Borusara - O Preço do Olhar
3 Algumas Coisas Não Podem Ser Facilmente Esquecidas
Feixes de luz atravessavam a janela do quarto quando Boruto despertou. O cenário parecia maior do que quando havia entrado; as paredes brancas transmitiam uma sensação estranha de magnitude, quase como se o espaço tivesse se expandido durante a noite. O barulho constante dos aparelhos médicos preenchia o ambiente, uma sinfonia mecânica que desagradava o jovem Uzumaki, repetitiva demais para permitir qualquer tipo de descanso real.
Ele permaneceu alguns segundos imóvel, encarando o teto, tentando organizar os pensamentos. O corpo estava cansado, pesado, mas não doía. Era um cansaço diferente, mais profundo, como se não estivesse apenas nos músculos, mas preso em algum lugar entre o peito e a mente. Boruto passou a mão pelo rosto e sentou-se devagar na maca, sentindo o leve desequilíbrio causado pela transfusão da noite anterior.
O quarto ainda carregava o cheiro característico de antissépticos e chakra medicinal. Ao virar o rosto, seus olhos foram naturalmente atraídos para a cama ao seu lado. Sarada permanecia ali, imóvel, envolta por lençóis claros demais para alguém que havia estado tão perto de se perder. O monitor ao seu lado marcava um ritmo constante, regular o suficiente para trazer alívio, mas não conforto.
Boruto levantou-se e caminhou até ela em silêncio. O chão frio sob os pés descalços o mantinha desperto, ancorado na realidade. Observou o rosto da Uchiha por alguns instantes. Não havia tensão em suas feições agora, apenas uma calma artificial, sustentada por selos e cuidados constantes. Ainda assim, vê-la respirar era o suficiente.
Ele pensou que, talvez, aquele fosse o verdadeiro preço de ser ninja. Não as batalhas, nem os ferimentos visíveis, mas os momentos em que tudo o que se pode fazer é esperar. Esperar que o corpo lute sozinho. Esperar que o tempo seja gentil.
Boruto apoiou-se na lateral da cama, fechando os olhos por um breve instante. Precisava pensar no que viria depois. Em Konoha. Na missão. Na organização que haviam enfrentado. Em tudo o que continuava em movimento, mesmo enquanto Sarada dormia.
A lembrança da última luta veio sem esforço. Ele acreditava, no início, que os três dariam conta da situação. Já havia enfrentado batalhas difíceis antes, momentos em que esteve encurralado, obrigado a improvisar, a confiar mais na intuição do que na técnica. Mas aquilo havia sido diferente. Completamente diferente.
Em nenhum instante sentiu que o adversário estava em desvantagem. Não houve brechas, não houve hesitação. Cada movimento do ninja mascarado parecia calculado, como se já soubesse qual seria a resposta antes mesmo de Boruto agir. A sensação era estranhamente familiar. Lembrou-se do exame, da luta contra Kakashi. Naquela época, também teve a impressão de estar sempre um passo atrás, reagindo em vez de conduzir.
Mas agora o peso era outro.
Ali, no campo de batalha, não era apenas uma prova. Não havia avaliadores. Não havia segunda chance. O controle da luta não esteve com ele em momento algum. Pelo contrário, Boruto sentira-se como uma criança sem experiência real, alguém testando limites que ainda não compreendia por completo. Isso o incomodava.
Não por orgulho ferido, mas pela constatação simples e dura: não era forte o suficiente. Não ainda. Suas técnicas precisavam ser refinadas. Seu controle, ampliado. Seu corpo e seu chakra precisavam responder antes da mente. Ele precisava ficar mais forte, não para vencer, mas para proteger.
Sempre teve Sasuke como modelo de ninja a ser seguido, alguém tão forte que não necessitava de um cargo como o de Hokage para ter seus dons reconhecidos. Sempre nas sombras, protegendo a vila de perigos que muitas vezes nem chegavam aos ouvidos da população. Para Boruto, aquilo sempre parecera liberdade. Um caminho distante das expectativas, das cobranças, dos olhares constantes.
Proteger nas sombras significava estar preparado para quando tudo desse errado. Significava ser rápido o suficiente, forte o suficiente, consciente o suficiente para não hesitar. Boruto fechou a mão lentamente, sentindo o próprio pulso ainda fraco pela transfusão. Não bastava admirar aquele caminho. Era preciso estar à altura dele.
Talvez não fosse sobre fugir de cargos ou títulos. Talvez fosse sobre assumir responsabilidades, mesmo quando ninguém estivesse olhando. Mesmo quando não houvesse reconhecimento algum.
Boruto voltou o olhar para Sarada, sentindo o peso daquela constatação se acomodar em seu peito. Se quisesse seguir aquele caminho, precisaria começar agora. Não apenas treinando técnicas, mas entendendo o que significava proteger alguém de verdade. Ele não permitiria que aquilo se repetisse, a ninguém.
A porta se abriu, duas enfermeiras entraram no quarto. Com um semblante sério, passaram a verificar os sinais vitais da Uchiha através dos aparelhos de suporte. Trocaram sua medicação e avisaram que a paciente apresentava sinais de melhora
– Ela está melhorando, é uma garota de sorte por ter bons amigos – Disse uma das enfermeiras.
Boruto assentiu com um sorriso cabisbaixo, seu corpo ainda não sentia o alívio dessa notícia. Talvez soubesse que os perigos que os esperavam eram maiores e que não havia controle dessas situações.
Konohamaru e Mitsuki entraram na sala, ambos pareciam melhores. Sem os curativos, davam boas notícias a Boruto. – A delegação de Konoha acaba de chegar, você deve se arrumar… Logo sairemos para aldeia – Explicou Konohamaru
Boruto assentiu, olhou para Konohamaru e depois para Mitsuki, seu corpo parecia negar o comando. Arrumar-se, sair dali, queria dizer deixá-la. O corpo continuava imóvel, mas sua mente, essa continuava a funcionar. Pensamentos e crenças negativas começaram a vir à tona.
Antes que o momento se estendesse, Konohamaru colocou a mão em seu ombro e olhando fixamente em seus olhos disse – Ela ficará bem, a equipe médica de Konoha é a melhor que existe. Vão cuidar dela durante todo o trajeto.
— Entendido — respondeu, a voz saindo mais baixa do que pretendia.
Konohamaru percebeu a hesitação. Conhecia aquele olhar. Já o vira em outros ninjas, em outras circunstâncias. Era o olhar de quem ainda não processara completamente o que acontecera, de quem temia que, ao sair daquele quarto, algo pudesse mudar.
Virou-se mais uma vez para Sarada, observando o rosto sereno demais, a respiração controlada pelos selos médicos. Queria dizer algo, qualquer coisa, mesmo sabendo que ela não poderia ouvir. Mas as palavras não vieram. Apenas um pensamento persistente: Eu volto.
Os corredores do Hospital pareciam mais agitados, a presença de uma delegação de uma aldeia como Konoha significava algo. Notou a presença de ninjas com coletes de jōnin, fazendo a segurança do corredor. Além de uma figura conhecida ao final do corredor, aquela era Sakura, mãe de Sarada e Diretora do Hospital de Konoha.
Ao entrar no vestiário masculino, retirou a camisola hospitalar, revelando os ferimentos da última batalha. Lacerações percorriam seu tronco, algumas já começando a formar crostas, outras ainda avermelhadas e sensíveis ao toque. As marcas espirais deixadas pelo rasengan que o atingira eram impossíveis de ignorar, gravadas na pele como um selo permanente de sua insuficiência.
Boruto passou os dedos sobre uma das feridas maiores e sentiu uma pontada que ia além da dor física. Por um momento, tudo o que conseguiu ver foi fracasso. A falha em cumprir a missão. A falha em proteger seus colegas. A falha em ser forte o suficiente quando mais importava. Especialmente com Sarada.
Mas então, algo mudou em seu olhar.
Boruto ergueu as mãos ao rosto, manchada com sangue ainda seco que demoraria a sair. Foi nesse momento que uma lembrança voltou, nítida como se tivesse acontecido ontem.
Seu pai, anos atrás, sentado ao lado dele na varanda de casa. Era uma daquelas raras noites em que Naruto não estava ocupado demais com papelada de Hokage. A lua estava cheia, e o vento carregava o cheiro de chuva que ainda viria.
Naruto e Boruto treinavam taijutsus, o jovem uzumaki corria ao redor do pai, tentando insistentemente avanços que logo eram repelidos. – De novo, você está mais rápido! – gritava Naruto, bloqueando mais um soco com facilidade irritante. – Você está chegando no ponto certo, só precisa de um pouco mais de calma – completou o Hokage.
Boruto recuara, com os punhos doendo de tanto bater, repensava a estratégia que deveria adotar. Até o momento, todas as suas investidas haviam batido inútilmente na guarda inabalável do pai. Ele sabia que o pai era um dos ninjas mais fortes de toda a história, mas também havia ouvido as histórias sobre a luta entre seu falecido tio, Neji Hyūga, e de como ele quase venceu seu pai em um torneio.
Parou por um instante, pousando o pé sob o chão de madeira da varanda. Naruto percebeu a pausa do filho e relaxou a postura, abaixando levemente os braços. Boruto, armou a guarda, estendendo os braços e as palmas da mão em forma de ataque.
Havia notado que seu pai conseguia ler seus ataques mesmo antes que chegassem a se chocar contra seu corpo. Precisava de uma distração, uma maneira de mudar a forma que a luta seguia.
