Bou In Wonderland

1 Seguindo o Cosplayer da Playboy!


Notas iniciais
Estou um pouco receosa com a descrição das roupas. Espero que não esteja difícil de conseguir imaginá-las. E não consegui achar o Maya e o Aiji na seleção de personagens, lol. Boa Leitura.

Inverno em Tokio. Uma criatura loira e delicada saia de forma brusca de um Café, segurando o choro com todas as suas forças. Um adolescente, chamado Saitou Kazuhiro, apelidado por amigos de Bou.


Usava um vestido negro de alcinhas, cuja barra enfeitada com uma pequena lista branca não alcançava seus joelhos, tarefa assumida por uma saia branca posta abaixo deste. Por baixo, uma camisa branca de mangas longas com grandes babados na gola, que se sobressaia ocupando boa parte da frente negra do vestido, quase até a parte onde o corte deixava de acompanhar as formas do corpo para se abrir em uma grande saia.


Meias brancas quase em estilo colegial e sapatos boneca negros. Uma franja diagonal para a direita e pequenas marias-chiquinhas no alto da cabeça loira, quase branca, completavam o visual, juntamente com uma maquiagem negra nos olhos, nada exagerada e o detalhe das unhas também pintadas de negro.


Correu até o parque ali perto, encostando-se ofegante em uma árvore qualquer, desabando no chão coberto de neve logo em seguida, não se importando em molhar suas roupas.


Abraçou as pernas parcialmente descobertas, escondendo a face entre os joelhos. Havia acabado de ter o namoro desmanchado porque os pais de seu ex não admitiam que seu filho namorasse outro garoto, ainda mais que se vestisse como garota. E, embora estivesse disposto a mostrá-los que se amavam e isso não importava, aparentemente Miku não tinha essa mesma vontade.


–Claro, porque desgraça pouca é bobagem! Merda! Odeio esse tipo de mentalidade! – Murmurava o pequeno, apertando mais o abraço em si mesmo. Após algum tempo, levantou a cabeça, apoiando o queixo nos braços.


–Se eu tivesse um mundo só meu, as pessoas seriam livres para fazerem o que quiserem. Nada seria estranho ou anormal... -murmurou, sem se importar que tais palavras fossem parecer infantis.


O parque, apesar do clima, possuía um número considerável de pessoas, fossem casais abraçados, fossem crianças se divertindo com a água congelada ou até mesmo pessoas sozinhas que decidiam dar um passeio. Por isso, Bou não estranhou quando viu passar correndo, exatamente em sua frente, outro jovem, não muito mais alto do que si mesmo.


Usava calças pretas, muito apertadas com um cinto de grande fivela de caveira. Uma camisa branca no estilo vitoriano, possuindo fartos babados nos punhos das mangas e estando fechada até pouco acima do umbigo, mostrando um abdômen definido e o começo das virilhas, graças à altura extrabaixa das calças. Um casaco preto e justo por cima, deixando os babados livres e sendo mais comprido atrás, abrindo em um V invertido como um fraque, que ia até seus joelhos. Na ponta desse V invertido, exatamente logo abaixo, havia um estranho pompom felpudo branco.


O casaco estava inteiramente aberto e a camisa possuía seus três primeiros botões desabotoados, deixando a vista parte do peito do rapaz. Nos pés, coturnos negros de cadarço. Levava uma maquiagem pesada nos olhos de íris claramente vermelho-sangue, além de piercings. Em seu lábio inferior, em seu nariz e em sua sobrancelha.


Entretanto, o mais estranho era as longas orelhas de coelho brancas saindo de seus cabelos loiros escuros não muito compridos. Algo como bigodes também parecia sair de sua pele, perto de seu nariz.


Mas Bou não deu verdadeira atenção a isso. Estavam em Tokio, orelhinhas de animais eram mais do que comuns. Ficou a observar o estranho apenas porque ele parou sua corrida exatamente em sua frente, a uma distância nada grande.


O rapaz enfiou uma de suas mãos em um dos bolsos da calça, tirando de lá um relógio redondo e prateado, conferindo as horas.


–Caralho, está tarde! – Gritou, fazendo Bou se encolher diante da potência vocal, mas não incomodando mais ninguém aparentemente – A Rainha vai comer meu cu se eu me atrasar! – apesar de gritar a plenos pulmões e estar visivelmente aflito, o jovem não fazia muitas menções de se mover, intrigando o loiro menor sentado à sua esquerda.


–Aliás, já estou atrasado! Atrasado pra porra!


Somente então voltou a correr, o tecido do casaco negro levantando ao vento produzido.


Bou acompanhou o estranho se afastar, notando quando ele fez menção de guardar o relógio de volta no bolso, mas este era tão colado à calça que não se abriu mediante à tentativa relapsa e apressada da parte do loiro, fazendo com que o objeto caísse no chão.


Se o tal cosplayer percebeu a perda do bem, não deu importância, pois continuou a correr.


Bou levantou-se e andou alguns passos para poder pegar o relógio em suas mãos. Surpreendeu-se ao ver quão ricamente trabalhado ele era. Abiu-o. Parecia ser muito antigo e caro. Felizmente, ainda funcionava, mesmo após a queda.


Olhou à sua frente, localizando o rapaz já distante e resolveu que, se quisesse devolver o artefato, precisaria se apressar.


–Heeeey! Cosplayer de coelhinho da Playboy! – Gritou enquanto começava a correr, tentando alcançá-lo – Seu relógio! Deixou cair!


Corria o mais depressa que podia, vendo que, na velocidade que o outro mantinha, se o perdesse de vista, não teria como alcança-lo. Entretanto, a neve atrapalhava um pouco, fazendo o adolescente quase escorregar diversas vezes.


Já haviam se afastado de todos, estando em uma parte mais deserta do parque. Bou já se cansava e estava começando a considerar a hipótese de jogar o relógio e torcer para que ele atingisse a cabeça do outro, a fim dele notar a perda do objeto quando o viu se jogar com um “carrinho” em uma abertura dentro de uma grande cerejeira, sumindo de vista.


Ao contrário do esperado, Bou não achou estranho alguém caindo em um túnel escavado na terra com a entrada no tronco de uma cerejeira antiga. Afinal, se tivesse achado estranho, não teria imitado o gesto, afundando na escuridão enquanto caía, seu vestido inflando como um balão e suavizando sua queda, além de desacelerá-la. Somente então percebeu o que fizera.


–Eu realmente me joguei em um buraco pra devolver um relógio a um estranho com tendências furries?


Não tivera tempo para responder a si mesmo, percebendo uma claridade vinda abaixo de si, podendo visualizar as paredes do túnel vertical enquanto — ainda — caía.


Eram tortas e estampadas com um xadrez de dois tons de laranja. Algumas prateleiras com potes de conteúdo não identificável. Bou guardou o relógio em um dos bolsos da saia branca antes de esticar uma das mãos e pegar um dos potes.


–O que será isso? – perguntou baixinho, abrindo o pote e melando um dos dedos com um tipo de geléia multicolorida, levando-o à boca em seguida – Geléia de... Pirulito?


Deu de ombros, voltando o pote para outra prateleira aleatória.


–Mas essa caída não acaba nunca? – emburrou-se, entediado enquanto cruzava os braços.


Algum tempo se passou, Bou havia conseguido um barbante cor-de-rosa em uma das prateleiras e agora estava sentado como um índio no ar, brincando de fazer cama-de-gato quando sentiu o chão atingir seu traseiro de forma dolorosa, embora tivesse caído sobre um monte de folhas consideravelmente fofo.


–Ouch!


Levantou-se, gemendo baixinho, enquanto massageava suas nádegas magoadas. Arregalou os olhos em surpresa quando olhou à sua volta, percebendo que estava em outro túnel, desta vez horizontal.Um tento à frente, o cosplayer corria apressado.


–Hey! Coelhinho!


Voltou a correr, conseguindo ouvir palavrões e pragas enquanto o autor destas virava uma esquina. Entretanto, quando Bou virou a mesma esquina, apenas pode ver uma grande sala com uma mesa de três pés e uma porta. Mas esta era pequena demais até mesmo para si, que não era exatamente alto.


Procurou por alguma outra porta pela qual o Coelho Branco, como Bou decidira chamar o cosplayer em sua mente por causa da cor das orelhas, pudesse ter passado. Não encontrou, mas visualizou uma caixa aberta em cima da mesa de vidro.


