Bouina
8 CAPÍTULO 08
Brisa, sem que desse conta, passou o dia ali, deitada entre as folhas secas, com os olhos inchados e o rosto manchado de lágrimas. O sol vinha e ia, filtrando-se por entre as copas das árvores, e ela continuava imóvel, olhando o vazio entre os troncos.
Não tinha forças para voltar. Nem vontade. O corpo doía, mas era a alma que pesava.
O som distante do rio a embalava, como uma canção que a floresta insistia em repetir. Havia momentos em que ela fechava os olhos e imaginava apenas sumir. Que o vento a levasse, que a terra a cobrisse, que nada mais restasse.
O entardecer chegou devagar, tingindo o céu de um dourado frio.
Brisa respirou fundo, tentando se erguer, mas uma sensação estranha a fez parar.
Um calor entre as pernas, uma sensação pegajosa e molhada, incômoda. Ela levou a mão devagar, hesitante, e quando olhou, o sangue estava ali; vermelho escuro, espesso, manchando o tecido simples da roupa.
Por um instante, o mundo pareceu girar.
O ar ficou mais pesado.
Engoliu em seco, o peito estava apertado, a respiração falhando.
— Não acredito nisso! — murmurou, a voz rouca de susto e vergonha.
Ela estava menstruando pela primeira vez.
Para ela, parecia que estava vivendo numa maré de azar, onde a vida não dava trégua de jeito nenhum. As lágrimas voltaram, sem que ela conseguisse contê-las. Era como se o corpo tivesse traído algo nela, como se uma fronteira tivesse sido cruzada sem aviso.
Tentou limpar o sangue, mas o gesto só o espalhou, e então ela chorou mais, dobrando-se sobre os joelhos, escondendo o rosto.
O vento soprou.
Leve. Demorado.
E entre as árvores, uma voz masculina se ergueu; não forte, não ameaçadora, mas profunda, calma, quase serena, como se viesse do próprio coração do rio.
“...minha...”
Brisa ergueu o rosto, o coração batendo forte.
— Quem está aí?! — gritou, os olhos arregalados, varrendo a floresta.
As sombras não responderam. Apenas o farfalhar das folhas.
Então veio de novo, mais perto, como um sopro junto ao ouvido:
“...filha...”
A voz tinha algo de doce e ao mesmo tempo triste. Não parecia ser humana, ou talvez, fosse mais que isso. Soava como a própria natureza a chamando, como se o vento e a água tivessem encontrado uma forma de falar.
Ela recuou, tropeçando, o corpo tremendo.
— Quem está aí? Eu... eu não sou sua filha! — tentou dizer, mas sua voz saiu quebrada, quase um soluço.
“Brisa...”
Quando ouviu seu nome, o pavor cedeu lugar a algo indefinido; uma melancolia quente, como se aquele som a reconhecesse de um tempo esquecido. O vento a envolveu, suave, brincando nos cabelos, e por um momento pareceu um carinho. Um gesto de consolo.
Mas o medo voltou logo depois, e Brisa desabou, ajoelhando-se no chão.
— Mãe... — sussurrou, entre soluços. — Por que teve que mentir pra mim?
O vento cessou e o silêncio voltou.
Somente o rio respondeu, com seu som constante e hipnótico, o som de algo que observa, espera e lembra. Brisa chorou por si, pela dor no corpo e pela confusão na alma.
Mas então o vento mudou novamente. Tornou-se morno, envolvente, quase humano. Soprou de leve em seu rosto, roçando-lhe as pálpebras como dedos invisíveis. O som do rio começou a se confundir com o da própria respiração, era uma melodia lenta, repetitiva, que a chamava para o silêncio. Brisa tentou manter os olhos abertos, mas o mundo ao redor começou a se dissolver e a floresta virou um borrão de luz e sombra, o frio se afastou, e tudo o que restou foi o som da água. E então ela cedeu. Os cílios se fecharam, o corpo relaxou, e o sono veio como um lençol que cobre uma ferida.
E ao longe, o rio sussurrou mais uma vez, quase imperceptível:
“...dorme, pequena… a hora está chegando!”

O dia chegará ao fim quando Marina finalmente encontrou a filha.