Boruto avançou. Não com força total, mas com cuidado. Fingiu um soco direto, girou o corpo no último instante e tentou um movimento baixo, usando a palma aberta, imitando de forma imperfeita o estilo Hyūga.
O ataque quase acertou o corpo de Naruto, que se não estivesse atento teria recebido o golpe, mas repeliu no último instante com dificuldade. Boruto parecia ainda mais veloz, os ataques não miravam apenas o corpo de Naruto, mas seus pontos de abertura de Chakra, o jovem Uzumaki sabia o que queria. Em uma das oportunidades ele mirava a barriga do Hokage, mas o ataque foi segurado por seus braços, criando um espaço entre os ninjas.
Boruto sentia que não poderia perder a oportunidade, era a primeira vez naquele treino que sentia seu pai atento aos seus ataques. Decidiu tentar um golpe ousado, buscando retirar os sinos presentes na cintura de seu pai.
Enquanto corria, Boruto sentiu algo diferente percorrer seu corpo. Não era força, nem velocidade. Era como se sua percepção tivesse se deslocado levemente, como se o mundo ao redor estivesse um passo mais lento do que deveria.
Naruto sentiu isso antes mesmo de ver. Um desconforto breve, quase instintivo, percorreu seu corpo. O chakra do filho parecia irregular. Não instável, mas fora do padrão. Por uma fração de segundo, sua atenção se dividiu.
Humph. — a voz de Kurama soou, baixa e atenta, ecoando na mente de Naruto. — Você sentiu isso também, não sentiu?
Naruto cerrou os dentes por um instante. Sentira. Algo no chakra de Boruto havia mudado por um breve momento, seus olhos brilhavam diferente. Não era algo que pudesse explicar, mas era impossível ignorar. -- Depois — murmurou, mais para si mesmo do que para a raposa. — Agora não.
O jovem Uzumaki, com as palmas das mãos, defendeu os golpes do pai, abrindo a guarda. Estava ali o tão aguardado prêmio de todas as investidas antes tentadas, era só pegar aquilo e venceria seu pai. Mas logo o entusiasmo acabou, rapidamente, seu pai retornou a guarda e com um golpe certeiro, afastou Boruto o fazendo cair no chão.
– Droga, eu estava tão perto – Lamentou o jovem Ninja
Naruto havia percebido como a leitura de luta e habilidades de seu filho eram admiráveis, ultimamente, haviam sido poucas as vezes que ele tinha precisado usar tantas de suas habilidades em um combate, sentia-se até um pouco enferrujado, quando comparado aos velhos tempos. Porém, percebia que seu filho precisava de um auxílio maior para entender o mundo ninja, o talento estava lá, mas faltava a direção certa.
"Sabe, Boruto", Naruto havia dito, a voz inusitadamente séria, "quando eu era mais ou menos da sua idade, passei por uma batalha que me mudou."
Boruto, ainda criança, escutara com atenção enquanto o pai levantava a própria mão, mostrando uma cicatriz quase imperceptível na palma.
"Eu me machuquei aqui de propósito naquele dia", continuara Naruto, traçando a marca antiga com o polegar. "Não foi só dor física. Foi uma promessa. Uma promessa de que, daquele ponto em diante, não haveria volta. Que eu continuaria evoluindo, não importa o quê. Que me tornaria forte o suficiente para proteger quem eu amava."
O sorriso que surgiu no rosto do Hokage então era diferente do usual — não era o sorriso animado de sempre, mas algo mais profundo, mais verdadeiro.
"E sabe o que mais?", Naruto batera de leve na testa de Boruto com o dedo. "Voltar atrás nunca foi uma opção. Esse é nosso jeito ninja, 'ttebayo!"
Na época, Boruto apenas revirou os olhos para o "-ttebayo" típico do pai e não dera muita importância àquelas palavras. Eram só mais uma das histórias exageradas que Naruto adorava contar.
"Tá, tá, já entendi", dissera, levantando-se e sacudindo a poeira das calças. O corpo ainda doía do treino, mas a frustração de não ter conseguido pegar os sinos era maior. "Posso tentar de novo? Dessa vez eu pego."
Naruto rira daquela forma alta e sem filtro que sempre fazia, bagunçando os cabelos do filho com a mão.
"Claro! Mas lembra: não é só sobre ser rápido ou forte. É sobre—"
"—proteger quem você ama, eu sei, eu sei", Boruto completara, impaciente. "Você já falou isso tipo mil vezes."
A lembrança se dissipou tão rápida quanto havia chegado.
Boruto piscou os olhos, recobrando a consciência. A torneira ligada derramava água sob suas mãos, ainda sujas de sangue. Seu sangue. Sangue de Sarada. Manchando suas mãos, reforçando uma luta que já havia passado, mas ainda carregava danos até o momento. Mas agora, parado naquele vestiário, com o corpo dolorido e o peso da missão falhada sobre os ombros, Boruto finalmente entendia.
Olhou para o reflexo distorcido no espelho embaçado. As cicatrizes que começavam a se formar no tronco eram visíveis mesmo sob a camisola hospitalar manchada. Para o reflexo que mostrava alguém diferente do garoto que entrara naquela missão.
Aquelas cicatrizes não precisavam ser apenas lembretes de derrota. Podiam — deveriam — ser algo mais. Um marco. O ponto exato em que tudo mudaria. Onde a dedicação casual aos treinos daria lugar a algo mais sério, mais profundo. Onde o garoto que brincava de ser ninja se tornaria alguém verdadeiramente capaz de proteger quem importava.
Não precisava marcar a mão de propósito como seu pai fizera anos atrás. A vida, e aquela missão, já haviam feito isso por ele. As cicatrizes seriam seu lembrete permanente. Sua linha divisória entre quem era antes e quem se tornaria agora.
Boruto cerrou os punhos, sentindo a pele esticada protestar contra o movimento. A dor era bem-vinda agora. Era um lembrete do que estava em jogo.
Abriu a mochila e revirou o conteúdo até encontrar a muda de roupas que Himawari sempre insistia que levasse em missões. Sua irmã tinha razão, afinal. Suas roupas de reserva estavam amassadas no fundo, uma calça preta com bolsos ao redor, uma camisa branca e seu característico casaco.
Deixou tudo dobrado, metodicamente, em um banco próximo ao chuveiro. Retirou a camisola hospitalar e entrou no box. Precisava daquele momento, uma oportunidade para dissipar todos os sentimentos marcados em forma de ferimentos, sujeira e sangue seco que ainda eram visíveis em seu corpo.
O jovem Uzumaki apoiou as mãos no vidro do box. A água quente escorria por toda dimensão do seu corpo, atravessando machucados e lacerações presentes. Aquilo ainda doía, mas naquele momento já não era algo que o incomodava mais. A dor física era quase reconfortante, tangível, real, algo que ele podia sentir e compreender.
Passou alguns minutos ali, minutos esses que pareciam horas dentro de sua imaginação. Revisava planos de ação, técnicas a serem aprimoradas, habilidades que nunca havia desenvolvido, maneiras de ser mais forte. O Karma precisava ser dominado completamente. O Jōgan, controlado. O taijutsu, refinado. Cada falha dessa missão se transformava em objetivo concreto.
Finalmente desligou a água e saiu do box. O vapor preenchia o ambiente, tornando tudo levemente borrado. Aproximou-se da pia e encarou o próprio reflexo no espelho embaçado.
Os olhos que o encaravam de volta tinham uma seriedade que ele não reconhecia completamente. Ou talvez reconhecesse, mas nunca quis admitir. Era o olhar de quem entende, tarde demais, que não bastava ter talento. Que não bastava ter técnicas poderosas ou linhagem privilegiada.
E ele não havia sido forte o suficiente.
Ainda não.
Boruto começou a se vestir lentamente. O tecido da camisa roçou contra as feridas e ele reprimiu um leve estremecer. Cada movimento era um lembrete. Cada pontada, uma pergunta que não queria responder: E se você não tivesse chegado a tempo?
Balançou a cabeça, afastando o pensamento. Não adiantava pensar no "se". O que importava agora era garantir que da próxima vez e haveria uma próxima vez, ele sabia, seria diferente.
Vestiu a calça, ajustou o casaco, e guardou os pertences na mochila com movimentos mecânicos. Kunais, shurikens, rolos de pergaminho, algumas pílulas de energia que Mitsuki insistira que levasse. Tudo ainda estava ali, intacto, inútil. Nada daquilo havia feito diferença quando realmente importou.
Fechou a mochila com mais força do que o necessário.
Quando saiu do vestiário, o corredor parecia ter se acalmado um pouco. Alguns dos ninjas de Konoha já não estavam mais à vista, provavelmente organizando o transporte de Sarada. Boruto parou por um momento, indeciso. Parte dele queria voltar ao quarto, certificar-se de que ela ainda estava bem, de que nada havia mudado nos breves minutos em que estive ausente.
Mas antes que pudesse decidir, uma voz o alcançou. — Boruto – a voz entonava
Ele se virou. Sakura estava a poucos metros de distância, os braços cruzados, o semblante sério mas não hostil. Não havia como fugir agora.
— Diretora — respondeu, mantendo a voz firme.
Sakura deu alguns passos em sua direção, e Boruto percebeu que ela parecia cansada. Não fisicamente, ninjas médicas do nível dela dificilmente demonstravam cansaço físico, mas havia algo nos olhos verdes que denunciava o peso emocional. Era uma mãe olhando para o garoto que estivera com sua filha quando tudo desmoronou. — Não precisa me chamar assim agora — disse ela, a voz mais suave do que o tom oficial.
