Bound To You
1 Capítulo 1
Seus braços caíram ao lado do corpo. Exaustão. Não sabia por quanto tempo mais conseguiria continuar, sentia a pressão em suas têmporas e os batimentos cardíacos a ensurdecer pelo corpo. O movimento elevado do oceano à sua frente fora abruptamente interrompido e ela conseguiu sentir algumas gotas de água baterem em seu rosto pelo bruto impacto.
Respirou fundo.
Não há porque continuar insistindo, pensou. Annia enxugou o leve suor da testa e massageou as têmporas levemente, observou o vasto oceano à sua frente novamente, agora tranquilizava-se ao abraçar as duras rochas da costa, tão incontrolável, pensou, como poder controlar águas uma hora impetuosas e vorazes e outra tão calmas e relaxantes? Há pessoas assim também, incontroláveis como o mar.
Balançou a cabeça levemente abandonando os pensamentos.
Virou seus calcanhares e observou a grama ao seus pés rodopiarem ao movimento, erguendo o olhar viu que não estava sozinha.
—Você está melhorando. –constatou.
Annia elevou o olhar e estudou o rosto do mestre à sua frente. Os traços envelhecidos do seu rosto se destacavam à luz do sol, desviou o olhar dela ao oceano a sua frente, a brisa da maresia bagunçava lhe os cabelos.
—Não estou. –disse por fim. –A água é muito instável, não sei como controlar.
A força era algo incompreensível as vezes, a forma como era apresentada à sensitivos era tão diferente e curiosa que Annia perguntava-se constantemente se já foram documentados e descobertos todas as manifestações possíveis da força em sensitivos. Luke uma vez dissera-lhe “Há excelentes lutadores que guiam suas batalhas pela força e não percebem que o que os flui é a mesma, assim como caçadores de recompensas com percepções e instintos incrivelmente precisos não percebem que há um terceiro elemento os guiando internamente.”
Sensitivos à força controlam-na a seu favor, conscientes ou não.
—Você desvaloriza-se muito rápido. –Luke respirou fundo. –Vamos voltar para que possa comer algo e meditar.
Annia deu o ultimo relance ao mar antes de alcançar os passos do mestre lado a lado, caminharam silenciosos por um momento, apenas o assobiar dos ventos cantando pelos seus cabelos.
—Às vezes não consigo compreender a minha sensitividade –disse quebrando o silencio. — Mesmo depois de tanto tempo.
—Nunca compreenderemos completamente nosso potencial se não o explorarmos. –sentia o receio crescer ao peito, talvez nunca compreendesse. –Você não é a primeira sensitiva às forças da natureza, não é como se começássemos do zero, lembra-se dos primeiros treinos?
Engoliu o seco, como esquecer?
—Sim. Todos da academia queriam-me fora –riu levemente. –Fazia crescer flores em todas paredes. –Luke sorriu a lembrança.
O sorriso de Annia desvaneceu, estavam ao topo da colina.
—Mas agora é tudo tão diferente, não me sinto forte como antes. –suspirou, o mar antes calmo agora debatia-se violentamente nas rochas. -Dez anos não parece ter sido suficientes, sinto-me fraca, vulnerável.
Luke avaliou seu rosto. Dez anos atrás não haveria no sistema aluna mais radiante que Annia, a mulher à sua frente distanciava-se cada vez mais da garota que um dia fora. Suspirou. Os tempos eram outros, as situações e pessoas do passado também.
—Penso as vezes que parte seria pelo exílio. Sei que sofre por estar aqui, sinto seu desespero e tristeza muitas vezes Annia. –Prendera a respiração, ele sentia minha tristeza, sabia que sim mas com o passar dos anos achava que com o treinamento conseguiria criar algumas barreiras com seus sentimentos.
—Gostaria de poder sair –confessou. –Mas sei que se for encontrarei situações e conflitos que não sei se seria capaz de encarar. –os cabelos loiros caiam-lhe pela testa, desenfreados pelo treinamento de mais cedo.
—Talvez esse seja seu teste final.
