Boukou

5 Capítulo IV: Rinjou


Notas iniciais
Oi, amores! Sou eu, Srta Pezzino, tudo bem? Eu espero que estejam! Essa short-fic está prestes, prestes a chegar em seu ápice que é o ponto de vista do agressor (o próximo) e da vítima. Esse capítulo maravilhoso foi feito pela Nariko, uma DEUSA mesmo. ♥ Espero que curtam, boa leitura. ;)

Capítulo IV: Rinjou

Ato de visitar

2015, março.

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Decidimos todos visitar Zaku na cadeia havia mais ou menos uma semana. Kin tinha sido a mais relutante de nós três em concordar com a visita, dizia ainda não ser capaz de encará-lo, olho no olho, tampouco perdoá-lo que fez.

Dosu, por outro lado, murmurava palavreados obscenos frente à hesitação dela. Ambos tinham opiniões tão discrepantes a respeito do acontecido lastimável um ano atrás que se tornou um suplício ouvi-los discutir nos últimos meses.

Como agora, em que mais uma vez os dois quase se engalfinhavam em um sushi bar, por pouco não me matando de constrangimento. Decerto que o assunto preferido dos tabloides continuava a ser a estranha reclusão daquela que já foi uma das atrizes mais queridas do Japão.

Recentemente, entretanto, a estrela de Haruno Sakura parecia ter se apagado para sempre. Havia se envolvido em poucos projetos desde o ocorrido, pelo que ouço falar, e sempre quando era fotografada pela lente de algum paparazzi aparecia apática, cada vez mais magra e pálida. Alguns rumores indelicados apontavam até mesmo depressão.

Não sei ao certo porque não costumo me envolver em fofocas fúteis, no entanto, é difícil ignorar um assunto quando este é mencionado em cada esquina. Meu distanciamento não me incomoda, muito menos a minha opinião não formada sobre o tópico delicado.

— Eu estou dizendo — Kin murmurou pela segunda vez, seu tom de voz crescia e tendia a se tornar estridente quando estava com raiva — que ela tem o direito de fazer a porra que ela quiser! Que merda, Dosu, esse seu machismo escroto me dá náuseas!

Dosu, um cara de temperamento tão ou mais volátil do que o dela, fez pouco mais do que resmungar.

— E eu estou dizendo que se ela estivesse em casa, cumprindo a porra do dever dela, isso não teria acontecido!

Kin espalmou ambas as mãos no tampão da mesa, atraindo um pouco mais de atenção dos clientes nas mesas vizinhas e eu a olhei feio por isso.

— Que caralho você está insinuando?! Que uma mulher não tem direito a trabalhar fora de casa?! Que uma mulher não pode fazer as suas próprias escolhas sem ter a porra de um homem apontando o dedo para ela?! Em que século você está vivendo, seu imbecil de merda?!

Suspirei e balancei a cabeça; estava cansado de toda aquela discussão que não parecia nos levar a lugar algum.

— Eu só digo que se essa tal Sakura não tivesse se exposto tanto, Zaku não teria tido motivos para ter feito o que fez — ele deu de ombros com tanta casualidade que apenas serviu para agravar a tensão na mesa.

— Agora você está dando razões para ele, é?! Desde quando estupradores precisam da merda de um motivo para agredir mulheres sexualmente?!

Kin buscou na bolsa pelo maço de cigarro e pendurou um entre os lábios enquanto continuava a procurar pelo isqueiro, tudo isso sem parar de gritar com Dosu.

— Quer saber?! Foda-se você e ele! Foda-se esse seu machismo de merda!

Estendi a mão e puxei o cigarro da sua boca, censurando-a com apenas um olhar.

— Me devolva isso, Kabuto! — ela se inclinou na mesa no intuito de recuperar o cigarro, mas eu estendi meu braço para fora do seu alcance.

— Não pode fumar aqui, Kin; é um estabelecimento fechado. Tenha consideração pelos demais clientes — pedi-lhe com sensatez, mas ela estava tão alterada àquela altura que não deu ouvidos nem mesmo ao meu bom-senso.

— Foda-se você também, Kabuto! Foda-se você por concordar com esse maldito! — ela gesticulou para Dosu e seu rosto cheio de cicatrizes se repuxou num sorriso irônico.

Retirei meus óculos para apertar meus dedos na ponte do meu nariz. Era inacreditável como aqueles dois me cansavam tão rápido.

— Eu não concordo com ele — esclareci e Kin bufou.

— Mas também não concorda comigo. Vem cá, você não se cansa de estar em cima do muro o tempo todo? Eu imagino que deve ser malditamente entediante.

