Bouina

10 CAPÍTULO 10


Brisa acordou com o som das cigarras e o perfume de ervas queimadas no ar. O teto de madeira parecia girar por um instante, tudo parecia embaçado e turso, seu corpo parecia pesado. Quando tentou se mover, um cansaço estranho percorreu-lhe os ossos. Tudo parecia distante, como se tivesse dormido um século inteiro.

— Você dormiu por três dias, minha filha. — disse Marina, com voz doce, sentada à beira da cama.

Maria parecia cansada com os olhos vermelhos. Parecia ter chorado e que nem havia dormido ao longo dos dias.

— Três dias? — repetiu, a voz rouca. — Por um instante achei que… eu estava morrendo.

Marina afagou-lhe os cabelos com ternura.

— Não, meu amor. Só estava entrando na fase da transformação.

— Me transformando? Agora? — murmurou confusa. — Eu… eu sinto como se tivesse queimando por dentro.

A mãe apenas assentiu e apesar do nervosismo, tentava se manter calma diante da filha, sua única fraqueza. Quem um dia foi assombrava-lhe a mente, e pensar que sua filha poderia ser igual… a aterrorizava.

— Está tudo bem agora. Você é forte, Brisa. E não está sozinha. — Acariciou-lhe o rosto, os dedos tremendo. — Eu estou aqui, para o que vier. Sempre estarei.

Brisa respirou fundo, sentia seu coração apertar dentro do peito.

— Mãe… me desculpa por ter fugido.

— Não precisa pedir desculpas. — sorriu, triste. — Às vezes, fugir é a única forma de entender o que está dentro da gente. Está tudo bem agora, meu amor. Estou aqui para você.

Marina mantinha a voz calma e delicada. Ela queria fugir, levar sua filha para longe, longe de tudo e talvez fugir da maldição. Houve um longo silêncio entre as duas. O som distante do rio parecia ouvir a conversa. Marina olhava para o nada, mergulhando em lembranças quase esquecidas.

— Quando eu me transformava... — começou, com voz embargada — era horrível. Pouco me lembrava do que eu fazia. As lembranças que sobraram eram a do horror. Só sabia que doía.

Brisa a observava, imóvel, prestando a atenção em cada palavra, sentindo ansiedade antecipada do que poderia acontecer consigo mesmo.

— Sua tia… ela mantinha consciência. Nossa mãe também. Mas eu... — engoliu em seco. — Eu enlouquecia. Talvez porque nunca aceitei quem eu era. Sempre lutei contra.

Brisa apertou o lençol entre os dedos.

— E o meu pai? — perguntou, quase num sussurro. — Ele… ele sabia sobre você?

Marina hesitou, desviou os olhos de Brisa. Seu semblante mudava toda vez que a filha perguntava sobre o pai.

— Seu pai foi embora há muito tempo, Brisa. Não vai voltar. — Forçou um sorriso. — É melhor guardar o que há de bom na lembrança.

Brisa notou a sombra no olhar da mãe. Mesmo assim, preferiu se calar. Não fazer mais perguntas. Após a breve conversa, Marina saiu do quarto, indo terminar seus afazeres domésticos e nos dias seguintes, o corpo de Brisa se recuperou, e não deu mais sinais da possível transformação, voltou à escola.

Ela percebeu os corredores com todos comemorando as tão esperadas férias e faltavam apenas três dias para o seu aniversário de quinze anos.

Tudo dentro dela estava um turbilhão. Antes sonhava com uma festa, agora sonhava em não conviver mais com pessoas. Se sentia extremamente insegura com seu futuro.

Alana quando a viu, correu até ela lhe dando um forte abraço.

— Brisa! Eu queria te pedir desculpa pela brincadeira na floresta. Eu fui idiota. Eu queria tanto ir te ver, mas minha mãe não deixou. Estava morrendo de saudades!

— Tudo bem, Alana. Já passou.

— Eu vou ficar para o seu aniversário, tá? Antes de viajar. Prometo que vai ser só alegria dessa vez. Mesmo que não tenha festa, podemos fazer uma festa do pijama.

— Tá tudo bem, Alana. Estou feliz por você, espero que tenha uma ótima viagem.

— Vou sentir sua falta, Brisa. Afinal, não imagino minha vida sem você. Você é a minha melhor amiga.

— Sempre seremos. Vamos manter contato. Você pode ligar para a minha mãe quando quiser falar comigo.

— Vou ligar e mandar cartas sempre que eu puder, eu prometo!

