Bourbon Street
18 Capítulo Dezoito - Ponto Inicial
Notas iniciais
— Diga-me — comecei — Nick pediu para você dar em cima de mim, não é mesmo?
A raiva parecia explodir em minhas veias sem eu sequer ter comprovado minha teoria. Porém, eu conhecia Nicholas bem até demais para saber que ele seria capaz de fazer aquilo.
— Claro que não, Enzo — Rafael alargou o sorriso, mas eu podia ver agitação em seus olhos — Eu só te achei interessante — avaliava meu corpo como se quisesse me engolir, o que não deveria ser mentira — E pensei que talvez pudéssemos... sei lá... ter alguma coisa a mais — ele foi se aproximando aos poucos e eu me perguntei mentalmente se conseguiria resistir.
A resposta que tive foi bem clara.
— Você é louco? — apoiei as mãos em seu peito e o empurrei de leve — Não vou ter nada com você.
Eu ainda não havia caído na sua conversa, era claro que Nicholas tinha pedido a ele para dar em cima de mim. Porque, afinal, um homem que sequer me conhecia iria me querer? Não fazia sentido, não tinha lógica.
— Certeza? Eu posso ser bonzinho com você — começou a desabotoar a camisa.
Eu não pude deixar de olhar seu peitoral. Eu só não sabia se conseguiria resistir até o fim se ele continuasse com aquilo.
Sua pele parecia ser muito quente e sua barriga era bastante definida, o que me deixou sem ar por alguns segundos. Quando Rafael soltou uma risada baixa, percebi que eu estava hipnotizado por aquela visão e, rapidamente balancei a cabeça, tentando me conter.
— Não preciso que seja bonzinho comigo — rosnei entre dentes — Não preciso de nada além dele — senti uma tristeza sem fim se infiltrar em meu peito — Achei que ele soubesse disso.
Deixei que meu olhar se fixasse no chão assim que me deixei desabar em uma das poltronas. Minha cabeça pendeu entre minhas mãos e uma lágrima tentou fugir dos meus olhos, mas eu a impedi.
Rafael abotoou a camisa antes de se agachar na minha frente e apoiar as mãos nos meus joelhos. Ele me encarou em silêncio por alguns segundos, apenas analisando minha feição.
— Desculpe-me — pediu de repente, parecia realmente arrependido — Eu não deveria ter aceitado essa situação — sorriu de lado — Você não é uma mercadoria.
— Ele falou isso? — minha voz saiu com um filete de desespero.
— Não, só me disse que precisava saber se você não o trairia mais vezes.
— Eu nunca o traí — suspirei.
— Não foi o que ele me disse.
Soltei todo o ar preso em meus pulmões enquanto sentia uma lágrima escorrer pela minha bochecha. Quando ia levantar a mão para limpá-la, Rafael me tocou suavemente, limpando a lágrima com o polegar. Ergui meus olhos até estarem fixos nos dele. O homem soltou um sorriso torto e apertou meu braço com a mão como se me induzisse a continuar.
— Uma vez... — sentia minha voz falhar — ...transei com meu chefe — o homem ergueu as sobrancelhas — Mas Nicholas e eu não tínhamos nada, éramos apenas... — respirei fundo — Não sei o que éramos.
Rafael abaixou o olhar e suspirou pesadamente, voltando a me encarar logo depois.
— Eu acabei com o relacionamento de vocês, não é mesmo?
Sorri de forma sarcástica e neguei com a cabeça.
— Ele acabou com o nosso relacionamento.
— Não faça isso, Enzo — estava aparentemente desesperado.
— Fazer o que, Rafael? O que tenho para fazer? O que tenho em mãos? O que eu preciso fazer? — comecei a me desesperar, mas antes que eu ficasse vermelho e tivesse um ataque do coração, o homem se aproximou ainda mais e segurou minha nuca com uma das suas mãos.
Seus olhos azuis me encaravam de perto e foi só ai que eu comecei a perceber que ele era mais bonito do que eu pensava. Seu hálito começou a se misturar com minha respiração quente e seu perfume viciante envolveu meus pulmões.
— Fica calmo — sussurrou ele — Vai ficar tudo bem.
Fechei os olhos, sentindo uma lágrima fugir dos mesmos. Outra vez pude sentir o toque do homem sobre minha pele, o que, assumo, me acalmou um pouco.
— Você não precisa acabar com o relacionamento de vocês, está me entendendo? — ele me sacudiu levemente e eu assenti com a cabeça — Converse com ele. Vocês podem resolver isso.
