A água subia.

Não rapidamente. Não com a urgência de uma enchente ou o terror de uma cachoeira. Apenas, subia. Constante. Inevitável. Milímetro por milímetro, como o tempo, como a respiração, como a morte.

Sarada não sabia há quanto tempo estava ali. Não reconhecia o local, era diferente de tudo que já havia visto. O céu acima, se é que aquilo podia ser chamado de céu, era uma massa informe de cinza e negro que se movia como algo vivo. Não havia nuvens. Não havia estrelas. Apenas aquela escuridão densa que parecia pressionar tudo para baixo, esmagando, sufocando.

O conceito de tempo havia se dissolvido em algum momento entre o primeiro e o centésimo suspiro naquele lugar. Talvez tivessem sido horas. Talvez dias. Talvez apenas segundos que se esticavam como eternidades, elásticos demais para quebrarem, pesados demais para serem ignorados.

E a água.

Sempre a água.

Ela começava nos tornozelos agora. Fria demais para ser real, mas real demais para ser apenas imaginação. Sarada podia sentir cada movimento da correnteza contra sua pele, cada onda pequena que se formava sem razão aparente, como se o próprio líquido estivesse respirando.

Sentia seu corpo leve, como se o vento a pudesse levar se passasse forte o suficiente. Ergueu suas mãos ao rosto, pareciam sujas, como se tivesse ralado suas mãos na terra. Ao toque elas pareciam frias, tão frias como a água que envolvia seus pés.

Passou a caminhar pelo local, o chão sob seus pés era indefinido. Às vezes parecia pedra. Às vezes parecia metal. Às vezes parecia simplesmente nada. Como se ela estivesse de pé sobre o vazio, e apenas a teimosia a mantinha acima dele.

Ao redor, estruturas emergiam da água em ângulos impossíveis. Fragmentos de edifícios que não deveriam existir. Paredes que começavam no meio do ar e terminavam submersas. Escadas que levavam a lugar nenhum. Portas fechadas flutuando verticalmente sobre a superfície, como lápides marcando túmulos esquecidos.

Era como se alguém tivesse pego pedaços de diferentes realidades e os despejado ali, sem ordem, sem propósito, deixando que apodrecessem juntos naquela água que nunca parava de subir.

O silêncio era opressivo.

Não o silêncio da ausência de som, mas algo pior. Era como se o próprio ar se recusasse a vibrar, como se qualquer ruído fosse absorvido antes mesmo de se formar completamente.

Quando Sarada tentava falar, as palavras morriam na garganta. Quando tentava gritar, nada além de um sussurro abafado emergia.

E ainda assim, havia ecos.

Vozes que não eram vozes. Murmúrios que vinham de todas as direções e de nenhuma ao mesmo tempo. Palavras que ela quase reconhecia, quase compreendia, mas que se dissolviam antes que pudesse capturá-las completamente.

Fraca.

Inútil.

Fardo.

As palavras vinham como ondas, batendo contra sua consciência com a mesma regularidade implacável da água que subia.

Sarada tentou se mover. Seus pés arrastaram contra o chão invisível, criando ondulações na superfície que se expandiam em círculos perfeitos antes de desaparecer. Cada passo era mais difícil que o anterior, como se a água ganhasse peso a cada centímetro que subia.

Ela precisava sair dali.

Mas para onde?

Olhou ao redor, virando lentamente. Em todas as direções, o cenário era o mesmo, água, estruturas quebradas, aquele céu que pressionava. Não havia horizonte. Não havia ponto de referência. Apenas a certeza crescente de que aquele lugar se estendia infinitamente em todas as direções.

Tentativas falhas de ativar seu sharingan, o corpo não respondia aos comandos, nunca havia se sentido tão fraca como naquele momento. Ela subiu em uma das pedras que ainda não haviam sido submersas, ao fundo avistou um prédio, igual ao Memorial Uchiha, ao lado de uma grande cachoeira.

O terreno parecia segurar seus passos, a cada tentativa de chegar em direção ao prédio avistado, os passos ficavam mais pesados, mais fundos, como se não pudesse chegar até lá. Mas ela estava decidida, iria subir até o local.

