhar enraivecido, mas eu estava acostumado demais com aquilo para me importar.

Bati à porta.

— Rafael — empurrava a porta levemente, colocando apenas o rosto para dentro da sala.

Ele sorriu para mim.

— Ei, entra.

Empurrei a porta para que Lia pudesse passar primeiramente. O homem cerrou os olhos e deu a volta na mesa, parando à frente dela.

— Essa é Lia Hench — os apresentei — Ela me ajudou a conseguir um emprego há um tempo, trabalhamos juntos e... bom... pensei que pudesse dar uma oportunidade para ela.

— É um prazer, Srta. Hench — ele murmurou, pegando a mão dela e a levando aos lábios.

Ela soltou um sorriso envergonhado.

— É um prazer, Sr...?

— Pucket — ele não tirava os olhos dela, intimidando-a — Rafael Pucket.

— É um prazer, Sr. Pucket — disse com um sorriso.

Ele sorriu também, apontando a cadeira com uma das mãos.

Enquanto se movia para trás da sua mesa, ele me olhou, observando-me de cima a baixo de um jeito nada discreto e fixando seus olhos extremamente azuis nos meus ao terminar a análise.

Por sorte, Lia não viu.

Senti meu rosto esquentar depressa e, sem graça, cruzei os braços em frente ao peito.

— Eu tenho que atender um paciente daqui há poucos minutos — olhei para o relógio em meu pulso — Até breve, Lia.

Ela lançou um sorriso tão lindo na minha direção que eu fiquei realmente muito feliz em ajudá-la.

O garoto o qual atendi, chamava-se Breno, tinha problemas com drogas e bebidas. Dizia não ser amado pelos pais e realmente parecia bem carente. Era bastante perturbado e revoltado, havia engravidado duas garotas e assumiu não se importar com as crianças.

Quando a consulta acabou e eu o vi se afastar, suspirei profundamente e tentei livrar minha cabeça dos problemas dele por um tempo. Eu pensaria melhor naquilo depois.

Ao sair da sala, vi Lia adentrando ao elevador. Rafael esperava as portas se fecharem parado à parede com os braços cruzados em frente ao peito e um sorriso educado nos lábios. Quando isso aconteceu e ele se virou, deu de cara comigo e, com um sorriso de orelha a orelha, andou até mim.

— Ela mandou te agradecer — suspirou.

— Ela conseguiu o emprego?

— É, você conseguiu por ela — ele sorriu, indo até mim — Não que o currículo dela não seja bom, mas você... bom... deu um empurrão.

Olhei para todos os lados, encontrando os corredores vazios. Era fim de expediente.

Rafael olhou para fora através das enormes janelas de vidro e suspirou.

O clima pesou.

— Está na hora de falar com ele que estamos juntos.

— É, está — suspirei, sentindo meu coração bater mais forte.

— Tem certeza que quer fazer isso?

— Tenho — tinha total certeza — Ele está bem melhor, vai receber alta amanhã, precisamos conversar com ele antes disso.

Rafael assentiu.

— É uma decisão difícil.

Eu concordava.

— A vida é feita de decisões, meu caro — sorria para ele — Só precisamos saber qual a melhor delas.

Ele sorriu também.

— Está pronto?

Ri de lado, negando com um aceno de cabeça.

— Nunca estou.

Notas finais
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