As palavras a pegaram de surpresa, estudou as feições de Luke, calmas e sábias como se mantivesse o segredo das galáxia sobre seu manto. Isso a irritava no começo, como alguém poderia influenciar tanto e demonstrar tão... pouco?
—Mas não estou pronta. –disse por fim, quase um sussurro. O medo e agonia cresceram um pouco ao peito, sentindo apertar. Mas esses já eram velhos sentimentos, tentava ignorar.
—Coma alguma coisa e medite, estarei na colina das ruínas. –disse sem ao menos olha-la ou responde-la sobre o assunto. Annia observou o mestre sair na direção oposta e pôs-se a caminhar ao abrigo. Suspirou pesadamente, sabia que quando precisava de respostas o mestre ia às ruínas do antigo templo jedi, o único motivo de estar no planeta.
Agarrou-se a qualquer fruta que encontrou pelo caminho e sentou-se na grama já do lado de fora novamente, passou as mãos pela terra sentindo-se aliviada, como um abraço de um antigo familiar. Fechou os olhos sentindo a grama trançar-se pelos vão dos dedos.
—Mamãe, não deixe eles me levarem. Não quero ir –choramingou.
Suspirou e observou a filha, já estava a completar 8 anos, não poderia mais adiar o inevitável.
—Filha, você tem de ir. –colocou uma de suas mexas rebeldes atrás de uma das orelhas de Annia. –Eles cuidarão de você lá e você terá amigos, uma cama melhor e comida decente.
As condições de vida de Annia e a mãe não eram boas, Marika com muito esforço conseguira a atenção de um comerciante do pacato planeta de Ankdu, que conseguira a atenção de Luke Skywalker sobre a questão de Annia. Todos os dias observava a filha iluminada com a esperança de que houvesse um modo de arranjar-lhe uma vida melhor. Sabia da sensitividade da filha, o pai fazia questão de contar histórias da galáxia e da força à mulher, uma tragédia ter morrido antes mesmo de Annia nascer.
A mulher conteve as lágrimas enquanto em uma bolsa improvisada ajeitava os poucos pertences da filha.
—Eu já tenho amigos e você, e eu gosto da minha cama! –resmungou.
—Annia, não há conversa. Você vai e ponto final! –Respondeu duramente. Marika sentiu um desolamento ao observar todas as plantas do cômodo murcharem e caírem secas. Não precisava virar para saber que a filha chorava, uma lágrima escapou e rapidamente a secou. Virou-se e ajoelhou diante a filha.
—Annia, nos veremos novamente. Eu prometo. – acariciou o rosto da filha secando lhe as lágrimas. –Você é tão forte! E será ainda mais! Mestre Luke irá te ajudar a entender porque você é especial. Eu não posso fazer isso, se pudesse jamais deixaria você ir –mentiu, tudo que fosse possível para uma vida melhor para a filha, ela alcançaria.
Annia caminhou lentamente até a porta de casa agarrando-se à mãe o máximo que pudesse, grossas lágrimas ainda desciam por suas bochechas deixando seu rosto rosado.
—Hora de ir –Marika suspirou –Cumprimente o mestre Luke como a mamãe lhe disse e dai-me um beijo delicioso. –ela soava feliz e Annia não deixava de pensar se sua mãe estava feliz em lhe mandar embora com estranhos. Relutante abraçou a mãe agarrando-se ao cheiro suave de flores em seu cabelo, seus braços pequenos ainda não faziam a volta em torno da mãe mas aperto-a tanto que conseguiu tocar a ponta dos dedos pelo abraço.
—Amo você. –beijou-a no rosto e virou-se para o estranho a sua frente. Olhou relutante uma última vez para a mãe, que sorria encorajando-a.
—Olá mestre Luke, meu nome é Annia. E isto é para o senhor. –A garota abaixou-se à grama e com um leve movimento da mão uma pequena flor branca fez-se crescer sobre seus pés, ela a recolheu e entregou ao estranho, sorrindo ao movimento.