— Só o que eu quero é desistir.
— Você não pode fazer isso, ou já se esqueceu de tudo o que passaram juntos?
Abri os olhos e contemplei seu rosto bem desenhado.
— Eu sempre fui dele — assumi — Mas ele nunca foi meu — mais uma lágrima escorreu pela minha bochecha.
Dessa vez Rafael apenas apertou minhas mãos com força, como se tentasse dizer que tudo terminaria bem. Mas eu sabia que não seria assim, sabia que Nicholas nunca mudaria e sabia mais do que ninguém que nunca havia existido um relacionamento entre o delegado e eu. Foi apenas um sonho de muito mau gosto. Eu sempre seria a prostituta e ele sempre desconfiaria de mim. Não havia por que eu continuar com ele.
— Vem aqui — Rafael tentou me puxar, mas eu me neguei a sair do lugar — Por favor, Enzo, não vou tentar fazer nada errado, acredite em mim — pediu com a feição transformada em compreensão, então eu assenti.
Levantei-me e deixei que ele me puxasse pela mão para onde quer que ele quisesse me levar. Rafael se sentou em um sofá de couro no canto da sala e sorriu antes de segurar minha cintura e me deitar com a cabeça em seu colo. Não me movi, apenas deixei que ele fizesse o que tanto queria. O homem começou a acariciar meus cabelos suavemente e eu fechei os olhos, decidido a apreciar seus carinhos.
Lembrei-me do dia em que o Nick fez o mesmo e, sem perceber, comecei a chorar incessantemente. Meu peito doía e as lembranças me machucavam. Funguei e, ao perceber que Rafael deveria estar me achando uma garotinha, tentei esconder meu pranto. Esfreguei meus olhos com força e tentei engolir o choro, mas estava sendo difícil.
— Pode chorar — sussurrou ele e ouvir tais palavras só fez com que eu sentisse mais vontade de desabar — Eu entendo, Enzo — continuava — Entendo...
— Rafael? — o chamei assim que consegui respirar direito. Ele me olhava e um sorriso melancólico brincava em seus lábios — Já se apaixonou por alguém que estava longe do seu alcance?
O homem respirou fundo e, no segundo posterior, parecia que seus olhos estavam vidrados no nada, como se estivesse se lembrando de algo ruim. Ele apoiou a cabeça na parede por um momento e eu o avaliei enquanto sentia suas mãos pararem de acariciar meus cabelos. Seu peito estava quase parado e sua feição, um pouco modificada.
— Sempre tem um idiota que te machuca — murmurou — Mas isso não quer dizer que você tenha que parar de viver — nossos olhares se encontraram e um sorriso simpático apareceu em seus lábios — E eu... ér... não sei o que te dizer sobre o Nicholas...
— Não precisa, não quero mais saber dele — levantei-me abruptamente.
— Só me deixe terminar de falar — ele pediu já próximo de mim. Eu até podia sentir o calor do seu corpo e quase sentir seu toque — O que eu quero dizer é... — firmou a mão em meu ombro direito — ... não se desespere e não faça nada errado, consegue me entender? — Assenti com a cabeça — E tente conversar com ele, sem brigas e sem interrupções, apenas tente e, se não der, sinto muito.
Respirei fundo e balancei a cabeça, esfregando os olhos com uma mão. Rafael segurou minha cintura e me puxou para perto, virando-me de frente para ele. Deitei a cabeça em seu peito enquanto sentia suas mãos acariciarem meu cabelo com calma. O homem era mais alto do que eu alguns centímetros, o que fazia com que ele ficasse quase que impositor diante a mim.
— Eu não queria que você ficasse triste — suspirou ele.
— Você sequer me conhece.
— E já percebi que precisa de carinho — rebateu no mesmo instante e eu afastei o rosto por alguns centímetros para que pudesse encará-lo — Você é carente, Enzo, por isso transa com todos que aparecem na sua frente — sorriu de lado — Não acho que isso seja um problema, mas acredito que se tivesse alguém ao seu lado durante todos os momentos... — acariciou meu rosto com seu polegar — ... não precisaria se entregar para qualquer um.
— Porque está falando todas essas coisas? — dei um passo para trás — Porque está tentando me ajudar? É uma forma de se aproximar, me deixar sensível e finalmente atacar?
Ele soltou uma risada baixa, que soou um pouco melancólica.