Brisa assentiu, sentindo um conforto estranho no peito. Sabia que, quando Alana partisse, levaria a última parte de uma vida comum e humana que ainda se dava a chance de compartilhar. Tentou ao máximo aproveitar o dia com sua melhor amiga.

Ela não sabia se conseguiria manter contato após sua primeira transformação e por fim, não sabia se ainda iria querer viver uma vida totalmente humana tendo contato com a amiga.

Quando acabou as aulas, Alana foi embora e Brisa foi à procura de Safira, que estava perto do rio olhando ao redor com um olhar perdido.

— Safira… — começou, com voz baixa. — Eu queria te pedir perdão. Por nunca ter entendido o seu lado. Agora eu entendo o que você sentia. Eu também estou… mudando.

Safira respirou fundo com os olhos marejados.

— Agora compartilhamos tudo, Brisa. A dor, a transformação e o peso das vidas que teremos que tirar pra continuar vivendo entre eles. — Ela apontou para os barcos que se distanciavam aos poucos. O olhar de Safira era triste.

— Matar? — Brisa sentia o corpo tremer.

— A vovó me ensinou que quando eu estivesse prestes a me transformar, preciso ir ao local certo. Assim garanto que não farei mal a nenhum inocente. Somente a aqueles que ferem a nossa fauna e flora. Já carregamos culpas demais para carregar a morte em vão de um inocente.

Brisa ficou em silêncio, o coração acelerado.

— Como é? Digo… você sabe… — perguntou, hesitante. — A transformação?

Safira não sabia se queria dividir com a prima como era, afinal, logo se transformaria também e não queria colocar medo em sua mente, mas também não queria mentir.

Ela odiava o fato de ter que estar distante da vida que ama, de ter uma vida completamente humana. Mas ela sabia também que nunca poderia fugir, pensou que desprezando a prima, nunca iria ter que falar do monstro que se tornou. No fundo, ela temia quem realmente era interiormente. Ela não tinha total controle de sua besta interior, mas ela se lembrava de tudo o que fazia e isso a deixava temerosa de quem realmente era.

Ela sempre viu Brisa como uma parte frágil da família, Brisa nunca conheceu o pai, só tinha a mãe e ainda vivia longe dos familiares. Marina sempre a deixou distante de tudo e todos, o que a fazia ter pena da prima por ser tão super protegida e na maioria das vezes escondida de todos. Ninguém da família sabia quem era o pai da Brisa, só soube que um dia Marina apareceu grávida e sua mãe e a tia viveram uma gravide em conjunto, nascendo assim, Brisa e ela muito próximas uma da outra. Foram criadas como irmãs, e doía muito em seu peito, saber que sua querida irmãzinha passaria pela mesma dor que ela vem passando.

— É uma dor que não consigo descrever, Brisa. Os ossos se quebram, se movem. A pele queima, se solta, e o que sobra é carne viva, até que as escamas apareçam. Rastejar é… estranho. É como nadar, mas você sente tudo. Cada grão de terra, cada vibração. — Fechou os olhos e abraçou o próprio corpo como se lembra-se de tudo. — É como se duas partes de si mesma acordassem juntas. A humana e a serpente. E você observa tudo de dentro, sem poder parar. Sem poder fazer nada… sem escolhas.

A menina sentiu um arrepio na espinha.

Ela se afastou um pouco da prima, não sabendo ao certo o que responder, e nem o que pensar ou esperar. Safira vendo a aflição no olhar da prima, segurou em sua mão e com a outra arrumou o cabelo que teimava em cair no rosto de Brisa.

— Tenha paciência com a tia Marina. Ela te ama mais do que qualquer coisa. Nem tudo o que ela fez foi por crueldade. Às vezes, proteger é esconder. — Ela pensou em quantas vezes viu a tia sofrer por causa de Brisa e do quanto ela tenta parecer ser forte.

Brisa assentiu, emocionada.

— Obrigada, Safira.

As duas se abraçaram e Brisa sentiu que ao menos não estaria sozinha. E que estava feliz em voltar a falar com sua prima. Safira se despediu e desapareceu entre as árvores. Brisa quis a seguir, mas sabia que cada uma precisava do seu tempo. De seu espaço. Voltou para casa de barco. Quando chegou, Marina estava à porta olhando para o sol que ia embora aos poucos.

— Você demorou, menina. — Disse, enxugando as mãos no avental. — Sabe o que pensei? A gente vai fazer uma festinha. Pequena, só nós, a família… e você pode convidar Alana, se quiser.

Brisa sorriu, sentindo um nó na garganta.

— Eu adoraria, mãe. Obrigada. — Abraçou a mãe.