Boruto engoliu em seco, sem saber exatamente o que dizer.
Sakura o observou por um longo momento, e então seus olhos desceram brevemente para o tronco dele, onde a camisa não escondia completamente o volume dos curativos improvisados sob o tecido.
— Você também está ferido — constatou, não como pergunta.
— Nada grave — respondeu rápido demais.
— Deixe-me ver.
Não era um pedido. Boruto hesitou, mas sabia que não adiantava discutir. Sakura já havia ativado o chakra medicinal nas mãos antes mesmo que ele respondesse. — Levante a camisa – ela pediu.
Ele obedeceu, revelando as lacerações e marcas espirais. Sakura franziu o cenho, as mãos brilhando em verde enquanto passavam sobre cada ferimento, avaliando a extensão dos danos. — Rasengan — murmurou, mais para si mesma do que para ele. — Você teve sorte de não ter perfurado órgãos vitais.
— Eu sei.
— Sabe mesmo? — Ela ergueu os olhos para encará-lo, e havia algo afiado naquele olhar. Não era raiva. Era a franqueza de quem já vira ninjas jovens demais morrerem por subestimarem seus ferimentos. — Porque pelo jeito como estava andando, pensei que achasse que isso era apenas um arranhão.
Boruto desviou o olhar.
As mãos de Sakura continuaram trabalhando, acelerando a cicatrização, realinhando tecidos danificados, estabilizando o fluxo de chakra na área afetada. Era um processo silencioso, quase meditativo, mas o peso entre eles permanecia.
— Konohamaru me passou um resumo do que aconteceu — disse ela, sem tirar os olhos do trabalho. — Mas quero ouvir de você. O que aconteceu com minha filha?
A pergunta veio direta, sem rodeios. Boruto sentiu o peito apertar.
— Nós... estávamos lutando contra um ninja desconhecido — começou, a voz baixa. — Sarada e Mitsuki estavam segurando ele enquanto eu tentava acertar um golpe. Mas ele era forte demais. Rápido demais. Cada movimento que fazíamos, ele já esperava.
Sakura não interrompeu, apenas continuou curando.
— Quando percebi que não conseguiríamos vencer daquele jeito, tentei mudar a estratégia. Mas foi quando... — ele fez uma pausa, a memória voltando com clareza dolorosa. — A explosão aconteceu. Não vi para onde Sarada foi levada. Quando acordei, ela não estava lá.
— E você foi atrás dela.
— Pulei na cachoeira — admitiu. — Konohamaru tinha me dito para esperar, mas eu não consegui. Precisava encontrá-la.
Sakura finalmente parou de curar e retirou as mãos. Os ferimentos de Boruto ainda estavam lá, mas visivelmente melhores, mais estáveis. Ela o encarou com uma expressão que ele não conseguia decifrar completamente.
— Você a salvou — disse, simples e direto.
— Quase não cheguei a tempo.
— Mas chegou. — A voz de Sakura era firme agora, sem espaço para contestação. — Minha filha está viva porque você não hesitou. Porque foi atrás dela quando poderia ter esperado. Porque fez a transfusão sem pensar duas vezes.
Boruto não sabia o que responder. Parte dele queria aceitar aquelas palavras, deixar que aliviassem um pouco da culpa. Mas outra parte, maior e mais insistente, continuava repetindo que quase não fora suficiente.
Sakura suspirou, e pela primeira vez desde que a vira, pareceu deixar a postura de médica de lado, permitindo que a mãe viesse à tona.
— Sei que deve estar se culpando — disse, mais suave agora. — Todos os ninjas fazem isso quando algo dá errado em missão. Eu fiz. Naruto fez. Até Sasuke fez, embora nunca vá admitir.
— Estamos constantemente sob provação, cada vez as batalhas ficam mais difíceis, os adversários mais fortes e os obstáculos a serem superados, maiores. — ela continuou – Até seu Pai e Sasuke, que possuem poderes incríveis, passaram por momentos de provação em batalhas, pensaram que não poderiam vencer.
Ela colocou a mão no ombro dele, um gesto simples mas carregado de significado.
— Mas você precisa entender uma coisa, Boruto. Ser ninja significa aceitar que nem sempre conseguimos proteger todos. Nem sempre chegamos a tempo. Nem sempre somos fortes o suficiente. — Ela fez uma pausa. — O que nos define não é quantas vezes falhamos, mas o que fazemos depois de falhar.
Boruto finalmente ergueu os olhos para encará-la.
— Vou ficar mais forte — disse, e não era uma promessa vazia. Era uma declaração. — Não vou deixar isso acontecer de novo.
Sakura assentiu, e algo próximo a um sorriso triste tocou seus lábios.
— Acredito em você. — Ela retirou a mão do ombro dele e voltou ao tom mais profissional. — Agora termine de se arrumar. Partimos em quinze minutos. E Boruto?
Ele a olhou.
— Obrigada. Por trazer minha filha de volta.
Antes que pudesse responder, Sakura já havia se virado e seguido corredor abaixo, retomando seu papel de líder da operação médica.
Boruto ficou ali parado por alguns segundos, processando a conversa. As palavras dela ecoavam em sua mente, misturando-se com os próprios pensamentos. Talvez ela tivesse razão. Mas logo ouviu a voz de Mitsuki o chamando, deveria ir para o quarto encontrar o restante de seus colegas.
Reunidos mais uma vez, foi a vez de Konohamaru dizer algumas palavras antes que saíssem daquele local – Gostaria de elogiar o desempenho e maturidade de vocês durante toda missão… sei que não saiu como queriamos, mas vocês deram tudo de si – Disse de maneira firme, mas internamente ainda cobrava-se por um resultado diferente. Sabia que não poderia cobrar de seus alunos, não poderiam ter feito diferente, cabia a ele ter feito melhor.
— Vocês me dão muito orgulho. Sarada logo estará melhor, tenho certeza disso — disse Konohamaru. Houve um breve silêncio após as palavras. Não era desconfortável, apenas carregado. Konohamaru cruzou os braços, desviando o olhar por um instante, como se organizasse os próprios pensamentos antes de continuar.
— Essa missão… — ele respirou fundo. — Não saiu como planejado. E isso pesa. Pesa em mim mais do que em qualquer um de vocês.
Boruto, Mitsuki e os demais permaneceram atentos. Sabiam que aquelas palavras não eram apenas formais.
— Vocês enfrentaram algo que estava além do nível esperado para a equipe. Inimigos com habilidades que nem mesmo eu consegui compreender completamente no primeiro contato. — Ele ergueu o olhar novamente, sério. — Ainda assim, não recuaram. Protegeram uns aos outros. Tomaram decisões difíceis sob pressão real. Isso não é pouca coisa.
Os olhos de Boruto desceram por reflexo. Parte dele queria discordar, apontar tudo o que dera errado. Mas permaneceu em silêncio.
— Como líder — continuou Konohamaru —, a responsabilidade final é minha. Cabia a mim prever melhor os riscos. Cabia a mim garantir que vocês não fossem empurrados para uma situação dessas. — Um breve aperto nos punhos denunciou a cobrança interna que ele carregava.
Mitsuki observava atentamente, a expressão neutra de sempre, mas os olhos atentos a cada palavra.
— O que importa agora — concluiu Konohamaru — é que voltaremos para Konoha juntos. Sarada será acompanhada pela melhor equipe médica possível. Vocês terão tempo para se recuperar. E eu farei um relatório completo ao Hokage. Nada disso ficará sem resposta.
Ele deu um passo à frente.
Boruto sentiu algo se acomodar dentro do peito. Não alívio. Mas algo mais próximo de aceitação.
— Entendido, sensei — respondeu, por fim.
Konohamaru assentiu uma última vez, encerrando o momento.
Pouco depois, o grupo começou a se dispersar pelo corredor, cada um seguindo para seus preparativos finais. Boruto caminhou alguns passos, mas acabou diminuindo o ritmo. Antes de sair definitivamente, virou-se uma última vez na direção do quarto onde Sarada permanecia em observação. Mesmo à distância, parecia sentir sua presença ali.
Ela ainda dormia. E daquela vez, isso precisava ser suficiente.
Boruto respirou fundo e seguiu adiante.
O Time 7 era transportado de volta a Konoha em um veículo camuflado, discreto o suficiente para não chamar a atenção de possíveis inimigos. A carroceria fechada ocultava seu interior, mas permitia que Boruto observasse o exterior através de pequenas frestas nas laterais.
O trajeto atravessava uma região de vegetação rica, repleta de árvores antigas cujos troncos eram grossos o bastante para sustentar plataformas inteiras. O caminho de pedra fazia as rodas tilintarem contra o solo irregular, acompanhadas de uma instabilidade constante no percurso, um sobe e desce que se repetia a cada curva. Por mais incômodo que pudesse ser para alguns, Boruto já estava acostumado. De certa forma, até gostava. Aquele ritmo irregular o mantinha desperto, ancorado no presente.
O jovem Uzumaki observava o caminho que outrora haviam percorrido na ida. Parecia diferente agora. Talvez ele estivesse analisando melhor cada detalhe do ambiente, atento a movimentos que antes ignoraria. Pela janela estreita, Boruto conseguia avistar os esquadrões da ANBU saltando de galho em galho, sombras rápidas acompanhando o veículo em formação precisa.
— Tem pelo menos cinco esquadrões nos acompanhando — comentou, voltando-se para Mitsuki.
O ninja das cobras parecia distraído, perdido em pensamentos próprios. Demorou um momento para registrar que Boruto havia falado.