— Não estou em cima do muro também — inteirei um pouco mais alterado agora por ter de explicar meu ponto de vista pela décima vez. — Eu só enxergo os fatos por um ótica diferente.

— Oh, eu me esqueci de que você é todo certinho! Crescer num orfanato católico deve ter feito uma lavagem cerebral completa em você!

Entrelacei meus dedos sobre a mesa; nossa comida estava quase intocada, mas Kin e Dosu estavam exagerando mais uma vez com as bebidas. Eu, como sempre, havia pedido apenas um refrigerante.

— O meu ponto de vista é que vocês dois jamais chegarão a lugar algum — murmurei com um dar de ombros.

— E o meu ponto de vista é que uma mulher tem o direito de fazer o que quiser com a vida dela!

Dosu cruzou os braços e fitou Kin com um brilho frio nos olhos.

— Você só sustenta esse discurso barato porque já é uma puta mal falada.

Kin cerrou os dentes audivelmente e o olhou com ainda mais raiva. Mas, então, ela se acalmou e devolveu o olhar friamente cruel de Dosu com um sorriso malicioso acrescido:

— É, eu sou a puta mal falada que você esteve louco para comer, não é mesmo? Por que está interessado para quem eu dou a minha boceta?

— Por mim, você pode dar a sua boceta para quem quiser. Eu estou pouco me importando.

Voltei a remover meus óculos para massagear os cantos dos meus olhos. Estava começando a sentir os primeiros indícios de uma enxaqueca.

— Vocês dois poderiam, por favor, parar com os palavrões e os termos obscenos? Eu tenho uma opinião formada a respeito de sexo — prolonguei o debate, acrescentando o meu ponto de vista —: Como me ensinaram no orfanato e como está previsto nas escrituras, o ato sexual só deve ser praticado entre duas pessoas que se amam, dentro de um matrimônio, e para gerar seus frutos, as bênçãos do Senhor.

“Esses casos crescentes de estupro nos últimos anos são apenas uma consequência desse estilo de vida mundano que as pessoas levam. A busca incansável pelo prazer e apenas por ele deturpou o significado verdadeiro do amor para a humanidade nesse último século”.

— Isso não faz sentido algum! — Kin contrapôs meu argumento, mas para o meu alívio estava um pouco mais composta dessa vez. — Se assim fosse, não haveria estupro dentro de casamentos! E acredite você ou não, o índice de prática desse crime dentro de matrimônios é bem real. Um aro de ouro no dedo anelar não anula a gravidade desse crime nojento!

— Um homem tem total direito sobre o corpo da sua mulher — Dosu rebateu e ganhou pela terceira vez naquele dia um olhar de desprezo de Kin.

— E eu reitero — prossegui —: Isso é fruto da deturpação do amor e do laço matrimonial, as pessoas hoje não sabem o que é amar, apegam-se a um sentimento superficial que envolve aparência e bens materiais e dizem que é amor. Sabem que eu não aprovo esse tipo de comportamento promíscuo tanto em homens quanto em mulheres, não sabem? As pessoas agora só buscam satisfação pessoal, são narcisistas e mesquinhas, por isso veem o seu parceiro como um meio de alimentarem seus egos. Nisso, acabam usando também o sexo como um canal para a obtenção dessa satisfação pessoal. Mas o sexo é muito mais do que isso; é uma demonstração de afeto, um meio de mostrarmos aos nossos cônjuges o quanto nos importamos com eles, o quanto os amamos e do quanto abriríamos mão apenas para tê-los ao nosso lado.

“Essa deterioração do significado do ato sexual leva as pessoas a fazerem de tudo para a obtenção do prazer, por isso elas recorrem a casos extraconjugais, libertinagem e, até mesmo, nesse caso, a ignorar as vontades de um terceiro e se forçarem sobre ele, não se importando nem mesmo com os direitos sobre o próprio corpo dessa pessoa, que deveriam ser invioláveis”.

Kin revirou os olhos ao fim do meu discurso, mas percebi que não voltou a fazer objeções. Já Dosu fez pouco mais do que voltar a resmungar e se reclinar no encosto da cadeira.

— E é por causa desse tipo de filosofia, meu caro, que você morrerá virgem.

Não dei atenção ao seu comentário maldoso, preferindo ignorá-lo como sempre fiz. Nós comemos então, passando o tempo até o horário de visita na prisão. Vê-los em silêncio, apesar da tensão palpável que ainda havia entre os dois, era tudo o que eu queria.

Quando deixamos o sushi bar, passava das três da tarde e as temperaturas amenas me agradavam. Nós seguimos pela calçada, andando os três lado a lado. Revirei meus olhos quando Dosu e Kin deram os primeiros sinais de engatar outra discussão escandalosa e preferi me afastar dele, apertando o passo e passando a frente.