Aproximou-se, seus olhos castanhos reluzindo quando identificou biscoitos dentro da pequena caixa. Estava faminto desde que havia entrado no café com Miku, então não viu problemas em pegar um dos vários biscoitos.


–Serão de chocolate?


Notou que havia adquirido essa mania de falar sozinho, mas não se importou verdadeiramente, mordendo com deleite o biscoito, percebendo que o gosto não era exatamente de chocolate.


–É parecido, mas... Também me lembra morango... E baunilha... E floresta negra...


Quando terminou o biscoito, percebeu que havia algo errado. Olhou em volta, se assustando ao ver a mesa ter diversas vezes mais sua altura?


–Mas o que...? Em nome de Vivienne Westwood, o que está havendo?


Desorientado, demorou bons minutos para perceber que, embora não pudesse explicar como havia encolhido, agora possuía o tamanho ideal para poder usar a porta.


Quase saltitante pela descoberta, abriu a porta com gosto, seu queixo caindo quando visualizou o local.


–Que bonito...


Mas não teve tempo para apreciar a paisagem e poder registra-la em sua mente. Assim que atravessou a porta, sentiu algo puxar seu ombro para o lado, rodando-o.


–Misaki!


Bou encarou o tal Coelho Branco, que ainda lhe segurava um dos ombros. Assustou-se ao notar que agora estava tudo em seu “respectivo tamanho”. Quando havia voltado ao normal?


–Onde estava? Coçando o saco pro nada, de novo? Já está tarde, ainda temos que ir até a Rainha e ainda por cima...


–Ah, moço... – começou, interrompendo-o e fazendo menção de levantar a saia negra para pegar o relógio no bolso, mas algo o impedia de desviar o olhar daqueles olhos vermelhos – Eu... Seu relógio. Você deixou cair no parque – Estendeu o objeto prateado enquanto a outra mão arrumava novamente a roupa para baixo.


O olhar escarlate desviou de seus olhos castanhos para a pequena mão posta à sua frente, aliviando o loirinho, que começava a se sentir desconfortável com a intensidade daquele olhar.


–Um relógio? Para mim?


–Não, é o seu, você deixou...


Mas algo impediu Bou de continuar a frase. Talvez o roçar da mão do rapaz na sua enquanto ele pegava o relógio para observá-lo, não soube dizer.


–Caralho!


Bou se assustou com o grito alto que o Coelho dera ao abrir o relógio e perceber a posição dos ponteiros.


–Está tarde! Tarde pra cacete! Estou atrasado até o rabo!


Ignorando totalmente a presença do menor, o Coelho Branco voltou a correr, gritando algo sobre uma Rainha, mas Bou não conseguiu entende-lo.


–Bom, ele pegou o relógio, já posso ir embora.


Virou-se para adentrar a porta novamente, mas seu olhar havia se mantido na direção que o rapaz pegara. Mordiscou os lábios, voltando-se bruscamente e tomando o mesmo caminho.


–Mas ele ficou horas gritando que estava atrasado, afinal, atrasado pra que? – Começou a divagar, como se devesse uma explicação a si mesmo por continuar a perseguir o outro mesmo já tendo devolvido o relógio – Uma festa, talvez? Eu gosto de festas, preciso de uma festa agora que terminei com o Miku!


Seus passos já estavam acelerados, querendo alcançar o rapaz, mas ainda não eram uma corrida. Não eram porque Bou parou abruptamente ao perceber que o cenário havia mudado drasticamente.


Estava agora em uma floresta, com árvores tortas levemente arroxeadas. Olhou para trás e percebeu que não havia sinal do lugar onde estava antes. Olhou para frente novamente e notou que havia vários caminhos para escolher, mas não fazia idéia de qual o Coelho havia seguido.


–E essa, agora? – murmurou, coçando a nuca. Ouviu uma risada vinda de um lugar desconhecido. Começou a rodar em seu próprio eixo, procurando de onde ela vinha.


–Aqui... Aqui em cima, pequeno.


Bou começou a olhar para os galhos, percebendo que havia alguém deitado de forma displicente em um deles.


Era bastante alto. Usava uma blusa regata rosa que ia até seu umbigo, com o desenho de algumas listas pretas pequenas e irregulares, como as costas de um tigre. Calças baixas e largas com a estampa de onça, porém, roxas, com suspensórios pretos. Tênis roxos com detalhes rosa. Luvas rosa, curtas e sem dedos. As unhas pintadas de roxo além das orelhas de gato roxas e uma cauda ondulante listrada roxa e rosa. A maquiagem dos olhos seguia as mesmas duas cores e ele se abanava com um grande leque rosa com um dragão roxo estampado.


Os cabelos eram longos, coloridos entre rosa e roxo também, com duas pequenas tranças de cada lado do rosto, como franjas. Tinha piercings pretos no lábio inferior, no nariz e na sobrancelha. Mas, o que realmente chamou a atenção de Bou foi o sorriso malicioso que ele ostentava.


–O que você procura, pequeno? – perguntou em uma voz arrastada, quase preguiçosa, enquanto pulava de forma graciosa para o chão, se aproximando de Bou com passos sexies, se abanando lentamente, sorrindo malicioso.


–Eu... Eu estou procurando um rapaz, pouco mais alto do que eu, com orelhas de coelho brancas, roupas pretas e em estilo... Vitoriano...


O maior percebia o nervosismo em que a aproximação deixava o menor. Andou o suficiente para quase colar os corpos, a diferença de altura evidente, mas prontamente ignorada.


–Oh...? Kyo-kun? Por que uma gracinha como você estaria atrás dele? – Inclinou-se, aproximando as faces, percebendo Bou corar e se afastar instintivamente.


–Eu... Eu só quero saber... – balbuciava, desviando o olhar, intimidado com a intensidade daqueles orbes escuros.


–Ah, mas por que ir atrás do Kyo-kun pra saber de qualquer coisa? – fechou o leque, guardando-o no bolso da calça e segurou na cintura fina do menor, colando os corpos e sentindo-o arrepiar – Se você tem um Gato de Cheshire bem aqui para te ensinar qualquer coisa? – murmurou de forma provocante, deleitando-se com as reações do pequeno.


–S-Senhor – postou as duas mãos no peito do maior, tentando conseguir algum espaço – Eu... Esta situação está... Constrangedora...


– “Senhor” não – se inclinou o suficiente para encostar os lábios na orelha do menor, sibilando as próximas palavras – É Mi-Ya-Vi.


–Mi... Miyavi...


–Isso... Muito bom.


Segurou na cintura do menor com a outra mão também, colando os corpos de novo, descendo os lábios para o pescoço pálido, roçando-os.


Bou estava tenso, embora começasse a sentir alguns arrepios deliciosos percorrerem seu corpo. Acabou por relaxar o corpo, fechando os olhos, os lábios entreabertos.


Miyavi sorriu ainda mais, apertando a cintura entre suas mãos e deixando sua língua escorregar de sua boca para percorrer a pele já arrepiada.


Entretanto, ao sentir o contato úmido, o loirinho não soube dizer o que estalou em sua mente, mas conseguiu reunir forças para empurrar o maior para longe.


–Não! Eu... Eu... Eu quero saber para onde o Coelho Branco foi! Se você não sabe, fale logo!


Miyavi suspirou, encarando-o entediado.


–Hm... Está tão atraído pelo Kyon que não pode brincar um pouquinho comigo, é?


–Não é isso! Em relação a ele, eu só... Eu só estou curioso!


O sorriso malicioso voltou à face do maior.


–Curioso, é? Entendo...


–Não! Não esse tipo de curiosidade! – Bou começava a se desesperar – Argh! Você não está ajudando! Eu só quero saber para onde ir!


–E para onde você quer ir? – perguntou, voltando a abrir o leque para se abanar, ondulando a cauda.


–A esta altura, para qualquer lugar serve! – O loirinho estava começando a ficar desorientado, só queria se afastar daquele louco.


–Então, não importa qual caminho você escolha, pois de qualquer maneira você irá chegar em algum lugar.


–Argh!


Bou puxou de leve os próprios cabelos loiros, em um gesto de desespero. Miyavi riu alto ao notar o estado do menor.


–Tá certo, tá certo. Pra lá – apontou para a direita com a mão esquerda – Mora um Chapeleiro Maluco e pra lá – apontou para a esquerda com a mão direita – Mora uma Lebre de Março. Fique a vontade para escolher. Mas aviso que não vai fazer diferença no resultado, ambos são loucos.


