Boulevard Of Broken Dreams
10 Cap 10 - Não mereço isso
Notas iniciais
'Ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para esculpir a serenidade. Usar a dor para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência. '
August Cury, escritor e psicanalista
Pov. Annabeth
4hs45min da manhã, eu não ia conseguir voltar a dormir. O sonho ainda estava fresco na minha cabeça. Somente de lembrar já me causava um arrepio na espinha. Mas o pior não era isso. O que mais me assustava é que era sempre o mesmo sonho. Quase todas as noites eram assim.
Eu estava em uma sala branca quando minha mãe apareceu ao lado daquele homem de terno que eu só vi uma vez, mas nunca esqueci. Os dois se aproximaram e começaram a discutir, mas eu não conseguia ouvir o que eles falavam, até que o homem de terno bateu na minha mãe. Não com um tapa, não, mas sim com soco bem forte. Ele caiu no chão e começou a chorar. Por mais que eu a odiasse por me abandonar aquela cena fazia meu coração se apertar, eu ainda a estava olhando quando ela me viu. O seu semblante mudou drasticamente e me lançou um olhar com ódio.
— É tudo culpa sua, seu estorvo! Você nunca devia ter nascido sua imprestável, ninguém nunca te quis — ela começou a gritar
No sonho seu nariz sangrava devido ao soco que ela levou, mas mesmo assim me olhava com nojo
— Eu torço para que morra seu estorvo — falou se aproximando de mim com a mão erguida
Com essa última cena eu acordei chorando.
Aquilo doía, doía muito. No começo eu achava que aquela ferida com o tempo iria cicatrizar. Mas não, somente se tornou mais profunda a cada dia. Ser rejeitada pela própria mãe, ser largada de lado como se não fosse nada pelo pai, não ter ninguém em quem confiar a não ser em si própria. Eu não aguentava mais.
Eu me lembro muito bem como isso começou. De início eu apenas vivia chorando escondida, mas depois vieram alguns cortes, mas não eram suficientes para abafar a minha dor, depois veio à bebida, mas o efeito era passageiro. Como se tudo isso não bastasse, vieram os sonhos a pouco mais de seis meses. Isso estava me angustiando e muito e já estava pensado seriamente dar um fim nisso tudo.
Eu tinha meu namorado, o Luke, mas não confiava plenamente nele, ele era obsessivo e perdia a calma muito fácil quando ficava nervoso. Ninguém via Luke com bons olhos, o diretor, os professores e os alunos, eu sinceramente não sabia o porquê, até mesmo porque o seu passado praticamente ficou esquecido quando ele se mudou para Yancy, sempre quando tentava entrar no assunto ele logo desviava com alguma desculpa sem nexo.
Mas eu confiava nele, não completamente, mas com certeza era a pessoa que eu mais confiava. Sempre que ele me via triste me levava para alguma balada. Eu sabia que ele só me chama para conseguir tirar proveito de mim me deixando bêbada, mas ele sempre passava dos limites e acabava bêbado primeiro.
— Droga, por que me deixou mãe? O que fiz de errado?
Quando dei por mim já estava chorando me lembrando dos poucos, mas inesquecíveis momentos que passamos juntas.
Não, não de novo não esses pensamentos só acabam comigo ruins — falei pra mim
Peguei o celular e liguei para o Luke, eu precisava de um bom litro de vodka pra me acalmar e esquecer aquelas lembranças, eu não podia me cortar, não agora, da ultima vez a Tia M quase descobriu. Fico imaginando se ela tivesse
— Desligado — bufei depois de tentar sem sucesso falar com Luke — isso é ótimo
Olhei para o relógio novamente e vi que havia ficado mais de vinte minutos pensando naquilo. Sempre era assim, às vezes eu me perdia nas lembranças e quando me dava conta já haviam se passado horas.
Eu estava inquieta, precisava de algo forte para beber. Eu não guardava bebida em casa. O motivo? Meu pai. Ele já não me tratava com tanta atenção desde que minhas notas caíram e se descobrisse o que ando fazendo não quero nem pensar o que vai ser de mim. Claro que ele não sabia que eu saía às quintas e voltava somente na segunda, ao menos na maioria das vezes. Ele praticamente vivia fora, nem se lembrava de mim. Eu sabia que se caso meu pai descobrisse que eu andava bebendo, me mandaria para um internato ou algo pior.
Levantei-me e corri para trocar de roupa, não conseguia ficar mais assim, eu precisava beber. Vesti uma calça escura e um moletom cinza e calcei um tênis, fiz tudo isso sem nem ao menos prestar atenção. Minha mente gritava por álcool de maneira urgente. Sai do quarto quase correndo.