— Está tudo bem? — perguntou Boruto, notando a expressão distante do amigo.
Mitsuki hesitou, como se organizasse as palavras antes de dizê-las.
— Estive pensando em tudo de novo… durante toda a luta, não conseguimos sequer tirá-lo da guarda — disse, a voz calma, mas carregada de reflexão. — Ainda assim, ele não parecia ter pressa em nos derrotar. Seus golpes eram precisos, mas… não letais. Não quando poderiam ter sido.
Boruto franziu o cenho. A observação fazia sentido. O ninja mascarado estivera o tempo todo no controle da situação, neutralizando os três com facilidade desconcertante. Mas, de fato, nunca parecera interessado em matá-los. Pelo contrário, forçara cada um deles aos próprios limites, testando capacidades, observando reações.
Boruto não sabia o que responder. Não tinha respostas para a constatação de Mitsuki. Apenas a sensação incômoda de que haviam sido avaliados, não combatidos.
Mitsuki permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de continuar, a voz mais baixa agora.
— Nunca havia sentido um aperto tão grande quanto quando vi você segurando Sarada nos braços. Ela parecia tão… frágil. — Ele pausou, como se as palavras fossem estranhas em sua própria boca. — Não sei como explicar, mas foi algo tão intenso. Parecia que eu havia recebido um golpe direto no peito. Um peso que não era físico, mas estava lá mesmo assim.
Boruto desviou o olhar para a janela, processando as palavras do amigo.
— Eu entendo — disse, a voz saindo mais baixa do que pretendia. — Meu coração está assim até agora. Quando pulei naquela cachoeira, pensei que não a encontraria. Pensei que tudo terminaria ali, sem que eu pudesse fazer nada.
O silêncio voltou a pairar entre eles, pesado mas não desconfortável. Era o silêncio de quem compartilhava algo que não precisava ser dito em voz alta.
Boruto voltou a observar a paisagem pela janela, mas sua atenção estava dividida. Em sua mente, pensamentos se sucediam em ritmo acelerado. Maneiras de melhorar. Técnicas que precisava dominar. Estratégias que deveria aprender. Tudo o que faltara naquela missão.
Sua mão direita apoiava a cabeça no parapeito da janela. A esquerda repousava ao lado do corpo de Sarada, que ocupava o centro do veículo. Sem perceber conscientemente, seus dedos haviam se entrelaçado aos dela. A pele ainda estava fria, mas o pulso batia com regularidade constante. Os aparelhos de suporte continuavam sua sonata mecânica, um som ao qual todos ali já pareciam ter se acostumado.
Mitsuki notou o gesto. Observou a forma como Boruto segurava a mão da Uchiha, a atenção dividida entre a janela e a presença dela ao lado. Algo naquilo o intrigava. Não era apenas preocupação entre companheiros de equipe. Havia uma camada adicional, algo que ele ainda não compreendia completamente.
Ele voltou aos próprios pensamentos, tentando organizar o turbilhão de emoções que experimentara nos últimos dias. Para Mitsuki, compreender e saber como reagir a esses sentimentos ainda era um desafio. Perguntas surgiam sem respostas claras: Como um humano reagiria a essa situação? Qual seria a forma apropriada de se comportar diante desses acontecimentos? Como poderia processar algo tão instintivo quanto medo, alívio, preocupação?
Eram experiências que outros pareciam navegar naturalmente, mas que para ele exigiam análise consciente. E, mesmo assim, algo naquilo tudo — o aperto no peito, a urgência que sentira ao procurar Sarada, o alívio ao vê-la viva — parecia escapar de qualquer lógica.
Talvez, pensou, algumas coisas não precisassem ser compreendidas. Apenas sentidas.
Do banco da frente, Konohamaru permanecia em silêncio. De todos, ele parecia o mais distante, mergulhado em reflexões que não compartilhava.
Repassava mentalmente cada momento da missão. A capacidade de luta da ninja que enfrentara ultrapassava tudo que já testemunhara. Ele demorara demais para assumir o controle da batalha, hesitara quando deveria ter agido com decisão. Talvez, se tivesse se movido mais cedo, poderia ter finalizado o combate antes da auto-detonação. Antes que seus alunos se ferissem. Antes que Sarada quase morresse.
A culpa era um peso silencioso, mas constante.
E além dela, havia as perguntas. Tantas perguntas sem respostas.
Quem eram aqueles ninjas? Qual organização possuía recursos para criar combatentes daquele nível? Quais eram seus objetivos? Como conseguiam dominar técnicas que deveriam ser exclusivas de Konoha?
Os documentos que encontrara nas ruínas levantavam mais questões do que esclareciam. Delta. O prodígio sem nome. Modificações corporais. Experimentação. Tudo apontava para algo muito maior, muito mais perigoso do que uma simples célula de operações clandestinas.
Konohamaru cerrou os punhos sobre os joelhos.
Aquela situação não poderia terminar assim. Não enquanto houvesse ameaças soltas, não enquanto seus alunos estivessem em perigo. Ele precisava das respostas, e seria ele quem as traria para a aldeia. Para seus alunos. Para Sarada.
Era mais do que dever agora. Era pessoal. Ele iria honrar seu compromisso. Iria terminar o serviço que deixara em aberto.
O veículo continuou seu trajeto irregular, balançando sobre o caminho de pedra enquanto Konoha se aproximava lentamente no horizonte.
Cada um dos ocupantes carregava seus próprios pesos. Suas próprias resoluções.
A noite chegou sem aviso, envolvendo o veículo em escuridão quase completa. Um por um, todos sucumbiram ao cansaço acumulado, presos em sonos profundos e inquietos. Cada um, naquela noite, sonharia com algo que ainda não compreendia completamente. Imagens fragmentadas de batalhas, de escolhas, de momentos em que tudo poderia ter sido diferente. Coisas que não estavam prontos para reviver, mas que insistiam em retornar.
Boruto sonhou novamente com água. Com o peso de um corpo nos braços. Com o silêncio que antecede a respiração.
Mitsuki sonhou com sentimentos sem nome, sensações que não conseguia classificar.
Konohamaru sonhou com explosões e decisões tardias demais.
As horas passaram devagar, marcadas apenas pelo balanço constante do veículo e pela sonata mecânica dos aparelhos médicos.
Quando o dia finalmente amanheceu, trazendo luz através das frestas da carroceria, o sobe e desce irregular do caminho de pedra havia cessado. O terreno agora era plano, pavimentado. Familiar.
Boruto foi o primeiro a despertar. Sentou-se lentamente, piscando contra a claridade repentina que invadia o interior do veículo. Através das frestas da janela, avistou algo que fez seu peito apertar de uma forma diferente.
O monumento dos Hokages.
Finalmente estavam em casa.
Não era o retorno que imaginara quando partiram. Não havia a empolgação de uma missão cumprida, nem a satisfação de todos voltarem ilesos. Mas era casa. E, de alguma forma estranha, aquilo bastava.
Boruto olhou para Sarada, ainda imóvel na maca ao centro do veículo. A luz da manhã revelava o quão pálida ela ainda estava, mas também destacava o movimento sutil do peito subindo e descendo. Viva. Ele apertou a mão dela uma última vez antes que o veículo parasse completamente.
As portas traseiras do veículo se abriram com um rangido metálico. A luz do sol invadiu o interior de forma quase ofensiva, obrigando Boruto a proteger os olhos por um instante. Quando sua visão se ajustou, ele viu o grupo que os esperava.
Sakura estava à frente, o semblante sério mas controlado, já vestida com o jaleco médico e cercada por uma equipe de enfermeiros. Ao seu lado, Hinata mantinha a postura elegante que sempre a caracterizara, mas havia tensão evidente em seus olhos pálidos. E logo atrás, Himawari, que mal conseguia se conter.
Os enfermeiros se moveram com eficiência praticada. Sob a supervisão direta de Sakura, retiraram cuidadosamente a maca de Sarada do veículo. A Hokage acompanhou cada movimento com atenção absoluta, suas mãos brilhando em verde enquanto mantinha um diagnóstico ativo.
— Levem direto para a UTI — ordenou, a voz firme. — Quero exames completos em quinze minutos. E preparem o quarto particular no segundo andar. Ela terá uma equipe dedicada exclusivamente a ela.
A maca foi movida rapidamente, mas com cuidado extremo, em direção ao hospital. Sakura seguiu ao lado, sem desviar a atenção por um segundo sequer.
Antes que Boruto pudesse processar completamente a cena, duas figuras colidiram com ele.
Himawari chegou primeiro, seguida de perto por Hinata. O abraço foi tão súbito e tão forte que Boruto quase perdeu o equilíbrio. Os braços de sua irmã o envolveram com força desesperada, e logo sentiu os braços de sua mãe se juntarem, criando um círculo apertado que parecia querer garantir que ele era real, que estava ali, que estava bem.
— Você está bem? Está machucado? — A voz de Himawari saía abafada contra seu ombro, carregada de preocupação e alívio em proporções iguais.
— Estou bem — respondeu Boruto, e percebeu que sua própria voz soava mais rouca do que esperava.
O abraço apertou ainda mais, e Boruto não pode deixar de pensar, com um lampejo de humor em meio a tudo, se o golpe recebido em batalha doía mais que aquilo. Provavelmente não. Mas era diferente. Era uma dor que ele aceitava de bom grado.
Por um breve momento, permitiu-se simplesmente existir ali. Não como um ninja que havia falhado em sua missão. Não como alguém que precisava ser mais forte. Apenas como filho. Como irmão. Como alguém que era esperado em casa.