Brisa se sentia imensamente grata. Parecia que ás coisas estavam entrando em seu devido lugar. Estava falando melhor com sua mãe. Sua prima havia voltado a falar com ela e Alana estaria longe, protegida.

Nos dias seguintes, mãe e filha prepararam tudo.

Fizeram o bolo, arrumaram flores secas e fitas coloridas pela casa. Riram, conversaram, e pela primeira vez em muito tempo, o ar parecia leve. A festa foi simples, mas cheia de afeto. Safira veio, Alana também. Brisa soprou as velas e fez um pedido silencioso. Ela aproveitou ao máximo com Alana, que prometeu voltar nas próximas férias e que enviaria cartas todos os dias e na manhã seguinte, Alana partiu.

Brisa e sua mãe acompanharam a família de Alana até a rodoviária para se despedir da menina. Brisa chorou já sentindo falta da grande amiga. Voltou para sua casa, e sua mãe deitou-se com ela no sofá pequeno da sala.

Os dias passaram rápido e as aulas terminaram, e o silêncio da casa voltou a reinar.

Estava de noite, a lua cheia brilhava no céu. Marina dormia tranquila no sofá, e Brisa estava deitada na cadeira de balanço da varanda de frente ao rio. Havia pego o costume de ficar sentada na varanda olhando para o rio.

Sempre pensativa. Sentindo aos poucos o corpo mudar. Eram mudanças sutis. Mas que a fazia perceber que a hora estava chegando.

Sua pele estava amarelada. Seus olhos vermelhos. Parecia estar com febre. O corpo estava muito quente. Ela não quis preocupar sua mãe, então não contou sobre os sintomas ou o que sentia.

Pensava que talvez, fugir novamente para a floresta e passar pelo processo de transformação sozinha, poupasse sua mãe do martírio de presenciar a cena decadente do que ela ainda não sabia que passaria. Mas ao mesmo tempo, algo a fazia querer ficar, a ser egoísta de não querer estar sozinha.

Por dentro, estava em tamanho desespero, sabendo que logo não seria mais humana, e o medo do inevitável e do desconhecido era quase palpável.

Brisa entrou e deitou em sua cama sentindo o corpo cansado, exausto e seus músculos doloridos.

O primeiro estalo veio, como se cada osso tivesse decidido se romper ao mesmo tempo. Um grito escapou de sua garganta, abafado pelo travesseiro. O calor começou na coluna, subindo, queimando, corroendo sua pele por dentro, como brasas incandescentes. A pele começou a ressecar, a esticar de maneira impossível, rachando como borracha velha. Cada rachadura se abria com um som seco, doloroso, que fazia o coração de Brisa saltar em terror.

Ela estava em desespero e tentou se sentar na cama, olhou para seu corpo em horror, pela cama havia tufos de cabelo. Ela levou a mão até a cabeça e havia partes que estavam lisas, estava ficando careca. Os pelos finos de seu corpo se desprenderam, arrastando um arrepio de horror por toda a espinha.

Saiu da cama quase sem força, caiu no chão de joelhos e chorou com medo do que aconteceria dali em diante.

Tentou gritar, mas cada palavra parecia esmagada pelo fogo interno que consumia cada articulação. Os ossos rangiam e quebravam, pequenos estalos se multiplicando pelo corpo como sinfonia de desespero. Seus dentes se soltaram um a um, caindo com estalos horríveis, misturados ao gosto metálico do sangue que enchia sua boca e escorria pelo queixo.

Brisa sentia que não havia mais “ela” dentro daquele corpo. Algo rastejava, se contorcia e se formava dentro dela, empurrando a pele como uma capa que se rasgava aos pedaços. Cada rasgo da pele era como cortar papel, mas atravessado por fogo e dor, até que pedaços de carne e sangue caíam ao chão. A visão do próprio corpo se desfazendo a soluçar em desespero, cheia de dor e medo.

Finalmente, em um último estalo horrível, a pele se abriu completamente, rasgando-se em pedaços e dali emergiu a Bouina. Negra, maciça, avassaladora, os músculos ondulando sob a nova pele como uma fera que sempre estivera escondida. Os olhos verdes intensos brilhavam na penumbra do quarto, que agora estava olhando fixamente para Marina.

Marina estava na porta do quarto atônita, tentando entender a cena. Mentalmente rezava para que não voltasse a acontecer consigo mesma e ao mesmo tempo para que sua filha não precisasse passar mais por isso.

O cheiro de sangue e algo que Marina não sabia distinguir, enchia o ar, misturado ao calor sufocante que ainda emanava do corpo transformado.

A cobra negra, respirava em um chiado ameaçador.