Annia ergueu o olhar ao topo da colina mais distante, suspirou. O melhor seria limpar-se e meditar, poderia levar dias até mestre Luke voltar e consumir-se com lembranças era doloroso demais quando sozinha. Se bem que, pensou. Luke lia seus sentimentos e pensamentos, e recordações do passado deveriam ser evitados. Só lhe fazem chorar, constatou. Melhor seria seguir com as tarefas e meditar até dormir. Espreguiçou-se e sentiu os músculos tencionarem ao movimento, a água sempre foi um desafio, impetuosa e incontrolável era o elemento de maior dificuldade do treino de Annia o único que não estava em seu total controle. Ainda, pensou esperançosa. A dor muscular tencionou um vez mais e concluiu que um banho antes da meditação, seria o melhor a fazer.
Enxugou os cabelos com certa dificuldade, Annia não era alta e seus cabelos caíam até a altura de seu quadril em ondulações douradas, enroscou os dedos pelo comprimento numa tentativa de desembaraça-los. A pele branca sofria pelo intenso sol resultando em sardas espalhadas pelo corpo, o qual era intenso e forte, não era tão boa quanto gostaria em combate mas mantinha sua defensiva nos intensivos treinos que mestre Luke insistia toda semana. Mesmo assim, as curvas e acentos do corpo de mulher estavam ali, os olhos verdes fundiam-se à um sutil azul no centro da íris, olhos marcantes e um rosto delicado Annia não era uma figura difícil de olhar porém não sentia-se bela. Sentia-se cansada e agoniada, tantos anos em exílio e alguns em fuga custaram-lhe a alegria radiante de sua personalidade que conforme o tempo passava, sentia como se estivesse se extinguindo para sempre. Esfregou a toalha aos cabelos uma última vez antes de joga-la em qualquer canto, dirigiu-se à sacada, não chamaria de sacada a saída de um morro do abrigo feito todo de pedra da própria colina, mas lhe dava a impressão de sacada ao proporcionar uma visão extensa e incrível da ilha, o sol estava quase se pondo, ainda com alguns raios vívidos no horizonte enquanto a luz do outro lado transformava-se em escuridão. Sentou-se e suspirou, fechou os olhos sentindo a brisa um pouco mais gélida do fim de tarde, esvaziou a mente e concentrou-se apenas na energia quase palpável ao seu redor. A força. Sentia a conexão de todos seus músculos e tendões num fluxo da força e aos poucos seu corpo entrava em um estado de relaxamento e tranquilidade. Podia passar horas sentindo apenas a energia ao seu redor, pensamentos esvaziavam-se e podia ouvir apenas sua respiração e batimento cardíaco regulados.
Não estava mais perceptiva das ações ao seu redor, era apenas ela.
Horas passavam mas não havia como dizer, as batidas internas do coração eram um ciclo vicioso que repetiam-se num loop com a energia emanada da força.
Então ela sentiu.
Começou como uma pequena carícia em um ou outro ciclo de respiração, nos primeiros momentos ignorou. Talvez seja alguma variação do ambiente externo.
Não.
A intensidade aumentou consequentemente e quando sua respiração e batimentos separaram-se do ciclo Annia sentiu que algo estava diferente. A energia ao seu redor que era quase palpável antes agora tocava-lhe cada fibra, quase poderia dizer que sentia alguém segurando-lhe, tocando seus ombros. A energia aumentou ainda mais, como se fosse possível, e Annia podia sentir-se quase dentro de um abraço apertado, não era ameaçador, era acolhedor e vívido.
Abriu os olhos em um lapse e encontrou-se ofegante e com as pontas dos dedos formigando sobre as pernas. Encontrou-se no breu, já há muito escurecera e apenas a luz das estrelas iluminavam-se timidamente. O que era aquilo¿ Nunca antes tinha sentindo a força dessa maneira, era diferente. Algo estava errado.
Não.
Algo estava certo.
Não era isso.
Não consigo compreender. Luke deveria ter sentido também, mas o que isso significava, era uma energia tão imensa que qualquer sensitivo poderia ter tocado. Era como uma presença, uma chegada... talvez?
Não.
Como um despertar, concluiu. Um despertar da força.
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