–Loucos? Não quero saber de encontrar gente louca, já basta você pra preencher a cota do mês!


O mais alto o encarou levemente surpreso, mas logo voltou a sorrir maliciosamente.


–Ora, isso é impossível. Todos aqui são loucos, nem que seja ao menos um pouco. Eles são loucos, eu sou louco, você é louco...


–Eu não sou louco!


Miyavi usou o leque para esconder o riso, deixando apenas seus olhos à mostra, mas estes pareciam rir por conta própria.


–Você é um garoto usando roupas femininas por livre e espontânea vontade, não é?


–Não tem nada a ver!


O maior voltou a usar o leque para se abanar.


–De qualquer forma, se você não fosse louco... – encarou Bou de forma enigmática enquanto pulava de volta para o galho onde estava antes, deitando-se e voltando a olhar o loirinho -... Não estaria aqui, já pensou nisso?


E então, começou a desaparecer aos poucos, até restar apenas seu sorriso malicioso.


Bou arrepiou ao encarar aquele sorriso e saiu correndo para uma direção qualquer, não importava, queria apenas se afastar o mais rápido possível daquele estranho. Após isso, pensaria em como encontrar o Coelho.


–Aquele gato... De Cheshire – murmurou, lembrando-se de como ele se referira a si mesmo – o chamou de Kyo... Kyo, hein?


Caminhou por algum tempo, até que chegou a uma pequena casa no estilo europeu antigo. Aproximou-se do muro que a rodeava, passando pela cancela aberta e encontrando uma grande mesa, com diversos chás e guloseimas, além de inúmeras cadeiras, mas haviam apenas duas pessoas sentadas.


Um deles era extremamente loiro, assim como o próprio Bou. Tinha uma franja cobrindo a metade esquerda de seu rosto, mas esta não era lambida para baixo, era arrepiada em diversas pontas. Uma parte um pouco mais curta adornava o lado esquerdo de seu rosto. O cabelo atrás não era muito comprido e também estava muito arrepiado.


A roupa, pelo que Bou podia ver já que a pessoa estava sentada, era um tipo de terno vermelho, talvez veludo, com a “gola” preta virada para fora em um tecido diferente, vinil provavelmente. A parte preta era contornada na borda por algumas pedras brilhantes e por baixo havia uma camisa do mesmo tecido negro, onde uma cruz de malta era o zíper que a fechava em cima. Usava luvas negras, com pequenos buracos em forma de círculos nos nós dos dedos, as unhas bem pintadas da mesma cor. Na cabeça, uma grande cartola vermelha, adornada na base por uma faixa negra, seguindo para cima como se as partes estivessem costuradas em negro.


A maquiagem consistia em realçar de forma muito bem feita os olhos azul-gelo, embora apenas o esquerdo fosse visível e enfeitado por algumas pedras azul escuro ao redor. O lábio superior estava totalmente pintado de preto enquanto o inferior era pintado apenas nos cantos e embaixo, em uma fina linha, deixando grande parte em seu tom natural. Uma pintura em forma de feixes negros também era visível no pescoço.


A outra pessoa, sentada ao lado da primeira, Bou considerou que fosse uma garota, embora não tivesse visto nenhuma naquele estranho lugar até agora.


Seu cabelo era preto, muito liso e a franja era reta, cortada na parte mais alta das sobrancelhas, ricamente delineadas. Os olhos, também azuis, porém mais penetrantes, também estavam realçados de forma caprichada pela maquiagem escura, assim como seus lábios, o que contrastava com a pele muito pálida.


Usava uma gargantilha negra, bastante trabalhada, que combinava com o vestido negro e elegante. Este possuía mangas curtas e fofas que se prendiam aos braços, cobertos até o fim por outra manga branca, interrompida nas mãos por luvas negras.


Dessa vez, Bou não se surpreendeu com as longas orelhas de lebre negras que estavam no topo da cabeça dessa pessoa.


Entrou com passos receosos, pensando em perguntar se haviam visto o tal Kyo e talvez fosse convidado para uma xícara de chá. Tinha esperanças nisso, estava faminto...


–Não tem mais lugar – gritou o loiro ao descolar seus lábios de uma xícara e notar a presença do estranho. A provável garota apenas o encarou com um olhar que parecia dizer o mesmo que as palavras gritadas, senão em tom pior – Nenhum lugar!


–Ah vá, tem muito lugar! – Respondeu o loirinho, cansado de tanta falta de hospitalidade naquele lugar maluco, andando a passos pesados e se sentando de forma desafiadora na cadeira existente entre os dois.


–É falta de educação invadir uma festa sem ser convidado – murmurou a pessoa morena, a voz grossa indicando que na verdade era um homem, embora muito delicado, enquanto provava mais um gole de seu chá, sem desgrudar o olhar de Bou.


–Eu sei, mas estou cansado e também é falta de educação não convidar um andante cansado para beber algo!


O loiro das vestes vermelhas abriu a boca para retrucar, porém Bou foi mais rápido, dizendo que, se aquela era uma festa, então era o aniversário de alguém e perguntando quem era o aniversariante.


–Ninguém – murmurou o loiro, contrariado por não ter podido dar uma resposta à altura daquele abusado – Não é uma festa de aniversário, é uma festa de desaniversário.


–Desaniversário?


–Você faz aniversário uma vez por ano, certo? Então, os outros 364 dias são seu desaniversário – explicou o loiro como se explicasse algo a uma criança.


–365 em ano bissexto – comentou casualmente o moreno.


–Exato!

–Então, é meu desaniversário também – murmurou Bou enquanto olhava fixamente para um grande pedaço de bolo, querendo muito comer, mas sendo impedido pelo resto de sua educação, pois não havia sido oferecido.


–Oras, que coincidência. E como é seu nome, intruso?


–Chame de Bou.


–Sou um Chapeleiro Maluco, meu nome não importa, me chame de Ruki. Ele é uma Lebre de Março, chame de Mana – o loiro apontou o moreno enquanto se servia de alguns biscoitos.


–Ele não é de falar muito, não é? Por quê? – comentou o loirinho, esperançoso de que aquele fosse sinal de alguma lucidez em meio à todos aqueles loucos.


–Vamos mudar de assunto – exclamou Ruki, sério – Vamos de charadas.


–Oba, adoro charadas – comentou Bou, esquecendo seu estômago por um momento e feliz de poder se divertir um pouco.


–Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?


Ruki mordeu gostosamente um biscoito de chocolate após anunciar o enigma, sendo encarado pelos olhos castanhos de Bou, que sentia seu estômago protestar horrores ao ver a cena.


–Eu... Não sei.


–Ora vamos. Você nem tentou! Pense enquanto se serve de mais chá!


–Mas se eu não tomei nenhum chá ainda... – exclamou o loirinho, pensativo, enquanto puxava uma xícara de chá para si, juntamente com alguns biscoitos, quase pulando de alegria ao pensamento de que finalmente iria comer -... Como eu poderia tomar MAIS chá?


–Quer dizer que você não pode tomar MENOS chá. É mais fácil você tomar MAIS chá do que chá nenhum. – comentou Mana enquanto brincava com um morango de seu pedaço de bolo, antes de espetá-lo com o garfo e leva-lo à boca. Bou suspirou desanimado, percebendo que o moreno tinha grandes chances de ser mais insano do que o tal Ruki.


–Mas vamos, diga-me a resposta!


Bou ficou pensativo o suficiente para esquecer de que agora poderia ingerir algo, aumentando ainda mais a impaciência de Ruki, que descontava isso pondo uma quantidade absurda de açúcar em sua xícara.


–Sinceramente, não sei. Qual é?


–Não faço a menor idéia. – respondeu Ruki, sorvendo um gole do que agora era quase um melado.


–Nem eu – exclamou Mana.


–Mas como vocês podem propor uma charada se nem sabem a resposta?


–Seu cabelo precisa ser cortado e pintado – comentou Mana ao pegar uma das mechas do cabelo claro de Bou entre os dedos enluvados.


Esse foi o comentário que fez o pequeno quase virar a mesa na cara do moreno, tamanha sua irritação crescente com aqueles dois.


–Isso foi muito rude – exclamou o loirinho, tirando seu cabelo das mãos alheias.


–Servir-se sem ter sido convidado também foi.


–Mas eu fui convidado! E por teu amigo aqui! – Bou estava quase gritando.


–Isso está muito caótico, vamos falar de outra coisa – interviu Ruki – Desejos! Qual é seu desejo?