As ruas de Konoha estavam movimentadas, lâmpadas de papel iluminadas por chamas, presentes nas varandas de residências e comércios, clarearam a noite escura e de clima aconchegante. Era bom estar em casa. Mas para Boruto, a caminhada pelas ruas de Konoha até sua casa foi estranha.

Tudo parecia normal. Pessoas conversando, crianças brincando, comerciantes vendendo suas mercadorias. A vida continuava, indiferente ao que havia acontecido. Indiferente à toda loucura das batalhas e destruições encontradas muro a fora.

Boruto caminhava lentamente, ainda com a perna pesada por todo desgaste físico da última missão, observava atentamente cada detalhe. Enquanto, Himawari caminhava ao seu lado, ocasionalmente olhando para cima como se quisesse dizer algo mas não encontrasse as palavras. Hinata ia à frente, dando espaço aos dois.

— Touchan ficou preocupado — disse Himawari finalmente, quebrando o silêncio. — Quando soubemos o que aconteceu. Ele queria ir buscar você imediatamente. Sakura-sama teve que convencê-lo a deixar a equipe médica fazer o trabalho deles primeiro.

Boruto olhou para a irmã, surpreso.

— Sério?

— Sério — confirmou ela. — Nunca vi ele assim. Bem... não desde... — Ela não terminou a frase, mas não precisava.

Não desde os eventos com Momoshiki. Desde que quase destruíra a família deles.

Boruto sentiu algo apertar no peito. Não era culpa, exatamente. Mas algo parecido.

— Ele está ansioso para falar com você — continuou Himawari. Boruto assentiu lentamente, processando a informação.

Ao abrir a porta de casa, o jovem Uzumaki reconheceu imediatamente o cheiro, a temperatura do ambiente. Aquela era sua casa. Normal demais, acolhedora demais, considerando tudo que havia acontecido. As duas poltronas ainda ocupavam o centro da sala, dividindo espaço com uma pequena mesa de apoio. Ao fundo, era possível avistar a varanda com vista para o monumento dos Hokages.

O ambiente foi tomado pelo som agudo da chaleira apitando. Hinata preparava chá enquanto Boruto se sentava à mesa, sentindo o peso da exaustão finalmente alcançá-lo agora que estava em território familiar.

— Você deve estar com fome — disse ela, já se movendo pela cozinha com a eficiência maternal que o acalentava desde criança. — Vou preparar algo leve. Seu estômago ainda pode estar sensível depois de tudo.

— Mãe — chamou Boruto, fazendo-a pausar e voltar-se para ele. — Obrigado. Por tudo.

Hinata sorriu, aquele sorriso gentil que sempre o fazia sentir-se seguro.

— Sempre, Boruto. Sempre.

E voltou-se para a cozinha.

Himawari sentou-se ao lado do irmão e começou a contar tudo que ele havia perdido durante a missão. Amigos que queriam ter aparecido para visitá-lo no hospital, como ela havia melhorado suas habilidades com o Byakugan e seus jutsus, o anúncio de um novo exame jōnin que aconteceria em breve. Falava com entusiasmo genuíno, tentando preencher o silêncio com normalidade.

Mas nada daquilo parecia alcançar Boruto de verdade.

Ele ouvia, assentindo nos momentos apropriados, mas sua mente estava dividida. Parte dele permanecia naquele quarto de hospital a quilômetros de distância, onde Sarada ainda lutava para acordar. A outra parte revisitava constantemente o campo de batalha, a explosão, os destroços.

O som característico da maçaneta girando interrompeu os pensamentos de todos.

A porta se abriu.

Naruto Uzumaki entrou, ainda vestindo parte do manto de Hokage, os ombros carregando o peso visível de um longo dia. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Himawari já havia se levantado e corrido em sua direção, envolvendo-o em um abraço apertado.

— Você chegou mais cedo hoje! — exclamou ela, a alegria evidente na voz.