Suas pernas, ainda fracas pela transfusão e pelo cansaço acumulado, cederam levemente. Mas não importava. O abraço das duas o sustentava, e Boruto deixou que fosse assim. Deixou as forças de lado por um instante, permitindo-se ser apenas humano.
Hinata afastou-se ligeiramente, as mãos ainda segurando os ombros de Boruto enquanto o examinava com os olhos preocupados de mãe. Ela não disse nada, mas não precisava. O alívio em seu rosto dizia tudo.
Um pouco mais adiante, outra cena se desenrolava.
Moegi esperava próxima ao veículo, e quando Konohamaru desceu, ela se aproximou rapidamente. Não houve hesitação. Ela o abraçou com força, com a familiaridade de quem conhecia cada cicatriz, cada peso que ele carregava.
Konohamaru aceitou o abraço, mas seu semblante permanecia sério demais. Distante demais. Moegi nunca o vira tão introspectivo, tão mergulhado em pensamentos que pareciam consumi-lo por dentro.
Ele afundou o rosto no abraço dela, e quando falou, a voz saiu abafada, mas clara o suficiente.
— Falhei. A palavra carregava tanto peso que parecia físico.
Moegi apertou o abraço imediatamente, com força renovada. Não permitiria que ele jogasse tudo sobre si. Não assim. Não quando ela sabia que Konohamaru era o tipo de pessoa que carregaria aquele fardo sozinho se ninguém o impedisse.
— Você trouxe todos de volta — disse ela, a voz firme mas gentil. — Vivos. Isso não é falha.
Konohamaru não respondeu. Apenas se permitiu permanecer ali, sustentado por alguém que entendia que, às vezes, não havia palavras certas. Apenas presença.
Mitsuki desceu do veículo sozinho, observando as cenas ao redor com sua curiosidade característica. Orochimaru não estava ali — não esperava que estivesse. Mas, estranhamente, não se sentiu sozinho.
Ele olhou para Boruto sendo abraçado por sua família, para Konohamaru sendo consolado por Moegi, e algo estranho se mexeu em seu peito novamente. Aquele aperto que ainda não sabia nomear.
O Time 7 havia retornado. Não intacto. Não vitorioso.
Mas vivo.
Naquele momento, diante dos portões de Konoha, com o sol da manhã iluminando o rosto de cada um deles, aquilo parecia ser suficiente.
Por enquanto.
Um médico saiu pelas portas principais do hospital, sua postura eficiente mas respeitosa ao se aproximar do grupo. Reconheceu imediatamente a gravidade da situação — não apenas pelos ferimentos visíveis, mas pela forma como cada um carregava o peso invisível do que haviam enfrentado.
— Precisamos que todos sejam direcionados para dentro — disse, gesticulando em direção à entrada. — Ainda são necessários exames médicos completos e um período de observação antes que possam ser liberados. Procedimento padrão para missões de alto risco.
Konohamaru ouviu as palavras, mas sua atenção já estava em outro lugar. Seus olhos se voltaram instintivamente para o edifício ao longe — o prédio da Administração, onde ficava o escritório do Hokage. A torre se erguia contra o céu azul da manhã, imponente como sempre, mas agora carregando um peso diferente em sua mente.
Aquele era o lugar que sempre imaginara, desde criança, um dia chamar de local de trabalho. O lugar onde se sentaria como Hokage, onde tomaria as decisões que protegeriam a vila. Era um sonho que carregava por tanto tempo que se tornara parte de sua identidade.
Mas agora, olhando para aquele prédio, sentia outra energia emanando dele. Não era mais apenas ambição ou aspiração. Era responsabilidade. Era o peso de decisões que precisavam ser tomadas. Era a urgência de respostas que não podiam esperar.
— Eu não posso — disse Konohamaru, sua voz firme mas respeitosa ao se dirigir ao médico. — Tenho outro compromisso que não pode ser adiado.
O médico franziu o cenho, claramente prestes a protestar, mas Konohamaru se virou para seus alunos antes que as objeções pudessem ser vocalizadas.
— Mitsuki, Boruto — chamou, sua voz assumindo o tom de sensei que ambos conheciam bem. — Acompanhem a equipe médica. Façam todos os exames necessários e sigam as orientações à risca. Entendido?
Boruto, ainda nos braços de Hinata e Himawari, assentiu lentamente. Queria protestar, queria acompanhar Konohamaru, mas algo na expressão de seu sensei o impediu. Havia determinação ali, mas também algo mais sombrio. Culpa, talvez. Ou a necessidade de fazer algo, qualquer coisa, para corrigir o que sentia ter dado errado.
— Hai, sensei — respondeu Boruto.
Mitsuki, que havia despertado com a movimentação, apenas inclinou a cabeça em concordância silenciosa.
Konohamaru segurou o olhar de ambos por um momento mais longo do que o necessário.
— Prometo que volto para vê-los assim que puder — disse, e havia sinceridade absoluta naquelas palavras. — Cuidem um do outro até lá. E... — ele hesitou brevemente. — Vocês fizeram bem. Não se esqueçam disso.
Antes que qualquer um pudesse responder, Moegi se aproximou, já posicionando-se ao lado de Konohamaru.
— Vou com você — disse ela, não como pergunta, mas como afirmação. Conhecia Konohamaru tempo suficiente para saber quando ele precisava de companhia, mesmo que não admitisse. — Para segurança. E porque você não deveria fazer isso sozinho.
Konohamaru quis discutir, mas a expressão de Moegi deixava claro que não aceitaria recusa. Ele assentiu, grato de uma forma que não conseguia verbalizar.
— Então vamos.
E com isso, os dois se afastaram em direção ao edifício da Administração, suas figuras gradualmente diminuindo à distância enquanto o sol da manhã continuava sua ascensão sobre Konoha.
Boruto os observou partir, sentindo uma inquietação estranha no peito. Parte dele queria seguir, estar presente quando Konohamaru relatasse tudo ao Hokage — seu pai. Mas outra parte, mais exausta, sabia que seu lugar agora era ali.
No hospital. Se recuperando. Ao lado de Sarada.
— Vamos, Boruto — disse Hinata suavemente, guiando-o em direção à entrada do hospital. — Vamos cuidar de você primeiro. O resto pode esperar.
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Já alocados em um quarto do hospital, Mitsuki e Boruto recebiam cuidados médicos. O ambiente era típico da ala de recuperação — paredes brancas, o cheiro inconfundível de antissépticos, e o som constante de monitores marcando sinais vitais.
Boruto, em especial, estava conectado a diversos equipamentos. Recebia transfusões de sangue e soro intravenoso para tratar as feridas e compensar o desgaste físico extremo. Os curativos em seu tronco haviam sido trocados, revelando brevemente as marcas espirais deixadas pelo Rasengan antes de serem cobertos novamente.
Um médico saía do quarto ajustando a prancheta de registros quando Hinata e Himawari se aproximaram. Ele as reconheceu imediatamente e pausou para passar as orientações.
— Ambos parecem bem fisicamente — informou, mantendo o tom profissional mas não frio. — As feridas estão sendo tratadas adequadamente e os sinais vitais estão estáveis. Mas... — ele hesitou por um breve momento, escolhendo as palavras com cuidado. — Devemos observar como irão responder agora que voltaram para a vila. Não são apenas os ferimentos físicos que precisam de atenção. Eles vão precisar de vocês por perto.
Hinata assentiu com compreensão. Não era a primeira vez que ouvia aquilo. Sabia bem o peso que missões difíceis deixavam, cicatrizes que não apareciam em exames médicos.
— Entendo. Obrigada, doutor.
Ao abrir a porta do quarto, a cena que encontrou confirmou as palavras do médico.
Mitsuki estava encostado na parede ao lado de sua maca, a cabeça levemente inclinada para o lado, dormindo em uma posição que não parecia nem um pouco confortável. A expressão, mesmo no sono, não era completamente serena. Havia tensão residual nas feições, como se até inconsciente ainda processasse tudo que acontecera.
Boruto, por outro lado, estava acordado. Sentado na maca, com os tubos intravenosos conectados ao braço, mantinha o olhar fixo nas luzes brancas do teto. Não piscava. Não se movia. Apenas olhava, perdido em algum lugar distante que Hinata não conseguia alcançar.
Ela conhecia aquele olhar.
Já vira seu filho voltar de missões difíceis antes. Já o vira exausto após lutas contra ninjas de outros planetas, após enfrentar ameaças que pareciam impossíveis. Mas nunca o vira assim. Tão inerte. Tão preso a algo interno que parecia consumi-lo.
Não era apenas cansaço físico. Era algo mais profundo.
— Vocês parecem cansados — disse ela suavemente, fechando a porta atrás de si com cuidado para não acordar Mitsuki. — Foi demais dessa vez?
A voz de sua mãe pareceu trazer Boruto de volta. Ele piscou algumas vezes, como se acordasse de um transe, e quando seus olhos finalmente encontraram os dela, ele abriu um sorriso.
Era sincero. Genuíno. Mas carregado de algo que Hinata reconhecia como dor mal disfarçada.
— Sim — respondeu, a voz saindo mais baixa do que o usual. — Ele era muito forte. Tudo foi muito rápido. Eu não conseguia fazer nada.
As palavras eram simples, mas carregadas de peso. De frustração. De impotência. De tudo aquilo que um jovem ninja sentia quando confrontado com seus próprios limites da forma mais brutal possível.