Uma luz se fez na mente do loirinho e lembrou-se o motivo de estar ali.


–Eu desejo encontrar alguém! Não sei se o conhece pelo nome, mas ele é mais ou menos da minha altura, loiro, roupas não muito modernas, orelhas de coelho...


Ruki interessou-se pelas palavras do menor, o suficiente para não ouvir a última descrição.


–Oras, mas por que não disse logo? – sussurrou em um tom rouco, inclinando seu tronco para mais perto do loirinho. Mana rodou os olhos, voltando sua atenção ao bolo.


–Conhece? – Bou sentiu seus olhos se iluminarem, sorrindo enquanto pensava na possibilidade de uma informação.


Ruki sorriu malicioso ao ver a expressão infantil, fazendo-o assumir uma expressão surpresa e se encolhendo ligeiramente.


–Mas como não? Conheço melhor do que... A mim mesmo – murmurou, esticando a mão para segurar no queixo do menor, aproximando as faces.


–E-Então... Pode-me dizer onde ele está?


–Como “onde ele está”?


O tal Chapeleiro Maluco se afastou com exagero, os olhos arregalados em gestos exageradamente teatrais aos olhos de Bou.


–Está louco! Só pode!


–Mas se você que me ofereceu a informação!


–V-Vamos, não se altere, tome mais um pouco de chá... – Ruki voltava à sua posição original, oferecendo uma xícara trêmula ao loirinho.


–Mas se até agora eu não...


–São seis horas. Vamos mudar de assunto! – Propôs Mana, calado até então.


–Mudar? – repetiu Ruki.


–Mudar – confirmou Mana.


–Então, vamos mudar – cantarolou o Chapeleiro, se levantando e puxando Bou pelo braço, fazendo-o acompanhar o processo. Então, pôs-se a empurrá-lo para o lado, fazendo-o andar alguns passos, visto que Mana também se levantara e avançara duas cadeiras, sentando-se. Fora imitado pelos loiros.


–Mas por que fizemos isto?


–Por que são seis horas! – respondeu Mana, como se fosse o motivo mais óbvio do mundo.


–Mas e daí?


–Daí que é hora do chá!


–E da festa de desaniversário – completou Ruki.


–E o que estávamos fazendo até agora? – Bou quase sentia sua cabeça rodar.


–Vamos mudar de assunto, como proposto antes!


–Olhem! – exclamou o loirinho, levantando-se abruptamente – Já estou cansado disso! Vocês dois são insanos e estão me levando à loucura! Eu só quero saber se vocês viram um tal de...


–Mas é claro que vimos – Ruki puxou o menor pelo pulso, fazendo-o se sentar novamente – Vem aqui o tempo todo!


–Chega a ser irritante...


–Concordo plenamente, caro Mana.


–Mas eu nem disse quem é! Como vocês podem saber?


–Está muito nervoso, pegue mais um pouco de chá de camomila para se acalmar.


–Argh! Quando vai ser a hora em que vocês vão parar com essa insanidade?


–Não sei, que horas são?


–É tarde! –Gritou uma voz alheia.


E então, com a delicadeza de um rinoceronte no cio, Kyo apareceu correndo pela cancela aberta, indo até os três.


–É tarde! Estamos atrasados e você fica de papo com esses dois, Misaki?


–Desculpa, mas... Meu nome é Bou, não Misaki.


–Oras, deixe de cu doce, Misaki! Olhe as horas!


E então, o Coelho tirou o relógio do bolso, abrindo-o e quase o colando na cara assustada do loirinho, mas o objeto foi tirado de suas mãos pelo Chapeleiro.


–É óbvio que você está atrasado! Este relógio está quebrado!


–Quebrado?


–Vamos, sente-se e tome uma xícara de chá enquanto eu o arrumo.


Resignado, vendo o loiro abrir o relógio e começar a fuçar, Kyo apenas murmurou algo sobre esperar o mínimo possível e sentou-se de forma displicente ao lado deste.


Bou tinha os ombros encolhidos entre o Chapeleiro e “a” Lebre, pois o primeiro havia jogado o relógio na sua frente a fim de pedir opiniões do segundo e agora estavam ambos debruçados sobre o objeto, ignorando completamente o menor. Este, então, levantou-se e sentou-se na cadeira ao lado de Kyo, que já havia cruzado seus pés em cima da mesa.


–Hm... Kyo?


Os olhos vermelhos lhe encararam expressando algo que o loirinho não soube dizer se era tédio ou ansiedade, talvez uma mistura dos dois.


–Que foi agora, Misaki?


–Desculpe, mas já disse! Não sou esse tal de Misaki, meu nome é Saitou Kazuhiro, ou Bou, como queira, mas não Misaki!


O menor cruzou os braços em um gesto infantil, quadro complementado com um gracioso bico. O Coelho ergueu uma sobrancelha, o encarando intrigado.


–Se quer trocar de apelido, é só falar, não precisa de todo esse teatro. – começou a mexer de forma quase frenética um dos pés para frente e para trás, prova de ansiedade. Murmurou algo sobre as horas, também.


–Que? Mas não é teatro, você deve estar se confundindo.


–Tá bom, já entendi, pode parar. Bou, não é? Ta certo por mim.


O menor não teve tempo de retrucar, pois Kyo levantou da cadeira aos pulos e xingos ao olhar para o lado e ver Ruki derramando chá em cima do relógio como se fosse algo normal.


–Filho de uma puta mal fodida e mal paga! Que merda você pensa estar fazendo com a porra do meu relógio? – Vociferou, tentando pegar o objeto de volta, mas este foi tirado de seu alcance por Mana.


–Ainda não acabou. Falta a manteiga.


Os olhos escarlates se arregalaram ao visualizarem a Lebre passar uma grande quantidade de manteiga no relógio, como se este fosse uma fatia de pão e fechando-o em seguida.


–Seu traveco mal montado! Eu vou esfolar teu rabo! – Pulou na direção do moreno, mas Bou pode ser mais rápido e o segurou pela cintura. Ruki apenas o encarou surpreso.


–Mas nós arrumamos o seu relógio e com nossa melhor manteiga. Não seria de melhor bom-tom você nós agradecer com um sorriso?


–Quer um sorriso? Chame o Miyavi! Aí mande ele pôr uma dentadura no cu e rir pro caralho!


O loirinho quase louvou os céus quando percebeu que Kyo conseguiu pegar o relógio de volta, pois o esforço que fazia para segura-lo já era seu máximo, nem queria imaginar se precisasse de mais força. Sem falar que, para conseguir impedi-lo de voar em cima de Mana, Bou acabou por abraçá-lo forte pela cintura, colando os corpos.


–Ahhh... Bou-chan está assediando esse ingrato por que?


O silêncio dominou o ambiente após a voz quase manhosa de Ruki se pronunciar. Rapidamente, os loiros se afastaram, levemente corados ao perceberem a posição em que estiveram. Provavelmente o silêncio teria continuado caso o relógio não tivesse explodido na mão de Kyo, manchando as roupas deste e parte da mesa com manteiga, chá, geléia e outras coisas que haviam sido colocadas no “concerto” por Ruki e Mana.


–Seus arrombados, vocês foderam meu relógio! Foi presente de desaniversário, de hoje, ainda por cima!


–Oras, também é seu desaniversário? Por que não disse logo?


E então, Ruki pôs-se a cantar uma música estranha que dizia “Um feliz desaniversário para ti, para mim, para ti, sim, sim!” entre outras coisas, enquanto Mana enchia duas xícaras de chá, meneando a cabeça no ritmo cantarolado.


Bou estava quase às lágrimas pelo desespero com toda aquela loucura quando sentiu uma mão quente lhe segurar firme pelo pulso e logo estava sendo arrastado pelo Coelho para fora daquela casa.


–Argh! Eu simplesmente odeio esses dois! São as pessoas mais irritantes que eu já vi na minha vida, depois do Miyavi!


–Ah... Kyo? Para onde estamos indo? – perguntou o loirinho, enquanto era firmemente puxado pelo mais alto.


–Para casa! Preciso trocar de roupas, a Rainha iria ficar muito fodida caso eu aparecesse todo sujo!


O Coelho estava tão irritado que nem se deu ao trabalho de responder com alguma ironia, como faria de costume. Permaneceram em silêncio até chegarem a uma casa sinistra, onde Kyo foi adentrando enquanto soltava o pulso do adolescente.


–Eu vou lá em cima me trocar. Vê se acha algum par de luvas limpo perdido por aí, enquanto isso – sibilou apressado, subindo as escadas quase correndo e deixando Bou sozinho e desorientado.