— Deixei Shikamaru a encargo da papelada, precisava voltar mais cedo hoje – Naruto correspondeu ao abraço, mas seus olhos já buscavam algo, alguém, no ambiente. Quando Himawari finalmente o soltou, ele encontrou o que procurava.

Boruto estava sentado à mesa, observando-o.

— Que cheiro ótimo vindo da cozinha — disse Naruto, forçando um tom casual que não combinava completamente com a tensão em seus ombros. — Parece que teremos uma ótima refeição hoje.

Mas suas palavras eram apenas preenchimento. O que realmente importava estava no olhar que trocou com o filho.

Nenhum dos dois falou imediatamente. Não precisavam. A tensão entre eles não era de raiva ou ressentimento, mas de algo mais difícil de nomear, preocupação contida, alívio ainda não processado, e uma conversa que ambos sabiam ser inevitável, mas que nenhum sabia exatamente como começar.

— Boruto — disse Naruto finalmente, a voz saindo mais suave do que o habitual. — É bom te ver em casa.

— É bom estar em casa — respondeu Boruto.

As palavras saíram automáticas, vazias do peso que deveriam carregar.

Hinata surgiu da cozinha carregando uma bandeja com o jantar. Leu a sala instantaneamente, a tensão não dita, o desconforto disfarçado, o peso invisível que pairava sobre pai e filho. Com a sabedoria silenciosa que só ela possuía, decidiu dar espaço para que as coisas se desenrolassem naturalmente.

— O jantar está pronto — anunciou, colocando os pratos sobre a mesa. — Vamos comer enquanto está quente.

Logo toda a atenção se voltou para a mesa. Um a um, foram se sentando e se servindo. O som das tigelas de donburi se encontrando, as colheres raspando o fundo das panelas, as travessas passando de mão em mão, pequenos ruídos que, juntos, preenchiam a casa com algo que Boruto sentia falta havia mais tempo do que gostaria de admitir.

Havia alegria ali. Uma alegria simples, doméstica. Não apenas por estarem todos reunidos depois dos acontecimentos recentes, mas pela presença de seu pai. Momentos como aquele haviam se tornado raros demais.

Hinata e Himawari sustentavam a conversa, enchendo o ambiente com relatos do cotidiano, risadas leves, comentários animados. Para Boruto e também para Naruto ouvi-las era um privilégio silencioso. Um alívio. Um remédio para dias que haviam sido amargos demais.

— E então eu arremessei os dois ninjas longe com um único golpe! — dizia Himawari, gesticulando com entusiasmo.

— Hanabi tem elogiado bastante sua dedicação — completou Hinata, servindo-se de gohan. — Disse que essa nova turma do clã Hyūga está se esforçando muito.

O comentário fisgou a atenção de Boruto imediatamente. Um plano começou a se formar.

— Será que a Hanabi-san teria tempo para me ensinar algumas técnicas nos próximos dias? — perguntou, tentando soar casual.

Himawari piscou, surpresa.

— Nossa… isso é inusitado. Você quase nunca se interessa por técnicas Hyūga.

Hinata sorriu de leve.

— Ela sempre pergunta por você — disse, antes de suavizar o tom. — Mas acho melhor esperar um pouco. Ainda é recente demais. Seu corpo precisa se recuperar.

— Já posso treinar — respondeu Boruto rápido demais. — O médico disse que eu precisaria de repouso, mas… já me sinto bem.

Não gostava de mentir. Mas sabia que aquela era a única forma de não adiar mais o que sentia ser necessário.

Naruto havia passado o jantar inteiro observando o filho em silêncio. Boruto parecia bem. Sorria, respondia, participava. Mas Naruto conhecia aquele tipo de máscara. Batalhas como aquela sempre deixavam marcas que não apareciam em relatórios médicos. Cicatrizes internas que não se curavam sozinhas.

Ele queria ter feito mais. Queria saber como alcançar o filho naquele momento. Mas as palavras pareciam distantes.

Quando Boruto começou a se levantar da mesa, sentiu uma mão firme segurá-lo pelo pulso.

— Vem comigo — disse Naruto simplesmente.

