Boukou
4 Capítulo III: Mamoru
Notas iniciais
Capítulo III: Mamoru
Ato de proteger.
2014, março
A imaginação é um elemento crucial para o âmbito artístico, principalmente, quando se é um ator e precisa conceber um personagem em dada situação, seja grave ou cômica. Alguém do estrelato necessita saber como reagir a experiências que jamais viveu em mentes que não são a sua.
Era muito mais fácil, acredite.
Ouvir da boca do meu irmão mais velho, alguém que prezo e estimo em absoluto, uma notícia tão chocante e incômoda, fez com que eu me sentisse mal: cego, mudo e surdo por alguns segundos. Meus sentidos se perderam no vão das minhas memórias e das minhas expectativas, vagueando pela realidade e descrença.
— O que você disse?
Itachi, ainda sentado no sofá, encarou meu semblante com preocupação, sempre tentando me proteger ao máximo, embora – desta vez – fracassasse no processo. Sua boca se entreabriu para falar enquanto passava a mão pelo queixo:
— Sua namorada... — murmurou, tentando dizer o que eu precisava ouvir, ainda que não quisesse. — Ela está viva e vai sobreviver, mas aconteceu que um cara invadiu o camarim dela, no dia de hoje, e a estuprou, eu não sei como dizer isso... Não faça essa cara.
Estuprada. Sakura foi estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada. Estuprada.
A minha namorada, aquela que me sorri todos os dias e tenta me acalentar com seu jeito doce. Aquela que faz meus dias um pouco mais quentes como se o sol da primavera estivesse sempre presente.
O brilho dos seus olhos. Será que era eu quem fazia alguma cara?
— Onde ela está?
Minha voz saiu presa na garganta, eu sei que Itachi percebeu, mas não disse nada além de entregar um papel para mim que continha o endereço de algum lugar com a caligrafia de Naruto. Eu não me preocupei muito com aquilo, dividido entre ir atrás do filho da puta, que eu ainda descobriria quem é, ou de Sakura.
— Sasuke, — Itachi me chamou no momento em que eu alcancei o batente da porta. — nós dois sabemos o quanto é rancoroso, por isso, e por agora, não faça nada além de ir até Sakura. Ela precisa de você como nunca precisou na vida inteira dela, lembre-se disso, Sakura não precisa de vingança.
— Mas o filho da puta que fez isso também precisa de mim — trinquei os dentes, controlando minha raiva o máximo que eu podia, meus dedos se prenderam na maçaneta, fazendo com que os nós deles ficassem tão pálidos quanto eu no momento em que recebi a notícia. — Para que eu o leve direto ao cemitério.
— Sasuke!
Abri e bati a porta com força, deixando meu apartamento para trás. Indo à direção do meu carro e com o endereço já em mãos, busquei não pensar muito no monstro que tinha feito aquilo, porque eu tinha e precisava de Sakura.
Ainda agora, eu precisava dela para me acalmar, para que meu corpo parasse de tremer e minha garganta não ficasse mais cerrada do que já estava. Seu coração batendo em meus ouvidos seria a única solução para minha fúria, por isso, acelerei o máximo que pude.
Eu queria correr. Correr para ela. Vingar-me. Vingar-me loucamente de quem havia a ferido. Eu necessitada daquilo e, por um momento, quis ver um corpo aos meus pés e sangue em minhas mãos.
Batendo todas as portas com o máximo de força para descontar a minha raiva, adentrei ao hospital, ao lado da delegacia de polícia, com câmeras e repórteres malditos me seguindo.
— Sasuke, o que pensa que está fazendo? — Deidara, amigo e companheiro de trabalho do meu irmão, falou comigo — Itachi está desesperado pela forma que você saiu do seu apartamento, já te ligou inúmeras vezes!
Algo em meu semblante fez com que Deidara se calasse imediatamente, também não me importei em olhar o telefone e verificar as chamadas que tinha mencionado, pois não pretendia parar até encontrar Sakura. Continuei caminhando em busca dela, desesperada e loucamente, não obedeci qualquer enfermeira que se interpôs em meu caminho.
— Sasuke!
Meu olhar recaiu sobre Naruto que tinha um semblante sério e um tom melancólico ao me chamar, no entanto, não dei qualquer atenção. Eu não me importava com qualquer percepção ou insinuação de Naruto, não neste momento.
— Onde ela está?
Outra expressão incômoda e penosa foi direcionada a mim como se eu quem tivesse sofrido o abuso. Ao contrário do de praxe, Naruto não me disse nada além do que eu queria saber, apontando à direção do quarto dela e não hesitei em caminhar até o lugar, como todo o caminho, o mais depressa que pude.