–Que ótimo, largado na casa de um estranho à caça de luvas.


Balançando negativamente a cabeça, pôs-se a procurar alguma luva pela sala. Embaixo das almofadas, perto do abajur, até mesmo por entre os livros da estante.


–Acho que não tem nenhum par de luvas por aqui – murmurou de forma amargurada, quando viu algo branco perto do pé do sofá vermelho.


–Achei! – exclamou sorridente, pegando as luvas enquanto se sentava no móvel escarlate – Como eu não tinha visto antes?


Com a tarefa cumprida, o adolescente pôs-se a observar melhor os detalhes do cômodo, reparando em um pequeno pote em cima do móvel onde se encontrava uma sombria luminária.


–Isto não estava aqui quando eu olhei antes.


Debruçou-se sobre o sofá, deixando as luvas no chão, folgadamente deitando-se de bruços enquanto esticava a mão para abrir o pote, muito satisfeito ao visualizar aquilo que esperava encontrar.


–Biscoitos! Graças, estou faminto.


Apanhou um dos biscoitos redondos, levando-o à boca. Seus dentes quase tocavam a guloseima quando ouviu o barulho característico de um sofá afundando. Virou-se para o lado, se assustando ao ver Kyo praticamente de quatro sobre si, a face do maior tão perto da sua. De relance, conseguiu visualizar as novas roupas do Coelho. Aparentemente, eram iguais às anteriores.


–Qual é o seu problema, Misa... Bou? – O loirinho se surpreendeu por não ter ouvido tais palavras em um tom agressivo, como era de costume. Sentiu mãos lhe virarem, ficando deitado de costas no sofá – Sempre com esses biscoitos... Vamos, você deveria se trocar também.


–Hein? Me trocar? Por quê?


–Oras, você sabe, Bou – murmurou, se aproximando ainda mais do menor enquanto esticava sua mão, tirava o biscoito do loirinho e o guardava de volta ao pote – A rainha simplesmente detesta quando alguém está mais bonito do que ela.


O adolescente arregalou seus olhos, engolindo em seco ao notar um sorriso levemente divertido se formar no rosto do Coelho.


–E hoje, você está particularmente mais lindo do que costume.


Bou poderia ter gritado algo sobre espaço pessoal, quando percebeu que Kyo selou seus lábios em um beijo.


Não fora um selo inocente, como os que costumava receber de Miku antes de iniciarem um beijo mais profundo. Não, o beijo de Kyo já iniciara com a língua quente do Coelho se insinuando por entre os lábios do menor, buscando a outra para uma dança sensual.


O loirinho quase gemeu ao ter a cintura apertada firmemente pelas mãos nuas do maior, seus quadris se encontrando em um roçar quase excitante.


Bou passou as mãos pequenas para as costas do Coelho, apertando o tecido levemente pesado entre as mesmas, pressionando alguns pontos como se o arranhasse por cima das roupas no processo.


Estava extasiado. Quando Miku o beijava, era sempre algo extremamente calmo, o tocando de forma quase receosa, como se fosse quebrar em um contato um pouco mais firme.


Chegava a ser entediante em alguns momentos.


Foi interrompido de seus pensamentos ao sentir a língua de Kyo deslizar para fora de sua boca e descer de forma lasciva para seu pescoço, fazendo-o arquear levemente.


–Ah, Bou... O que você tem hoje que parece mais delicioso do que o costume? – o maior murmurou antes de voltar a beijá-lo, deixando o loirinho mais do que corado.


O menor não soube dizer se teriam continuado as carícias ou se ele teria conseguido afastar o maior em algum momento, pois o soar de um relógio de cuco fez com que o Coelho interrompesse o contato abruptamente.


–Caralho! Estamos atrasados – gritou, levantando-se apressado, puxando Bou consigo pelo pulso. Recolheu as luvas do chão e começou a correr para fora da casa enquanto as calçava – Vamos logo! Vá assim mesmo! Melhor do que sermos arrombados! Merda, olhe as horas...

Desorientado, o adolescente começou a seguir Kyo, arrumando seus cabelos bagunçados e sua roupa amassada no trajeto. Quando conseguiu alcança-lo, já estava devidamente arrumado, exceto por seu rubor ainda evidente. Por outro lado, o maior parecia normal com seu nervosismo.


O loirinho aproveitou os momentos que sabia ser incapaz de falar com o maior devido ao seu constrangimento pelo que havia acontecido há pouco para pensar melhor no que estava acontecendo naquele dia maluco.


Havia acordado no horário normal para um domingo. Tomou seu chocolate quente matinal, banhou-se, vestiu-se e foi ao encontro de Miku. Tiveram aquela discussão, motivo pelo qual saiu até o parque.


A partir daí, pulou em um buraco atrás de um cosplayer neurótico, foi assediado por um ninfomaníaco em trajes de gato e com um sorriso psicótico, quase enlouquecera junto àquele chapeleiro e àquela lebre travesti e, finalizando os acontecimentos até então com chave de ouro revestida por diamantes 45.52 quilates, havia se amassado com o tal cosplayer psicótico no sofá deste.


E pensar que ele considerava fins-de-semana em Harajuku agitados.


Bou estava tão absorto em seus pensamentos, seguindo Kyo de forma mecânica, que ficou atordoado ao notar que a paisagem, antes escura e sombria –assim como toda a casa do Coelho- agora era alegre novamente, assim como o majestoso castelo que não estava tão longe.


Aliás, já se encontravam nos jardins do mesmo.


–Nossa, que bonito...


–Você nunca se cansa de olhar o palácio, não é mesmo?


–Ah, mas é tão lindo... Digo, onde mais teria um castelo branco e vermelho? – Bou esforçava-se, mas todos os castelos que conseguia se lembrar eram totalmente brancos ou com cores sombrias.


–Eu acho que...


O mais alto não chegou a completar sua frase. Estancou no lugar, fazendo Bou também parar repentinamente. Seguiu o olhar vermelho, encontrando duas pessoas com baldes de tinta nos braços, pintando as flores do jardim.


–Mas o que eles estão fazendo?


–Merda, como sempre – Kyo respondeu de forma simples, mudando a direção para onde caminhava, de forma que evitassem a dupla, mas sentiu algo lhe puxando a manga do casaco. Virou-se para encarar Bou.


–Não vamos até lá?


–Olhe as horas – mostrou o relógio na altura dos olhos castanhos – Estamos atrasados e você quer ir lá pra que?


–Bem, você disse que eles estão fazendo merda... Não deveríamos ir alerta-los disso ou algo do tipo?


O Coelho levantou uma sobrancelha, intrigado.


–Conhece algum deles?


Apesar de já saber sua resposta, o loirinho lançou um olhar aos “pintores”. Um tinha cabelos loiros e possuía vários pirulitos escapando dos bolsos de suas vestes –além de aparentar estar com um em sua boca- e o outro tinha cabelos negros com mechas rosa, uma expressão não tão feliz quanto à do rapaz ao seu lado enquanto dava pinceladas relapsas nas flores à sua frente.


Nunca vira nem mesmo alguém parecido com eles.


–Não.


–Fim de papo. Vamos embora.


Kyo virou-se novamente, avançando alguns passos, ignorando os protestos de Bou, quando algo o fez estancar no lugar novamente, seus ombros se tencionando.


–Isso foi uma corneta?


O menor virou-se, vendo os dois pintores começarem a correr em círculos, aparentemente desesperados em esconderem as tintas. Mais à frente deles, havia uma certa movimentação. Ficou nas pontas dos pés para ver melhor, mas algo passou veloz ao seu lado, puxando-lhe pelo pulso, quase o fazendo se desequilibrar.


–Kyo! Mas o que...?

–Calado! Eu disse que estávamos atrasados!


Passaram reto pelos dois estranhos, embrenhando-se entre as árvores. Bou achou que fosse acabar soltando a mão enluvada que lhe arrastava, tamanha a velocidade em que o Coelho estava, mas tão abruptamente quanto começara a correr, parara, batendo contra as costas do maior.


–Hey! Dê sinal quando for parar!


–Shiu!


Kyo mantinha-se com as costas eretas e as pernas juntas, quase como um militar. Sem muitas delicadezas, empurrou Bou para trás de si, dizendo algo como “não saia daí” entre dentes.