Ela deixou que Brisa ficasse sozinha, como a menina desejava. Sabia que precisava de espaço, que precisava sentir, sofrer e enfrentar o que ainda não compreendia. Para Marina, Brisa era apenas uma menina; uma criança ainda tentando lidar com coisas demais, com segredos que pesavam gerações.
Marina a amava mais do que qualquer coisa, e cada decisão, cada omissão, cada silêncio, foi pensado para protegê-la. Talvez, pensava, que se escondesse a verdade, se negasse a maldição por um tempo, poderia afastar o inevitável. Mas a realidade era implacável: eram amaldiçoadas. E aquela verdade, cedo ou tarde, chegaria a Brisa de qualquer forma.
A menina estava encostada em uma árvore, o corpo pequeno encolhido, os olhos fechados, respirando de maneira irregular. O vento movia os galhos ao redor, espalhando folhas secas sobre ela, mas tudo parecia calmo demais; enganadoramente calmo.
Marina engoliu em seco, com o coração apertado. Aproximou-se devagar, cada passo carregado de medo e expectativa. Quando se abaixou, tocou o ombro da menina e percebeu o frio que vinha da pele delicada.
— Brisa... — murmurou, quase num sussurro, com a voz embargada. — Minha filha... acorda.
A menina não respondeu. Marina sentiu a pulsação fraca e a respiração irregular. Um frio percorreu-lhe a espinha. Ela levantou Brisa nos braços, notando imediatamente a mancha escura entre as pernas. A primeira menstruação.
As lágrimas vieram sem que pudesse conter. Marina apertou a filha contra o peito, o coração apertado.
— Meu Deus... — murmurou, a voz falhando. — Está chegando... está tão perto.
Ela sabia o que isso significava. Pela primeira vez, Brisa estava prestes a se transformar completamente.
Marina observava com o coração apertado, segurando a filha com cuidado, cada músculo tenso de medo e amor. O braço de Brisa começou a mudar diante de seus olhos. A pele se desprendia aos poucos, como se tivesse sido queimada, levantando-se em pequenas camadas que cheiravam levemente a ferro e terra úmida.
Sob a pele desfigurada, surgia a da cobra, preta, áspera e opaca. Reluzia pouco à luz do fim de tarde, mas o suficiente para que Marina percebesse o brilho sombrio e o relevo seco das escamas que se formavam.
Os pés pequenos, delicados, passavam pelo mesmo processo. Primeiro uma leve vermelhidão, depois a própria carne era renovada de maneira violenta, enquanto as escamas negras tomavam forma, rígidas e opacas.
Marina chorava silenciosa, olhando para a filha no colo sentindo o peso de cada segundo. Não eram lágrimas de tristeza simples, mas de medo, amor e culpa. Ela lembrava de tudo que havia feito para proteger a si mesma, e de como teve sua filha, de cada escolha egoísta, de cada impulso que agora via como falha. Sabia que aquele era o início de algo irreversível e a passagem para o que Brisa se tornaria.
— Eu fui tão impulsiva... tão egoísta... — murmurou entre soluços, acariciando os cabelos da menina. — Tudo por que eu queria quebrar a minha maldição... mas agora… agora que você está passando por isso, mamãe não sabe o que fazer…
O vento da floresta parecia se mover em torno delas, carregando o eco de tudo que Marina sentia.
Ela respirou fundo e levou Brisa até a casa. Com cuidado, preparou um recipiente grande com água fresca. A menina ainda estava desacordada, e Marina sabia que precisava iniciar o ritual; afastar a dor e ajudar na transformação.
Colocou Brisa no recipiente. A água refletia a luz da tarde, e cada gota parecia carregar o peso de gerações.
Enquanto observava o braço da filha submergir, viu a pele começando a se desprender lentamente, escamas negras surgindo por baixo. Os pés, delicados, também mudavam, tomando a textura da serpente.
Ela fechou os olhos, sentindo o aperto no peito. A menina era tão pequena… tão vulnerável… e ao mesmo tempo, tão poderosa. Marina sabia que dali para frente nada seria igual.
Com os olhos marejados, a mãe suspirou:
— Eu sinto muito, meu amor, por tudo! — e então, lentamente, sua mente começou a viajar para o passado.
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