Ao menos, até chegar à porta.
Meus dedos ficaram presos na maçaneta gelada enquanto pressionava o objeto. O que eu diria? O que eu faria? Meu corpo não parava de tremer, meu coração parecia pesado e minha garganta estava prestes a se fechar por completo.
Eu tinha como confortá-la?
Como eu poderia fazê-lo se eu quem precisava do seu toque? Do seu olhar e sorriso?
Antes que eu pudesse perceber, a mão de Naruto estava no meu ombro, amassando-o gentilmente. Olhei-o de soslaio, sabendo que eu era digno da pena que me direcionavam, e percebi uma expressão confiante:
— Você consegue, ela precisa.
Sem me sentir de fato preparado, abri a porta e Naruto me deixou sozinho, desolado comigo mesmo e com minha incapacidade de animá-la. Eles me animavam, nunca foi o inverso.
Nunca.
Sakura estava encolhida sobre a maca hospitalar não tão espaçosa, porém poderiam caber, no mínimo, seis dela. Seus ombros estavam para baixo, seus braços envolviam suas pernas, a cabeça apoiada nos joelhos.
Ela levantou o olhar para mim e, por um mísero segundo, senti-me mais quebrado do que antes. O brilho, que eu tanto amo, estava perdido nos resquícios dos fragmentos de memória do passado, substituído por lágrimas que escorriam naquele rosto em formato de coração.
Meu primeiro soluço veio a tona e, antes que eu pudesse formular algo, aproximei-me dela com lágrimas embaçando minha vista, sem que caíssem ainda. Eu não conseguia olhá-la direito, mas queria tocá-la e sentir que estava bem.
Poderia tentar alcançá-la com o toque de mil maneiras diferentes, a resposta seria sempre a mesma.
Sakura não estava bem e, assim que tentei afagá-la no braço, recuou brutamente. Seus olhos pareciam perdidos quando me encaravam, traumatizados com qualquer aproximação.
Sua recusa, ainda que eu entendesse, foi como uma espada afiada fincada em meu coração. Minhas pernas, que ainda tremiam, cederam e eu caí de joelhos ao lado da cama.
Não consegui encará-la, sentindo-me estúpido por tentar fazer algo que ela não conseguia suportar. Apoiei, ainda enquanto chorava amargamente, minha testa na maca que ocupava.
Eu queria formular algo. Eu queria que não doesse tanto.
Eu realmente queria vingança.
— Sasuke-kun, desculpe... — sua voz saiu frágil, quebrada e absolutamente chorosa. — Eu não quis me afastar, eu só...
Seus dedos enroscaram-se em meus cabelos, afagando minha cabeça como se eu quem precisasse de ajuda. Como sempre, ela quem me comprimia em seus braços e me acalmava enquanto quem deveria fazê-lo era eu. Queria conseguir fazer o mesmo por Sakura. Sempre quis.
— Eu devia estar com você, se eu não tivesse discutido com Kakashi — funguei mais alto, deixando toda a minha raiva sair. Sakura ainda só me tocava no cabelo. — Isso não teria acontecido, esse cara... Eu nunca...!
As lágrimas dela eram tão audíveis quanto as minhas e, somente após seu aperto em meus ombros, levantei meu corpo e a abracei por completo, ignorando o enrijecer do seu corpo.
Em algum momento, senti-a mais relaxada em meus braços, acostumando-se outra vez com meu toque tão conhecido no passado. Ainda que traumatizada, ela era a minha árvore de cerejeira que eu necessitava repousar.
— Sakura, quem foi que fez isso com você? — questionei-lhe após as minhas lágrimas diminuírem de ritmo e, finalmente, eu não me sentir incomodado em encará-la, o tempo não parecia nada enquanto estávamos a sós. — Quem foi?
Naquele dia e nem sequer nos outros que vieram e viriam, Sakura me respondeu, pois todos sabiam como eu era um homem amargurado e vingativo que, aos poucos, graças a ela, teve o coração congelado, aquecido.
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2015, março
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Um ano não era nada para curá-la.
Depois que voltou a trabalhar, seis meses depois, tudo havia se tornado difícil, principalmente, porque não conseguia ficar sozinha atuando e nem ter um camarim próprio, ainda que tivesse mudado absolutamente cada pedaço daquele lugar, inclusive a portaria. Sakura ganhou um espaço dentro do meu, não me importei com isso, afinal, estávamos morando juntos.
Passamos a fazê-lo porque no tempo que ficou longe do trabalho, não conseguia ficar na própria casa, olhando-se nos espelhos e teve a sua primeira – e espero que última – tentativa de suicídio com comprimidos.