Foi quando os vi, na mesma calçada, vindo na nossa direção. Era Haruno Sakura e Uchiha Sasuke; Sasuke-kun eu conhecia, embora não mantivéssemos contato já havia alguns anos. Ele teve aulas de teatro com o mesmo professor que eu, Orochimaru-sama, e, embora tivéssemos sido alunos do mesmo homem quando novatos, não éramos exatamente camaradas.

Afundei meus punhos nos bolsos do meu jeans enquanto eles se aproximavam, andando lado a lado; ela conversava animada sobre algo e ele se limitava a assentir com um aceno de cabeça, mas estava óbvio mesmo para um espectador distante como eu que ele prestava atenção em cada palavra do que ela dizia.

Já havia algum tempo que a mídia sondava o relacionamento de ambos, embora nenhum dos dois houvesse confirmado o namoro, sempre eram vistos juntos e alguns rumores diziam até que moravam no mesmo apartamento. O fato de nunca haverem assumido publicamente o relacionamento, eu sentia, era para preservarem a pouca privacidade da qual podiam desfrutar.

Sasuke-kun desviou o olhar do rosto dela por um único instante e nossos olhares se encontraram. Não sei dizer se ele me reconheceu, mas talvez eu tenha visto um lampejo de familiaridade no seu rosto soturno. A julgar pelo modo como suas sobrancelhas se enviesaram e como seus olhos escuros se crisparam, creio que ele teve a vaga sensação de já ter me visto.

Desfiz o contato visual com ele e mirei Sakura, a bela jovem ao seu lado; ela parecia diferente da última vez em que a vi estampando a primeira página de um jornal. Ouvi dizer que estava frequentando um grupo de apoio para mulheres que eram vítimas de agressões físicas e sexuais.

Seu sorriso radiante para Sasuke-kun sugeria-me a oportunidade de um recomeço. E acho que ele também sentia isso, pois voltou a dar total atenção para ela, no momento em que passaram por mim e por Kin e Dosu, que estavam alheios à presença dos dois, já que haviam reiniciado a mesma velha e redundante discussão.

Eu estagnei no meio do caminho e olhei para trás, silenciosamente assistindo as duas silhuetas que se distanciavam despreocupadas pela calçada; Sasuke-kun ainda tinha o rosto tombado na direção dela e a intensidade, a devoção com que a fitava me fez engolir em seco e me deixou constrangido.

Estava óbvio para qualquer um que se desse ao trabalho de prestar um pouco mais de atenção naqueles dois que ele a amava. Verdadeira e genuinamente. Estava estampado nas suas feições cuidadosamente compostas, no fantasma de um sorriso que repuxava sua boca a cada vez que a via sorrir. Na forma protetora como seu corpo se inclinava na direção do dela, como se pudesse levar um tiro por Sakura a qualquer instante.

Sasuke-kun a amava e estava cuidando dela, cuidando para que se recuperasse e se libertasse do trauma que Zaku a infligiu.

Sou extremamente observador, modéstia à parte, e leio as pessoas com muita facilidade, por isso também senti o quanto ele queria tocá-la agora, mesmo que isso significasse apenas passar um braço ao redor dos ombros frágeis dela. A tensão estava visível no braço dobrado que quase roçava o dela enquanto caminhavam.

De repente, a própria Sakura aproximou-se mais e enganchou o braço no dele, descansando a cabeça ali mesmo. Vi-o tensionar todo o corpo, creio eu com medo de machucá-la, antes da ansiedade abandonar os seus ombros e ele relaxar sob o toque inesperado, cedendo para ela.

Sasuke-kun e Sakura desapareceram na primeira esquina, mas eu fiquei com suas imagens gravadas no meu cérebro, pensativo e congelado no meio do caminho. Até mesmo Dosu e Kin pareceram se dar conta do meu comportamento estranho porque encerraram a discussão.

— Ei, Kabuto, você está bem? — ouvi-a indagar e sorri para ninguém em particular antes de assentir e dizer que deveríamos nos apressar para a visita.

Só Deus sabe como gostaria de conversar a sós com Zaku e convencê-lo a se arrepender do seu pecado e confessá-lo. Meu maior desejo era salvar a sua alma medíocre e consumida pela própria luxúria.

Porque até mesmo estupradores tinham direito ao perdão e ao Reino dos Céus.

Notas finais
A Deusa Nariko pediu para agradecer a leitura, que vocês não deixem de comentar o que acharam e até o próximo. Tudo porque é uma bobona que achou que o capítulo ficou ruim, meu Deus, muito boba, digam pra ela. Beijocas. ♥