— Estarei aqui caso precisar — tirou um cartão de dentro do bolso do terno e esticou a mão para que eu pegasse — Posso te dar uma força — soltou mais um daqueles sorrisos encantadores — Há qualquer momento — mordeu o lábio inferior ao mesmo tempo em que dirigia seu olhar para o chão. Aquilo foi extremamente sexy — Na verdade, eu posso te dar o que quiser — riu baixinho e eu não consegui resistir à tamanha espontaneidade, acabando rindo junto.
— Achei que Nicholas fosse seu amigo... — mordi o lábio inferior.
— E é.
Não acreditei nele.
— Espero que vocês resolvam esse problema — disse.
— Tem certeza que é isso que espera?
— Tente resolver suas diferenças — sorria de lado.
— Não sabia que você era emotivo — ri baixinho ao vê-lo corar.
— Não tanto quanto você — seus olhos novamente estavam fixos nos meus — Mas assumo que não sou tão macho — rimos juntos.
— Bom, acho melhor eu ir... — suspirei pesadamente.
— Tudo bem, eu tenho mesmo que trabalhar... — tentou disfarçar o constrangimento e andou até a porta, abrindo-a vagarosamente — Espero que fique bem.
Sorri um pouco de lado e caminhei na sua direção.
— Obrigado por hoje — agradeci sincero — Você foi... incrível.
Ele sorriu abertamente e assentiu com a cabeça antes de puxar ainda mais a porta, dando espaço para que eu passasse.
Respirei fundo e sorri outra vez antes de me movimentar para fora da sala. Suspirei pesadamente, perdendo rapidamente minha pose divertida e comecei a me movimentar até os elevadores. Porém, antes que eu pudesse chegar até os mesmos, um pensamento muito babaca passou pela minha cabeça, mas eu acabei sorrindo ao tê-lo. Portanto, resolvi colocá-lo em prática.
Me escondi atrás de um móvel e observei a secretária nojenta que continuava a jogar Paciência no computador.
Movimentei-me passo por passo até estar eficientemente pronto e, quando me decidi que era a hora, coloquei meu plano em prática.
— Há — gritei e a mulher deu um pulo tão grande que quase bateu a cabeça no armário sobre si.
Soltei uma gargalhada e segurei minha barriga com as mãos. A secretária estava tão assustada e tão nervosa que parecia querer me matar. Estava pronto para falar algo quando ela se levantou e começou a correr atrás de mim. Eu ria alto enquanto me movimentava o mais rápido possível. Ao olhar para o painel digital que ficava ao lado de fora do elevador percebi que não conseguiria fugir por ali, então corri até as escadas e as desci como um louco.
Quando cheguei ao térreo percebi que ela não havia corrido atrás de mim por todo aquele tempo e, cansado, respirei fundo, tentando ajeitar minha respiração, mas eu não conseguia parar de rir.
Quando finalmente consegui parecer um cidadão normal, a tristeza me invadiu novamente e eu pude senti-la à flor da pele. Ainda não acreditava que Nicholas fora capaz de fazer aquilo comigo, mas tudo que eu queria no momento era me livrar dele. Sim, eu o amava, mas amor não é tudo que precisa para constituir uma boa relação. O mais importante não existia entre nós, o respeito e a confiança.
Comecei a andar na direção de casa.
Nicholas e eu tínhamos algo bonito, mas tão disfuncional, que não poderia durar. Eu o amava tanto, mas o deixaria ir, porque sabia que ele nunca me amaria da mesma forma.
Uma dor como essa não deveria ser experimentada e eu tinha certeza de que ainda cambalearia muito por causa da sua perda, continuaria delirando, repetindo seu nome durante os sonhos e relembrando seus toques.
O que tínhamos era algo diferente do que todo o resto. Eu tinha cicatrizes de batalhas anteriores e, mesmo que tenha causado novas, eu não me importava, porque estava desaparecendo, sumindo de repente.
Toquei a maçaneta da porta e respirei fundo antes de empurrá-la e adentrar o calor específico e confortável.
— Achei que não demoraria — Nicholas grunhiu em um segundo e no outro já estava de pé, caminhando rapidamente até mim.
Ele segurou minha cintura com as duas mãos e aproximou seu rosto do meu pescoço, cheirando-o e avaliando se eu havia realmente transado com seu amigo.
— Quero que saia da minha vida — minha voz saiu sem emoção.
Nicholas se afastou, encarando-me, desentendido.