Nem mesmo Naruto gritou com ela, porém a nossa decepção foi o suficiente para perceber o quanto era importante para nós. No mês seguinte de ócio, Sakura resolveu voltar a trabalhar: ela queria dar a volta por cima.
Apoiamos e continuamos, sem nunca deixá-la cair. Pedi-lhe em casamento depois de oito meses do ocorrido e sete meses morando na minha casa, ela recusou meu pedido porque tinha medo de ter que ser tocada de novo.
Eu a amo, inegavelmente, aquilo machuca. Havia se passado um ano inteiro sem que eu pudesse tocá-la de novo, somente memórias de nossos momentos íntimos e nada mais enquanto dávamos breves selares de boca. No fundo, eu me importava, mas não ligava tanto quanto Kakashi dizia para eu me importar.
Naruto me defendeu, naquele dia, dizendo que o amor não se mede pela carne, embora ele amasse comer churrasco, mas pela ligação e confiança que duas pessoas possuem uma na outra. Um tanto sentimental; um tanto inocente.
Ainda machucado, naquele mesmo mês, ofereci outra vez a aliança para Sakura, dizendo que não havia pressa e, quando ela quisesse, eu estaria fazendo o pedido mais uma vez – embora não tão romanticamente quanto na primeira.
Se aquilo havia sido romântico, claro.
No décimo mês após o trauma de Sakura, passamos – os dois juntos, sempre – a frequentar um grupo de apoio que Itachi havia lhe indicado na primeira semana do ocorrido e eu já deveria tê-la levado. Finalmente, ela passou a ter mais coragem depois dos encontros semanais onde outras mulheres falavam —
E tentavam superar. Não era algo que se esquecia, mas que se convivia; disse uma mulher – certa vez – que se chamava Senju Tsunade. Aquela mulher se tornou a mestre de Sakura, em diversos sentidos.
Tsunade havia conseguido, a partir de seu trauma, apoiar Sakura de uma maneira que nem eu e Naruto conseguimos. Ela não era rica e nem sequer famosa, mas uma médica humilde que perdeu a carreira depois de um fatídico dia em que tinha sido sequestrada por engano, sendo violentada e vendo o marido, Dan, morrer diante de seus olhos por seus estupradores.
Ela se embebedou como nunca antes, adquiriu uma tremedeira nas mãos que permanece até hoje, jamais voltaria a trabalhar como médica e nem sequer fazer ou auxiliar em cirurgias. Sua mente e alma se afundaram até que reencontrou um antigo professor de teatro, Hiruzen Sarutobi.
Por coincidência do destino, Naruto conhecia o velho que, atualmente, tinha um neto encapetado que o amava, idolatrava Sakura e me enchia de elogios. A série Menma tinha entrado em hiatus pela falta da nossa estrela e, tanto eu quanto o loiro, recusamo-nos a continuar sem ela.
Sakura resolveu dar tudo de si e voltar plenamente para o trabalho, dando continuidade a série que, ao voltar depois dos seus seis meses em casa, não conseguia atuar uma cena sequer direito. Konohamaru, com seus mimos e incentivos, havia conseguido convencê-la de quanto seu ofício era importante.
Hiruzen Sarutobi auxiliou Sakura a soltar seus medos e traumas com aulas teatrais, intercalando com conversas e debates entre eles e Tsunade, dizendo-a que ela tinha sorte, porém não vejo como poderia com tudo aquilo.
A cada fim de semana que passava, Sakura se tornava mais receptiva e demonstrava pequenos sorrisos. Depois de dois meses, no dia de hoje, vi-a olhar pela janela com alguma expectativa no olhar.
Não sei o que era, mas gostaria de descobrir sem tentar invadir seu espaço.
Ainda jogado no sofá e a apreciando dessa distância, pude vê-la se virar completamente para mim com um ínfimo sorriso no rosto. Sakura, com pequenos passos, aproximou-se e depositou um beijo na minha testa, buscando-me com um brilho há muito sumido de seu olhar.
— Podemos ir à sorveteria da esquina?
Aquiesci confuso, estranhando tudo aquilo, porém não poderia deixar de ceder ao seu pedido depois daquele resquício de brilho no olhar. Sakura se afastou, alegando ir se arrumar, também deveria fazê-lo e, por causa disso, segui-a, partilhando do mesmo quarto para buscar as roupas e me trocar em outro lugar.
Após pegar uma blusa xadrez vermelha e preta, além de uma calça jeans, movi-me à direção do banheiro. Entretanto, a voz da minha namorada invadiu-me, surpreendendo-me:
— Por que não se troca aqui, por hoje?