Resignado e nada disposto a contrariar alguém tão nervoso, o loirinho suspirou um tanto emburrado e olhou ao seu redor. Pessoas com diversas roupas estranhas estavam na mesma postura que o Coelho à sua frente, todos olhando para os lados como se procurassem por algum detalhe crucial que estivesse escondido.


Mas apenas depois que uma corneta foi entregue para Kyo, e que este a tocara habilmente em um tema deveras conhecido, é que o menor percebera o que estava acontecendo.


E então, ilustrando os seus pensamentos, uma figura alta e elegante surgiu em passos leves pelo jardim, quase como se flutuasse ao invés de andar.


O vestido era longo, feito com tecidos finos, os quais Bou conseguiu reconhecer apenas o veludo vermelho, que predominava.


A roupa era apertada no peito, abrindo em uma saia em forma de sino. O veludo abria em um V invertido, com rendas negras na barra, deixando um tecido branco, também rendado, à mostra.


Mangas curtas bufantes vermelhas, sobrepostas por mangas mais longas negras, de um tecido fino, o mesmo das luvas.


Os cabelos loiros eram ondulados, caindo sobre os ombros, porém lisos na franja que caía sobre os olhos azuis fortemente maquiados. Uma pequena coroa adornada por pedras brilhantes separava os fios lisos do restante das madeixas.


Brincos, um colar em seu pescoço e um anel em sua mão esquerda, a qual também levava uma pulseira, completavam o visual majestoso.


–Ah, meu deus! – murmurou o loirinho, seus olhos brilhando ao verem tal pessoa – É a Rainha, não é mesmo? É tão... Tão...


–Gay – completou Kyo no mesmo tom de voz, recebendo um tapinha indignado em seu ombro. Quase se permitira uma risada leve, pela atitude infantil do companheiro, mas a voz altiva lhe fez enrijecer novamente.


–Minhas rosas!


Todos os olhares presentes se fixaram na figura. Esta tinha seus olhos arregalados, a mão trêmula estendida, quase tocando uma das flores, que escorria tinta por uma das pétalas.


O loirinho mordeu os lábios ao ver a cena. Aquela pessoa tão altiva, que aparentava uma educação distinta, poderia ser o seu escape de sanidade naquele lugar tão...


–Quem foi a colocada, filha de uma jaburu, que fez esta putaria com meus bebécos?


Bou arregalou os olhos, sua boca abrindo consideravelmente ao ouvir tais palavras e ver seu ex-escape de sanidade, literalmente, rodar a baiana.


Nesse momento, passou a acreditar que o cosplayer de coelhinha da playboy, vulgo Kyo, seria o mais são naquele lugar insano.


É, estava perdido.


–Vamos! – Continuou a bradar a exótica pessoa, as mãos nos quadris, o olhar fulminante para todos os presentes – Os culpados por tal barbaria com minhas crianças, levante a mão!


Como que para ilustrar o que dizia, a Rainha levantou o próprio braço de forma enérgica e, consideravelmente afeminada, mantendo-o no ar e esperando que alguém a imitasse.


Bou sentiu ímpetos de chacoalhar aquela pessoa, para ver se o cérebro dela pegava no tranco, ou talvez fosse à manivela.


Entretanto, não soube dizer se havia se surpreendido ou não ao ver dois braços sendo erguidos timidamente em meio a multidão.


–Ah! Vocês! Venham já aqui – apontou para o chão à sua frente, como se falasse com dois filhotes de cães desobedientes.


Com movimentos receosos, o loiro e o moreno aproximaram-se, as cabeças baixas, fazendo uma reverência exagerada ao estarem perto o bastante.


–E então? Quem vai começar a falar?


–A culpa é dele! -bradou o loiro, apontando para o menor ao seu lado, que lhe encarou surpreso e indignado.


–Que? Minha? Nem vem, sua loira falsificada! Foi você quem veio saltando que nem uma gazela purpurinada, todo “Aiji, vamos pintar as rosas de Sua Majestade” – terminou a frase com uma tentativa caricata de imitar a voz alheia. Ninguém riu.


–Mas foi você quem conseguiu a tinta, alfaiate de playmobil!


–Porque você mandou, babadeira!


–É? E daí? Se eu chegar mandando você chupar o Miyavi, você vai, sua dadeira?


–Não se preocupe, já que o boqueteiro aqui é você, sua laleska!


–Epa! Vamos parar com a bagaceira, vocês duas! – Interviu a Rainha, fazendo com que os dois abaixassem as cabeças, em respeito, e ficassem quietos – First of all: Quem mandou pintar as minhas rosas?


–Bem... Nós só queríamos te agradar, Majestade – começou o loiro, o olhar receoso – Digo, rosas brancas são tão cafonas. Rosas negras são super mais tudo, mas as sementes são tão raras e...


–Espera! Você disse que as minhas rosas são cafonas? Sua biscateira! Cortem-lhes as cabeças!


–Maya! Seu idiota! Você tinha que abrir a boca?


Ambos foram agarrados por alguns guardas e levados aos gritos para longe, um ainda insultando o outro, enquanto a Rainha massageava sua têmpora.


–Ai, meu edi. Eu mereço essas pessoas que pensam que têm senso de estética? Muito bem! Vamos começar logo o...


Parou de falar ao notar algo fora do comum. Piscou algumas vezes antes de aproximar alguns passos de onde Kyo e Bou estavam.


–Ai, meu pau. Fodeu. – murmurou o Coelho, logo se curvando em uma grande reverência. – Majestade Hizaki. A que devo a hon...


–Diga-me, Kyon-kitty. Quem é a gracinha, aí?


–Uh... É apenas o Misaki, Majestade. Ele quis mudar o apelido, mas ainda assim...


–Diga-me seu nome, honey – a Rainha interrompeu Kyo novamente, fazendo esse se controlar para não bufar.


–Saitou Kazuhiro, Majestade – Bou imitou a reverência do mais alto, um tanto amedrontado pela figura imponente – Me chamam de Bou...


–Gosta de... Jogos? – O tom era ligeiramente malicioso, mas Bou acabou por não perceber.


–Gosto sim.


–Ótimo! Venha comigo, vamos jogar!


Puxou Bou pela mão e pôs-se a caminhar em direção ao castelo, deixando para trás um Kyo aflito por ver o menor ser seqüestrado.


–Depois faremos as preparações para o croquet. Ou melhor, façam sem mim. Estarei muito ocupado pelas próximas horas.


Enquanto era arrastado, o loirinho tentava compreender os sinais que Kyo fazia insanamente para si. Algo como...leva-lo consigo.

–Majestade! Desculpe-me a rudeza, mas... Iria incomodar caso Kyo fosse conosco?


–Hm? Quem?


–Ali, o Coelho...


–AH! Haha, claro que não, Alice. Vamos logo, Kitty-kitty.


Com passos apressados, o Coelho logo chegou ao lado de Bou e de Hizaki, que falava alto consigo mesmo. O loirinho aproveitou esse fato para chamar o amigo aos murmúrios.


–Kyo, porque “Alice”?


O mais alto sorriu maliciosamente antes de responder.


–Quer dizer “bicha tola”, seu esquecido.


–Como sou esquecido!

Hizaki parou de andar abruptamente, batendo um punho na palma da outra mão, em um gesto que Bou achou ter saído de algum anime.


–Como pude me esquecer? Vamos ter que deixar os jogos para depois! Vamos! Por aqui! É hora do julgamento!


–Ah, ótimo – Kyo permitiu-se murmurar, pois, graças ao andar apressado da Rainha e da mania “desta” de falar sozinho, não poderia ser ouvido – Era tudo o que eu precisava hoje, ter de ler um daqueles malditos pergaminhos.


O menor de todos os presentes preferiu manter-se calado em meio aos resmungos do Coelho e do monólogo da Rainha. Já estava cansado de tudo aquilo, queria ir para casa, tomar um banho quente, vestir roupas folgadas e dormir até o dia seguinte.


Então, Bou engoliu em seco com o pensamento.


Ir para casa significaria deixar para trás todos aqueles absurdos. Gatos safados risonhos, Chapeleiros insanos, Rainhas travestis... E Coelhos cosplayers da playboy.


Estranhamente, o loirinho não gostou da idéia de nunca mais ouvir os remungos, xingos e murmúrios mal-humorados do rapaz ao seu lado. Gostaria de conversar um pouco mais com ele, sem toda aquela paranóia das horas, de preferência.


E também, havia aquele beijo que tinha deixado-o pensativo.


Talvez, estivesse sentindo-se atraído pelo Coelho, afinal...