Sem dar espaço para questionamentos, guiou o filho até a cozinha. Abriu o freezer e retirou dois picolés do Jiraiya. Simples. Baratos. Mas carregados de um significado que nunca envelhecia.

Boruto estranhou. Naruto nunca fizera aquilo antes.

Eles saíram para a varanda e se sentaram no chão de madeira, de frente para o espaço onde costumavam treinar. O ar da noite estava fresco. Silencioso. O coração de Boruto batia inquieto, e ele não sabia exatamente o porquê.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Naruto falou.

— Eu sei o que você está sentindo.

A voz saiu baixa. Honesta. Não havia julgamento nela. Nem pressa.

— A culpa. A impotência. Aquela vontade de voltar atrás e fazer tudo diferente…

Naruto parou no meio da frase. Não porque não soubesse continuar, mas porque sabia que não precisava.

Boruto respirou fundo.

— Pai… eu sei que você quer me dizer que ficou tudo bem, mas… — engoliu em seco. — Eu falhei.

A palavra caiu pesada, como se só agora tivesse se tornado real.

— Eu falhei em derrotar meu inimigo. Falhei em proteger meus amigos. A Sarada quase morreu… e eu nem sei quando ela vai acordar.

As palavras vinham do fundo do peito, sem filtro, sem orgulho. Apenas verdade.

Naruto puxou o filho para um abraço firme. Não lembrava a última vez que fizera aquilo e percebeu, tarde demais, que deveria ter feito mais vezes.

— Eu li todo o relatório — disse, mantendo Boruto junto a si. — Você foi muito bem. Ele era realmente forte. Poucos ninjas conseguiriam lutar contra alguém assim.

Afastou-se apenas o suficiente para encarar o filho.

— Sarada, Mitsuki, Konohamaru… todos reconheceram o seu esforço. E eu também.

Boruto desviou o olhar, mas Naruto continuou.

— Você protegeu seus amigos. Todos voltaram vivos. Isso não é fracasso. — Sua voz suavizou. — Lidar com tudo isso é difícil, eu sei. Mas não se esqueça de quem você é.

Aquele garoto que sempre sorriu, que sempre seguiu em frente, mesmo quando tudo parecia pesado demais. Afinal esse nosso jeito ninja!

Naruto estendeu um dos picolés para Boruto.

— Estamos aliviados. Mas, acima de tudo… orgulhosos.

Levantou-se em seguida, já caminhando de volta para dentro de casa.

— Ah — acrescentou, por cima do ombro. — Não joga o palito fora. Sempre tem alguma coisa escrita nele.

Boruto ficou ali por um instante, segurando o picolé. O peito ainda doía. As perguntas ainda estavam lá. Mas algo havia se acomodado.

Ele respirou fundo.

Pela primeira vez desde que voltou para casa, sentia-se um pouco mais leve.

Mais tarde naquela mesma noite, Boruto entrou em seu quarto pela primeira vez desde que tudo acontecera. Buscava silêncio. Desde a saída de casa, desde a falha da missão, não havia tido um único momento a sós, nenhum instante em que pudesse simplesmente parar e deixar os pensamentos virem sem interrupções, sem a necessidade de manter as aparências, de fingir que estava bem.

Fechou a porta atrás de si. O clique suave da tranca ecoou no espaço vazio.

Deitou-se na própria cama. Havia esquecido como era confortável, como o colchão já conhecia a posição em que sempre dormia, como o travesseiro ainda guardava a forma da sua cabeça. O quarto estava escuro, silencioso, familiar, cheio de objetos que pareciam pertencer a outra vida. Pôsteres na parede. Kunais de treino sobre a mesa. A jaqueta laranja pendurada na cadeira, imóvel como uma lembrança.

Cada vez que fechava os olhos, lembranças vinham à sua mente.

Via água e destroços.

Ouvia um zumbido ensurdecedor do explodir de uma bomba.

Via o sangue misturado com correnteza.

Abriu os olhos bruscamente, o coração acelerado. A respiração saía irregular, rasa. Levou alguns segundos para lembrar onde estava.