Hinata se aproximou da maca, Himawari seguindo logo atrás. A jovem garota mantinha-se quieta, mas seus olhos estavam fixos no irmão com preocupação evidente.
— Eu entendo — disse Hinata, e havia verdade absoluta em suas palavras. Ela entendia. Conhecia bem aquela sensação. — Podemos sentir isso em muitas lutas. Que faltou algo a mais, que poderíamos ter feito diferente. Mas devemos reconhecer que demos o nosso máximo no momento em que estávamos.
Ela observou o rosto de Boruto com atenção. Mesmo com o sorriso, ele ainda não parecia estar completamente ali. Parte dele permanecia presa naquele lugar — na cachoeira, nos destroços, no momento em que quase não foi o suficiente.
Hinata estendeu as mãos com suavidade e as colocou no rosto de Boruto. O toque era gentil, maternal, mas firme. Ela o puxou levemente, fazendo com que seus olhos encontrassem os dela. Ancorando-o de volta à realidade. Ao presente. Ao aqui e agora.
— Boruto — disse ela, e havia uma firmeza em sua voz que raramente usava. — Você não só fez tudo o que podia. Você salvou a vida da sua colega de time.
Ela deixou as palavras repousarem por um momento antes de continuar.
— Isso não requer apenas habilidade técnica. Não é apenas sobre ser forte ou rápido. Requer coragem. Requer determinação. Requer algo mais profundo... e você tem isso. Sempre teve.
Os olhos de Hinata se mantiveram fixos nos dele, transmitindo toda a convicção que sentia.
— Você a trouxe de volta, Boruto. Quando tudo estava perdido, quando seria mais fácil desistir, você não deixou. E isso... isso é o que define um verdadeiro ninja. Não a força dos golpes, mas a força do coração.
Himawari, que até então permanecera em silêncio, deu um passo à frente. Sua voz saiu pequena, mas carregada de emoção.
— Todos ficamos preocupados, touchan — disse ela, usando o termo carinhoso que sempre a fazia parecer menor do que realmente era. — Quando soubemos o que aconteceu... eu fiquei com tanto medo.
Ela se aproximou da maca e segurou a mão livre de Boruto, aquela que não estava conectada aos tubos intravenosos.
— Mas você voltou. E trouxe todos de volta. Isso é o que importa, né?
Boruto olhou para a irmã, depois para a mãe. Algo no peito pareceu ceder levemente, como se uma pressão que nem sabia que estava segurando finalmente encontrasse uma válvula de escape.
Ele não tinha todas as respostas. Não sabia como processar tudo o que acontecera. Não conseguia afastar completamente a sensação de que poderia ter feito mais, sido melhor, agido diferente.
Mas, naquele momento, com as mãos de sua mãe em seu rosto e a mão de sua irmã segurando a sua, algo dentro dele conseguiu aceitar, mesmo que temporariamente, que talvez tivesse feito o suficiente.
Hinata o puxou para um abraço cuidadoso, atenta aos tubos e curativos, mas firme o suficiente para transmitir tudo que não conseguia colocar em palavras. Himawari se juntou imediatamente, envolvendo o irmão em um abraço coletivo que parecia tentar compensar todos os momentos de medo que haviam sentido.
Boruto fechou os olhos e, pela primeira vez desde que retornara, permitiu-se descansar naquele momento. Sem pensar no que poderia ter feito. Sem planejar como seria mais forte. Sem se prender às memórias que insistiam em voltar.
Apenas ali. Seguro. Em casa.
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Do outro lado da cidade, Konohamaru e Moegi chegavam ao prédio do Hokage. Konohamaru conhecia cada pedra, cada degrau, cada curva daquele caminho. Havia percorrido aquela rota incontáveis vezes ao longo dos anos, primeiro como neto do Terceiro Hokage, depois como ninja em treinamento, e eventualmente como jōnin reportando missões. Mas hoje, cada passo parecia mais pesado que o anterior.
O corredor que levava ao escritório do Hokage nunca parecera tão longo.
Moegi caminhava ao seu lado em silêncio respeitoso. Conhecia Konohamaru tempo suficiente para saber quando ele precisava de espaço mental para organizar os pensamentos. E, pelo semblante fechado que ele mantinha, havia muito a organizar.
Os corredores do edifício da Administração estavam relativamente vazios naquele horário da manhã. Alguns ninjas passavam apressados, outros carregavam documentos entre departamentos. Alguns olhavam brevemente para Konohamaru, reconhecendo-o, certamente sabendo que havia retornado de missão, mas ninguém o interrompeu.
Talvez percebessem que não era o momento.
Quando finalmente chegaram à antessala do escritório do Hokage, Shikamaru Nara estava ali, encostado na parede com sua postura característica de quem achava tudo problemático demais. Seus olhos, porém, estavam alertas quando pousaram em Konohamaru.
— Ele está esperando você — disse Shikamaru, direto ao ponto. — Recebemos o relatório preliminar, mas Naruto quer ouvir os detalhes pessoalmente.
Konohamaru assentiu, a garganta subitamente seca.
— A garota Uchiha? — perguntou Shikamaru, e havia preocupação genuína em sua voz.
— Estável. Sakura está cuidando dela pessoalmente.
— Bom. — Shikamaru se afastou da parede e gesticulou em direção à porta. — Tente não ser muito duro consigo mesmo lá dentro. Naruto pode ser muitas coisas, mas injusto não é uma delas.
As palavras deveriam ter sido reconfortantes, mas Konohamaru mal as registrou. Respirou fundo e entrou na sala junto ao líder do clã Nara.
O escritório do Hokage era exatamente como sempre fora, amplo, iluminado pela luz natural que entrava pelas grandes janelas, repleto de pilhas de documentos que Naruto eternamente reclamava sobre. As paredes exibiam fotografias dos Hokages anteriores, um lembrete constante do legado que aquele cargo carregava.
Ao fundo, observou a foto de seu avô, sempre que entrava naquela sala buscava por ele, era uma maneira que havia encontrado de matar a saudade daquele que sempre pegou tanto em seu pé. Sentia falta dele, ele pensou.
Naruto Uzumaki estava sentado atrás da mesa, acompanhado de Sai Yamanaka, lider da Anbu. O Nanadaime logo se levantou assim que Konohamaru entrou. Vestia o manto de Hokage, mas a expressão em seu rosto não era a do Sétimo Hokage, era a de um pai e irmão preocupado que acabara de receber notícias de que seu filho e aluno quase não voltaram para casa.
— Konohamaru — disse Naruto, a voz carregando alívio e tensão em medidas iguais.
— Hokage-sama — respondeu Konohamaru formalmente, fazendo uma reverência adequada.
Naruto fez um gesto dispensando a formalidade excessiva.
— Como está Boruto? E os outros?
— Fisicamente, estáveis. Boruto perdeu bastante sangue na transfusão para Sarada, mas vai se recuperar. Mitsuki teve ferimentos moderados. Sarada... — Konohamaru pausou, escolhendo as palavras com cuidado. — Sakura disse que ela vai sobreviver. Mas foi por muito pouco.
Naruto fechou os olhos brevemente, processando a informação. — Sente-se — disse, gesticulando para a cadeira à frente da mesa. — E me conte tudo. Desde o início.
Konohamaru se sentou, sentindo o peso do olhar de Naruto sobre si. Moegi permaneceu de pé próxima à porta, silenciosa mas presente.
— A missão era o reconhecimento de uma instalação suspeita na fronteira — começou Konohamaru, sua voz assumindo o tom profissional de um relatório formal. — Informações preliminares sugeriam atividade de uma célula criminosa menor. Avaliei como missão Rank B, adequada para um time genin com supervisão.
— Quando chegamos, a instalação estava sendo evacuada. Enfrentamos dois adversários. Eu lidei com uma kunoichi chamada Delta. Os genin enfrentaram um ninja mascarado.
Naruto se inclinou para frente, os olhos se estreitando.
— Delta? Esse nome apareceu no seu relatório preliminar. Quem é ela?
— Uma ninja modificada — respondeu Konohamaru. — Implantes corporais extensivos. Capacidade de absorver chakra, extensão artificial de membros, regeneração acelerada. Nada que eu tenha visto antes em combate convencional. Ela não lutava como uma ninja treinada organicamente. Lutava como uma arma construída.
Konohamaru relatou o resto metodicamente. A batalha prolongada. A dificuldade em ganhar vantagem. A explosão súbita e deliberada.
— Ela se explodiu — disse Konohamaru, e havia algo de incrédulo em sua voz ainda, mesmo recontando. — Quando percebeu que não conseguiria vencer, Delta se auto-detonou. Completamente. Não deixou nada para trás além de destroços.
— Mas consegui recuperar alguns documentos antes que tudo fosse destruído. — Konohamaru retirou uma pasta selada de dentro de seu colete e a colocou sobre a mesa. — Estão danificados pelo fogo e pela explosão, mas há informação suficiente para confirmar que isso é maior do que pensávamos.
Naruto abriu a pasta com cuidado, seus olhos percorrendo os fragmentos de documentos. Konohamaru observou a expressão do Hokage mudar gradualmente — de preocupação para alarme, e depois para algo próximo da fúria contida.
— Experimentação em humanos — leu Naruto em voz alta. — Modificações corporais. Aprimoramentos artificiais. Membro Interno — Ele levantou uma das folhas parcialmente queimadas. — E este aqui... um "prodígio" com habilidades em estágio final de despertar?
— Não consegui identificar quem é — admitiu Konohamaru. — A foto está destruída demais. Mas as anotações sugerem alguém com potencial equivalente ou superior a Delta.