Pisquei os olhos por alguns segundos, anuindo. Sakura tinha as bochechas coradas enquanto me olhava e retirava a blusa bege que vestia, trocando por uma vermelha, ambas de mangas longas.
Depois de tanto tempo, pude vê-la usando sutiã e me senti constrangido. Era estranho, no entanto, depois de tudo, perdemos parte da intimidade que tínhamos, mesmo vivendo sobre o mesmo teto. Pouco via as suas roupas íntimas e, desde o trauma, não a vi vestindo nenhuma, na verdade, usava roupas longas e, raramente, trajava vestidos.
Sakura tinha se fechado fisicamente, acabei vendo-a deste jeito: alguém que eu deveria respeitar e até recear em tocar, não querer ferir. Basicamente, transformei-a em uma boneca frágil que não tinha qualquer desejo e, ainda que ela não o tenha, fingi que também não tinha.
Era o de menos, eu sei.
Envergonhado pela minha postura virginal, passei a me vestir sem olhá-la por um segundo sequer. Senti um eriçar na nuca como se estivesse sendo observado e, provavelmente, eu estava. Sakura faria graça de mim se não tivesse passado por aquilo, com toda certeza.
— Estou pronta – murmurou para mim, aproximando-se enquanto eu ainda terminava de abotoar a calça. – Não se preocupe, Sasuke-kun, eu não vou te morder, pode olhar.
Desarmado com a brincadeira, observei-a de cenho franzido. Sakura não acordou hoje e resolveu brincar de que nada tinha acontecido. Havia algo absolutamente estranho nisso tudo, por este motivo, indaguei:
— Algo aconteceu?
Vi seus olhos piscarem mais de uma vez, surpresos.
— Sim – respondeu enquanto seus dedos entrelaçavam nos meus, seus olhos lacrimosos se prendiam em minha face e sua boca soltava as palavras que tanto desejei, por ela própria, ouvir. – Eu resolvi, no dia de hoje, depois de um ano, que está na hora de viver ou tentar fazer algo além de sobreviver. Sarutobi-sama e a shishou disseram-me que eu tinha sorte, estou tentando não desperdiçar mais tempo.
— O que quer dizer com esse final?
— Eu ia esperar chegarmos até a sorveteria, tomarmos sorvete – sorriu, deixando uma lágrima escorrer de leve. Sakura tentou secá-la, porém eu fui mais rápido, tocando sua bochecha avermelhada e a acariciando com a ponta do dedo, ainda receoso. – Lembrarmos que foi lá que eu te pedi em namoro, afinal, você sempre foi muito “lerdo e tímido”. No final, eu só queria tentar ser o máximo que eu era, a garota quem você sempre disse estar apaixonado para te dizer que, eu acho, eu acho mesmo... “estou pronta para tentar”.
— Sakura, desculpe, mas você pode ser mais especifica no que quer tentar? – questionei ainda mais confuso, expondo meus sentimentos e pensamentos – E não diga e nem pense que eu não sinto o que sinto porque você mudou...
O dedo indicador dela pressionou minha boca, tentando silenciar-me e fazendo-me obter uma careta enquanto eu ainda tentava pronunciar alguma coisa, balbuciar meus sentimentos.
— Você sempre foi quieto, Sasuke-kun – disse com um pequeno sorriso e mínimas poças de água nos cantos dos olhos, retirando o dedo de meus lábios e aproximando-se com o corpo. – Deixe-me explicar: eu estou pronta para tentar, isso quer dizer que estou usando a aliança que você me deu.
Pisquei aturdido e meu olhar traçou um caminho direto para sua mão, podendo notar a pequena aliança de ouro que há meses já estava no armário. Não tínhamos hábito de usá-las, porém, com a ocidentalização, aquilo passou a ser idealizado, romântico – era desse ponto que eu falava anteriormente.
— Sakura, você quer ir à sorveteria comigo?
— Aceito.
O murmúrio da sua voz me acompanhou por todo o trajeto, trazendo-me felicidade, ainda que estivesse longe de estar plena, eu só me sentiria bem quando ela, finalmente, passasse a viver perfeitamente bem – o que eu não sei se, um dia, será possível, embora eu jamais desista.
No meio do caminho, avistei três pessoas estranhamente familiares e me questionei onde eu já tinha visto aquela mulher e os dois homens que a acompanhavam. Sakura chamou-me a atenção, perguntando – pela milésima vez – porque eu não gostava de doces, como se já não soubesse a resposta.
Ignorei sua pergunta, observando-a e percebendo que existia um resquício do brilho de seu olhar ali, direcionado totalmente para mim.
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