Levantou-se lentamente, caminhando até a janela. Konoha se estendia lá fora, iluminada por luzes que pareciam estrelas terrestres. Pacífica. Segura. Puxou o ar pela boca, enchendo o pulmão, o movimento ainda parecia contranatural, a pele ainda doía ao se movimentar.

Mas Boruto sabia agora, de uma forma que não sabia antes, que aquela paz era frágil. Que havia sombras se movendo além das luzes. Ameaças que ele ainda não compreendia completamente.

Retornou a observar suas próprias mãos na penumbra. Elas ainda carregavam marcas externas e internas. Mãos que seguraram Sarada. Mãos que não foram fortes o suficiente. “Ainda não, pensou. Mas vou ser.” pensava ele.

Era uma promessa. Para si mesmo. Para Sarada. Para Mitsuki. Para todos que dependiam dele e que ele havia jurado proteger, mesmo que apenas em silêncio, mesmo que ninguém soubesse.

Voltou para a cama, os passos mais firmes agora. Deitou-se novamente, olhando para o teto invisível na escuridão. Dessa vez, quando fechou os olhos, não viu apenas os destroços, o sangue, o fracasso.

Viu o caminho à frente.

E começou a traçá-lo.

Mas nem todos os caminhos podem ser traçados. Alguns se perdem,. Alguns e afundam. E alguns nunca foram feitos para serem encontrados

A passos lentos e com dificuldade, Sarada conseguia atravessar os últimos obstáculos para chegar até o prédio que antes havia avistado de longe. Cada passo exigia esforço consciente, como se o próprio ar resistisse ao movimento. Quando finalmente tocou a parede da construção, a superfície era áspera sob suas mãos real demais para aquele lugar que não tinha nada de real.

Apoiou-se contra a madeira por um momento, recuperando o fôlego que não sabia ter perdido.

A partir daquela posição elevada, conseguia observar todo o horizonte à sua frente. A paisagem havia mudado completamente desde que despertara naquele lugar. Os destroços e prédios que antes jaziam largados à margem agora já não eram mais visíveis. Os troncos das árvores, as pedras que antes a seguravam no lugar tudo estava submerso pela água que subia cada vez mais, implacável como o tempo.

Apenas picos irregulares ainda emergiam da superfície, como ilhas condenadas esperando o inevitável.

Sarada voltou sua atenção para a construção à frente.

Em muito se assemelhava ao Memorial Uchiha a arquitetura era inconfundível, as linhas familiares, mas essa versão parecia mais velha. Corrompida. Como se o tempo naquele lugar tivesse aos poucos deteriorado cada detalhe. Os pilares de madeira estavam rachados, alguns inclinados em ângulos perigosos. Os enfeites tradicionais pendiam quebrados de suas amarras. As flores que um dia prestaram homenagens aos mortos agora murchavam sobre altares esquecidos, suas pétalas escurecidas flutuando na água que já começava a invadir o primeiro degrau.

Era uma versão distorcida de algo sagrado. Uma lembrança apodrecendo.

Sarada sentiu o peito apertar.

Deu um passo à frente. Depois outro. A porta do memorial estava entreaberta, revelando apenas escuridão além do batente. Não havia luz lá dentro. Não havia som. Apenas o vazio esperando.

Ela hesitou.

Parte dela sabia que não deveria entrar. Que algo além daquela porta não queria ser encontrado. Mas outra parte, a parte teimosa, a parte que se recusava a desistir, a empurrava para frente.

Sua atenção foi puxada por um movimento súbito. Uma sombra cruzou o batente da porta, acompanhada de uma sensação estranha que percorreu todo seu corpo. Sentiu-se ainda mais gelada, um arrepio que começou nos pés, atravessou suas costas e terminou na nuca como dedos invisíveis.

Uma forma que talvez fosse humana, ou talvez fosse apenas um truque da luz inexistente.

— Quem está aí? — tentou gritar.

As palavras saíram como sussurro, engolidas pelo silêncio opressivo antes mesmo de alcançarem seus próprios ouvidos.

A forma não respondeu. Apenas se moveu novamente, deslizando para dentro do prédio com fluidez antinatural. Pequena demais para ser adulto. Grande demais para ser criança. Era impossível dizer com certeza.