–Aqui estamos! O Tribunal! Ai, como eu a-do-ro essa sensação de poder! Ali, meus queridinhos. Kitty-kun, você sabe por onde deve ir, ajude a nossa Alice a entrar e vá para seu posto. Três minutos e 38 segundos para isso, darling.


–Majestade – Kyo fez uma reverencia de forma quase teatral e saiu puxando Bou, que só teve tempo de uma pequena reverencia.


–Certo, você entra por aqui. Procure um lugar e sente, de preferência perto de mim. Vou estar no canto da direita desta vez, vê se não fica dando mole pra qualquer idiota que nem da outra vez. – o maior virou-se e andou alguns passos, parando e olhando para Bou novamente – E lembre-se que ninguém precisa pôr a mão na virilha de alguém pra perguntar as horas.


Somente então, o Coelho apressou seus passos, rapidamente sumindo da vista. Kazuhiro piscou algumas vezes, processando as informações.


–Certo, esse tal de Misaki deve ser alguém estranho... – murmurou, adentrando o local, mas logo quis se chutar pelo que havia dito.


Por acaso algo ou alguém era normal naquele lugar?


Olhou para os lados, analisando o lugar. Aparentemente, um tribunal normal, embora o mesmo não pudesse ser dito das pessoas que ocupavam o lugar do júri.


Dando de ombros, o rapaz avistou Kyo aparecendo mais à frente, ao lado de dois tronos estrategicamente posicionados, obedecendo ao sinal que lhe mostrou um lugar vago.


Assim que ocupou sua cadeira, todos se levantaram, obrigando Bou a fazer o mesmo. A voz forte do Coelho ocupou o lugar.


–Anuncio a todos a presença da grandiosa, glamourosa, poderosa e honesta Rainha Hizaki... – fez uma pausa demorada, antes de completar com a voz mais baixa -... E o Rei Gackt.


Uma ovação imensa fez o adolescente pular em seu lugar, quando duas figuras apareceram por uma porta lateral. Hizaki acenava de forma teatral, mandava beijos e agradecia aos presentes.


Entretanto, ao prestar atenção, Bou percebeu que não havia uma única voz que gritasse algo que não fosse direcionado ao tal Rei Gackt, apesar de toda a puxação de saco “oficial” ter sido para a Rainha.


O loirinho observou com atenção o casal real se acomodar em cadeiras de espaldar alto, seu olhar se focalizando naquela nova pessoa.


Cabelos castanhos até os ombros, divididos em mechas que alternava o lado para o qual caía. Uma blusa preta com algo que a fazia brilhar coladíssima à pele, com um casaco também muito justo por cima, tendo pêlos brancos em quantidade generosa pela gola.


A calça! Esta era tão apertada que Bou engasgou ao ver algo saliente à mostra para quem quisesse ver, quando o Rei sentou-se confortavelmente de pernas abertas.


Botas negras com um grande salto plataforma e uma maquiagem pesada – incluindo um risco que descia da testa até o olho esquerdo e depois se dividia em dois até a altura da boca fortemente maquilada – completavam o visual, junto com um colar cujo pingente o loirinho não conseguiu identificar devido à distância.


Hizaki ainda acenava de forma afetada para a todos – que já estavam mais calmos e já haviam sentado – enquanto Gackt deixou o corpo pender para o lado de forma displicente, o cotovelo apoiado no braço da cadeira a fim de deitar o rosto na mão. Seus olhos escanearam os presentes até se focarem num ponto, um sorriso discreto nascendo em seus lábios.


Bou percebeu a atitude e tentou acompanhar o olhar do Rei, mas a voz altiva da Rainha se fez presente, fazendo o rapaz voltar-se à frente rapidamente.


Mas ele havia percebido a presença da Lebre de Março, desviando o olhar para um ponto qualquer e um sorriso imperceptível em sua face.


–Kitty-kun, dear, leia a acusação, sim?


Kyo tirou um pergaminho de suas vestes, abrindo-o à sua frente.


–“A acusação consiste no roubo de vibradores reais, cometido pelo atual Valete”!


–Pensem na pena – disse o Rei, voltando-se para os jurados, um olhar de pouco caso em seus olhos azuis.


–Majestade, não seria melhor ouvir uma testemunha antes? – um dos jurados murmurou, receoso, seu olhar vagando descaradamente pelo corpo do homem de cabelos castanhos, que parecia não se importar.


–Que entre a primeira testemunha! – bradou Hizaki, adorando poder impor suas vontades.


As portas foram abertas e, para a surpresa de Bou, Ruki foi literalmente jogado dela, caindo no chão com os braços para cima, a fim de salvar sua xícara de chá e seu prato com um grande pedaço de bolo.


O Chapeleiro levantou-se de forma desajeitada, tentando manter alguma compostura e equilibrar a cartola em sua cabeça.


–Perdão por isso, Majestades – Ruki levantou as mãos, indicando o bolo e a xícara – Fui seqüestrado em meio ao chá.


–Sem problemas, querido, apenas acabe logo. E retire seu chapéu, sim? – Hizaki indicou a cartola com um gesto grande. Ruki olhou para cima, como se tentasse ver a cartola vermelha enquanto tomava um gole de chá.


–É uma cartola.


–Mesmo que fosse um quepe militar sexy, não se deve usar coisas como essa em tribunais – o loiro declarou, orgulhoso de seus conhecimentos pelo assunto – Retire sua cartola.


–Não é minha – murmurou o menor, equilibrando-se em uma perna e dobrando a outra para trás, a fim de usar seu pé para colocar a xícara e poder se servir de um pedaço de bolo.


–Um ladrão!


–Não, minha Rainha. Eu sou um chapeleiro, eu os vendo, logo nenhum deles é meu.


Ruki enjoou-se com aquele bolo tão melado e jogou displicentemente o prato para um lado qualquer. Após isso, deu um impulso com a perna levantada, fazendo a xícara voar por cima de si, pegando-a habilmente sem derramar uma única gota, sorvendo mais um gole do líquido.


Bou quase aplaudiu a façanha. Foi quando seus olhos notaram que o bolo havia aterrissado perto de si.


E estava com fome.


Olhou em volta, mordendo os lábios, pegando o garfo e levando o último pedaço restante à boca, não sabendo como o Chapeleiro pôde comer tanto. Aquilo era muito doce.


Aquietou-se novamente, começando a sentir um enjôo repentino.


–Mas se está na sua cabeça, você está usando. Como pode usar algo que não é seu, ou como pode um chapeleiro não ter um chapéu? – Gackt perguntou, ainda com tédio em seu olhar.


–Chega disso, vamos logo ao depoimento – declarou Hizaki.


O Chapeleiro começou a falar, às vezes se interrompendo para bebericar chá, mas o loirinho não prestava atenção. Seu mal-estar continuava, até que percebeu estar crescendo novamente, assim como depois de atravessar aquela pequena porta e descobrir aquele estranho mundo.


Seu primeiro impulso foi o de sair do tribunal, mas assim que ameaçou levantar-se, recebeu um olhar duro de Kyo, o suficiente para manter o menor sentado.


Bem, talvez não crescesse tanto.


–Hey, vai mais pro lado – esbravejou um rapaz de cabelos negros. Bou quis perguntar por que ele estava de óculos escuros dentro de um tribunal, mas acabou por dar de ombros mentalmente.


–Desculpe, mas estou crescendo...


Em meio há tentas coisas bizarras, talvez alguém crescer notavelmente passasse por algo comum e corriqueiro.


O rapaz o encarou por alguns bons segundos, antes de levantar-se e apontar para o loirinho.


–Majestade! Um infrator!


Todos os olhares se voltaram para si. Bou engoliu em seco.


Talvez, estivesse errado.


–Um infrator! – berrou Hizaki, com a voz levemente mais aguda – Adoro condenar infratores! Cartoleiro, querido, pode se sentar, depois vemos isso, certo? Tragam o infrator!


Ruki murmurou algo sobre não ter acabado de contar sobre as folhas de chá submarinas e sobre ser um Chapeleiro, não um Cartoleiro, mas resignou-se e seguiu até sair do tribunal, decidido a terminar seu chá de forma descente, mesmo que seu companheiro continuasse no local.


Enquanto isso, dois homens que mais pareciam go go boys por seu porte e trajes, surgiram ao lado de Bou, agarrando-lhe pelos braços e o levando até o local onde antes estava o Chapeleiro.