— Brisa? — Sua voz saiu carregada de medo e incredulidade.

Boiuna girou a cabeça lentamente, e por um instante, Marina viu nos olhos verdes um reflexo da filha que amava. Ela a chamou novamente, tentando alcançar qualquer fragmento humano:

— É você, eu sei que está aí… é a mãe! Lembre-se de mim!

Por um segundo, Brisa se lembrou. Mas o pânico e o medo de machucar Marina, era maior que qualquer memória de amor. Um sibilo de pavor escapou de sua garganta negra, e antes que Marina pudesse reagir, Boiuna se lançou para a janela. A madeira despencou em pedaços, cortando o ar e o silêncio com estalos das tábuas caindo no chão.

Marina recuou, engolindo gritos, enquanto a filha se atirava no vazio.

O corpo massivo da Boiuna despencou para o rio, fazendo a água espirrar com violência, e o quarto ficou silencioso, exceto pelo cheiro metálico de sangue e o eco distante de ossos se reconstituindo em forma de serpente.

O vento frio cortava-lhe a pele como pequenas lâminas, enquanto a chuva caía pesada e impiedosa, misturando-se ao barro e ao sangue que manchava a margem do rio.

Ela despertou atordoada, nua na beira do rio, o corpo encharcado e enregelado, tremendo a cada rajada de vento e coberto por uma fina camada de lama. Não lembrava de como chegara ali. Só sabia que algo terrível havia acontecido.

O amanhecer ainda lutava para nascer, e a névoa que rastejava sobre as águas tornava tudo mais irreal; como se o mundo tivesse parado para assistir ao seu desespero.

Ao redor, o chão era um quadro de horror: restos mortais de alguém estavam espalhados, vísceras que fumegavam sob a chuva, e uma perna humana caída a poucos passos dela, os dedos enrijecidos apontando para o nada. O cheiro metálico do sangue se misturava ao da terra molhada, um odor espesso, quente e nauseante, que a fez engasgar.

Brisa olhou ao redor, o horror estampado nos olhos marejados de lágrimas e pavor. O terror a paralisava. Com as mãos trêmulas, ela se sentou e abraçou as próprias pernas, como se pudesse se encolher em si mesma e desaparecer.

O queixo tremia, os dentes batiam uns contra os outros, e o frio parecia vir de dentro, não apenas do vento. Lágrimas se misturavam à chuva, escorrendo pelo rosto enlameado enquanto ela balançava o corpo para frente e para trás, perdida entre a culpa e o medo.

— Eu não fiz isso… eu não fiz isso… — repetia com a voz embargada, quase um sussurro que se misturava à chuva e ao barulho do rio.

Um calafrio percorreu a espinha, e a sensação de repulsa e desespero a fez soluçar mais alto:

— Estou suja…

O pensamento da mãe a atingiu como um soco: não podia, de jeito nenhum, deixá-la vê-la assim. O medo de machucar alguém novamente, de ser descoberta, tornava tudo ainda mais insuportável. Brisa queria desaparecer, engolida pela água e pela chuva, queria apagar o que aconteceu.

Sem que percebesse, sua avó se aproximou. Silenciosa, envolta na capa de chuva, colocou uma mão firme sobre os ombros da neta. O toque quente contrastava com o frio do corpo molhado. Brisa se encolheu mais ainda, mas a presença da avó trouxe uma sensação tênue de segurança.

— Shhh… vai ficar tudo bem, meu anjo. — murmurou a avó, afagando os cabelos molhados de Brisa. — Eu vou te levar para casa.

A chegada da tia de barco não foi anunciada; apenas apareceram os sons das remadas cortando a água. Sem dizer nada, a avó ajudou Brisa a se levantar e a colocou cuidadosamente dentro da pequena embarcação. A chuva ainda caía, gotejando sobre as roupas e cabelos da menina, mas a avó continuava a afagá-la, sussurrando que não havia necessidade de sentir vergonha de si mesma.

Enquanto o barco avançava pelo rio, Brisa fechava os olhos e pensava em sua mãe, na avó, na tia, na prima… e nela mesma. Como conseguiam manter uma vida diante de tanta brutalidade? Como era possível viver assim, por tanto tempo, cercada por sangue e medo?

O pensamento que mais a consumia era o pavor de ter matado alguém inocente. Ela não se lembrava de nada; nem da vítima, nem de quem realmente era a pessoa que se tornou naquele momento de horror. O silêncio do rio parecia amplificar a culpa e a angústia, deixando apenas o som da água e a própria respiração, pesada e trêmula, de uma menina que ainda tentava entender o próprio monstro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.