Meu pai não estava, tinha viajado para Inglaterra a convite de um dos conselheiros da rainha, um tal de Sir. sei lá das quantas, nem me importava em saber. Mas eu tinha que tomar cuidado. Ainda tinha a governanta a tal da tia M como eu gostava de chamá-la, seu nome era Margareth e mais parecia o diabo em forma de gente, aliás foi ela quem mostrou minhas notas para o meu pai, velha desgraçada, e depois diz que se preocupa comigo. Mas agora isso não é a minha prioridade.
Desci as escadas silenciosamente e passei correndo pela sala. Foi quando eu estava a cinco passos da porta que a minha sorte acabou. Sem querer esbarrei em um vaso que eu nem sabia que tinha por ali. Estava escuro e eu nem pude ver como ele era. Só escutei o barulho de algo se quebrando no chão.
Na hora eu congelei. Será que alguém escutou? Esperei um pouco mais, mas ninguém apareceu. Abri a porta devagar e sai na noite escura.
Luke morava bem no centro de Nova York em um apartamento modesto, apesar de viver dizendo que seus pais tinham bastante dinheiro não se via morando cercado de luxo. Peguei um táxi e fui em direção ao centro.
Minha garganta agora implorava por álcool. Eu acho que o motorista percebeu minha aflição, pois não cansava de perguntar se eu não precisava de um médico e tal. Mal cheguei onde ele morava e pulei do táxi quase que correndo. O porteiro que estava de plantão já me conhecia e me deixou subir assim que me viu.
Eu cheguei à porta do seu apartamento e já ia bater quando ouvi gemidos abafados. Pensei em chamar a polícia mas depois que prestei atenção vi que não eram gemidos de dor e sim... de prazer?
Minha sorte é que eu tinha a chave e não a esqueci em casa. Destranquei a porta e entrei devagar. Os gemidos se tornaram mais audíveis. Caminhei em direção de onde vinha o barulho, ou seja o quarto. Antes de chegar lá meu sangue já fervia. Eu tinha uma breve noção do que aquilo significava e torcia para que não fosse.
A porta do quarto estava entreaberta e pela fresta eu vi a cena que preferia não ter visto.
Luke estava deitado em cima de uma garota. E a penetrava com vontade. Eu podia ouvir ela gemer e sussurrar o nome dele. 'vai... mais rápido Luke, mais... ahh', 'eu vou, ah... eu vou...'
Eles tinham acabado de chegar ao ápice do prazer e eu tinha acabado de chegar no fundo do Tártaro.
Eu olhava os dois ali se beijando, fazendo carícias. Logo ele, o único em que confiei. Por quê? Será que eu nasci pra sofrer meu Deus? Meu coração doía. Doía como da vez que minha mãe me abandonou, doía como da vez que meu pai me esqueceu. Ele ainda era o único em quem eu confiava. Agora eu estou só. Estou só mais uma vez.
Lágrimas caíram do meu rosto. Eu abri a porta com chute,o que fez os dois se separarem ofegantes. Agora eu pude ver o rosto daquela vadia.
Drew no início me encarava com espanto, mas depois deu um sorriso debochado. Luke parecia que ainda processava a informação de que eu estava ali. Somente quando eu me virei para ir embora que ele sai do transe
— Annabeth espera — ele gritou vindo correndo e pegando pelo meu braço
Ele estava nu. Se fosse outra ocasião eu com certeza estaria babando por aquele corpo, mas eu somente o encarava com ódio
— Annie, não foi o que...
— Não me chame de Annie, Luke — falei chorosa — e o que? Não foi o que estou pensando. Eu vi Luke, eu vi meu namorado transando ou melhor fazendo sexo selvagem com a minha 'amiga' — falei frisando a ultima palavra
— Não é assim Annie...
— Chega Luke, acabou — falei já me afastando dele — Nunca mais me procure, você me dá nojo.
Eu corri até a porta mas ele me segurou e me pressionou contra a parede me beijando. Foi o pior beijo da minha vida. Carregava nojo, mentira e vários outros sentimentos que não quero lembrar. Dei-lhe um chute naquele precioso e sai correndo.
Quando sai o porteiro me olhou com uma expressão confusa e começou a falar alguma coisa, mas não dei tempo e saí correndo pelas ruas desertas de Nova York. Eu chorava e muito, não pelo Luke por que já sabia que ele não prestava, mas por que aquilo me fez lembrar da minha vida, do meu sofrimento, da minha dor. As pessoas me olhavam com pena por onde eu passava. Mas eu não queria aquilo, já não basta todos falarem, coitada daquela menina sem mãe ou o pai dela nem liga pra coitada. Quando me dei conta eu já estava entrando em um bar.
Eu abri os olhos e vi que estava em casa. Como eu não sei, mas aquilo me assustava. Eu me lembro de ontem. Lembrava-me da desgraça que bateu na minha mais uma vez. Eu ainda estava pensando em tudo isso quando a porta do quarto se abriu e a última pessoa que eu queria ver entrou
— Agora você pode me explicar o que aconteceu?
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