— O quê?
— Tire suas mãos de mim — o empurrei, fazendo cara de nojo.
— O que aconteceu com você? Está bêbado? — ele se aproximou, mas eu o empurrei outra vez.
— Eu não pertenço a você, Nicholas — rosnei enraivecido, mas ainda assim uma lágrima escorreu pela minha bochecha — Some da minha casa, some da minha vida, eu não quero mais te ver.
— Enzo, o que está acontecendo com você? — ele estava começando a se desesperar.
— Você tenta me dominar, tenta me colocar do seu jeito, mas eu não sou assim e você não consegue me entender — grunhi em meio as lágrimas.
— Eu não estou entendendo...
— Eu sei que não — continuei — Você nunca entende, sabe porquê?
— Porque tudo o que você está dizendo não tem sentido? — ironizou.
— Não — respondi — Você não entende porque acha que só porque eu estou sozinho pode me comandar — limpei as lágrimas com força e continuei a encará-lo — Eu sei o que faço, Nicholas, e você pode até duvidar disso, mas eu sei o que é o amor e certamente não é o que você sente por mim.
— Carter, para de gritar e me explica o que aconteceu — falou mais alto do que eu.
— O que aconteceu é que eu descobri que você não confia em mim — eu chorava — Precisou pedir a um amigo para dar em cima de mim. Que tipo de homem você acha que eu sou?
— Enzo, não foi bem assim... — ele estava com as mãos paradas no ar, tentando se explicar.
— Claro que foi, seu imbecil — soquei o abajur que ficava no canto esquerdo da mesinha e ele caiu, espalhando vidro pelo chão — Tudo que eu queria era que você confiasse em mim, mas isso nunca vai acontecer, então saia da minha vida antes que me faça sofrer mais.
Assim que terminei de falar, Nicholas suspirou pesadamente e assentiu afirmativamente.
— É o que quer? Depois de tudo que passamos para ficarmos juntos? Depois de eu ter finalmente assumido? É o que quer?
— É tudo o que eu quero, Nicholas, vá embora e não volte — o encarei.
— Você sabe que eu não tenho um lugar para ficar, não é mesmo? — falou — Nem roupas...
— Eu não me importo — meu pranto havia cessado e tudo que havia dentro de mim era mágoa impregnada.
Nicholas assentiu novamente.
— Tudo bem — suspirou — Adeus, Carter.
E com isso, moveu-se até a porta, parando ao meu lado por um segundo.
— Tem certeza? Eu posso não voltar.
— Não quero que volte — sequer olhei para o lado.
— Ah... claro.
Pude ouvi-lo abrindo a porta vagarosamente como se esperasse que eu o impedisse.
— Nicholas?
— Oi — respondeu no mesmo instante.
— Devolve as chaves — virei-me e estendi a mão na sua direção.
Ele assentiu, enfiou as mãos nos bolsos e me entregou o objeto.
— Obrigado.
Não precisei sequer fazer mais nada, apenas me movi até o sofá e me joguei no mesmo, observando a lareira como se ela fosse a coisa mais interessante do momento.
Tudo que eu queria naquele momento era beber até desmaiar e me esquecer dos meus problemas, mas eu não faria isso, não seria nada interessante passar a noite vomitando.
Fiquei pensando em nada específico até o momento em que meu celular vibrou no bolso de trás da minha calça.
— O quê? — não estava com paciência de ser educado.
— Enzo, aqui é a Amélia.
Porque diabos ela estava me ligando?
— Ligou para me xingar mais um pouco? — ironizei.
— Não, desculpe-me por isso, está bem?
— Tanto faz, Amélia, esse é o menor dos meus problemas — minha voz devia estar horrível.
— Peço desculpas novamente, mas preciso lhe entregar outro problema.
— Ah, não — gemi — Por favor, não faça isso comigo.
— Enzo, é sobre o Nicholas.
— Ah — soltei uma risadinha — Desculpe-me, mas Nicholas e eu não estamos mais juntos, não tenho nada com isso.
— Enzo, não desligue, eu te liguei o dia todo e você não me atendeu, agora terá que me ouvir.
— Porque está tão preocupada com o Nicholas? — acabei ficando irritado.
— Porque a mulher dele está tramando contra ele, seu idiota, ela pediu minha ajuda.
Ajeitei-me sobre o sofá, finalmente achando aquela história interessante.
— Como?
— Ela quer tirar o filho dele.
Fale com o autor