Sai com o documentos em mãos trouxe informações adicionais – Todas essas informações parecem bater com investigações que estamos fazendo, uma organização criminosa que age nas sombras – Dizia enquanto franzia a testa.
— Nós nunca tivemos materiais conclusivos, apenas confissões de ninjas mercenários que trabalharam para eles. Mas nunca tivemos relatos de membros internos, eles não aparecem rotineiramente, não costumam chamar a atenção – Terminou o líder da Anbu
– Suas motivações parecem ser diferentes da Akatsuki, não há terrorismo em suas ações – Completou Shikadai Nara
— Meus alunos ainda enfrentaram alguém mais forte, inicialmente o vi encapuzado, mas eles o descreveram como um ninja que portava uma máscara que cobria a metade superior do rosto – Konohamaru buscava em sua memória todas as lembranças da Batalha
— Nos poucos momentos que o pude observar, ele parecia rápido e forte, o suficiente para conseguir neutralizar todos eles rapidamente… ele ainda tinha o conhecimento do rasengan – essa última parte havia saído com dificuldade, parecia carregar espinhos enquanto passava por sua garganta. Konohamaru ainda não conseguia aceitar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Naruto se levantou lentamente da cadeira, as mãos apoiadas na mesa. Sua voz, quando finalmente falou, era baixa mas carregada de algo perigoso.
— O ninja mascarado usou o Rasengan contra Boruto — disse Konohamaru, sustentando o olhar de Naruto. — Um Rasengan completo, bem executado. Boruto o reconheceu imediatamente. Foi como ele recebeu os ferimentos no tronco.
Naruto parecia surpreso, revisitava em sua memória por lembranças, memórias ou histórias que pudessem explicar o que havia ouvido, olhando para janela. Ficou ali por um longo momento, observando a vila lá embaixo. Konohamaru podia ver a tensão nos ombros do Hokage, a forma como seus punhos se cerravam e abriam repetidamente.
— Quantas pessoas conhecem essa técnica? — perguntou Naruto, mais para si mesmo que para Konohamaru. — Eu, você, Boruto, Kakashi... — Ele se virou bruscamente. — Você tem certeza absoluta? Não poderia ser uma técnica similar?
— Boruto tem certeza — respondeu Konohamaru. — E eu confio no julgamento dele nesse aspecto. Ele conhece o Rasengan melhor que qualquer outro genin vivo.
Naruto passou a mão pelo cabelo, o gesto familiar de quando estava profundamente perturbado.
— Nosso relatório de perícia da área confirmou as suspeitas de Konohamaru — disse Sai, consultando seus documentos. — As marcas de carbonização no laboratório são anteriores ao incidente da missão. Eles já haviam começado a destruir evidências antes mesmo da evacuação.
— Para proteger informação — observou Shikamaru, cruzando os braços.
Naruto caminhou novamente até a janela, as mãos cruzadas atrás das costas. O sol da manhã iluminava seu perfil, destacando as linhas de preocupação que haviam se aprofundado em seu rosto ao longo dos anos como Hokage.
— Seus alunos — disse ele finalmente. — Como eles se saíram?
A pergunta pegou Konohamaru levemente desprevenido. Não pelo conteúdo, mas pelo timing.
— Eles lutaram bem — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Melhor do que eu esperaria contra adversários tão complexos. Trabalharam em equipe, adaptaram-se às circunstâncias, não entraram em pânico mesmo quando a situação se deteriorou.
— Mas?
Konohamaru fechou os olhos brevemente.
— Mas não conseguimos cumprir com a missão. Sarada está em coma e até agora não levantou, Boruto e Mitsuki machucados e com cicatrizes pelo corpo.
— E mesmo assim sobreviveram — disse Naruto, virando-se para encará-lo. — Porque você os treinou bem. Porque eles são fortes. E porque, quando importou, fizeram as escolhas certas.
Konohamaru queria acreditar naquelas palavras, mas o peso da culpa ainda pressionava seu peito.
— Sarada quase morreu, Hokage-sama — disse, a voz mais baixa. — Sob minha supervisão. Sob minha responsabilidade. Eu deveria ter avaliado melhor a missão. Deveria ter reconhecido os sinais mais cedo. Deveria ter—
— Konohamaru. — A voz de Naruto cortou a espiral de auto-recriminação com firmeza gentil. — Olhe para mim.
Konohamaru levantou os olhos. Naruto caminhou de volta para a mesa e se sentou, mas não como Hokage agora. Como alguém que entendia, profundamente, o peso que Konohamaru carregava.
— Qualquer um nesta sala teria tomado as mesmas decisões que você tomou naquele dia. Seus alunos tiveram um desempenho incrível contra alguém tão forte — Naruto tentava encontrar palavras para confortar, nunca havia sido bom com aquilo.
Konohamaru permaneceu em silêncio, ouvindo.
— Mas algo que aprendi — continuou Naruto. — Não podemos proteger todos de tudo. Não importa o quão fortes sejamos, o quão cuidadosos. O mundo ninja é cruel. É injusto. E às vezes, mesmo fazendo tudo certo, as coisas dão errado.
Ele se inclinou para frente.
— Mas você trouxe todos de volta vivos. Sarada vai se recuperar. Boruto e Mitsuki vão se recuperar. E eles vão ser mais fortes por causa disso. Não apesar do que aconteceu, mas por causa disso.
— Obrigado, Hokage-sama — disse ele, e havia sinceridade genuína na voz.
Naruto assentiu, então sua expressão voltou a ficar séria.
— Agora precisamos descobrir quem são essas pessoas. O que querem. E por que possuem acesso a técnicas de Konoha. — Ele olhou para Shikamaru. — Precisamos reunir mais informações acerca dessa organização.
— Já estava pensando nisso — respondeu Shikamaru com seu tom entediado característico, mas seus olhos estavam afiados. — Que problemático.
Naruto voltou sua atenção para Konohamaru.
Konohamaru logo levantou a mão, pedindo permissão para falar. — Gostaria de me voluntariar para essa missão. Naruto franziu o cenho, já abrindo a boca para recusar, mas Konohamaru continuou antes que pudesse ser interrompido. — Nenhum outro ninja de Konoha chegou tão perto deles quanto eu. Vi como funcionam, como lutam, como pensam estrategicamente. — Sua voz era firme, determinada. — Posso ajudar. Preciso ajudar.
Sai trocou um olhar rápido com Shikamaru antes de intervir. — Se possível, seria de grande ajuda, Hokage-sama — disse o líder da ANBU. — Ele auxiliaria os esquadrões em campo. Com Sasuke-san fora da vila, Konohamaru seria nosso maior ativo nesta investigação. Alguém que já enfrentou esses ninjas e sobreviveu.
Naruto permaneceu em silêncio por um longo momento, claramente dividido. O Hokage nele via a lógica. O irmão mais velho nele queria proteger Konohamaru de mais perigo. Finalmente, suspirou. — Está bem — concordou, relutante. — Mas com uma condição. Moegi vai com você. Konohamaru começou a protestar, mas Naruto levantou a mão. — Não é negociável. Ela será responsável por acompanhar e proteger você em campo. — Seu tom não permitia discussão.
Konohamaru queria recusar, dizer que não precisava de proteção. Mas reconheceu a ordem pelo que era — a preocupação de Naruto disfarçada de procedimento operacional. E, no fundo, sabia que ter Moegi ao lado não seria ruim. — Hai, Hokage-sama.
— Quando Sarada despertar — continuou Naruto, sua voz se suavizando — quero ser informado imediatamente. E... — ele hesitou brevemente. — Diga a Boruto que preciso falar com ele. Quando ele estiver pronto. Não como Hokage, mas como pai.
A vulnerabilidade naquela última frase era rara vindo de Naruto em seu papel oficial. Konohamaru assentiu, compreendendo.
— Vou transmitir a mensagem.
Naruto se levantou, sinalizando o fim da reunião oficial.
— Konohamaru — chamou, quando o jōnin já estava quase na porta. — Você fez bem. Não esqueça disso.
Konohamaru olhou para trás, encontrando os olhos de Naruto. Havia compreensão ali, e algo que parecia quase orgulho.
— Obrigado — disse simplesmente.
E saiu, com Moegi logo atrás.
O corredor de volta pareceu mais curto.
Moegi permaneceu em silêncio ao lado de Konohamaru até que estivessem longe o suficiente do escritório. Então ela falou, sua voz suave.
— Ele está certo, sabe. Você fez tudo que podia.
Konohamaru não respondeu imediatamente, processando tudo que havia sido dito. O peso ainda estava lá, mas talvez, apenas talvez, fosse um pouco mais leve agora.
— Vamos voltar ao hospital — disse finalmente. — Prometi aos meus alunos que voltaria.
— E você sempre cumpre suas promessas — disse Moegi com um pequeno sorriso.
Eles caminharam de volta em silêncio confortável, o sol agora completamente alto no céu de Konoha.
Dentro do escritório, Naruto permaneceu olhando pela janela por um longo momento após a partida de Konohamaru. Shikamaru se aproximou, parando ao seu lado.
— Rasengan — disse Shikamaru pensativamente. — Isso é preocupante em tantos níveis.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— É — concordou Naruto. — E algo me diz que isso é apenas o começo. Seja lá quem forem essas pessoas, elas estão se preparando para algo. E agora sabem que Konoha está ciente de sua existência.
— Que problemático — murmurou Shikamaru novamente.
Naruto permitiu-se um sorriso cansado.
— Quando não é?