Sarada respirou fundo — ou tentou — e seguiu.

O interior estava ainda mais deteriorado que o exterior.

Sarada parou logo após cruzar a soleira, seus olhos tentando se ajustar à penumbra. A cada passo, o ranger da madeira ecoava como uma melodia fúnebre, notas irregulares que pareciam vir de todas as direções. O ambiente cheirava a mofo, a tempo esquecido, a memórias deixadas para apodrecer.

As paredes estavam cobertas por quadros emoldurados. Antigos membros do clã. Líderes. Guerreiros. Rostos que ela reconhecia vagamente de registros históricos. Mas todos estavam distorcidos — as telas manchadas por algo escuro que poderia ser água ou sangue, os rostos deformados como se tivessem sido pintados por alguém que apenas se lembrava vagamente de como eram.

Ela caminhou lentamente pelo corredor, observando cada detalhe perturbador.

E então viu.

No meio de todos aqueles retratos antigos, havia um que não deveria estar ali.

Uma fotografia. Moderna. Intacta.

Sarada e sua família. Sasuke, Sakura, e ela mesma, mais jovem, sorrindo para a câmera. A foto que sua mãe guardava na sala de casa.

Mas aqui, neste lugar, parecia completamente fora de contexto. Como se alguém a tivesse colocado ali recentemente, com propósito específico.

Sarada estendeu a mão para tocá-la.

Crack.

O som de madeira quebrando veio de mais adiante. Da sala principal.

A sombra.

Sarada se virou rapidamente e viu o vulto novamente, agora mais definido, entrando pela porta ao fundo. Era pequeno. Ágil. Definitivamente uma criança.

E então viu outra figura.

Maior. Envolta em uma capa preta que arrastava no chão encharcado.

Sarada sentiu o coração disparar.

Conhecia aquela silhueta.

Forçou as pernas a se moverem, seguindo na direção que as sombras haviam tomado. A sala principal do memorial era maior que as outras, com teto alto e pilares grossos sustentando a estrutura. No centro, exatamente onde deveria estar, ficava a Tábua de Pedra Uchiha.

Ou o que restava dela.

Sarada parou no batente da porta, congelada.

Aquilo não era a tábua que tantas vezes visitara. Não era o antigo artefato coberto de símbolos ancestrais.

Era uma lápide.

De mármore negro. Polida. Nova.

E nela, gravado em letras que brilhavam com luz própria, estava seu nome:

SARADA UCHIHA

Abaixo, uma data. A data de sua morte.

Hoje.

— Não — sussurrou Sarada, recuando instintivamente.

Aquilo não era real. Não podia ser real.

— Quem está aí?! — gritou, e dessa vez sua voz saiu, ecoando pela sala vazia.

Ninguém respondeu.

Mas então o chão tremeu.

Não um tremor natural. Algo pior. Como se a própria estrutura do lugar estivesse se dissolvendo, perdendo coesão. Um zumbido ensurdecedor surgiu de lugar nenhum, crescendo em intensidade até que Sarada precisou tapar os ouvidos.

As paredes começaram a rachar. Os pilares se inclinaram. A água que antes apenas molhava o chão agora jorrava pelas fissuras, invadindo a sala com velocidade assustadora.

E então a gravidade simplesmente parou.

Sarada sentiu os pés se descolarem do chão. Flutuava. Ou caía. Não conseguia distinguir. O mundo girava em eixos impossíveis, a sala se virando de cabeça para baixo enquanto a água subia ao redor dela.

Ela tentou se agarrar em algo, qualquer coisa, mas tudo se dissolvia ao toque.

E então estava caindo.

O chão se abriu sob seus pés e Sarada despencou através da água, através da escuridão, através de camadas e camadas de nada até que algo segurou sua mão. Com força.

Não com cuidado. Não com gentileza. Mas com uma pressão dolorosa, dedos cravando-se em sua pele como garras.

Sarada olhou para cima, esperando ver quem a segurava.

E viu.

Era ela mesma.