–Mas é Alice – Hizaki mostrava-se surpreso, atraindo um olhar levemente curioso do Rei.


–Que Alice? Não conheço nenhum Alice.


–Oras, é claro que é ele ali, Gackt querido.


O adolescente sentiu-se intimidado pelo olhar do Rei, que parecia analisá-lo, mas logo fez um gesto de descaso com a mão e voltou a deitar o rosto na mesma.


–Diga-me, minha Alice. Você infligiu qual lei?


–Eu... Não sei, Majestade. Estou confuso e...


–Você! Toshi, querido! Ele é um infrator, pois...?


O rapaz de óculos escuros levantou-se, sentindo todos os olhares presentes em si, exceto pelo Rei e pela Lebre de Março, que pareciam tentar se comunicar por gestos.


–Olhem para ele! Ele infligiu o artigo 42!


Todos os olhos antes focados no rapaz se voltaram para o loiro, desta vez, arregalados.


–É verdade! Você infligiu o artigo mais importante de todo o código!


–Que seria?


–Nenhuma pessoa com mais de um quilômetro de altura pode comparecer em um tribunal!


Bou olhou para si. Era verdade que estava gigantesco. Quando voltou seu olhar ao casal real, estes já eram minúsculos.


Também notou o Rei aproveitando a deixa para sair sem ser notado, roubando um selinho da Lebre – que estava de pé perto da porta lateral- e saindo com o mesmo, de mãos dadas, mas preferiu guardar isso para si.


–Isso é muito grave, Alice! Você deve ser punido imediatamente! Eu voto por execução em praça pública!


Bou perdeu a paciência com toda a arrogância de Hizaki.


–E eu voto por você aprender boas maneiras! Você não passa de um controlador, exibido, que se acha o máximo, mas nem percebe que está sendo chifrado pelo Rei com...


O loirinho calou-se. Sentiu um grande mal-estar novamente e fechou os olhos, a fim de tentar fazer a tontura que sentiu, passar.


Quando os abriu, estava com seu tamanho normal, novamente. Hizaki entrelaçou os dedos e apoiou os cotovelos nas pernas, deitando a cabeça nas costas das mãos.


–Você dizia? – perguntou irônico, um sorriso malicioso – É o suficiente para mim! Cortem-lhe a cabeça!


Bou empalideceu ao ver os go go boys virem em sua direção, mas algo passou veloz por si, agarrando-lhe e mão e puxando-o fortemente. Em segundos, estavam fora do tribunal.


–Kyo? Mas o que está...?


–Cala a boca e corre! – gritou, exasperado – A menos que você odeie muito o que tem entre as pernas.


–Mas não iam me cortar...


A luz do entendimento clareou as idéias do menor, fazendo com que esse corresse desesperadamente ao lado do Coelho.


–Não mesmo! Não é porque eu me visto como uma garota que eu quero ser uma!


Correram por mais alguns minutos, ouvindo vozes agitadas atrás de si, lideradas pela voz afetada – e aparentemente excitada pela “caçada” – da Rainha.


Kyo parou de correr abruptamente, mas Bou já estava acostumado e pôde frear a tempo.


–Não vai ter jeito... – murmurou em frente a uma árvore. Bou estava confuso, mas arregalou os olhos quando o viu puxar a casca do tronco e abrir um tipo de porta, onde havia um grande túnel vertical – Vai ter que ser por aqui! Anda, vai logo!


–Mas e você?


–Eles querem cortar seu pau e você está preocupado comigo? – Kyo parecia insanamente desesperado, as orelhas atentas aos barulhos cada vez mais próximos.


–É! Estou sim!


Essa reposta decidida, junto com o olhar firme do menor, pegou o Coelho de surpresa. Piscou algumas vezes, seu olhar tornando-se levemente tímido, antes de murmurar.


–Idiota até o último momento.


Bou estava a ponto de responder à altura quando sentiu sua cintura ser puxada e sua boca encontrar a do maior novamente.


As vozes estavam mais altas, mas isso não impediu o adolescente de passar seus braços pelos ombros do Coelho, puxando-o para si com a mesma ânsia com que era puxado.


Partiram o violento beijo de maneira brusca, as respirações alteradas e misturadas.


–Não quero ir – Bou choramingou, mas o olhar de Kyo era sério.


–Não seja uma mulher que acabou de descobrir que está na menopausa!


O loirinho abaixou o olhar, perguntando se iria ver o Coelho novamente.


Mas não houve uma resposta verbal. Sentiu uma mão forte lhe empurrar pelo ombro, caindo de costas na abertura atrás de si, a visão do loiro sendo a última coisa que se recordava antes de fechar os olhos fortemente, esperando pela queda iminente.


Sobressaltou-se ao sentir um toque em seu braço. Olhou assustado e amedrontado para todos os lados.


Estava... Novamente no parque.


Levantou-se bruscamente, rodando em seu próprio eixo para visualizar o lugar, a respiração descompassada e o coração acelerado.


Estava em casa...


–Bou-chan?


Virou-se, encontrando a última pessoa que esperava encontrar: Miku.


–Você está bem? Te encontrei aqui, sozinho... É perigoso adormecer em lugares públicos, seu bobo.


O loiro olhou de forma receosa para o ex.


–Miku, o que você...


–Desculpa! Bou, por favor, me desculpe! – o olhar do maior era magoado e sincero, mas Kazuhiro não alterou sua expressão – Eu fui um idiota! Eu sou um idiota! Eu vou estar do seu lado... Vamos passar por isso juntos.


Sorriu-lhe e estendeu a mão, um convite mudo para que o garoto aconchegasse o próprio corpo contra o seu.


–Miku – suspirou – Não é tão fácil. Você disse que não com tanta convicção... Eu fiquei confuso. Dê-me um tempo, sim? Eu falo com você depois.


Virou-se e se afastou rapidamente, não querendo ver o olhar magoado nos olhos castanhos.


Não querendo que tudo voltasse a ser como antes.


Principalmente quando, apesar de ter se convencido de que foi tudo um sonho, ainda podia sentir o gosto do beijo trocado com o Coelho.


Murmurou um palavrão, entrando em um sebo, querendo comprar algo para se distrair à noite e tentar não pensar em nada.


Estava entretido olhando os livros, quando notou um manga que lhe chamou a atenção.


–O Vampiro Que Ri... – murmurou, estendendo a mão para apanhar o exemplar.


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Sobressaltou-se ao sentir seus dedos tocarem outra mão ao invés da capa negra. Alguém havia escolhido o manga ao mesmo tempo que ele.


–Desculpa.


Bou virou-se ao murmurar o pedido, um sorriso tímido no rosto, mas congelou sua face ao encarar a pessoa.


–... Kyo?


O loiro mais alto franziu o cenho, encarando Bou.


–Não sou Kyo.


O adolescente quis se chutar. Estava decididamente enlouquecendo.


–Desculpe-me por isso, também.


Sorriu leve, afastando-se e deixando o manga onde estava, para que o estranho o apanhasse.


Parou ao sentir algo lhe puxando o pulso.


Virou-se, encontrando o outro rapaz com o manga em mãos, estendendo-o.

–Pegue.


–Mas... Pode ficar, eu não faço questão.


–Mas eu faço, pegue logo.


Bou receou, mas aceitou o livro, murmurando um agradecimento e dirigindo-se ao balcão para pagar. Quando se voltou, o sebo estava vazio.


Suspirando, deixou o local.


Apenas para encontrar o mesmo rapaz ao lado de fora, encostado à parede.


–Você vai gostar, o autor é muito bom – o estranho murmurou, encarando o loirinho.


–Ouvi falar...


Houve um estranho silêncio até que o mais alto olhou o relógio de pulso. O gesto pareceu estranhamente familiar para Kazuhiro.


–Hmm... Você... Está ocupado? Digo, quer tomar algo?


Bou não era um adolescente inconsciente, mas aceitou o convite do desconhecido, sorrindo.


–A propósito, Saitou Kazuhiro – apresentou-se, começando a andar pelas ruas de Tokyo, o loiro ao seu lado, lhe encarando antes de sorrir de forma quase imperceptível, a qual fez o loirinho se lembrar da Lebre no tribunal.


–Nishimura Tooru.

Notas finais
Grande? GIGANTESCO! 31 páginas do word. Não esperava que ficasse tão grande, simplesmente fui escrevendo. Por isso, não saberia dividir em capítulos, para diminuir, desculpem-me. Caso alguém tenha conseguido chegar até aqui, espero que tenha gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!