Mas o sorriso não durou. Seu olhar se voltou novamente para a vila abaixo, para o hospital onde seu filho se recuperava, onde a filha de seus amigos lutava pela vida.
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— Paciente, dezoito anos, sexo masculino — recitava o médico enquanto preenchia a ficha de alta, sua voz monótona pela repetição do procedimento. — Ferimentos moderados em recuperação adequada. Hematomas em resolução, lacerações superficiais cicatrizando conforme o esperado. Sem sinais de infecção ou complicações secundárias.
Mitsuki ainda sentia os olhos pesados. Parecia errado separar as pálpebras, expondo os olhos à luz branca artificial do hospital. Cada vez que tentava abri-los completamente, a claridade excessiva do ambiente o forçava a piscar repetidamente, como se o corpo rejeitasse a simples ideia de estar desperto.
Quanto tempo havia dormido? Horas? Dias? O conceito de tempo parecia ter se dissolvido em algum momento entre a batalha e aquele quarto hospitalar.
— Recomendo repouso absoluto por quarenta e oito horas — continuou o médico, sem levantar os olhos da prancheta. — Atividades físicas intensas devem ser evitadas por no mínimo uma semana. Retorne imediatamente se apresentar febre, tontura persistente ou qualquer sangramento incomum.
Mitsuki assentiu lentamente, processando as informações com a mente ainda parcialmente nebulosa. Ao seu lado, Boruto estava sentado em sua própria maca, também recebendo instruções similares de outro médico.
— Paciente, dezesseis anos, sexo masculino — dizia o segundo médico, consultando seus registros. — Perda significativa de sangue devido a transfusão voluntária. Ferimentos por técnica de alto impacto na região torácica. Sinais vitais estabilizados após tratamento intensivo.
Boruto parecia mais alerta que Mitsuki, mas havia uma qualidade distante em seus olhos azuis. Como se parte dele ainda estivesse em outro lugar. Outro momento.
— As feridas no tronco vão deixar cicatrizes permanentes — informou o médico com naturalidade clínica. — Recomendo aplicação tópica desta pomada duas vezes ao dia. — Ele estendeu um pequeno recipiente. — Ajudará no processo de cicatrização, mas não eliminará as marcas completamente.
Boruto pegou a pomada sem dizer nada, apenas assentindo.
— Quanto tempo até eu poder treinar novamente? — perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
O médico ergueu uma sobrancelha.
— Tecnicamente? Duas semanas no mínimo. Realisticamente? Recomendo um mês antes de retomar atividades ninjas de alta intensidade. Seu corpo passou por trauma significativo. Forçar recuperação prematura pode resultar em danos permanentes.
Boruto não pareceu satisfeito com a resposta, mas não argumentou.
Do outro lado do quarto, Mitsuki finalmente conseguiu abrir os olhos completamente. A luz ainda incomodava, mas agora era tolerável. Observou Boruto em silêncio por um momento — a forma como seus ombros estavam ligeiramente curvados, como segurava a pomada com mais força do que necessário, como seus olhos desviavam toda vez que alguém mencionava ferimentos.
Algo havia mudado nele. Mitsuki não sabia definir exatamente o quê, mas sentia a diferença.
— Ambos estão liberados — anunciou o primeiro médico, assinando os documentos finais. — Mas lembrem-se: alta hospitalar não significa recuperação completa. Seus corpos ainda precisam de tempo.
A porta do quarto se abriu antes que qualquer um pudesse responder.
Hinata entrou primeiro, seguida de perto por Himawari. A expressão da matriarca Hyūga era de alívio contido — o tipo de alívio que vem de noites sem dormir e preocupações que não podem ser completamente verbalizadas.
— Boruto — disse ela suavemente, aproximando-se da maca. — Pronto para ir para casa?
Boruto forçou um sorriso que não alcançou completamente seus olhos.
— Mais do que pronto.
Himawari se aproximou por trás da mãe, seus olhos grandes fixos no irmão com preocupação evidente. Ela não disse nada, mas não precisava. A forma como segurava a barra do próprio casaco dizia tudo.
Mitsuki observou a cena com sua curiosidade característica. Família. Ele entendia o conceito intelectualmente, mas momentos como aquele ainda o intrigavam. A forma como Hinata tocava o rosto de Boruto com cuidado quase reverente. Como Himawari se aproximava devagar, como se temesse que o irmão pudesse quebrar.
Era algo que ele nunca teria com Orochimaru. Não daquela forma.
E, estranhamente, pela primeira vez, aquilo não o incomodava tanto quanto costumava.
— Mitsuki — chamou uma voz da porta.
Era Log, meio-irmão de Mitsuki e subordinado de Orochimaru. Sua presença era rara, o que tornava sua aparição ali significativa.
— Orochimaru-sama enviou instruções para sua recuperação — disse Log, sua voz neutra mas não fria. — Você deve retornar ao complexo e seguir o protocolo médico estabelecido.
Mitsuki assentiu, levantando-se da maca com movimentos cuidadosos. O corpo protestou imediatamente — músculos doloridos, articulações rígidas, um peso geral que parecia ter se instalado em seus ossos.
Boruto se virou para ele.
— Vai ficar bem sozinho?
A pergunta era simples, mas carregava preocupação genuína. Mitsuki permitiu-se um pequeno sorriso.
— Sempre fico — respondeu, mas havia leveza no tom que suavizava as palavras. — Mas obrigado por perguntar.
Hinata se aproximou de Mitsuki, surpreendendo-o levemente.
— Se precisar de alguma coisa — disse ela gentilmente —, qualquer coisa, pode nos procurar. Você é importante para o Boruto. Isso significa que é importante para nós também.
Mitsuki piscou, processando as palavras. Importante. Para Boruto. Para a família dele.
— Obrigado, Hinata-san — respondeu, e havia sinceridade em sua voz.
O corredor do hospital estava menos movimentado do que nos dias anteriores. A urgência inicial da chegada do Time 7 havia se dissipado, substituída pela rotina normal de um hospital ninja.
Boruto caminhava devagar ao lado de sua mãe e irmã, cada passo medido para não forçar os ferimentos do tronco. Vestia roupas limpas que Hinata havia trazido — calça preta simples e uma camisa de manga longa em tom escuro que escondia a maior parte dos curativos.
Mas ele não conseguia parar de olhar para trás.
Para o corredor que levava à ala de terapia intensiva.
Onde Sarada ainda estava.
Hinata percebeu, naturalmente. Mães sempre percebiam.
— Ela vai ficar bem, Boruto — disse suavemente. — Sakura-sama é a melhor médica que existe. E Sarada é forte. Você sabe disso.
Boruto assentiu, mas não respondeu. Porque sabia que sua mãe estava certa. Sarada era forte. Incrivelmente forte.
Mas aquilo não afastava completamente a imagem dela presa sob os destroços. O peso do corpo dela em seus braços. A frieza da pele.
— Posso... posso visitá-la? — perguntou, parando no meio do corredor. — Antes de irmos?
Hinata trocou um olhar com Himawari antes de responder.
— Claro. Mas apenas por alguns minutos, está bem? Você também precisa descansar.
Boruto já estava se movendo antes que ela terminasse a frase.
O quarto de Sarada era diferente dos quartos regulares. Mais equipamentos, mais monitores, mais atenção. Havia uma enfermeira dentro, verificando os sinais vitais, e ela olhou para cima quando Boruto entrou.
— Apenas alguns minutos — disse ela gentilmente. — E não a toque. Os selos médicos ainda estão ativos.
Boruto assentiu, aproximando-se da cama com cuidado excessivo, como se seus passos pudessem perturbá-la.
Sarada estava exatamente como ele se lembrava da última vez que a vira. Imóvel. Pálida. Cercada por tubos e selos brilhantes em chakra medicinal. Mas agora havia algo diferente — uma cor ligeiramente melhor no rosto, talvez. Ou talvez fosse apenas esperança.
— Oi — disse ele baixinho, sentindo-se idiota por falar com alguém inconsciente. Mas continuou mesmo assim. — Estou indo para casa agora. Recebi alta.
Silêncio. Apenas o som dos monitores respondeu.
— Mitsuki também. Ele está bem. Preocupado com você, tipo... do jeito dele, sabe? Sem mostrar muito, mas você consegue ver mesmo assim.
Boruto se aproximou mais, parando logo ao lado da cama. Queria segurar a mão dela, mas lembrou-se do aviso da enfermeira sobre não tocar.
— Konohamaru-sensei também está bem. Ele... ele se culpa muito pelo que aconteceu. Acho que você vai precisar dar uma bronca nele quando acordar. — Ele tentou sorrir, mas não funcionou direito. — Você é boa nisso.
Os dedos de Boruto se fecharam e abriram ao lado do corpo, sem saber o que fazer com eles.
— Eu... eu vou treinar — continuou, a voz ficando mais baixa. — De verdade dessa vez. Sem atalhos. Sem achar que já sei tudo. Porque... porque da próxima vez, eu preciso ser forte o suficiente. Para que isso não aconteça de novo.
Ele pausou, observando o rosto sereno dela.
— Então você melhora logo, tá ouvindo? Porque quando você acordar, vou precisar que você me ajude. Me cobre quando eu começar a relaxar. Me lembre por que estou fazendo isso.
Boruto ficou ali por mais alguns segundos, apenas observando a respiração constante, o movimento sutil do peito subindo e descendo.
— Até logo, Sarada. Eu volto logo — disse finalmente, sua voz quase um sussurro.
E saiu, antes que a enfermeira precisasse lembrá-lo do limite de tempo
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