Mas não era.

Os olhos eram vazios. Completamente negros, sem íris, sem pupila. O Sharingan girava errado, os tomoe movendo-se em padrões que faziam sua cabeça latejar. A boca estava curvada em algo que não era sorriso, mas também não era carranca, apenas uma expressão vazia, mecânica.

E ela puxava Sarada para baixo.

Não para cima. Para baixo.

Para dentro da água que agora engolia tudo.

"Você não deveria estar aqui," disse a figura com sua própria voz, mas distorcida, multiplicada.

Sarada tentou se soltar, mas os dedos apenas apertaram mais.

"Você sabe onde está?"

— Me solta! — gritou Sarada, socando o braço que a segurava.

Seu punho atravessou como se fosse feito de fumaça. Mas o aperto permaneceu sólido.

"No fundo," respondeu a figura, inclinando a cabeça de forma antinatural. "Onde você sempre esteve."

A água já estava no pescoço de Sarada. Fria demais. Pesada demais.

"Afundando. Como sempre soube que faria."

— Isso não é real! — Sarada forçou as palavras, mesmo com a água já tocando seu queixo.

"Não?"

E então o reflexo puxou.

Sarada foi arrastada para baixo.

A água engoliu tudo.

Sarada tentou nadar, mas não havia direção. Não havia cima ou baixo. Apenas água em todas as direções, escura, infinita, sufocante.

Ela abriu a boca para gritar e a água invadiu, gelada, queimando sua garganta.

Não. Não assim. Não de novo.

E então, através da água turva, viu formas se materializando.

Não apenas uma.

Várias.

Figuras emergindo da escuridão, cercando-a.

A primeira que conseguiu distinguir foi Mitsuki.

Mas não o Mitsuki que conhecia. Este estava pálido demais, os olhos sem vida, a boca entreaberta como se tivesse morrido afogado. Ele flutuava imóvel, os braços pendendo ao lado do corpo.

"Você não conseguiu me proteger," disse ele, embora seus lábios não se movessem.

Sarada tentou alcançá-lo, mas ele se dissolveu em bolhas.

A próxima figura era Konohamaru.

Queimado. Carbonizado. Pedaços do corpo faltando, como se a explosão o tivesse consumido.

"Eu confiei em você para ser forte," disse a voz dele. "E você falhou."

— Não! — Sarada gritou, mas apenas bolhas saíram.

A figura se desfez.

Então veio Sakura.

Sua mãe. Mas velha. Tão velha que mal parecia humana. Curvada. Quebrada. Os olhos apagados.

"Eu morri esperando você ser alguém," sussurrou. "Mas você nunca foi."

Sarada sentiu algo quebrar dentro do peito.

E então Sasuke apareceu.

Seu pai. De costas. Sempre de costas.

"Você nunca foi digna do nome Uchiha," disse ele sem se virar. "Eu sabia desde o início."

E se afastou, sumindo na escuridão.

As lágrimas de Sarada se misturaram à água.

Mas então a última figura emergiu.

Boruto.

E ele não estava ferido. Não estava deformado.

Ele apenas olhava para ela com uma expressão que Sarada nunca vira antes.

Decepção.

"Eu achei que você era forte," disse ele, a voz carregando um peso que fez Sarada querer afundar ainda mais.

"Achei que você era diferente. Especial."

Ele deu um passo para trás, na água, afastando-se.

"Mas você é só... fraca." A palavra ecoou.

Fraca. Fraca. Fraca.

"Você nunca vai ser Hokage," continuou Boruto, cada palavra uma lâmina. "Nunca vai ser como seu pai. Nunca vai ser suficiente."

"Você é a última Uchiha. E quando morrer aqui, sozinha, no fundo dessa água..."

Ele sorriu. Mas não era o sorriso dele. Era algo vazio.

"...ninguém vai se lembrar de você."

Sarada sentiu a última resistência se esvair.

A água pressionava de todos os lados agora. Os pulmões queimavam. A visão escurecia nas bordas.

Ela fechou os olhos.

E começou a afundar.

Até que não havia mais nada além de escuridão.